Valentonas também amam
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Clarisse La Rue era, sem sobra de dúvidas, a campista mais destemida de todo o Meio-Sangue. Uma guerreira com todas as letras, que gritava ordens e eliminava inimigos como se tivesse nascido para isso.
Ela grunhia, batia o pé e empurrava quem passasse por seu caminho. Falava alto e impunha sua presença, sendo impossível não notá-la.
Indiscutivelmente forte, mas que dividia opiniões.
Para alguns a filha de Ares era uma valentona. Abusava da imagem de seu pai e por isso oprimia aos mais fracos, que tremiam apenas por ouvir seu nome. Outros a viam como uma figura a ser seguida; um exemplo de semideusa. Forte, decidida e que não dependia de ninguém para fazer o trabalho sujo e pesado.
Contudo, para Silena, ela sempre fora apenas Clarisse. Uma amiga leal e verdadeira; um pouco orgulhosa, mas que estava disposta a proteger a todos, caso necessário, e que guardava um lado doce que mais ninguém conhecia.
A amizade que as duas tinham ia contra qualquer previsão. Mas era verdadeira e nenhuma delas poderia ter pedido uma companheira melhor.
Estar com Silena, para Clarisse, era como ter um pedaço do paraíso ao alcance da mão. Ela era alguém que poderia confiar sem hesitação e quem tornava seus dias melhores.
Silena a conhecia como ninguém, a única que um dia a viu chorar e que contava seus medos.
Assim como era Clarisse quem conhecia todas as faces da Beauregard e se sentia privilegiada por isso. Viu-a gargalhar até ficar vermelha, ouvi críticas contidas sobre os próprios irmãos e fora à primeira, a saber, de sua paixão por Charlie.
Também fora ela que viu Silena desabar quando o namorado morreu.
Não a deixou sozinha por um segundo sequer; nem mesmo quando a fúria chegou. Silena quebrou tudo o que tinha pela frente, jogou vidros de perfumes nas paredes e rasgou os colchões do chalé 10 com um pedaço do espelho do banheiro – que ela quebrou com as próprias mãos.
Clarisse esperou pacientemente pelo fim da crise, curou as feridas da amiga em silêncio e quando Silena deixou a primeira lágrima rolar, querendo saber por que ele tinha que deixa-la, ela chorou junto.
Naquela noite, quando jogou uma parte de sua comida como oferenda ao pai, Clarisse pediu para que ele fizesse a dor de Silena ser sua, para não ter que vê-la sofrer. Obviamente seu desejo não fora atendido, mas mesmo assim ela tentou amenizar a dor da amiga. De maneira torpe e desleixada, Clarisse fez a mão um pequeno urso de pelúcia.
O enchimento saía por algumas aberturas, as orelhas estavam tortas e faltava um olho. Ainda assim, quando Silena o viu, sorriu como há tempos não fazia e aquilo fez o coração de Clarisse falhar duas batidas.
— É o melhor presente que já ganhei, obrigada – ela disse ainda examinando o ursinho. — Que nome devo dar a ele?
— Charlie – respondeu em um tom decidido. — É pra fazer suas noites mais suportáveis. – Silena sorriu mais uma vez e assentiu com lágrimas nos olhos.
Aquela seria sempre uma boa lembrança – agora um pouco mais amarga, mas ainda muito boa. E ter aquele ursinho em mãos mais uma vez era como ter Silena por perto de novo.
— Eu não sei o que ela via nesse troço, mas nunca largava dele. – Drew falou ao entrega-lo.
— Por que está o dando a mim? – perguntou levemente ressentida.
— Ela colocou seu nome nele.
Dizer que, naquele momento, o chão desapareceu sob seus pés seria pouco.
Como, pelo amor de todos os deuses, ela deveria reagir diante de uma coisa daquelas? Bem, sendo que era, é claro que jogou o urso contra a primeira árvore que viu, após recobrar os sentidos sobre o próprio corpo.
Até então, a morte de Silena era apenas uma ilusão para ela. Todos os dias, assim que botava os pés pra fora do chalé, agia como se a garota tivesse saído para uma missão ou algo do tipo – os pesares proferidos pelos outros semideuses eram propositalmente ignorados. Logo, aquele maldito urso malfeito era a peça que fez tudo se encaixar e a ficha cair.
