Vamos Dançar Mais Uma Vez?
7 Capítulo 6 - Minha Dança é um solo
Notas iniciais
Fakir Pov
Eu decidi que não estava em bom humor com aquela recém-chegada ali.
Quando ela me disse sobre envolver Mytho e Rue nesse jogo dela, ela não estava brincando mesmo.
A naturalidade dela ao avisar a mim e a Ahiru da chegada dos dois na Torre do Relógio, como se estivesse fazendo uma observação do clima. O tom de voz de alguém que esta somente comentando algo momentâneo e de pouca surpresa. Ou importância.
E aquilo me irritou.
Cerrei os punhos e aumentei a voz. Uma raiva que não sentia há tempos voltando a queimar o meu peito.
–O QUE ESTÁ FAZENDO AQUI MULHER? O que pretende fazer agora? Vai bagunçar mais o que!?
CROW!CROW!
Sem mostrar nenhuma mudança sentimental em seus olhos, aquela garota simplesmente colocou os dedos em frente aos lábios e riu educadamente, divertida com a situação. E acariciou a cabeça de seu corvo.
O único que mostrou uma reação humana a minha abordagem violenta, ironicamente, foi o corvo.
Ela não era confiável, simplesmente não podia ser. Na melhor das hipóteses, ela é apenas mais uma marionete de Drosselmeyer. Sua reação surrealmente calma a coisas violentas, por exemplo.
Não tinha como ser humana.
Não havia outra explicação para eu sentir um pressentimento ruim sempre que a via.
Sai de meus devaneios quando ela disse, com calma, e...um tom de repreensão?
–Mas que expressão mais assustadora, Fakir-san. Desse jeito todos vão pensar que eu sou a vilã antes mesmo da história começar.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa ela, ainda com aquele sorriso, olhou para mim e colocou o dedo indicador em frente aos lábios. Direto. Silêncio. E continuou:
–Deixe eu me apresentar primeiro, por favor me chamem apenas de Saphire. A bela ave em meu ombro é Album. Eu sou a pessoa que fez Ahiru voltar a ser humana, e também sou aquela que trouxe O Príncipe e A Princesa de volta para essa vila.
Pude ouvir as exclamações de Mytho e Rue atrás de mim. Olhei para trás e vi o que esperava.
Rue estava meio escondida atrás de Mytho que havia posto o braço em frente a ela. Pareciam agora surpresos e receosos.
Menos Ahiru. Sua expressão era a de quem estava confuso.
Aparentemente ela já sabia que fora Saphire quem lhe fizera virar humana novamente. Obviamente era grata por isso. E por sua reação ao ver nossos velhos amigos, ela era grata por isso também.
Mas também estava confusa, a minha reação ao ver ela deve ter sido o bastante para fazê-la se questionar se todos aqueles acontecimentos eram mesmo bons ou não.
Houve um silêncio bastante desconfortável, onde a garota permaneceu com o mesmo sorriso educado no rosto. O primeiro a se manifestar foi Mytho.
–Por que não nos diz seus objetivos aqui, ou o que quer, Senhorita Saphire?
–No momento não posso fazê-lo, Príncipe Mythos, mas agora tudo o que eu quero é que matem as saudades um do outro, desabafem e...coloquem a conversa em dia. Tenho a impressão de que vão ter muito o que conversar. Até mais, queridos amigos.
Sem mais nem menos, a garota virou as costas para a gente e foi embora. E o silêncio que se seguiu era carregado de perguntas.
Cerrei os punhos, estava pronto para seguir aquela pessoa quando Ahiru quebrou o silêncio de seu jeito típico.
–Aaah...Então...Sabe...Tem um café bem legal e reservado aqui perto! Por que não vamos para lá conversarmos assim como a Saphire-chan disse!
–É uma boa ideia Ahiru, assim acalmamos nossos nervos não é? — Rue
–Isso! Isso! Vamos Fakir!
Ahiru agarrou meu braço com a maior naturalidade e começou a me puxar enquanto eu corava levemente.
