Valerion - a Busca por Yggdrasil

64 Kaelvor vs Tiberan: destruir ou reviver?


O silêncio após a revelação parecia mais pesado do que qualquer batalha. Cada Valerion se debatia em seu íntimo, tentando digerir o que tinham visto. O mundo não fora moldado por deuses, mas por humanos — frágeis, falhos, tomados pela ganância e pela dor.

Kaelvor permaneceu diante da porta já fechada, os punhos cerrados, as chamas ainda cintilando em seus olhos. O corpo emanava calor, como se sua própria pele fosse uma fornalha prestes a romper. Ele ergueu o olhar para o tronco colossal da Yggdrasil e falou com uma convicção ardente:

— Agora está claro. Tudo isso é uma mentira. Uma farsa erguida sobre corpos queimados. Não vou permitir que continuem a adorar um mito. Eu vou queimar a Yggdrasil, e com ela, as correntes da fé cega.

Tiberan deu um passo à frente, o broto sagrado pulsando em seu peito como se respondesse às palavras do companheiro. O pólen que saía de seus ombros brilhava em tons suaves, mas o olhar era de firmeza absoluta.

— Não, Kaelvor. Queimá-la não libertará ninguém. Só apagará o último elo que temos com nossa origem. Se não existem deuses, então essa árvore é o que resta da humanidade. Se você a destruir, apagará a chance de todos compreenderem quem realmente são. E também... apagará do mundo alguém que eu tento proteger desde sempre.

Nymira, apoiada no cajado improvisado de cristal líquido, ergueu a voz, trêmula:

— Kaelvor, por favor… pense! Se a árvore cair, tudo que sobrou da seiva também se extinguirá. E eu… eu só estou viva por causa dela.

Ele a encarou, mas seus olhos não suavizaram.

— Você renasceu, Nymira. E justamente por isso deveria entender. Não precisamos mais dela. Eu vou mostrar que o fogo pode ser princípio e fim.

Soraja, ainda de joelhos, apertava a chave contra o peito, incapaz de intervir. O peso da herança de Demáscules a esmagava. Só conseguia sussurrar:

— Por favor… não lutem…

Mas era tarde.

Kaelvor avançou, explodindo em brasas. As asas negras do Benu incandescente se abriram em chamas, iluminando a clareira como um segundo sol. O calor fez o tronco da árvore estalar, como se pressentisse o golpe.

Tiberan fincou os pés no chão e espalhou raízes por toda a clareira. Vinhas grossas e espinhosas se ergueram, formando muralhas de defesa.

— Se quer passar por ela, terá que passar por mim!

O primeiro impacto veio como trovão. Kaelvor desceu do céu em investida, os punhos cobertos de fogo, golpeando as raízes que se erguiam. O solo rachou, brasas se espalharam. Tiberan respondeu criando muralhas de espinhos que se fecharam como armadilhas, tentando conter o avanço do Benu. Mas Kaelvor explodiu, abrindo caminho com rajadas de fogo negro.

— Você não entende, Tiberan! — rugiu Kaelvor. — Eu não luto por vingança, mas por verdade! A Yggdrasil é só um lembrete podre de mentiras antigas!

— E eu digo que você está errado! — respondeu Tiberan, lançando vinhas que se transformaram em raízes flamejantes ao contato com o fogo. — Mesmo as mentiras podem carregar sementes de verdade. A árvore nos deu vida, nos deu caminhos. Queimá-la não vai libertar ninguém, só condenar o mundo ao vazio!

Nymira tentou se aproximar, mas uma onda de calor a repeliu. Soraja ergueu a mão, tentando invocar uma porta, mas o poder de Kaelvor a desfez em chamas antes que se abrisse por completo.

O confronto escalou.

Kaelvor lançou o Círculo de Benu, uma esfera incandescente que rodopiou como sol em miniatura, tentando engolir Tiberan. Mas o guardião fez brotar raízes grossas que se entrelaçaram em espiral, formando um escudo vivo. O impacto abriu uma cratera, despedaçando metade da clareira.

Os dois se encararam entre os destroços, ofegantes, corpos cobertos de suor e sangue.

Tiberan fechou os olhos por um instante, e uma lágrima correu.

— Kaelvor… nós já perdemos tanto. Por que precisa carregar tudo sozinho?

Kaelvor, arfando, respondeu entre dentes:

— Porque alguém precisa ter coragem de destruir o que nos aprisiona!

As chamas nele se intensificaram, e seu corpo brilhou ainda mais, como se estivesse a um passo de transcender. O Benu incandescente rugia em torno dele, asas negras mais vastas, olhos vermelhos como brasas eternas.

Tiberan ergueu os braços, e o broto sagrado respondeu, fazendo a Yggdrasil estremecer. Do chão brotaram raízes douradas, cheias de seiva. Ele estava puxando força diretamente da árvore, arriscando-se a ser consumido.

Soraja gritou:

— Parem! Vocês vão se destruir!

Mas nem um nem outro a ouviu.

E quando se lançaram novamente um contra o outro, fogo e raízes colidiram em um estrondo que iluminou a raiz inteira. O choque não era apenas físico: era o embate de ideais. Queimar ou preservar. Destruir ou reviver.

A Yggdrasil inteira tremeu, como se o próprio mundo aguardasse para ver quem teria razão.