O túnel de raízes engolira o grupo inteiro em meio ao estrondo da batalha. Eles mal tiveram tempo de olhar para trás, apenas o clarão laranja de chamas que consumia tudo no alto da ravina, onde Ignara havia ficado para conter o avanço do exército. O rugido abafado da raposa ecoou uma última vez, seguido por uma explosão que fez o chão estremecer e as paredes vivas do túnel tremerem. Ninguém disse nada. O silêncio era o único respeito que podiam oferecer à companheira que se sacrificara.

Soraja foi a primeira a quebrar o peso do momento, respirando fundo. — Ela sabia o que fazia. Se não fosse por ela, o exército teria nos seguido aqui.

Kaelvor caminhava em silêncio, punhos cerrados. Ele não precisava falar: a chama de Benu em seus olhos já dizia tudo. Nymira limpou discretamente o rosto úmido, tentando esconder as lágrimas. Tiberan, por sua vez, apertava contra o peito o broto sagrado, que parecia pulsar em dor, como se a natureza também lamentasse a perda da raposa.

— Então é isso… — murmurou Ephiron, arrastando os pés com dificuldade. — Ficamos sozinhos agora.

— Não sozinhos — respondeu Kaelvor, em voz firme. — Carregamos o fogo dela conosco.

O túnel seguiu adiante, descendo em espirais cada vez mais estreitas. O ar mudava à medida que avançavam: pesado, úmido, carregado de uma energia antiga. Aos poucos, a luz natural que vinha das raízes brilhantes deu lugar a um clarão verde-dourado. Era como se a própria terra respirasse.

Quando emergiram, caíram de joelhos sobre uma superfície macia e pulsante. Não estavam mais em um túnel: diante deles se erguia uma vastidão impossível de descrever. O interior da Yggdrasil não era como Tiberan lembrava.

O botânico se levantou lentamente, tocando a raiz viva sob os pés. — Eu já estive dentro de uma raiz da Yggdrasil antes… — disse, quase sem voz. — Mas este lugar… é completamente diferente. É como se aquilo fosse apenas uma sombra, uma fração. Agora estamos dentro da própria essência da árvore.

O espaço se abria em todas as direções, como se estivessem no coração de uma montanha viva. Três raízes colossais se destacavam à frente, cada uma formando um caminho que desaparecia no horizonte. Cada raiz brilhava de uma forma distinta: uma emanava luz azulada, fluida como rios; outra, um verde profundo que lembrava florestas infinitas; e a terceira, um vermelho incandescente, como brasas vivas.

— Três caminhos — comentou Soraja, franzindo o cenho. — E só podemos seguir por eles separados.

Nymira se aproximou da raiz azulada, instintivamente atraída. As gotas d’água que flutuavam em torno dela vibravam em ressonância com sua própria energia. — Este é o meu. — Sua voz estava fraca, mas determinada.

Tiberan caminhou até a raiz verde, sentindo as veias de energia que corriam como se fossem prolongamentos de si mesmo. — Não há dúvida. Este é o meu caminho. — Ele olhou para os outros, sério. — O broto me guia. Mas também me avisa que o que está à frente pode me pôr contra vocês.

Kaelvor não hesitou. Ele se colocou diante da raiz vermelha, sentindo as chamas de Benu reagirem. — Então este é o meu destino. — Cruzou os braços. — Se a Yggdrasil está aqui para ser queimada, é por este caminho que eu vou.

Ephiron aproximou-se do mesmo caminho, mas hesitou. Seus olhos se voltaram para Kaelvor, carregados de lembranças e rancor. — Então… você e eu vamos andar juntos, herege?

Kaelvor o encarou de volta, firme. — Não como inimigos.

Soraja respirou fundo, olhando os três caminhos, mas nenhum parecia responder à sua energia. Ela então tocou o colar da fechadura que carregava, presente de Anorith. O metal vibrou. "Vou com você, Tiberan.", acenando para o botânico.

O grupo se olhou em silêncio. Não havia garantias de reencontro, apenas a certeza de que estavam em território proibido, no coração daquilo que sustentava todo o mundo.

— Os Ás também vão vir — alertou Ephiron. — Eles sentiram quando entramos. Não pensem que vamos atravessar isso sozinhos.

Kaelvor assentiu. — Então que venham. Que todos venham. Aqui dentro, vamos mostrar quem somos.

Nymira deu um último olhar para os companheiros. — Nossos destinos estão cruzados, de todos nós. Não importa se os caminhos são diferentes… vamos nos encontrar no final.

Cada um se dirigiu ao seu caminho. O silêncio do lugar só era quebrado pelo som da seiva que corria como rios distantes. A cada passo, tinham a sensação de estarem caminhando não apenas sobre raízes, mas sobre os próprios fios do destino.

No alto, bem acima da copa invisível, três presenças os observavam. Os Ás, finalmente movendo-se, prontos para descer até a Yggdrasil e esmagar os rebeldes que ousaram entrar no coração do mundo.

O sacrifício de Ignara lhes dera a chance de avançar. Agora, a verdadeira batalha começaria.

Notas finais
As raposas de fogo podem criar portais interdimensionais, mas somente em locais com alta fagulha divina. Quando elas morrem, elas podem reviver no futuro, acumulando mais centelha divina. Geralmente, elas renascem próximo a raízes da Yggdrasil.