Valerion - a Busca por Yggdrasil

66 Nos vemos por aí, amigos! Os deuses do novo mundo




O mundo não era mais o mesmo. As chamas que devoraram a Yggdrasil haviam deixado cicatrizes visíveis no horizonte e na alma dos povos. Ainda assim, dos escombros, a vida começava a se reorganizar. E como sempre, os homens precisavam de nomes para guiar sua esperança.

Em Velaskian, um salão havia sido preparado. Tecelões e ferreiros trabalharam por semanas, moldando metal e tecido, adornando com símbolos dourados e rubros. Quando Soraja entrou, ainda com sua chave às costas, os cidadãos se ajoelharam.

— Vida longa à nova Velaska! — gritaram em uníssono, erguendo bandeiras e flores.

Soraja piscou, surpresa, e logo corou de indignação.

— Ei! — ergueu a voz, quase tropeçando nas próprias palavras. — Eu não sou Velaska nenhuma! Eu sou Soraja! A porteira!

As pessoas sorriram, como se não importasse. Para eles, pouco fazia diferença: precisavam de uma nova deusa, e haviam escolhido. Soraja suspirou, exasperada, mas no fundo sabia que o título era maior que ela.

Enquanto isso, em uma caverna úmida e silenciosa, Tiberan se ajoelhava diante do corpo imóvel de seu irmão Lorien. As raízes que atravessavam seu peito já não pulsavam. A seiva que as sustentava havia morrido junto da Yggdrasil.

Tiberan segurou a mão fria do irmão, lágrimas silenciosas escorrendo.

— Essa… é a maldição que recebi por ter feito nascer a raiz do sussurro. — murmurou. — Não consegui te salvar.

Beijou a mão do irmão, fechou os olhos e se levantou, decidido a partir. Mas uma voz suave o deteve:

— Onde vai com tanta pressa?

Era Nymira. Sua silhueta surgia à entrada da caverna, iluminada pela luz pálida do entardecer. Em suas mãos, um brilho verde tremeluzia — a última gota da seiva da Yggdrasil.

— Nymira… — Tiberan mal conseguiu acreditar.

Ela caminhou até o corpo de Lorien, ajoelhou-se e, com delicadeza, deixou a gota escorrer. A água fundiu-se às raízes mortas, espalhando-se como veias luminosas. Aos poucos, o peito de Lorien se ergueu, ofegante, o coração pulsando novamente.

Tiberan caiu de joelhos, incrédulo.

— Você… você realmente consegue curar tudo…

Olhou para Nymira com olhos marejados e um sorriso genuíno.

— Obrigado… por tudo.

Com um gesto carinhoso, pegou o irmão nos braços. Quando saíram da caverna, uma multidão os aguardava. Pessoas de todas as partes os cercavam, erguendo vozes em coro:

— Veja! São eles! Os novos deuses!

— Ela salvou Valerah! É a deusa da cura!

— Qual deles será Phýton? Talvez os dois!

Nymira e Tiberan se entreolharam. O peso daquelas palavras os assustava, mas também os fazia sorrir. Não eram deuses. Mas para aquele povo, eram a prova de que a esperança renascia.

Em uma colina distante, o vento soprava frio. Ephiron ajoelhava-se diante de um túmulo simples, enfeitado com rosas vermelhas. Seus dedos, ainda marcados pelas batalhas, arrumavam as flores com delicadeza.

— Descanse em paz, pai… — sussurrou, sem saber se se referia a Alenor ou a todos que havia perdido.

Atrás dele, passos ecoaram.

— Nunca imaginei te ver aqui, irmão.

Kaelvor se aproximava, o olhar cansado, os cabelos ainda marcados pelas cinzas da Yggdrasil.

Ephiron se levantou devagar, encarando-o.

— Por que não está na cidade, sendo celebrado como o novo Hyperion? Eles erguem o teu nome como se fosses um deus.

Kaelvor arqueou um sorriso torto, sem humor.

— Ephiron… deuses não existem. Você mesmo viu.

Os dois permaneceram em silêncio, apenas fitando um ao outro. Por fim, Ephiron desviou o olhar e se afastou, descendo a colina.

Kaelvor ficou sozinho diante do túmulo, o vento agitando suas roupas. Sorriu, um sorriso pequeno, mas verdadeiro. Um brado ao fundo parecia procurar Kaelvor dentre as colinas. "Cadê você? Não pense que só porque conseguiu queimar a árvore, que eu ainda não precise te prender!" — Murmurava o cavaleiro Tyr.

— Nos vemos por aí, amigos… Disse Kaelvor, sumindo ao horizonte com seu típico sorriso.

O sol poente iluminava o horizonte. Por algum motivo, ainda parecia a silhueta do fogo queimando a árvore. Não havia deuses. Apenas eles. Os últimos hereges, os primeiros do novo mundo.

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