Notas iniciais
Olá pessoal! Desculpem por demorar, mas a faculdade está acabando comigo. Espero que gostem! ^^

— 2 –

JARETH acorda bem cedo no dia seguinte, desta vez sem despertador – o despertador da vez era sua tia, abrindo as cortinas bem na sua cara. A rotina na mansão Wolfgang começava cedo, ao cantar do galo. Seria um dia impar para o rapaz.


– Querido! Hora de levantar! – Abigail abre as cortinas, deixando a claridade entrar no quarto.

Ele havia combinado com sua tia que iria procurar um emprego para ajudar com as despesas, mesmo que ela insistisse que não tinha nenhuma necessidade. Nunca havia se dado ao trabalho de procurar um emprego, nem quando estava morando de favor. Queria ser um pouco mais independente dessa vez, mesmo que pudesse ter tudo que desejasse na hora que quisesse. Também seria uma boa oportunidade para conhecer a tão conhecida e “agourenta” cidade de Starry Sky.

– Jareth, querido... tem certeza de que quer isso? – ela questiona mais uma vez a decisão dele.

Eles conversam enquanto tomam um café da manhã digno da realeza, preparado refinadamente por James.

– Tenho sim, tia – confirma. – Eu quero fazer isso... por mim mesmo!

– Eu apoio totalmente – diz Edgar limpando os lábios com um guardanapo. – Nosso rapazinho está querendo ralar para ter suas coisas. Ele está certo!

Abigail enche as bochechas.

– Mas ele não precisa! – contesta novamente. – Temos tudo que ele pode precisar e se ele quiser algo, terá! Não há necessidade de arrumar um emprego para ter suas coisas, querido!

Jareth esfrega a testa, impaciente.

– Eu sei, tia Abigail, mas é que... – Naquele momento, as lembranças de sua mãe vieram a mente, junto com as memórias de todos os dias que teve que passar na casa de Dean. – Eu não quero depender dos outros para o resto da vida!

Abigail suspira, pegando sua xícara de chá em mãos.

– Se é o que desejas, não irei me opor – finalmente ela cedeu. –, mas saiba que isso é totalmente desnecessário.

Jareth sorriu.

– Obrigado, tia Abigail e tio Edgar!

Era 8h da manhã quando Jareth saiu para o centro da cidade em busca de um emprego, com uma pasta cheia de currículos. Como ainda não conhecia a cidade, precisou da ajuda do motorista particular da família para deixá-lo nos cantos, o que o incomodava bastante. Das 8h até as 11h, Jareth visitou desde agências e escritórios até supermercados, mas sem nenhum sucesso, e sua paciência já estava no limite; era como se arranjar um emprego lá fosse duas vezes mais difícil que na América, o que fazia sentido já que a maioria dos negócios na cidade eram administrados por membros da mesma família e raramente alguém era demitido.

Depois de rodar muito de carro, Jareth pede para que o motorista o deixe no parque central da cidade, marcando de encontrá-lo novamente depois de uma hora. Aproveitando aquele breve momento sozinho, o rapaz se senta em um dos banquinhos mais isolados, recostado em uma árvore larga e com uma boa sombra. Reclina um pouco a cabeça sobre os joelhos, abatido; por que algo daquele tipo era tão difícil para ele? Fica se questionando no silêncio...

Droga... Droga... Porque?! Porque?! Porque é tão difícil para mim?! Porque?!

Enquanto cobria o rosto com os braços, ele se lembrava dos momentos aborrecedores que passara na casa de Dean:

­– Você é um preguiçoso! — dizia a senhora Olívia.

Esse moleque não quer nada com nada! Só está comendo e dormindo às nossas custas! — o pai de Dean reclamava junto com sua mulher.

Seria melhor se ele fosse para adoção...

Junto com essas memórias ruins, Jareth também se lembrava de todos os momentos que Dean enfrentou seus pais para defende-lo.

Parem com isso!”

“Jareth não é assim! Ele está se esforçando!”

“Se ele for, eu vou junto!”

— Dean... – Suspira o rapaz, sorrindo. – Quem dera você pudesse me ajudar com isso também, parceiro...

