Valsa
1 I could teach you.
Notas iniciais
Sherlock andava de um lado para o outro na sala de seu apartamento em Baker Street.
Um discurso de padrinho. Como diabos John esperava que ele pudesse fazer aquilo? Claro que tinha aceitado o convite, não poderia dizer não para John, não para o homem que amava.
Parou no meio do caminho, olhou para os pés. Ficou perdido em algum pensamento que sempre reprimia, que sempre deixara trancado atrás de uma porta em seu palácio mental.
Saiu do transe ao ouvir passos na escada.
–Sherlock ! — Era John, entrando no cômodo. — Como está?
– Bem. — Sherlock disse, olhando para o amigo então se dirigindo para sua poltrona. — Você? — Disse em tom entediado.
– Bem também — Suspirou.- Ocupado?
– Na verdade não. Nenhum caso, infelizmente.
– Que pena. — John disse- Na verdade, hm , um pouco pertubado com algumas coisas.
John deu alguns passos e se sentou em frente a Sherlock. Vendo que o outro não havia protestado, continuou .
– A valsa, teremos que dançar no dia do casamento e a coisa é que...sou péssimo nisso. Deus, Mary me falou em aulas mas simplesmente não quero, é muito...estranho. Eu não vou pagar um estranho para me ensinar a dançar e tirar uma com minha cara na frente da minha futura mulher.
– E você acha que eu poderia te ajudar com isso ? — Sherlock disse rindo com desdém — Bem, na verdade, eu poderia te ensinar.
John olhou para Sherlock, qual já estava o olhando .
– Oquê?
– Você me ouviu John. — O moreno disse voltando com sua feição séria.
– Você sabe...dançar? — John arqueou as sombrancelhas.
– Nunca se sabe oque pode-se precisar para um caso. — A verdade era que o Holmes amava dançar, mas escondeu isso atrás de um forçado sorriso para John, um sorriso amarelo.
– Oh, nunca saberia se não me contasse — John riu.
A luz do sol da manhã entrava pelas janelas com as cortinas ainda meio cerradas, invadiam o espaço ali e tentavam amenizar a estranha tensão que de repente se formara entre eles.
–Então? — Sherlock disse movendo os ombros.
– Ah, sim. Preciso ver isso. — John levantou e deu uma risada nervosa.
Logo Sherlock fez o mesmo . John procurou algo no chão, e como não achou nada, limpou a garganta e olhou para o homem a sua frente que agora era banhado pela luz externa.
– Bem...?
– Ah sim. — Sherlock se moveu para mais perto de John, saindo do estado em que estava onde simplesmente olhava para John.
Oh John.
– Certo... valsa é uma dança simples, John, com apenas alguns passos você pode dançar por horas, mesmo um inexperiente como você. Primeiro, o guia deve pegar a mão direita do seguidor. No seu caso você é o guia, então a Mary será o seguidor.
Sherlock pegou a mão de John, e ele a apertou com delicadeza, e o médico levou a mão nas costas do moreno sentindo a textura do fino roupão vinho.
Então o Holmes repousou sua mão no ombro do loiro.
Sherlock não teve que lembra-lo sobre a postura, era um ex- militar, não conseguia se livrar facilmente de não ficar com uma postura ereta.
Sherlock elevou um pouco mais a altura dos cotovelos de ambos. Assim.
Se não podia ser a pessoa com quem John dançaria no dia do seu casamento, poderia pelo menos fingir.
– Certo, agora você mova seu pé esquerdo para frente enquanto eu me movo para trás.
E assim deram o primeiro passo, olhando para os própios pés, sem acidentes.
– Bom, agora vá para a diagonal com seu pé direito — Assim que o moreno comandou, John o fez porém tendo que ser “puxado”pelo detetive, pois o tempo do loiro não era dos melhores.Quando tentaram dar um terceiro passo, um dos pés de John pissou forte no de Sherlock, enquanto este ia se mover, fazendo com que John acabasse batendo contra o peito do mais alto e seu outro pé um tanto o quando distante demais. Seus joelhos se encontraram e não havia mais espaço entre eles. Sherlock começou a rir alto, sem medo, sem embaraço.
– Deus, você não tem jeito algum. — O Holmes disse bem humorado, como John havia visto poucas vezes, enquanto fazia algum espaço entre eles novamente.
– Eu te disse que não era bom nisso, Deus, me desculpe — John disse um tanto irritado.
Pararam de dar risada e Sherlock fez um meneio com a cabeça.
– Vamos tentar de novo.
Conseguiram dar mais quatro passos sem problemas, andando pelo cômodo, antes de John se atrapalhar com as próprias pernas e bater com os joelhos nos do moreno.
John ainda olhava para os pés de ambos bufando.
– A valsa no casamento será um desastre.
– Você está indo bem. -Sherlock sorriu. E John foi contagiado.
Os olhares de ambos se encontraram. Ainda seguravam nas mãos um do outro mesmo estando parados.
– Quero ver você dançar — John disse.
