Valerion - a Busca por Yggdrasil
21 Julgamento no coliseu
A queda parecia não ter fim. Kaelvor sentiu o vento rasgar seu rosto, o coração batendo em disparada, até que de repente seu corpo bateu contra pedra firme. Ele rolou pelo chão áspero, cuspindo poeira e sangue. Quando ergueu os olhos, percebeu que não estava mais no salão das portas de Soraja. O mundo havia mudado.
Estava em uma arena colossal. Ao seu redor, arquibancadas se erguiam até perder de vista, tomadas por estátuas petrificadas de guerreiros, cavaleiros e monstros. Não havia público, mas ainda assim Kaelvor sentia olhares sobre si, como se cada estátua julgasse sua presença. O céu aberto acima era vermelho e cinza, rodando como um turbilhão que nunca cessava. O silêncio era tão pesado que parecia esmagá-lo.
E então, ouviu passos. Do outro lado da arena, de pé como se nada tivesse acontecido, estava Ephiron. Sua armadura negra pulsava, as sombras ao redor se arrastando pelo chão como serpentes. Os olhos vermelhos brilhavam com fúria e desprezo.
— O Coliseu dos Deuses. — A voz dele ecoou, grave e cavernosa. — Aqui, apenas hereges são julgados. E você, garoto, ousa se declarar inimigo da Árvore Sagrada. Hoje, seu fogo será apagado.
Kaelvor cuspiu sangue no chão, mas o olhar queimava.
— Julgado por você? Que piada. Um exilado que nem os deuses quiseram. Quem é você pra me condenar?
Um riso grave escapou do elmo do cavaleiro.
— Justamente por isso. Apenas um condenado reconhece outro.
Ephiron ergueu a espada. O ar ficou pesado. Tentáculos de sombras se projetaram do chão, indo direto contra Kaelvor. O garoto não esperou. Seus pés se incendiaram e ele correu, deixando rastros em brasas. Pulou alto e lançou seu punho em chamas.
— Falcão Flamejante!
Um falcão de fogo avançou pelo ar e se chocou contra a armadura do cavaleiro. O impacto iluminou o coliseu, mas em seguida as chamas foram sugadas para dentro da escuridão, desaparecendo. Ephiron não se moveu um centímetro.
— Fogo vulgar.
Kaelvor rosnou, cerrando os dentes. — Então eu vou aumentar o fogo até que você queime por dentro!
Ele correu outra vez, os punhos envoltos em brasas. Uma sequência de golpes atingiu a armadura, cada impacto ressoando como marteladas de ferro em brasa. Ephiron bloqueava cada soco com a espada, imóvel como uma muralha. Mas então, no décimo soco, uma pequena rachadura se abriu no ombro negro.
O cavaleiro olhou para o dano e, por um instante, seus olhos pareceram brilhar ainda mais.
— Interessante…
Ephiron cravou a espada no chão e, do solo, colunas de trevas ergueram-se como lanças para esmagar Kaelvor. O garoto incendiou os pés e correu pelas paredes do coliseu, desviando com saltos desesperados. No ponto mais alto, lançou-se como um meteoro, o punho ardendo em chamas.
O impacto rachou o chão, fazendo as estátuas tremerem. Ephiron foi arrastado alguns metros para trás. Kaelvor caiu de joelhos, arfando, mas sorriu com orgulho.
— Quem é vulgar agora?
Da fumaça, o cavaleiro surgiu. A armadura chamuscada deixava ver a carne escura por baixo, pulsante, como se estivesse em decomposição.
— Você não tem ideia do que está enfrentando. Eu sou o que resta quando os deuses decidem descartar algo.
Kaelvor cuspiu no chão.
— Então somos iguais. Você foi jogado fora… e eu nunca fui aceito.
As palavras atingiram Ephiron de uma forma estranha. Por um instante, ele ficou em silêncio, lembrando-se da condenação, do peso da espada dos deuses sobre ele. Mas afastou as memórias e ergueu os olhos em fúria.
— Você fala em queimar Yggdrasil. Mas sabe ao menos o que ela é?
— Não preciso saber. — Kaelvor se ergueu, cambaleando, mas firme. — Só sei que ela é a raiz de tudo que está errado. Eu vou queimá-la, custe o que custar.
Ephiron riu, mas era um riso amargo.
— Queimar… ou libertar? Talvez nem você entenda o fogo que carrega.
Kaelvor fechou os olhos, sentindo a dor em cada osso, mas dentro dele havia uma chama que não se apagava. Não era mais apenas um fogo de raiva ou de rebeldia — era algo maior, algo que queria renascer das cinzas da sua própria derrota.
Ele ergueu o punho, e as chamas ao redor mudaram de cor. Do vermelho, passaram ao dourado, e então a um branco incandescente que iluminava até os cantos mais escuros do Coliseu. As estátuas vibraram como se despertassem, e o próprio chão tremeu.
— Eu não vou morrer aqui…
A chama tomou forma, crescendo, expandindo-se, até se transformar em um pássaro de asas imensas. Mas não era mais o falcão. As chamas eram mais densas, mais vivas, como se o fogo tivesse consciência própria.
— Fênix Flamejante!
A ave dourada e branca rasgou o ar, atravessando os tentáculos de sombra de Ephiron e os queimando até virarem cinzas. A fênix se chocou contra a armadura do cavaleiro e o lançou contra as colunas, o impacto iluminando todo o Coliseu como um sol renascido.
Quando a luz se dissipou, Ephiron estava de joelhos, a armadura negra estilhaçada, o corpo coberto de feridas. Ele respirava pesado, mas em seus olhos não havia mais desprezo. Apenas reconhecimento.
— Então é isso… o fogo que queima até a escuridão. O fogo da fênix… — ele sorriu, pela primeira vez sem ironia. — Talvez você seja a chama que os deuses temem.
Kaelvor, cambaleando, deixou o punho cair.
— Eu não sou chama de ninguém. Eu só vou queimar… o que precisa ser queimado.
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