Valerion - a Busca por Yggdrasil

62 A Grande Árvore Yggdrasil


O silêncio depois da batalha contra Alenor parecia mais pesado que o próprio choque das chamas. A raiz rubra tremia, estalando como madeira prestes a romper, e uma névoa dourada subia do chão rachado. Kaelvor permanecia em pé, arfando, as asas de fogo se dissolvendo pouco a pouco. Seus olhos ainda brilhavam em brasas, mas o corpo pedia descanso. Ao seu lado, Ephiron se apoiava em um joelho, a respiração falha, olhando para o pai caído.

Alenor jazia de bruços, o peito marcado pelas cicatrizes das chamas negras do Benu incandescente e pelo fogo fátuo azulado de Ephiron. Ainda vivo, murmurou entre dentes:

— Filhos… eu só queria… proteger vocês… do que veriam a seguir.

E então, seu corpo cedeu, tombando no chão, o calor da Chama Eterna se dissipando como um último suspiro.

Kaelvor fechou os punhos. Não sentiu alívio. Nem triunfo. Apenas um vazio ardente que o corroía por dentro. Ephiron, sem forças, apenas baixou a cabeça, sussurrando:

— Adeus… pai.

Seguiram adiante pela raiz até que o corredor se abriu em uma clareira descomunal. O ar ali era diferente: pesado, antigo, vivo. À frente deles, erguia-se o tronco colossal da Yggdrasil. A árvore cobria o horizonte, tão vasta que parecia sustentar o próprio céu. Suas raízes grossas se entrelaçavam como muralhas, pulsando com energia. A seiva que escorria em alguns pontos brilhava como rios de luz.

E, no tronco central, três estátuas gigantes estavam entalhadas na madeira viva. Três rostos, eternizados em formas severas e imponentes. Nymira chegou primeiro, com o corpo ainda marcado pelas feridas da luta contra Inês. Suas pernas trêmulas a carregavam até o centro da clareira, e ao erguer os olhos, ela ficou sem fôlego.

— São eles… os três deuses… — sussurrou, a voz ecoando pelo espaço silencioso.

O primeiro rosto tinha traços femininos, o semblante calmo e firme, cabelos de pedra entrelaçados como espadas: Velaska. O segundo, uma figura masculina com olhar feroz e radiante, olhos talhados como sóis: Hyperion. O terceiro, de feições serenas e sábias, um manto de raízes envolvendo o rosto: Phýton. As estátuas, incrustadas no tronco, pulsavam em sincronia com a árvore, como se observassem todos que ali se aproximavam.

Logo depois, Tiberan surgiu, as roupas rasgadas, o corpo ainda dolorido da luta contra Sammael. Ele se deteve diante da árvore, maravilhado, mas também temeroso. Sentia como se as raízes respondessem ao seu próprio sangue, ao broto sagrado que carregava. Soraja chegou em seguida, exausta, a grande chave presa às costas, o olhar pesado de quem havia sacrificado muito para estar ali.

— Então é aqui… — murmurou Tiberan. — O coração de tudo.

Soraja avançou até a base do tronco. O ar ao redor dela pareceu tremer. A cada passo, a madeira viva reagia, pulsando sob seus pés. Como se a árvore reconhecesse nela um fragmento de algo antigo, esquecido. A guerreira parou diante de uma fenda dourada que se formava lentamente na casca da Yggdrasil. Era uma moldura luminosa, desenhando o contorno de uma porta.

— Uma porta… — murmurou, tocando a superfície.

Ela fechou os olhos, lembrando-se das palavras de Anorith: “Agora você pode decidir o destino das portas.” Por instinto, retirou a grande chave de suas costas. A fechadura brilhou na fenda, como se sempre tivesse estado ali. Soraja engoliu em seco, levantou a chave e a girou. Um som metálico ecoou, como engrenagens milenares sendo despertadas. A fenda se abriu, revelando um brilho dourado. Mas não havia passagem. Apenas o interior do tronco, sólido e impenetrável.

— Não… — Soraja murmurou, desesperada. — Não é possível…

Kaelvor se aproximou, as chamas ainda crepitando em seu corpo.

— O que está fazendo, Soraja? — perguntou, desconfiado.

Ela respirou fundo.

— Esta porta… é o destino. Ela não leva a lugar nenhum a menos que eu escolha. Eu posso mostrar a verdade do que está escondido dentro da Yggdrasil. Mas… não sei se estamos prontos para ver.

Todos silenciaram. Até mesmo Nymira, debilitada, sentiu o peso da escolha.

Soraja fechou os olhos, a chave brilhando em sua mão.

— Eu vou abrir. Quero saber o que foi ocultado por tanto tempo.

Quando a porta se abriu, uma luz intensa envolveu a todos. Mas não era um caminho comum. Era uma janela. No brilho dourado, eles viram uma cena de eras passadas: quatro humanos em trajes estranhos, distintos de tudo o que conheciam. Estavam diante da árvore primordial, discutindo, chorando, lutando. Viram a guerra, o fogo, a perda. Viram a queda de Gaia e o nascimento da Yggdrasil.