– Perda de tempo, devemos prosseguir com sua aula — Sherlock franziu o cenho, a luz dourada entrando pelos seus olhos agora verdes, mostrando claramente pupilas dilatadas.
– É sério, quero ver você dançar. — John disse, arqueando as sobrancelhas.
– Não antes de você conseguir dar 5 passos sem tropeçar no próprio pé — Sherlock disse sério.
–Justo.
John sorriu.
Havia toques casuais quando moravam juntos, mas agora eles estavam realmente perto. John podia admirar a luz no rosto de Sherlock, e Sherlock por sua vez podia sentir o calor emanando do corpo do outro. Estavam parados, se olhando até Sherlock decidir colocar um fim naquilo. Algo quebrava em seu peito.
– Certo. Um passo pra lá. Um para cá...- E assim começaram, logo eles dançavam pela sala, sem qualquer tipo de música, e sem perceber seus corpos cada vez mais próximos.
– John...- Sherlock disse, com uma voz rouca, para o outro que ainda olhava para o pé de ambos. — Em um valsa se deve olhar diretamente para o rosto do parceiro, se passa confiança e honestidade. Tenho certeza que não vai mais tropeçar. — Sherlock encontrou os olhos de John quando estes viraram para cima.
A poeira iluminada pela luz externa dançava em volta dos dois enquanto davam passo a passo pela sala, sem cortarem contato visual. John sorriu olhando para Sherlock. Ele não conseguia não sorrir na frente daquele homem.
Será que...? O loiro pensou. Esqueça. E desviou os olhos.
Sherlock havia percebido e levou os olhos para a janela que estava atrás de John.
Se não tivesse que ter fingido a própria morte, será que eles poderiam...Sherlock apertou os olhos, John ainda não fazia contato visual. — Não...tarde demais.
O roupão de Sherlock acompanhava cada passo, a mão de John se firmou nas costas do moreno, o fazendo voltar sua atenção para o mais baixo.
Seus rostos estavam perto demais. John sentia a respiração de Sherlock em sua testa. E Sherlock a respiração do Watson, um pouco rarefeita, em seu pescoço.
Deus, você é lindo. John pensou, percebendo como Sherlock o olhava com aqueles olhos que o hipnotizavam.
Seus rostos foram se aproximando. Em um momento estavam tão perto, que Sherlock, que havia acabado de deixar seus olhos se fecharem, conseguiu sentir os cílios do loiro beijando suas bochechas, e mais um centímetro o trariam a algo que ambos ansiavam, mas nunca admitiam.
Até ouvirem passos, mais precisamente tamancos, no último degrau da escada, adentrando a sala.
– Uh ho! — Uma senhora, muito conhecida de ambos, entrava com uma bandeja muito bem arrumada e caprichada de chá e lanches — Oh! Estou interrompendo ? — Ela estava sorrindo enquanto colocava o objeto prata sobre a mesa de café.
Ambos colocaram de novo um espaço seguro entre eles. E, como se por força do destino, o celular de John tocou, o fazendo inevitavelmente largar as mãos do mais alto se distanciando e indo de encontro ao outro lado do cômodo. Mas o médico não foi tão rápido para Sherlock não ter visto o quão vermelho o mais velho estava.
Deduzia que estava no mesmo estado, suas bochechas ardiam. Permaneceu de costas para a senhora por segurança, enquanto ajeitava o roupão.
– Vocês estavam dançando ? — Mrs. Hudson fez a pergunta em direção a John que havia acabado de desligar o celular e coloca-lo no bolso da jaqueta.
–Ah sim, valsa. Sou péssimo nisso — John deu uma risada fraca.
– Oh, que adoravél! Não sabia que Sherlock podia dançar! — Ela juntou as mãos e olhou para o mais alto quando este virou.
Sherlock lhe deu um sorriso amarelo e com os cantos dos olhos percebeu a postura de John. Tensão nos ombros. Peso concentrado em uma só perna : Desconfortável. Evitando contato visual.
– Vou saindo, fiz chá para vocês, bom te ver querido! Ansioso para o casamento? — A senhora disse enquanto passava pelo mais baixo.
Casamento.
– Pois é, sim. — John sorriu. Mas a tensão continuava. — Falando nisso, Sherlock, era Mary, tenho que ir.
Ambos finalmente fizeram contato visual. Sherlock não compreendeu oque via nos olhos de John. Irritação?
– Bolos, então ? — Sherlock se lembrou imediatamente que aquele dia fora marcado para degustação do Buffet da festa.
–Sim. Bem, obrigado pelo chá de qualquer maneira Mrs. Hudson. Sherlock. — John o olhou de forma firme. — Obrigado.
Sherlock apenas lhe fez um meneio de cabeça.
–Vamos querido, vou te acompanhar até a porta.
Ambos trocaram um último olhar quando John virou o rosto para trás, enquanto saía pela porta.
Ao ouvir os passos na escada, se limitou a suspirar. Era melhor Greg ter algum caso para ele, ou teria que voltar para o discurso de padrinho. E a segunda opção não lhe era agradável no momento.
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