– Talvez você devesse tentar outra coisa. – Uma menina surge do lado de Jareth, o derrubando do banco com um susto.

– Aaarghh! – ele leva uma queda do banco e rasteja no chão, assustado. – De onde você surgiu criatura?!

– Eu já estava aqui, seu tapado! Só você que não viu porque estava ocupado demais chorando aí! – responde secamente.

Jareth se levanta limpando a poeira da roupa e a olhando com mais calma; era uma linda jovem de cabelos negros, longos e lisos, com mechas vermelhas, trajando um vestido negro com detalhes roxos, bem ao estilo “gótico” como estava acostumado na América – até porque todos lá pareciam se vestir igualmente, como nos filmes hollywoodianos sobre a Idade Média. Possuía também sua pele bastante clara, quase uma albina.

– Quem... é você? – pergunta o rapaz, corado.

A menina sorri de forma maliciosa.

– Eu acho que a pergunta mais importante aqui é: você está procurando um emprego, não é?

Era quase como se ela pudesse sondar os pensamentos dele. Depois do que presenciou na mansão de seus tios, já não duvidava mais de nada e ficava com medo apenas de imaginar que fosse verdade.

– Estou, e até agora não arranjei muita coisa... – responde Jareth.

Ela se levanta jogando suas mechas rubro-negras para trás e tirando algo da manga do vestido. Era um cartão.

– Bem... hoje é seu dia de sorte, jovem desempregado! Se deseja um emprego, sinta-se à vontade para passar em meu escritório quando quiser! – Ela entrega o cartão para Jareth. – Bem... agora vou andando! Esse sol está me incomodando.

Jareth deu uma olhada breve no cartão antes de continuar com suas perguntas.

– Espere! Você ainda não me... – A garota havia sumido e ele engoliu em seco, sentindo um calafrio na espinha. Ainda assim, não parava de refletir na beleza da jovem gótica e no que ela havia deixado com ele. Ainda hesitou se deveria aceitar ou procurar alguma outra opção melhor, mas ainda teria tempo para refletir em casa; estava quase na hora do seu encontro com o motorista.

Ao chegar na mansão, Jareth sequer olha para a cara de seus tios, pegando a escada direto para seu quarto.

– Então, querido, como foram as entrevistas?

– Foram ótimas, tia! – responde ele com a voz seca.

Abigail suspira, sentando-se no sofá.

– Acho que ele passou por estresse hoje. – comenta.

– Faz parte – concorda Edgar, tomando um gole de seu chá. – Com certeza deve haver comércios que estejam precisando de funcionários. Amanhã mesmo posso falar com alguns conhecidos meus para ver o que eles arranjam para Jareth.

Abigail fecha o rosto.

– Eu ainda acho isso uma completa besteira!

Edgar riu do comentário da esposa.

– Ora, deixe que o rapaz faça as coisas por si mesmo! Todos os jovens dessa geração querem sua independência logo cedo.

– Esses jovens de hoje em dia... – Abigail se acomoda no sofá, cruzando as pernas. – Mas, querido... sabes que já é chegada a época, não é?

Edgar coloca delicadamente a xícara na mesinha antes de responder.

– Estou ciente. Tardamos um pouco esse ano, por causa da vinda de Jareth, mas já posso sentir minha fome apertando.

Os dois se entreolham por alguns momentos antes de James vim para recolher os bules.

– Entendo... – responde Abigail depois de uma intensa troca de olhares. – Acho que será uma ótima oportunidade para começar a ensinar ao nosso rapazinho os pormenores de como funciona a época de caça!

Edgar fez uma pausa.

– Penso que ainda temos que desenterrar essa força oculta que está em Jareth – aponta ele. – Pelo que percebi em nossa primeira conversa, e pela sua reação, Jareth não tem ciência da força que possui...

– Charlotte fez de fato o que ela disse que faria... – Abigail parecia incomodada. – A força de Jareth ainda está adormecida, e, na pior das hipóteses...

– Selada! – completa Edgar com a expressão séria.

Abigail esfrega a testa, emburricada.

– Isso pode dar um pouco de trabalho e trazer problemas para ele futuramente...