O clima havia ficado mais leve, só por causa de Ahiru. Ela é pura e alegre, e dá uma sensação de confiança.
Ao contrário daquela outra metida a nova escritora. Eu juro para mim mesmo, descobrirei o que ela esta tramando, e tiver algo ruim por trás daquela pose de boazinha.
Eu irei impedi-la custe o que custar.
Fakir Pov. Off
Saphire Pov On
Estava parada em frente ao lago onde encontrei Ahiru. É um lugar bastante quieto, pacífico. Havia sentado embaixo de uma árvore, e estava com meu livro de histórias aberto, acompanhando o que acontecia com os quatro que tinha transformado em personagens.
Era uma surpresa agradável ver que tudo estava seguindo o que eu havia planejado. Sem nem ao menos ter que intervir com a minha escrita.
Sorri levemente enquanto pensava que o motivo de tudo estar seguindo tão bem era por que eu havia planejado os acontecimentos de acordo com a personalidade de cada um.
CROW! CROW!
Album pousou em meu ombro com a suavidade de uma pluma.
CROW CROW!
–Eu não pretendo me juntar a eles, querido amigo. Tenho a impressão de que a minha presença irá atrapalhar o rumo das coisas. Quando cheguei aqui, pensava que dançaria esse espetáculo com aqueles que tanto me cativaram na história, mas foi um engano.
Isso mesmo. Enquanto eles estiverem no palco, eu estarei nos bastidores, invisível, cuidando para que nada saia errado. E caso aconteça algum improviso durante o show, devo fazer com que ele seja apenas um emocionante acréscimo e que não atrapalhe o decorres da história.
–Quanto a minha dança. Ela será um solo. Meus passos não terão acompanhamento, mas acompanharão o de todos. Quando tiver de dançar com eles, estarei apenas ao fundo, com o mínimo de atenção mas todo o significado. Isso mesmo, dançarei sozinha...
CROW CROW!
–A me desculpe Album — Disse enquanto acariciava sua cabeça — Não estarei sozinha não é? Você estará ao meu lado durante todo o espetáculo. Será um companheiro, minhas asas e um segundo par de olhos.
Crooow.
–Assim está melhor!? Huh. Que egocêntrico de sua parte, Senhor Corvo.
Levantei e tirei a sujeira da minha saia. Já tinha tido o suficiente de silêncio para pensar bem nos meus próximos passos. Album levantou voo e ocultou-se acima das árvores.
–Agora, que tal nós irmos ver pessoalmente o que está acontecendo com nossos queridos personagens principais?
Enquanto acompanhava o desenvolvimento deles através das páginas, observei onde era o café do qual a Ahiru estava falando. E se eu seguisse um caminho pela floresta onde estava, chegaria lá sem ser notada.
Perfeito.
Levei alguns minutos, uma caminhada agradável. E quando cheguei, pude ver que eles tinham terminado de conversar sobre as coisas ruins, e estavam compartilhando as boas experiências que tiveram desde cada um seguiu o seu rumo. O clima estava visivelmente leve e cheio de risos.
Não pude deixar de sorrir ao assistir tal cena, mas também não deixei de sentir uma pequena pontada de remorso.
Além do mais, apenas mexer com alguns textos e dar um final feliz para todo mundo, num roteiro água-com-açúcar, sem nenhum drama ou desafio, é meio chato. Tem que ter alguma trama, porque é isso o que torna um espetáculo mais emocionante.
Meu próximo passo dará o verdadeiro início a história, seria um pouco, digamos, malvado. Mas extremamente necessário.
Perto de onde eu estava, tinha uma linda roseira. Com cuidado peguei uma delicada rosa cor-de-rosa, e a segurei perto de meu rosto. Algumas pétalas voaram enquanto Album pousava em meu ombro. Olhei novamente para os quatro, e me foquei em Ahiru.
Sorri, via a história se abrir em minha mente, e não consegui conter o entusiasmo. Protegida dos olhares de qualquer um deles entre as árvores. Sussurrei sem esperar ser ouvida:
–Não acha que está na hora de você ser salva como uma clássica princesa, Pequena Patinha?
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