Silena estava morta e isso era irreversível.
Clarisse a odiou por esse fato.
Sabia que era egoísmo pensar daquele jeito – culpando a garota por tê-la abandonado –, mas isso a mantinha de pé. Se pensasse o contrário desabaria e não queria que ninguém a visse chorando, fraca.
Mas algumas coisas, ao serem evitadas, só pioram e quanto mais tempo se guarda mais perto da explosão se está.
Um dia, é claro, Clarisse não aguentou.
Estava ajudando Quírion com o treinamento de alguns campistas novos, muito tempo já havia se passado e até novos chalés existiam no acampamento (sinal de que a promessa feita a Percy fora cumprida). Ao longe ela ouvia a conversa irritante de um grupo de pré-adolescente.
Nunca que ela se importaria com as falas fúteis de um bando de crianças. Até uma delas, dizer:
— Silena Bearugard era uma traidora.
A cólera apossou-se de Clarisse instantaneamente, sem dar tempo para que alguém a impedisse, e sem pensar nos possíveis estragos que poderia fazer, ela atirou a lança que estava em suas mãos contra eles.
Talvez os deuses estivessem olhando para eles naquele momento, pois ninguém soube explicar como ela não matou alguém ao fazer aquilo.
— Não ouse falar de Silena novamente! – vociferou, jogou o escudo para o lado e aproximou-se do grupo. — Vocês não a conheceram, não têm o direito nem de sequer dizer seu nome!
— Estava apenas dizendo o que eu escutei. – Um garoto franzino disse (estupidamente) corajosamente.
A filha de Ares voltou-se contra ele, o segurou pelas vestes e o ergueu muitos centímetros.
— Então isso só te faz mais indigno ainda. – As palavras saíram em um tom perigosamente baixo. — Se eu voltar a escutar uma idiotice dessa arrancarei sua língua com meus dedos...
— Clarisse! – Quírion a gritou enquanto se aproximava provavelmente alguém correra para contar ao centauro o que estava acontecendo.
— E transmita a minha mensagem – ordenou. Suas mãos afrouxaram o aperto, fazendo o menino cair sentado e tremendo.
— Vamos conversar. – Clarisse se afastou bruscamente de Quírion, que tentou segura-lá pelo braço, e seguiu direto para a Casa Grande.
Assim que entrou no lugar, ofegante e tonta de raiva jogou a primeira coisa que viu contra a parede. Não soube o que era, mas o som do objeto se partindo em pedaços a fez se sentir melhor.
Logo, em questão de segundo, a conselheira-chefe do chalé 5 havia destruído mais da metade da sala da Casa Grande. Só parou ao ouvir o centauro se aproximando.
— Se você me chamou aqui para discutir sobre meu comportamento, eu realmente não quero saber – grunhiu, o corpo todo se tencionando para conter a raiva.
— Na verdade, eu estou aliviado. – Ele riu ao ver o olhar de perplexidade da semideusa. — Finalmente você está mostrando alguma emoção sobre a morte de Silena.
— Não estou, eu não me importo com isso. – Quírion riu outra vez. — Só acho injusto a chamarem de traidora, quando ela se sacrificou pelo acampamento.
— Nós dois sabemos que não é só por isso, Clarisse.
— Eu não sei o que você sabe, mas com certeza eu sei que não me importo. Por que eu deveria me importar com alguém tão egoísta? – Clarisse baixou a cabeça quando o mais velho a olhou condescendente.
— Não é saudável negar os próprios sentimentos, menina...
— Que sentimentos?! – indagou furiosa, as narinas dilatadas e o maxilar sendo dolorosamente contraído. — Silena não foi uma traidora, mas era uma egoísta! Passou-se por mim para lutar uma batalha que não era dela, sem pensar nas consequências ou em quem ela...
— Em quem ela deixaria? – O professor completou quando a semideusa deixou os gritos morrerem.