– Se quisermos que Jareth sobreviva nesta cidade, temos que ensiná-lo logo a se defender – diz Edgar cruzando os dedos. – Mas não agora. Ele acabou de chegar de viagem e ainda está se acostumando com a cidade e com a rotina nova.

– Isso! Tudo a seu tempo! – concordou Abigail, animada. – Acho que esse emprego será uma boa camuflagem para protegê-lo enquanto ainda estiver se adaptando à sua nova vida!

– Foi por isso também que eu disse que seria bom ele arranjar um. – revela Edgar.

– Bem pensado. Como esperado do meu marido! – diz Abigail com orgulho.

Edgar sorri sem graça.

– Acho melhor arrumarmos os preparativos para a caça. Será daqui há três semanas, na segunda lua cheia – sugere ele.

A condessa concorda e chama por James. Ele se prontifica rapidamente.

– James! Certifique-se de estar tudo pronto para as próximas semanas, está bem?

– Como desejar, mestra!

Enquanto isso, Jareth vestiu sua roupa caseira e se jogou em cima da cama, olhando sem parar o cartão de visita da moça misteriosa. Algo o dizia que não deveria aceitar o emprego, ao mesmo tempo que ele mesmo dizia que deveria por falta de opções. O que ele tinha a perder? O próprio comércio da cidade não lhe deu nenhuma chance e poucos eram os lugares que aceitariam alguém inexperiente como ele.

— Ah! Que decisão difícil!

— Que decisão seria essa, meu jovem? – Uma voz grave veio da janela. Era Nekogal novamente.

— Ah... é você de novo. O que está fazendo por aqui? Caçando algum rato?

— Que engraçadinho, hein rapaz! Eu já vivia aqui muito antes de você chegar! – rebate, mal-humorado.

— Está bem... foi mal aí! – Ele se retrata e o gato salta até a cama dele, mirando o cartão em sua mão.

— E que cartão é esse que você tem aí? – pergunta ele, curioso.

Jareth pensa bem na resposta.

— Eu recebi uma proposta de emprego. Só isso! – responde curto e breve.

Nekogal aperta os olhos.

— Proposta, hein? Pelo que percebi hoje, você foi dispensado pela maioria dos comércios onde esteve – debocha.

— Ora, sua bola de pelos! Está me seguindo pelos cantos, é isso?!

— Não me insulte, seu fedelho! Eu tenho coisas mais importantes para fazer do que ficar seguindo um molecote malcriado como você! – responde, áspero. – Eu sei da maioria das coisas que acontece na cidade, só isso!

Jareth bufou.

— Sei...

— Está insinuando algo com isso?! – pergunta Nekogal com os pelos enguiçados.

Jareth se cala, apenas respondendo “não” com um aceno assustado de cabeça.

— Se quiser, já pode falar de quem recebeu essa proposta. Duvido que alguém consciente de suas ações iria contratar um moleque chorão e atrevido igual a você!

Esse bichano está claramente avacalhando comigo!”, pensa o rapaz enquanto trincava os dentes.

— Para o seu governo, eu recebi de uma garota linda e nobre, falou?! – responde, se gabando.

Nekogal alisa os bigodes com a pata.

— Garota, hein? E qual é o nome dessa maluca que pensou em contratar você?

Jareth repensou se realmente deveria falar algo para ele. Na verdade, ele era só um gato. Um gato que falava... que mal teria?

— Bem... eu não consegui perguntar seu nome, mas ela era gótica e tinha cabelos bem longos com mechas vermelhas. E também usava um grande vestido preto. Não sei como ela aguentava o calor do sol com aquele troço!

Nekogal fez um minuto de silêncio, parecendo intrigado com o que Jareth falara.

Será possível que... não. Não pode ser... só pode ser alguém parecido... não é possível que seja ela...”

— O que houve? O rato comeu sua língua, Sr. gato? – brincou, retribuindo a chacota.

— Sugiro que você fique longe dessa garota, rapaz! – adverte o felino, mudando o tom da voz. Agora ele estava muito mais sério, como se Jareth tivesse feito algo terrível.

A expressão do moço muda subitamente, ficando atemorizado com as palavras dele.

