Valo Tomo
1 Onde o vento não sopra
Teyvat é um lugar cheio de vida. Até onde se sabe existem sete nações, cada qual comandada por um arconte, um ser supremo que controla um dos sete elementos: anemo, electro, pyro, hidro, dendro, cryo e geo. Muitos são os historiadores, aventureiros, heróis e curiosos que se aventuram pela vastidão da terra à procura de tesouros, aventuras ou politicagem. Entretanto, essa imensidão de terra é abraçada por outra imensidão, muito mais misteriosa e pouco explorada: o oceano.
Não é tão simples explorar o oceano, primeiro você precisa de um navio forrado de suprimentos para vários dias no mar, quiçá meses à deriva sem avistar terra firme. Um navio precisa ser manejado por pessoas capazes, um capitão, alguns oficiais e muito trabalho braçal. Além disso, é preciso de muito espírito aventureiro e determinação sólida como rocha. O mar convida a todos, mas só alguns aceitam seu chamado.
Se já não fosse complicado sair para explorar os mares de Teyvat, ainda é preciso redobrar as precauções por conta das tempestades, criaturas marinhas, piratas e a Calmaria da Morte, uma zona eternamente sem vento. Aqueles desavisados que adentram a Calmaria da Morte se perdem para sempre, é o que dizem. Sem vento, as embarcações ficam à deriva e são arrastadas pelas correntes oceânicas para onde quer que o destino as leve.
Contudo, há um navio que não tem medo de navegar pelas águas da Calmaria da Morte, batizado de Coroa Enferrujada e comandado pelo Capitão Em'rala, o audacioso manipulador dos ventos, esse navio desafia todos os perigos existentes no mar selvagem de Teyvat enquanto foge de todos os seus perseguidores. Claramente um navio pirata.
“Terra à vista!!!”
Uma comoção iniciou-se no convés do navio, todos se apressaram para aportar depois de uma semana em alto mar. No meio de todo o burburinho, passos rápidos acompanhados do tintilar de esporas de metal eram ouvidos surgindo no porão. A figura excêntrica de corpo esguio e rosto fino surgiu no convés com seu arco em punhos. Completamente contrastante com o restante da tripulação, o arqueiro trajava roupas de couro com adornos de metal, seu rosto fino e barba rala lembrava mais um nobre do que um marujo. Puxando a corda de seu arco o mais forte que conseguia e mirando para o alto do monte na costa, ele ouviu a voz grave do capitão:
“Quantas vezes você vai fazer isso?” Perguntou o Capitão Em'rala, passando por trás do arqueiro e dando tapinhas em seu ombro.
“Quantas vezes forem necessárias, meu estimado capitão, afinal, nossa aposta não tem um prazo.”
“E o que foi que apostamos?” Perguntou o Capitão enquanto ajeitava seu grande chapéu.”
O capitão Em’rala era um homem corpulento, de barba espessa e voz grave. Sua presença era intimidante, ainda mais com seu sorriso de dentes dourados em meio a barba negra que ostentava com orgulho. Sua roupas eram tipicamente de um capitão pirata. Botas negras, calças de couro, camisa branca surrada e um sobretudo aveludado tão escuro quanto a noite, contudo, seu grande chapéu era a obra prima de um mestre chapeleiro, confeccionado com o couro de melhor qualidade e ornado com plumas de aves tão raras que pouquíssimos humanos já presenciaram sua beleza. Vislumbrando o magnífico chapéu, o arqueiro riu.
“Seu belíssimo chapéu. Mas você sabe disso e está se fazendo de desentendido apenas para tirar minha concentração.”
“Haaaa é mesmo, é mesmo. E quantas tentativas já foram? Juro pra você que perdi as contas.”
“Essa é a tentativa de duzentos e quarenta.” Respondeu o arqueiro, com os olhos cerrados, mirando em seu alvo.
“DUZENTOS E QUARENTA!? Pelos Deuses, Lancaster, você está obcecado por isso.”
Lancaster, o arqueiro trovador, mudou seu semblante para um tom mais sério.
“Eu faço parte da tripulação da Coroa Enferrujada há cinco anos. Desde a primeira vez que viemos até essa ilha, desde a primeira tentativa frustrada de acertar aquele Hilichurl que fica no alto do monte, nós firmamos nossa aposta. Mas hoje as coisas serão diferentes!”
“Serão mesmo? Então deixe de ladainha e prove! Se você não ganhar esse chapéu, como poderei arrumar um melhor?”