Sem forças para suportar, Clarisse caiu ajoelhada. O corpo convulsionando pelo choro sofrido que finalmente deixava sair, soluçando e gemendo enquanto socava o chão.
— Muitas pessoas, equivocadamente, sentem pena daqueles que partem sem saber que os verdadeiros sofredores são aqueles que devem conviver com a perda. – Ele sussurrou aquelas palavras enquanto curvava-se para afagar as costas da garota.
— Como se desse para conviver com isso – riu sarcasticamente, o rosto e os olhos vermelhos como seu chalé.
— Precisamos – rebateu e continuou, no mesmo tom de quem sabe de tudo: — É nosso dever seguir em frente, por aqueles que já se foram. Assim como é nosso dever continuar lembrando-se deles, para que suas vidas não tenham sido em vão.
Clarisse se manteve calada, secou os olhos com as mãos calejadas e fungou um par de vezes. Então, com a voz ainda rouca e falha, perguntou:
— E como, supostamente, eu deveria fazer isso?
Quírion apenas sorriu.
–
Então lá estava ela, com um ursinho ferrado e sujo em uma mão, e um elmo dourado na outra. Encarava a árvore a sua frente como quem via o reflexo de uma memória antiga; nostálgica.
Ajoelhou sobre a terra deixando os objetos caírem ao lado de seu corpo. Com uma das mãos ela tocou o tronco da árvore, os olhos escuros analisando-a em busca de algo.
Um pequeno sorriso apareceu em sua face ao ver uma gravura entalhada na casca. Deixou um dos dedos correr pelas curvas desenhadas.
— Você sempre achou que esse "C" era de Charles – murmurou para o vento.
Um suspiro escapou dos lábios ressecados da filha do deus da guerra. Endireitando a postura e pegando as coisas que havia levado, ela voltou a falar:
— Sei que parece idiotice e sei que você nem deve estar me escutando, mas me disseram que essa é uma boa maneira começar a seguir em frente.
Fez uma curta pausa, como se esperasse por uma resposta ou qualquer sinal de que alguém a ouvia.
— Você sempre foi alguém muito especial, Silena – disse já sentindo a garganta se fechar. — Minha melhor amiga, a única pessoa que viu algo além da imagem que todos enxergam...
— Você foi a única que teve minha total confiança. – Sua voz se quebrou e os olhos começaram a arder, engoliu em seco.
— Até pouco tempo eu te culpava por ter morrido; por ter me deixado. E não se engane, eu ainda tenho certa raiva de você – riu baixo. — Acho que sempre terei um pouco de ressentimento por isso...
E mais outra pausa. Seus olhos percorreram o lugar a sua volta, então recaíram sobre o urso e o elmo. Pegou-os com cuidado.
— Eu não sei se você chegou a saber, Silena, mas eu te amei – confessou. — Ainda te amo e acho que o farei para sempre.
Clarisse mexia nos objetos em mãos com lentidão e a cada palavra proferida, sentia o peito ficar mais leve.
— No dia em que eu fiz isso. – Apontou para a figura entalhada. — Você pensou que eu estava brincando com você e com seu amor pelo Beckendorf... Eu deixei que acreditasse nisso. – riu.
Depois de mais um tempo em silêncio, Clarisse depositou o urso perto da maior raiz da árvore e o vestiu com o elmo.
Levantou-se, tirou a terra dos joelhos e bateu as mãos como se admirasse um trabalho bem feito. Então apoiou a testa contra o tronco e deixou os ombros caírem ao mesmo tempo em que fechava os olhos.
— Eu sinto muito orgulho de você – disse baixo, como se aquele fosse o maior segredo a ser revelado naquele dia.
Sem mais, Clarisse se recompôs. Respirou fundo e se afastou daquele lugar, sem olhar para trás e orgulhosa de ter conseguido dizer tudo o que guardava.
O ursinho não duraria muito tempo, o elmo provavelmente seria surrupiado por algum campista – provavelmente pelos gêmeos.
Contudo, a gravura iria permanecer lá por muitos anos ainda. Uma pequena equação, mas uma prova eterna de que o amor que Clarisse tinha por Silena não era passageiro.
"C+S = ❤"
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