— O que quer dizer com isso? – indaga, mas o gato apenas pula para a janela, ignorando sua pergunta.

— Apenas digo isso... se dá valor à sua vida, se afaste dela! – ele diz isso e se retira do quarto de Jareth.

Ele fica parado no seco, sem saber o que pensar daquelas palavras. Já achava que tinha dúvidas demais com relação à sua decisão e Nekogal agora havia apenas jogado álcool no lança chamas: o que deveria fazer? O que ele quis dizer com “fique longe dela”? O que o levara a dizer aquilo? Eram apenas alguns dos questionamentos que ficaram em sua mente depois de sua breve conversa com o felino. Sentia ele que ficaria mais uma noite sem dormir.

Enquanto o gato pulava de telhado em telhado, ia refletindo sobre o que Jareth havia lhe contado e parecia incomodado.

“Isso não é nada bom... o que ela está pensando em mexer com o sobrinho da Condessa e do Conde?! Qual será o interesse dela nele? De qualquer forma, eu não posso falar nada disso com eles ainda...”

A entrevista

No dia seguinte, Jareth acorda parecendo um zumbi; não conseguiu sequer fechar o olho noite passada, pensando e articulando várias possibilidades e teorias para o que Nekogal havia falado a respeito da garota gótica.

“Se dá valor à sua vida, se afaste dela!”

Essas palavras martelavam sua cabeça sem parar. O cartão ainda estava em mãos e já tinha o endereço para seguir. Até pensou em falar com seus tios, mas depois da reação de Nekogal no dia anterior, ficou com certo receio. Será que eles reprovariam da mesma forma? Como eles reagiriam? Jareth escolheu não arriscar para ver.

— Olá, querido! Vai sair para procurar emprego de novo hoje? – pergunta Abigail, animada como sempre.

Jareth ainda estava acordando de sua noite mal dormida e demora um pouco para processar a pergunta.

— Ah? Claro, tia! Vou sair hoje de novo e só vou voltar à tarde – informa.

— Está bem, Jareth! – Abigail parecia muito mais tranquila hoje do que ontem, tanto que Jareth estranha. – Já preparaste suas coisas, querido?

— Sim – confirma. – Hoje, com certeza, será um dia melhor! – diz Jareth olhando para o cartão em segredo.

Depois do café da manhã, Jareth se aprontou com o motorista da família e pediu que o deixasse no parque novamente e assim ele o fez. Estacionando em uma das calçadas, ele pergunta se não queria que o esperasse, mas Jareth responde que não havia necessidade e pede que o encontre naquele mesmo local daqui há duas horas – o motorista sem entender, só obedece e se retira.

Sozinho, Jareth segue a indicação do cartão, seguindo por uma rua deserta que era adjacente àquela em que parou. Um lugar atípico, já que naquele horário era movimentado tanto na praça como nas ruas subsequentes, restando somente aquela vazia. Era uma travessa sem saída, e o cartão indicava o ultimo prédio ao lado direto da rua. Jareth chega ao local e se depara com um prédio antigo e aparentemente abandonado, mas a porta parecia estar aberta. Por um momento, cogitou que aquilo não passava de uma pegadinha e tinha sido enganado, mas decidiu entrar para dar uma última olhada antes de ir embora.

Ao entrar, percebeu que era uma loja de conveniências velha e jogada ao léu, com um birô posicionado ao centro da loja. As prateleiras tinham objetos e produtos de todos os tipos, mas junto com os produtos haviam insetos e teias de aranha, bem como uma camada espessa e notável de poeira indicando que não eram limpas há dias, quem sabe até semanas.

— Olá! Tem alguém ai?! – grita, mas ninguém responde. – Sou eu, Jareth! Eu vim para fazer a entrevista... – Logo um grupo de ratos sai pulando de uma das prateleiras e assusta o rapaz. Ele solta um grito e cai para trás, praguejando o lugar umas mil vezes antes de se levantar.

Depois de passar algum tempo chamando e ninguém o responder, Jareth se retira do estabelecimento, frustrado. Sentia-se enganado e desiludido, voltando à estaca zero na busca por um emprego. Até o horário combinado com o motorista, teria tempo para tentar em mais alguns lugares, mas já estava desanimado e só queria voltar para casa e passar o resto do dia dormindo.

