Valsinha

1 Hiyori tem um namorado.


Notas iniciais
Olá! Essa ficlet faz parte do evento de drabbles e músicas do @StrayProj e é uma prova que eu não sei ser sucinta o suficiente pra escrever drabble. A história foi suavemente inspirada na música "Dancing on my own", de Calum Scott. Ela é um presente para a maravilhosa @Archie-sama, que também betou a fic. A capa é da @Yumi_n ♥ Boa leitura!

E eu estou dando tudo de mim
Mas eu não sou o cara que você está levando para casa [...]
Tão longe, mas ainda tão perto
As luzes se acendem, a música morre
Mas você não me vê parado aqui

(Calum Scott — Dancing on my own)

Hiyori tem um namorado.

Yato sacudiu a neve do guarda-chuva vermelho e tropeçou mais uma vez nos próprios pés, derrubando a cerveja pela metade na neve fofa. Mais cedo, quando uma Kofuku bêbada demais deixou a informação escapar, tinha até conseguido sorrir, brincar que ela finalmente tinha desencalhado e dizer que estava feliz por ela, mas agora… Queria muito fingir que era apenas uma coincidência, que só tinha esbarrado ali enquanto voltava para casa, ou dizer que o destino tinha pregado alguma peça e o conduzido magicamente até a porta dela, mas a verdade é que tinha passado algumas horas num bar qualquer até que o álcool lhe desse a coragem necessária.

Queria ver com os próprios olhos.

Yato se aproximou da janela de vidro e respirou fundo, tentando sem sucesso ignorar o frio intenso; se ela soubesse o que estava prestes a fazer, com certeza acabaria levando algum golpe de luta livre e sendo chamado de stalker pervertido… Isso se Hiyori ainda se lembrasse dele. Ela tinha prometido mais de uma vez que não iria esquecê-lo, mas já fazia quase um ano desde o último encontro, alguns meses desde a última carta no sma-ho, alguns dias desde a resposta simpática mas absurdamente impessoal no twitter. Talvez fosse só a correria da faculdade de medicina, mas…

Mesmo que por algum milagre Hiyori se lembrasse — do pequeno templo, das promessas, dos inúmeros beijos escondidos durante o penúltimo verão —, nada mudaria o fato de que aquele amor estava fadado ao fracasso… Nem mesmo uma amarração cheia de boas intenções feita pela pior deusa possível. Você sempre soube que isso podia acontecer, Kofuku lhe avisara; a Margem Distante deveria continuar a uma distância segura, ocupando apenas os pontos cegos dos humanos e sumindo de suas memórias pouco depois de ser notada. Mas saber que era inevitável não tornava as coisas mais fáceis de lidar.

Queria ser notado por Hiyori. Ocupar o tempo, as memórias, o lugar no altar, na cama e na vida dela. Mas, desde o início, sempre soube que estava sendo ambicioso demais.

Soprou um pouco de ar quente na janela levemente congelada, limpando o vidro com a manga de seu velho moletom surrado, e se esforçou para enxergar alguma coisa. Sua cabeça rodava, transformando a neve e as poucas luzes da sala de estar em algum tipo estranho e enjoativo de caleidoscópio, mas se manteve na ponta dos pés; talvez ver o traste em carne e osso o ajudasse a entender o óbvio.

Mesmo sem serem cortados, os laços humanos se afrouxam facilmente — e o laço entre ele e Hiyori talvez não fosse exceção.

Largou o guarda-chuva no chão, tentando ignorar as nuvens que sua respiração acelerada provocava, limpou o vidro mais uma vez e espiou. Luzes desligadas, lareira acesa e edredons, pizza e cerveja espalhados pelo chão; a tv tocava alguma música americana do fim da era Showa e, banhada pelas luzes multicoloridas da árvore de natal, uma Hiyori só de camisa e pantufas rodopiava alegremente.

Ela tinha cortado o cabelo e ganhado algumas curvas, mas aquele sorriso, aquela camisa preta desbotada e aquelas pantufas marrons… Tudo continuava igual. Yato engoliu em seco, tentando sem sucesso reprimir as lágrimas; tinha comprado as pantufas antes de ela ir para a faculdade, porque Hiyori tinha passado o dia inteiro tentando não estragar o último encontro no parque com suas lágrimas e ele achou que aquele era um bom jeito de lembrarem um do outro mesmo sem se verem todos os dias.

Ela cambaleou um pouco antes de puxar as pontas da camisa e se curvar num agradecimento; tinha esquecido aquela camisa desbotada lá depois de uma tarde inteira fazendo amor com ela… Um sorriso triste surgiu nos lábios de Yato com a lembrança; teve que se teletransportar só de cueca para a casa de Kofuku porque os pais dela voltaram para casa mais cedo, e Daikoku quase deu uma surra nele. Porque, desde que começaram a namorar escondido, quase quatro anos atrás, ela sempre o obrigava a ensinar uma dança de uma época diferente, e acabavam rodopiando pela sala, bêbados, até que um dos dois achasse que beijos e um pouco de amor no sofá eram mais interessantes que dançar.

Aquela era uma das suas lembranças mais preciosas, mas o homem que segurava a mão de Hiyori não era ele.

Teve que segurar o ódio quando aquele estranho se aproximou e, envolvendo a cintura fina com seus braços peludos, beijou os lábios dela. Hiyori tinha um péssimo gosto para homens, e aquele estranho de cueca duvidosa e cara de desempregado não parecia diferente. Ele apertou um pouco mais o abraço e, como sempre, Hiyori encostou o nariz no pescoço do homem e respirou fundo; por um momento, Yato até conseguiu ouvir a voz embolada sussurrando que cheiro bom, mas os lábios dela não se moveram. Hiyori só sorriu, beijando de leve a boca daquele estranho, e, escondendo o rosto para que ele não notasse seus pensamentos conflituosos, se deixou conduzir naquela valsinha.

E tudo que Yato quis foi arrombar aquela porta e expulsar aquele imundo da casa dela na base da porrada, mas simplesmente mordeu os lábios e tirou as mãos da janela. Talvez ela ainda se lembrasse, talvez ela ainda sentisse sua falta, talvez… Secou as lágrimas na manga do moletom, engolindo também a vontade egoísta de surgir magicamente na frente de Hiyori e reacender suas lembranças; não podia colocá-la em perigo de novo, muito menos com base em esperanças e suposições vazias. Pegou, então, o guarda-chuva do chão e, cambaleando pela neve fofa, resolveu que era uma boa hora para ir para casa.

Talvez fosse a hora de reaprender a dançar sozinho.

Notas finais
Espero que tenham gostado... Deem amor às outras histórias do @StrayProj, lá no Spirit. Muito obrigada por lerem até aqui e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!