Ao longo das duzentas e trinta e nove tentativas, Lancaster tentava acertar o Hilichurl que ficava sentado no alto do monte. A distância de mais de três mil metros dificultava a pontaria. Acertar a criatura nessa distância era realmente um feito extraordinário. E nas inúmeras tentativas, o arqueiro experimentava diversos resultados. Se atirava muito pro alto, a flecha passava do alvo. Se fosse o contrário, a flecha caia no mar. Uma tentativa por semana é pouco para se aperfeiçoar. Talvez o arqueiro contasse mais com a sorte do que com suas habilidades. Mas a ducentésima quadragésima tentativa foi diferente.
O arqueiro fechou seus olhos e respirou fundo. Ainda com os olhos fechados balbuciou algumas palavras invocando o poder dos raios que logo fundiram-se à sua flecha. Seus músculos estavam tensos, apesar de estar habituado a segurar o arco tensionado por longos períodos, a eletricidade que infundia sua flecha torna-a selvagem, como um predador faminto por uma presa.
Quando abriu seus olhos, uma grande energia roxa saltou para fora. Neste momento, o arqueiro já havia chamado a atenção de todos os marujos, que assistiam apreensivos. O capitão cruzou os braços, desacreditado. Lancaster tensiona ainda mais seu arco, para então disparar seu tiro derradeiro.
“Cace meus inimigos até o fim do mundo, FLECHA PREDADORA”
A flecha foi disparada numa velocidade tremenda, criando uma onda de choque que chacoalhou todo o navio. Ao contrário de um disparo comum, onde a flecha perderia força e começaria a cair depois de alguns momento de voo, dessa vez ela foi em linha reta, ferozmente em direção a seu alvo, um Hilichurl distraído.
Quando o disparo de electro acertou a criatura desprevenida, todos gritaram em comemoração. Lancaster respirou aliviado, ele realmente temia que aquele disparo não fosse bom o suficiente. Mas, enfim, ganhou a aposta de cinco anos atrás.
“Acho que é agora que pego meu prêmio, capitão.”
Lancaster estendeu a mão para Em'rala, pedindo seu chapéu. Mas o capitão deu um tapa amigável na mão do arqueiro.
“Não tão rápido. Não tão rápido. Primeiro você vai buscar a prova. Depois você tem seu prêmio”.
“Como queira”, disse Lancaster, rindo.
Dias antes, numa conversa despretensiosa na cabine do capitão, Lancaster e Em'rala haviam conversado sobre as visões e como elas possibilitam os seres humanos a feitos incríveis. Escapar da Calmaria da Morte era um feito incrível e só era possível graças a Visão Anemo do capitão. Acertar um alvo a mais de três mil metros só foi possível com a intervenção da visão Electro de Lancaster.
Âncora baixada. Os botes na água. Os marujos remavam com vigor rumo a praia. Levavam consigo muitos baús cheios de riquezas, tais como mora, condimentos, artefatos e armas diversas. Semana após semana, essa era a rotina da tripulação da Coroa Enferrujada. Lancaster estava com o grupo há cinco anos, contudo, Capitão Em'rala já era um velho conhecido das autoridades de vários reinos.
O pirata que não temia a Calmaria da Morte, sua principal rota de fuga. Muitos políticos e intelectuais já discutiram as artimanhas de Em'rala, mas nunca chegaram a uma conclusão ou, pelo menos, não a aceitavam. O único jeito de escapar da Calmaria da Morte seria tendo uma fonte de vento que pudesse soprar as velas para onde quer que fosse e o capitão do Em'rala possuía tal poder. Mas é difícil para as pessoas de bem acreditar que um pirata pudesse possuir uma visão Anemo. Era mais fácil dizer que o navio possuía remos, ou que a tripulação do Coroa Enferrujada havia capturado centenas de slimes Anemo.
Chegando em terra firme podia-se avistar uma grande gruta aos pés do paredão de pedra que separava a praia da selva. Neste trecho de areia fofa banhada por águas cristalinas, a paz reinava até a chegada dos marujos e seus pesados baús cheios de despojos, cantando, dançando e festejando mais uma semana de saques bem sucedidos. Em terra, todos sabiam de suas obrigações. Alguns já começavam a cavar a areia para acender uma fogueira, outros pegavam a lenha para tal. Um grupo estava incumbido de caçar caranguejos que passeavam pela beira mar e outro grupo usava os botes para ir buscar as redes que já estavam instaladas há uma semana.