“Droga! Acho que o Sr. Gato estava falando disso e eu não o escutei... Como eu sou idiota!”, refletia.

Logo seus pensamentos foram cortados por gritos e uma multidão apavorada passou correndo por ele.

— Corram! Corram todos! Salvem suas almas!

Jareth capota para o lado e para o outro no meio das pessoas assustadas, ainda atordoado com o susto repentino. Olhava para os lados atemorizado, procurando o que havia assustado aquela multidão e eis que ele se encontra com um gigante de aspecto terrível e intimidador; tinha sua cabeça coberta por uma sacola de supermercado com dois furos para os olhos e algo no topo da sua cabeça que parecia ser uma flor. Era extremamente alto e gordo, chegando a ser obeso, com os braços quase da largura de seu corpo e carregava um cutelo enorme ensanguentado. Suas roupas eram simples, lembrando as roupas de um açougueiro e também estavam manchadas com sangue. Ao encontrar seu olhar, Jareth paralisa de medo e suas pernas não o respondem, mesmo que sua vontade fosse de sair correndo dali.

O... o... o... o que... é esse monstro?! O... — Pensava o rapaz, apavorado. – Meu Deus... agora me aparece mais isso... em que fria eu fui me meter?

O gigante psicopata se aproximava lentamente de Jareth, brandindo seu cutelo para ataca-lo. Jareth não se mexia, apenas observava com seus olhos esbugalhados de medo o assassino se aproximar.

E... eu... tenho que fugir, mas... minhas pernas... não se mexem! Droga! Droga! Será que... esse é meu fim...?!

— Ei! Por que você está aí se tremendo todo? – Uma voz feminina ressoa atrás dele.

Essa voz! Não pode ser!— Jareth vira rapidamente o rosto e se encontra com a mesma garota gótica do dia anterior.

— Eu pensei que tivesse querendo contratar um homem e não uma vara verde.

— Aaahhh! O que você está fazendo aqui, alma penada?! – ele grita assustado.

— Estive procurando esse encrenqueiro a semana toda e só agora ele resolveu se mostrar – explica de forma ambígua. – Resolvi aproveitar o momento para ver como você se saía na entrevista...

— Entrevista?!

— Não esperava que fosse acontecer tão rápido – diz ela rindo. – Aliás... esse monstro se chama S.S Billy, um maníaco muito perigoso e conhecido por desmembrar suas vítimas lentamente. Melhor ter cuidado com ele, está bem?

— Como você pode dizer isso tão calmamente?! E como assim “entrevista”?! Ficou doida?! – berrou Jareth, confuso.

— Vocês são muito barulhentos! Hora de morrer! – murmura o gigante, irritado.

A menina se vira para o monstrengo sorrindo, e com um olhar tão psicopata quanto o dele.

— Não se anime muito, Billy! Você está na linha!

Antes que Jareth pudesse sequer pensar, Billy arremessa seu cutelo contra eles, dilacerando o ombro do rapaz, que caiu de joelhos com a dor. O ferimento esguichou sangue e ele não parava de tremer, olhando o próprio sangue.

— Chega de blá-blá-blá! Vou matá-los e depois devorar cada pedaço da carne de vocês! Por isso, tratem logo de morrer! – ameaça.

A garota gótica bateu o pé, parecendo impaciente.

— E então... você não vai fazer nada?!

Jareth estava quase desmaiando com a dor, mas por causa do corte feito por Billy, agora podia se mexer. Ele se levanta lentamente, segurando seu ombro lacerado e ofegando bastante. Seus movimentos ainda eram lentos e vacilantes, então não esperava que fosse durar muito contra o grandão.

— Vou... distraí-lo e você... corre! – Jareth se vira para a garota, contorcendo a boca em um sorriso forçado. – Até porque... não posso deixar esse psicopata ferir uma dama, não é?!

Ela não responde nada, parecendo em choque com a postura de Jareth. Seus olhos estavam esbugalhados, olhando intensamente para ele – uma lembrança coruscou em sua mente:

— “Não! Venha comigo!”

— “Fuja Rose! Fuja!”

