Valerion - a Busca por Yggdrasil
27 O Herege e o Salvador
O silêncio após a batalha contra Anorith era quase doloroso. O chão da arena ilusória se despedaçava como vidro, e logo a escuridão os engoliu, cuspindo-os de volta à realidade.
Quando a claridade voltou, Kaelvor foi o primeiro a reconhecer o lugar. O cheiro da terra, o som distante dos sinos, as casas de pedra simples. Ele piscou, confuso, e murmurou:
— Isso é… Hyperia…
Tiberan levantou-se com dificuldade, apoiando-se no broto dourado que pulsava em sua mão. Soraja caiu de joelhos, exausta, ainda em choque pela perda da chave. Ignara arfava, ferida, as chamas de sua pelagem diminuindo. Nymira, pálida, cambaleou, mas estendeu os braços com esforço.
— Esperem… não se movam. Eu posso… ajudar.
Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos, mas desta vez não eram apenas lágrimas comuns. Ao caírem no chão, transformaram-se em pequenos poços de água cintilante. Cada gota crescia, espalhando-se até formar um círculo de luz líquida em volta do grupo.
Kaelvor arregalou os olhos quando sentiu a energia percorrendo suas feridas. A dor em seu peito diminuía, a cicatriz queimava menos, os músculos se fechavam. Tiberan sentiu a fadiga ser arrancada de seus ossos, como se raízes estivessem sugando a exaustão. Até Soraja, que tremia de dor e frustração, sentiu a força retornar a seus braços.
Nymira, no entanto, tremia. Seu corpo frágil não estava preparado para um esforço tão grande. Suas mãos se cerraram, e manchas arroxeadas surgiram em seus braços, sinal da doença que a corroía por dentro. Mas ela continuou, firme, até ver cada um dos seus companheiros respirando aliviados.
Quando terminou, caiu de joelhos, ofegante. Kaelvor se aproximou e a segurou antes que desabasse completamente.
— Ei, você nos salvou. Se não fosse por você…
Nymira sorriu, fraca.
— Não me agradeça. Eu só não podia… deixar que morressem.
Soraja colocou a mão no ombro da garota, os olhos marejados.
— Você é muito mais forte do que pensa.
Tiberan olhou para o broto em sua mão, depois para Nymira.
— Talvez… seja isso que Phýton temia. Não o poder dos deuses… mas a união dos que carregam fagulhas.
Antes que pudessem falar mais, vozes começaram a surgir. Pessoas se aproximavam, vindas das casas de pedra. Primeiro em silêncio, depois em murmúrios:
— É ele… o herege…
— Aquele que falava em queimar Yggdrasil!
— Mas eu vi! Ele derrotou um Cavaleiro Sagrado! Ele enfrentou o impossível!
Um menino correu até Kaelvor e segurou sua mão. Os olhos do garoto brilhavam com esperança.
— O senhor não é um herege… o senhor é o salvador de Hyperia!
Kaelvor ficou paralisado. Sempre fora expulso, humilhado, perseguido como um louco. Agora, aquelas mesmas pessoas o olhavam com fé.
Uma mulher ajoelhou-se diante dele, estendendo pão e água. Um ancião ergueu os braços para o céu, proclamando:
— Talvez seja ele… talvez seja o escolhido para nos libertar da tirania dos deuses!
As pessoas se aglomeraram, oferecendo mantimentos, pedindo bênçãos, chorando diante dele. Pela primeira vez, Kaelvor não era o herege. Era o herói.
Mas seu coração pesava. Ele olhou para o povo e disse, hesitante:
— Eu não salvei ninguém ainda. Não confundam… Eu não vim aqui para proteger Yggdrasil. Eu ainda vou queimá-la.
Um silêncio desconfortável pairou. Mas logo, como se suas palavras não fossem compreendidas, os aldeões o ergueram nos ombros, aclamando-o como salvador.
Tiberan observava tudo, um meio sorriso no rosto.
— Veja só. Não precisam de deuses para acreditar. Precisam de alguém que se recuse a desistir.
Soraja suspirou, ainda inquieta com a perda da chave.
— Eles estão certos em acreditar nele. Mas nós sabemos… o caminho não é simples.
Foi então que notaram Ephiron, afastado, encostado em uma parede. Ele observava Kaelvor, o olhar indecifrável. Quando as sombras começaram a se erguer em torno dele, Kaelvor deu um passo à frente.
— Espera! Você lutou comigo. Você me ajudou. Não precisa mais nos caçar!
As sombras engoliram o corpo de Ephiron, mas sua voz ecoou antes de desaparecer.
— Ainda somos inimigos. Mas agora… entendo sua chama.
E então sumiu, deixando apenas silêncio.
Quando o povo da vila finalmente recuou, Kaelvor se sentou nos degraus da praça. Seus companheiros se aproximaram, e ele os olhou um por um.
— Não sei o que tudo isso significa. Mas sei de uma coisa: nós não somos peças de ninguém. Nem dos deuses, nem dos valetes.
Tiberan ergueu o broto, que brilhou suavemente.
— E com isso, posso nos guiar até a Yggdrasil.
Soraja fechou os olhos e murmurou.
— E eu… vou achar Anorith de novo. Não deixarei que ele decida o meu caminho.
Nymira, ainda fraca, mas sorrindo, deixou gotas de água escorrerem de suas mãos, que se transformaram em pequenas placas de luz líquida.
— Se vocês não desistirem… eu também não vou.
Kaelvor fechou o punho em chamas, erguendo-o contra a lua avermelhada que surgia no céu de Hyperia.
— Pois que escutem os deuses: eu vou queimar Yggdrasil. E ninguém vai me impedir.
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