Valerion - a Busca por Yggdrasil
40 Ephiron, o filho pródigo
Os corredores de pedra vermelha eram largos, iluminados por tochas que nunca pareciam se apagar. Kaelvor foi arrastado por dois serviçais em túnicas negras, o corpo ainda ferido, mas limpo. Havia sido banhado, vestido com roupas de linho branco e uma capa dourada. Seus pés, antes sujos de sangue e poeira, agora tocavam pisos lisos, como se estivesse sendo preparado para algo maior — mas ele não entendia o quê.
— O que é isso? — perguntou, sua voz ecoando. — Onde estão me levando?
Os homens não responderam. Apenas o conduziram até um grande salão. O teto alto era pintado com vitrais que mostravam batalhas entre guerreiros e monstros de fogo. Esculturas de guerreiros musculosos ladeavam o caminho até um trono imenso, onde uma única figura aguardava, imponente.
Era um homem de meia-idade, ombros largos, cabelos longos e prateados, olhos de um azul incandescente. Vestia uma armadura dourada que parecia irradiar calor. Sua presença não era apenas física, era como se todo o ambiente estivesse vivo em torno dele.
Kaelvor parou. Um calafrio percorreu sua espinha. Ele sabia instintivamente quem era aquele homem: Alenor, o Ás da Chama Eterna, pai de Ephiron, e braço direito do deus Hyperion.
O silêncio se quebrou. Alenor levantou-se do trono e caminhou até Kaelvor, seu peso fazendo o chão tremer. Quando falou, sua voz era profunda, como brasas em erupção:
— Então é você… aquele que devolveu a fagulha divina ao meu filho Ephiron. Bendito seja.
Kaelvor franziu o cenho, sem entender. — Fagulha divina? Eu não devolvi nada…
Mas antes que pudesse dizer mais, sua mente foi tomada por uma imagem, como se fosse arrancada de dentro de si.
O passado de Ephiron
Era um garoto. Um menino de cabelos longos e olhos heterocromos, carregado nos braços de uma jovem mulher. Ela sorria, cansada, mas feliz. O sol refletia em seus olhos. Ao lado dela, estava Alenor, o maior guerreiro de Hyperion, carregando uma lança flamejante.
— Esse garoto já nasceu com um fragmento de sol — diziam os anciãos. — O próprio deus Hyperion o abençoou.
Mas o menino chorava, não de dor, mas de solidão. Sua mãe faleceu cedo, e Alenor, incapaz de expressar ternura, criou-o com rigidez. “Você será maior do que eu, Ephiron. Não há espaço para fraqueza.”
Ephiron treinava dia após dia, enfrentava homens e monstros, mas no fundo, o que buscava não era a glória ou a força. Era algo que nunca encontrou no pai: um olhar de aceitação.
Aos poucos, cresceu. Tornou-se cavaleiro sagrado. Depois, cavaleiro negro, candidato a Valete. Mas nada disso o preenchia. A glória era vazia. O trono dos deuses, distante. Hyperion, o deus do sol? Ele nunca tinha visto. Parecia uma lenda. Ele realmente existia?
Ephiron cresceu com a sensação de que toda sua vida era uma mentira. Um soldado preso à vontade de um deus.
Então, um dia, ouviu falar de um jovem andarilho. Um herege que dizia querer incendiar a Yggdrasil. Um louco que desafiava os deuses sem medo.
Kaelvor.
No início, Ephiron sentiu raiva. Quem era esse rapaz para ousar o que ele, filho de um Ás, jamais ousara? Mas quanto mais pensava, mais uma chama se acendia dentro dele. Não era apenas raiva. Era inveja. Era admiração. Era ódio e fascínio, misturados.
Kaelvor tinha o que ele não tinha: liberdade.
O presente
Kaelvor voltou a si. Estava suando, o coração acelerado. Era como se tivesse vivido anos da vida de Ephiron em apenas alguns segundos.
Alenor parou diante dele, os olhos faiscando. — Você o mudou, garoto. Ephiron nunca foi o mesmo depois que cruzou seu caminho. Sempre me falaram que meu filho herdaria meu poder. Mas não. Ele herdou algo maior… o fogo que você acendeu nele.
Kaelvor apertou os punhos. — Eu não quero saber do seu filho. Nem de você. Nem de Hyperion. Eu só quero chegar até a Yggdrasil… e queimá-la.
O salão inteiro pareceu tremer com essa declaração. Alguns serviçais recuaram, chocados. Alenor, no entanto, não se abalou. Pelo contrário, sorriu.
— É isso que mais admiro em você. Coragem para dizer o que ninguém ousaria. Mas saiba, jovem… se você realmente seguir esse caminho, não terá apenas cavaleiros atrás de si. Terá deuses.
Kaelvor ergueu o queixo, olhando nos olhos dele. — Que venham.
O silêncio se prolongou. Então, Alenor colocou a mão pesada no ombro do rapaz.
— Descansará aqui, no palácio de Hyperia. Meu filho não está mais sob meu comando. Mas você… você pode ser a centelha que mudará tudo.
Kaelvor sentiu o calor daquela mão, como se carregasse o próprio sol. Não sabia ainda se aquilo era uma bênção ou uma maldição.
Mas uma coisa era certa: o nome Kaelvor ecoaria pelos reinos como um trovão.
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