— “Eu não vou sem você!”

­— “Vou... distraí-lo e você... corre!”

— “De novo... como daquela vez...!”

Seus pensamentos são cortados por Jareth se jogando em cima dela e a empurrando para longe dos ataques devastadores de Billy que destroçam toda a calçada. O assassino ainda estava na cola deles. Enquanto Jareth se recuperava da queda, refletia em como iria parar aquele monstro descontrolado.

Droga! Ele tem uma força descomunal! Com certeza esse cara não é humano e nenhuma pessoa comum pode bater de frente com ele! Como vamos fugir dele? Se continuar assim, vai acabar com todo o quarteirão! Vamos, Jareth! Pensa!”

A garota suspira, irritada.

— Então... eu ainda estou esperando você acabar com ele!

— Vai se catar! – retruca, apreensivo. – Nós quase morremos nesse último ataque!

— Se você quer o emprego que eu vou lhe dar, tem que passar nessa entrevista, sacou? – Ela faz uma pausa, limpando a areia do vestido. – Ou você passa o rodo no Golias aí, ou não tem emprego para você. Por isso, cuide!

Falar é fácil né, cacete?!”. Jareth se levanta com dificuldades. Já sentia que estava um pouco mais “calmo”, apesar de sentir que iria ter um ataque fulminante a qualquer momento com tamanho medo e adrenalina. – Bem... se é assim, então vamos lá!

— E então... como você pretende derrubar esse brutamontes? – questionou ela.

Jareth fez uma pausa, revisando suas ideias.

— Vou atraí-lo para uma armadilha e prender ele! – responde.

— Uou! Armadilha? Tipo uma armadilha de urso ou de dinossauro?

Jareth esboça uma careta azeda.

— Você tem um péssimo senso de humor, sabia?

Eles se encaram alguns momentos e um pensamento chispou na mente dele. Podia ser loucura, mas de qualquer forma ele iria morrer se não tentasse.

— E você vem comigo, senhorita! Vamos! – Jareth agarra firme na mão da garota e a puxa para correr. – Vamos levá-lo para longe daqui!

— Espera! O que está fazendo, seu idiota?!

— Que insetos chatos de matar! – Billy levanta um carro estacionado com suas mãos, agarrando-o como se fosse uma mísera caixa de papelão. – Mas não vão escapar!

Ele arremessa o veículo na direção dos dois e antes que os alcançasse, eles adentram um estreito beco entre dois prédios comerciais; lá diminuem o ritmo para pegar algum fôlego. O carro capotou umas duas vezes antes de explodir no meio da rua.

— A-acho que aqui estamos seguros. Grande como ele é, não vai conseguir... – Antes que terminasse de falar, Billy destrói as paredes dos dois edifícios, se esgueirando para caçá-los até naquele espaço fechado. O rapaz esbugalha os olhos, soltando um berro desesperado.

Eles correm para fora e chegam em uma área vazia, como um terreno baldio entre as construções. Billy atravessa o beco estreito, encurralando-os ali. O coração de Jareth estava a mil e era naquele momento que pôde entender o porquê das palavras de Nekogal. Billy brande novamente seu cutelo afiado contra eles, capaz mesmo até de cortar carros ao meio.

— Droga! Nós que fomos pegos! – pragueja Jareth.

— Ótimo... quem sabe agora você não acaba com ele, não é? – responde ela de forma irônica.

— Para de falar merda... – Jareth se cala subitamente, enquanto que encarava o seu algoz de olhos frios. Seu ombro lateja e seu coração pulsa cada vez mais rapidamente com a adrenalina intensa. Mesmo com o medo, pela primeira vez na sua vida, sentia-se mais vivo do que nunca. – Acho que... eu não tenho escolha!

Ele se prepara para correr, mas ainda com dificuldades por causa do medo. Seu corpo tremia muito, mas ao mesmo tempo, sentia cada fibra de seu corpo vibrar altivamente como um todo, uma sensação que nunca havia experimentado antes. A garota se recosta ao muro com seu rosto corado, como se aquela cena lhe trouxesse alguma memória. Seus olhos estreitam e seu coração bate forte, deixando-se levar pela emoção particular que aquela cena parecia lhe trazer.