Entretanto, o grupo principal, encabeçado pelo Capitão, seguia para dentro da gruta com os tesouros. Apesar de sempre estar presente na conferência e divisão dos espólios, dessa vez Lancaster tinha outra missão: buscar a prova de sua vitória. Colocou o arco preso às costas e começou a escalar o paredão de pedra.
“Volto mais tarde, capitão, para pegar meu chapéu.”
Em'rala acenou com a mão sem olhar para trás. A sua frente estava a gruta que eles usavam para guardar suas riquezas. Era preciso ter cuidado para não cair em suas próprias armadilhas e o motivo de Em'rala ir a frente estava além dele ser o capitão, apenas ele sabia como desarmá-las.
Ninguém entendia como funcionava. O capitão caminhava com as mãos alisando as paredes, às vezes à direita, noutras à esquerda e sutilmente ele apertava mecanismos escondidos que garantiam a segurança de todos.
No final do imenso corredor da caverna, agora iluminado por tochas, uma grande porta de ferro os separa do restante do tesouro. Pacientemente, Em'rala pega um molho de chaves de sua pochete de couro. Eram mais de vinte chaves dos mais diversos formatos. Nenhum marujo sabia para que serviam e nem ousavam perguntar. Uma coçada na garganta era suficiente para os marujos disfarçarem os olhares curiosos enquanto o capitão colocava as chaves certas na fechadura.
Três voltas para a direita e três voltas para a esquerda. O som de vários mecanismos ecoavam pela caverna, chegando aos ouvidos até de quem estava do lado de fora da gruta. O capitão guardou seu molho de chaves de volta na pochete e puxou a pesadíssima porta de ferro. O sorriso bobo de Em'rala logo se transformou em carranca. Seu tesouro havia sumido.
*******
Era um lindo pôr do sol quando Lancaster terminou sua escalada. O paredão íngreme possuía poucos locais de descanso e ele cautelosamente aproveitou todos que podia para recuperar o fôlego. Uma queda seria fatal e ele não tinha pressa. Estava convicto que a noite seria de grande festividade, com muita comida, bebida e um chapéu novo.
Das alturas ele contemplou o mar, a Coroa Enferrujada ancorada. Avistou a praia e os marujos preparando a festança, também dava pra ver a entrada da gruta. Do lado oposto, o arqueiro pode ver a selva que jamais havia notado, escondida pelo paredão de pedra. Uma mata densa, com árvores alcançando as alturas e de copas cheias impossibilitando a contemplação sequer do solo.
Lancaster caminhou até a ponta do monte buscando por sua presa desfalecida. Não demorou e logo avistou um corpo humanoide estirado no chão com uma flecha fincada em seu dorso. Ao se aproximar, o caçador percebeu algo estranho. O suposto corpo do Hilichurl era de madeira, tal qual um boneco rústico feito com galhos e tronco de árvores.
“Que merda é essa?” Falou para si mesmo.
Incrédulo sobre aquela situação, começou a investigar o local. Não muito distante do boneco de madeira encontrou uma grande árvore com entalhes rupestres. A princípio, Lancaster assimilou aquilo como uma demonstração de arte primitiva. Humanóides representados por palitos e objetos não identificados. Entretanto, quanto mais analisava os entalhes, mais sentido fazia, até reconhecer o desenho de um navio a vela, com a mesma quantidade de mastros que o Coroa Enferrujada.
“Que palhaçada é essa? Isso não pode ser coincidência!”
A figura do navio se repetia por muitas e muitas vezes. Alguns dos entalhes representavam acontecimentos que ele pode identificar na memória, como o dia em que trouxeram uma estátua de Morax esculpida em ouro. Outra figura representava o dia em que um baú cheio de mora caiu do bote. Outra figura conseguia ilustrar quando eles mataram uma criatura marinha que havia os perseguido até a costa. Tudo que estava ali tinha acontecido e fora gravado no tronco da árvore. Para Lancaster aquilo era surreal. Não fazia sentido na cabeça do arqueiro e ele se perguntava como aquilo era possível. Por último, para ter certeza do que estava ali, ele contou todos os entalhes e descobriu que haviam duzentos e trinta e nove.
“Preciso avisar o capit…”
Sua fala foi interrompida por um forte baque na cabeça. Ao cair no chão, antes de perder a consciência, pode ver os pés, ou patas, de seu agressor.
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