A poeira ainda vibrava no ar quando Soraja fincou os pés no chão e ergueu a mão, concentrando toda a energia que a grande chave, agora reduzida ao tamanho de um pingente em seu colar, irradiava. Arkanis mantinha o verme ocupado, desviando de golpes colossais, abrindo muralhas de cristal para segurar a criatura por segundos preciosos.

— VÁ, PORTEIRA! — gritou ele, as placas do monstro triturando o cristal recém-erguido.

Soraja respirou fundo e traçou o arco da porta no ar. A moldura brilhou em dourado, rangendo como metal velho despertando. Ela olhou para Arkanis uma última vez. Ele estava ferido, mas firme — feroz de um jeito silencioso que ninguém esperaria ao vê-lo tão calmo.

Soraja cruzou a porta.

Ela surgiu nas ruínas diante de Tiberan e Anastásia, ofegante.

— Soraja? — Tiberan correu até ela. — Onde está Arkanis?

— Segurando um verme gigante com runas antigas estampadas no corpo — respondeu ela, limpando o suor da testa. — Espero que esteja vivo até eu voltar.

Anastásia bufou.

— Se ele é seu Ás, é bom que aguente.

Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, passos ecoaram entre as pedras quebradas.

Nymira surgiu, carregando uma esfera d’água que flutuava como um globo brilhante. Lorien a acompanhava, mas havia algo estranho nele — um brilho tênue no pescoço, como um risco verde prestes a ascender.

— Chegamos — disse Nymira, estendendo a bolha. — O primeiro fragmento.

Tiberan recebeu a esfera e a segurou com reverência. O fragmento girava lentamente dentro da água, pulsando em um tom esmeralda que fazia eco no próprio broto sagrado dentro de seu peito.

— Onde está Arkanis? — perguntou Nymira, percebendo a ausência dele no grupo.

Soraja apertou o punho.

— Lutando sozinho. E não gostei da ideia.

— Precisamos ir atrás… — começou Nymira.

— Antes disso — interrompeu Tiberan — precisamos entender o que estamos enfrentando. Todos vocês trouxeram pistas. Vamos juntá-las.

O grupo se reuniu no centro das ruínas. As cinco runas esculpidas nas paredes pareciam brilhar mais agora, ativadas pela presença do fragmento.

Anastásia passou o dedo pela primeira runa, semelhante a um sol estilizado com cinco pontas curvas.

— Essa… é fogo. Com certeza.

Soraja assentiu.

— Vi essa mesma runa marcada no corpo daquele verme. Era como se cada golpe acionasse a runa de fogo dentro dele.

Tiberan analisou a segunda, formada por linhas sinuosas que se cruzavam como raízes.

— Natureza. Essa fala comigo. E com o fragmento. — Ele levantou a esfera d’água, que brilhou em resposta. Parecia também a mesma runa que esmaecia no pescoço do seu irmão.

Lorien tocou a terceira. Uma runa parecida com uma estrela quebrada, com linhas retilíneas como lâminas.

— Armamento. — Seus olhos ficaram vazios por um instante, a pupila sumindo. Ele murmurou algo na língua ancestral, e sua mão tremeu.

Nymira segurou o braço dele com firmeza. Lembrou no instante que a mesma runa era aquela que brilhava no corpo do misterioso homem que viram, de nome Zan-Tae.

— Ei… devagar. — Olhou para Tiberan. — Isso está piorando.

Antes que o assunto pudesse se tornar mais sombrio, Anastásia indicou a quarta runa: um círculo dividido em dois, uma metade brilhante e a outra, escura.

— Vida e morte — disse ela. — Dois opostos que se completam.

Tiberan estremeceu. A runa da "morte" era aquela que viu naquele morto-vivo que emergiu do chão antes de todos se separarem.

Soraja cruzou os braços.

— Cinco runas, cinco forças. Mas que forças são essas?

— Talvez os cinco braços do planeta antes da Yggdrasil — sugeriu Tiberan. — Entidades antigas. Ou leis primordiais.

— O problema — completou Soraja — é que essas runas estão aparecendo no corpo de criaturas vivas. E muito poderosas.

Nymira franziu o rosto.

Soraja hesitou.

O pingente em sua garganta repentinamente brilhou. A pequena chave vibrou, como se tivesse sido despertada por um chamado distante.

— A porta… — murmurou Soraja. — Ela quer se abrir.

Ela ergueu a mão automaticamente e desenhou uma moldura no ar. Desta vez, a porta se abriu sozinha, com mais força do que qualquer porta que ela criara por vontade própria. Um vento quente atravessou as ruínas, espalhando poeira e folhas, como se o mundo tivesse prendido a respiração.

Do brilho dourado emergiu Ephiron.

Ele cambaleava, com sangue seco no rosto e roupas rasgadas. Mas o que congelou todos foi o que vinha nos braços dele.

Kaelvor, desmaiado.

O corpo pesado, queimado, envolto em brasas apagadas.

E no pescoço, uma runa vermelha pulsando como se fosse um coração independente.

Ephiron mal conseguiu falar.

— Ele… ele não está morto… mas… algo… marcou ele.

Nymira correu para ajudar a deitá-lo no chão.

— O que aconteceu? Quem fez isso?

Ephiron inspirou fundo, tremendo.

— Um ser chamado Fafnir. Nem Ás, nem Valete, nem deus. Algo… mais antigo. — Seus olhos se estreitaram. — E algo dentro de mim diz que ele não é o único.

Tiberan olhou para as cinco runas esculpidas nas ruínas.

Depois para o fragmento pulsando na esfera d’água.

Depois para Lorien, seu irmão.

— Não — murmurou. — Não é o único mesmo.

Soraja segurou a chave, que ainda vibrava.

— Qualquer coisa que esteja despertando… — ela disse — está vindo através das runas. Pelos fragmentos. Pelas raízes mortas da Yggdrasil.

Nymira encarou Kaelvor.

— E parece que ele foi o primeiro a ser tocado.

O vento soprou por entre as colunas. Pelo menos, estavam todos reunidos novamente: os valerion que libertaram o mundo, agora com uma nova missão: revelar o antigo oculto que pode salvar o futuro de todos.