Esse cara... o jeito dele... é tão familiar...”, refletiu ela.

— Você está me incomodando! Saia do caminho! – O gigante desfere um soco que arremessa o garoto até a parede onde a ela estava.

Jareth colide com o paredão de concreto, se ferindo gravemente. A menina se esquiva como uma sombra e desaparece na nuvem de poeira. Ele sente que a maioria dos seus ossos são quebrados com o impacto; seu sangue esguicha por todos os lugares de seu corpo e ele sequer sentia seus músculos ou articulações. Sua consciência ficava cada vez mais longe, e suas pálpebras cada vez mais pesadas.

— Ah! Eu esperava mais desse cara! Vejo que eu vou ter que fazer isso eu mesma – Ela fez uma pausa, mirando Jareth enquanto sorria. – Mas... você passou na entrevista. Parabéns, garoto!

Ela se muda sua atenção para Billy, que já esfregava seus punhos ansiando por seu sangue.

— Quanto a você... não diria que vai ter a mesma sorte! Vejo que muitos de vocês ainda não reconhecem seu lugar e querem ficar causando tumulto por aqui. Que lástima!

Antes de apagar completamente, Jareth lutava para se manter lúcido. Com seus olhos semicerrados, podia ver que a gótica afrontava o assassino sozinha. Eles estavam frente a frente, se encarando como iguais... o que ela iria fazer?

E... ela... vai... lutar contra... ele... sozinha?! Ela... não... vai fugir?”. A visão de Jareth ia escurecendo cada vez mais.

“Será que... eu vou morrer aqui?”

A garota que voltou

amos seguros.eguros!de explodir mais a frente. dele.acou?e Billy.ora podia se mexer.

“­Essa luz... que luz é essa?”

“Do nada eu vim parar em um lugar assim...”

“Que destino será que me aguarda? Céu? Inferno?”

Duas silhuetas surgem, uma do lado da outra. Elas estavam de mãos dadas e andavam em direção ao horizonte... ao infinito. Jareth jazia em uma planície árida, com várias arvores secas isoladas. As estepes balançam suavemente com o vento sereno e o rapaz estava deitado, observando a silhueta do casal indo embora debaixo do pôr-do-sol.

— “Quem são eles? Será alguma memória borrada?”

Antes delas desaparecerem, elas se viram para Jareth. Seus rostos ainda não podiam ser vistos com clareza, mas eram familiares a ele.

— “Jareth! O que está fazendo aqui?” — pergunta a voz feminina, parecendo preocupada.

— “Não pode ficar muito tempo aí, rapaz! Reaja!” — diz a voz masculina.

“Preciso voltar!”

— “Onde... onde eu estou?” — Jareth ia abrindo os olhos lentamente e vê vários contornos distorcidos, olhando para ele.

— Jareth! Você está bem, querido?! – Eram seus tios e aquela garota de mais cedo.

O rapaz esbugalha os olhos, procurando se situar no ambiente. Finalmente estava desperto e parecia uma múmia com tantas ataduras enfaixando seu corpo.

— Onde... eu estou? – pergunta.

Abigail o abraça calorosamente e ele solta um gritinho, sentindo todas as dores castigarem seu corpo.

— Que bom que está bem! Graças aos céus! – comemora a condessa.

A garota ri com o momento.

Ele tem muita resistência, tenho que admitir...”

— Espera um pouco aí! O que aconteceu comigo?! – pergunta novamente, ainda com suas memórias bagunçadas.

— Você sofreu um acidente quando voltava da sua entrevista e essa moça o ajudou. – explica Abigail.

— Uma telha caiu na sua cabeça e você tombou na hora – completa a moça. –, mas logo lhe socorremos e agora você está aqui. Pode ser que sinta algumas dores de cabeça e esteja com a memória borrada.

Jareth se acalma um pouco ao explicarem a situação, mas não diminuía suas dores pelo corpo.

— Então porque diabos eu estou com o corpo todo enfaixado?!

— Bem na hora que isso aconteceu, você ia passar por um cruzamento e um carro lhe atropelou – interpela a garota se retirando. – Agora trate de descansar. Semana que vem começamos com o seu trabalho!

