Valerie
1 And I miss your ginger hair
Notas iniciais
Olhei para a rua vazia na minha frente e pus as mãos nos bolsos de trás da minha calça suspirando. A lua estava linda, mas não tive vontade de sorrir ao avistá-la. Sentia-me como uma tola por ainda estar assim. Havia se passado quase um ano e minha mente ainda era daquela ruiva. Ou melhor, minha mente era recheada de perguntas sobre aquela ruiva.
Sentei na beirada de uma fonte e vi meu reflexo na água. Os cabelos escuros soltos emoldurando meu rosto triste e os olhos castanhos. Minha pele escura era tracejada pela luz prateada da lua, mas nada que me animasse. Passei a mão pela água fria e bufei. Tinha que seguir em frente, só que era tão difícil.
— Por que você não aparece, Valerie? — perguntei ao meu reflexo.
Sempre que chegava em casa e me deparava com a bagunça mental dentro de mim, pintava uma imagem da situação atual de minha ex namorada. Ela não era do tipo que se controlava, nem instável. Tinha seus momentos, todavia todos eu apreciava. Quando colocava sua música favorita para tocar e dançava balançando seus cabelos ruivos; quando se vestia de um jeito que fazia todos na rua darem um segundo olhar – fosse de reprovação ou de espanto.
Ela nunca ligou para a opinião alheia e era uma das coisas que eu amava nela.
Foi uma das razões para nos conhecermos. Fazíamos a mesma faculdade, porém de cursos diferentes. Ela era de artes plásticas e eu de psicologia. Só que eu queria me especializar em arte terapia. De todas as pessoas concentradas e analisadoras, a que mais me atraiu foi a que cantava e deslizava ao redor do quadro caricaturado.
— É um homem cego escutando o som dos pássaros — ela explicou vendo-me parada à poucos passos dela com o cenho franzido. — Como se ele enxergasse pela primeira vez.
Por mais que não parecesse o que estava explicando, achei a pintura linda e original. Exatamente como Valerie.
Claro que Valerie tinha suas falhas. O que ela tinha de incrível, tinha de inconseqüente. Sua hipoteca atrasada, sua ficha criminal por inúmeras brigas de bar e alguns furtos de quando era adolescente é uma prova disso. Passei a mão por meus cabelos imaginando se ela havia pagado aquela multa de transito que estava a quase dois meses atrasada. Será que ela tinha ido para a prisão?
Costumávamos vir até essa fonte quando Valerie ficava entediada. Fechei os olhos sentindo o gosto de seus lábios com brilho de cereja fazendo minha língua pinicar. Seu cheiro de lavanda e sua voz rouca por conta dos inúmeros cigarros que havia fumado na adolescência.
— A vida é uma aventura. Depende de nós aceitar ou não, certo? — ela disse uma vez com um sorriso antes de tirar a blusa e se jogar na fonte. Apenas para ser presa em seguida. Mais uma vez.
Todos os meus amigos me perguntavam sobre o fundamento de nosso relacionamento. Éramos opostos, água e vinho. Minha organização chegava a irritar as pessoas ao meu redor. Planejava minhas ações horas, dias ou meses antes de executar. Minha vida era um mapa que criei durante minha adolescência e seguia a risca. Valerie entrou como um furacão em minha vida e saiu como uma brisa.
— Você ainda está confusa? — questionei meu reflexo.
Por um segundo jurei ter visto a imagem de seu sorriso na água e quase tive o instinto de retribuí-lo. Valerie poderia ser louca, mas ela tinha sido a única que tinha tocado em meu coração. Lembro-me das vezes que chegava cansada do trabalho e ela tinha feito o jantar dançando ao som de alguma música exótica. Seus cabelos ruivos e suas roupas mirabolantes.
Só que o meu jeito irredutível e metódico fez com que ela se sentisse pressionada. Eu não queria isso. Era a última coisa que eu esperava de Valerie e sua loucura. Não queria que ela mudasse porque nossas diferenças que me faziam amá-la cada dia mais. Suspirei passando a mão novamente pela água e resolvi me levantar para enfrentar minha costumeira bagunça emocional. Se eu pudesse ter uma última chance de vê-la diria que não precisava da perfeição e sim dos erros para ser feliz. E que ela não precisava ter ido embora enquanto eu estava no trabalho, ela poderia ter me dito adeus, pelo menos.
Levantei-me e virei dando um solavanco para trás. Seus cabelos balançavam com o vento forte e seu rosto não estava com o sorriso costumeiro. Suas bochechas adquiriram um rosado de vergonha e não a culpei. O homem ao seu lado nos alternou seu olhar franzindo o cenho e apertou o braço ao redor da cintura dela de maneira possessiva.
Onde estavam as roupas mirabolantes? Ela tinha pintado o cabelo de loiro platinado? Ela estava com ele?
— Valerie?
Ela engoliu a seco.
— Oi, Amy. — ela gesticulou na minha direção e forçou um sorriso. — Adam, essa é Amy, uma antiga amiga minha. — ela me encarou. Eu ainda estava em choque. — Amy, esse é Adam, meu noivo.
Eu fui feita de tola.
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