Antes dela se retirar, a garota para na porta e vira o rosto para Jareth mais uma vez.

— A propósito... meu nome é Rose! – apresenta-se sorrindo.

— Meu nome é Jareth – responde.

— Eu já sei, seu bobinho! – Ela se vai, com uma piscadela. O coração dele dispara.

— Querido, eu vou lá fora pegar um ar. Pode ficar aqui com Jareth, por favor? – pede a condessa ao seu marido.

Edgar concorda com um aceno de cabeça e Abigail também se retira da sala.

Eu jurava que tinha visto algo diferente...”

Uma lembrança surgiu martelando a mente de Jareth, mas era uma lembrança nebulosa, quase como se fosse um simples sonho ou uma alucinação. Pelo que se lembrava, Rose estava encarando um gigante assassino que os perseguia como um louco e, após ser nocauteado por ele, a menina gótica resolve encará-lo sozinho.

— Ora, ora! Realmente você é tão grande quanto me contaram! – comenta enquanto jazia parada na frente dele de braços cruzados. – Deve ser algum tipo raro ou...

Antes que terminasse de falar, o gigante a atacou com um soco certeiro em seu rosto. O impacto causou um pequeno tremor no chão e nas estruturas próximas.

— Você não sabe que é falta de educação interromper quem está falando? – Rose sequer se mexeu com o golpe do gigante. – Vamos corrigir isso!

Ela revida com um soco cruzado, fazendo o gigante Billy voar com o golpe e abrindo um buraco enorme em seu peito. O chão abaixo deles cedeu com a força usada no impacto e Billy colidiu com a parede do prédio atrás, destruindo completamente a estrutura que chegou a desabar depois.

— Que coisa, hein? Pensei que você fosse mais fortinho – diz Rose frustrada. – Mas só tem tamanho mesmo!

O monstro Billy sai da pilha de destroços, com o rosto deformado e com o buraco no meio do peito, correndo para apanhar Rose. Ela vira o rosto de leve, parecendo irritada.

— Ainda está vivo? Mas que gordo chato! Já perdi minha paciência com você!

Rose faz uma posição de mãos e algo como um feixe luminoso e escarlate surge e oblitera o grandalhão, reduzindo-o a pó. Após essa cena, Jareth não se lembrava mais de nada e se tentasse forçar, era castigado com terríveis dores. Tudo parecia ter sido surreal demais para ele, então prefere acreditar na versão contada por Rose, mesmo sabendo que talvez fosse mentira. Agora já tinha seu tão almejado emprego e estava de consciência limpa e com o corpo dolorido. Restava apenas descansar...

Enquanto isso, em um dos corredores do hospital, Abigail alcança a garota gótica que já ia embora.

— Ei, você! Onde pensa que vai? – pergunta em um tom agressivo.

Sem se virar, ela responde.

— Que pergunta é essa? Ele estava precisando de um emprego e eu, de um funcionário! Só vejo isso como uma pequena troca de favores, nada mais... – Rose dá de ombros e continua andando.

— Você pode ter enganado Jareth, mas eu sei muito bem que você é!

Rose solta uma risadinha malévola.

— Sabe mesmo? Fico lisonjeada com isso – retruca, irônica.

— Quem diria que depois de tanto tempo vocês voltariam dos mortos para assombrar a todos novamente... Rose Valentine!

Os olhos de Abigail mudam para um aspecto mais bestial e uma energia monstruosa assola o pequeno espaço do corredor, fazendo as cadeiras tremerem e a água de dentro do bebedouro ferver.

— Eu nunca estive morta – Rose fez uma pausa, enquanto gesticula com as mãos. – Muito pelo contrário... estou mais viva do que nunca!

— Eu sei que você deve estar tramando alguma coisa, Valentine!

Rose vira o rosto, sorrindo de forma inocente.

— Pode me chamar só de Rose mesmo. Prefiro dessa forma. – Ela volta a andar na direção da saída. – Quanto menos gente souber que eu voltei, melhor. Pelo menos por agora.

— Se fizer alguma coisa com Jareth... – Abigail ameaça a jovem, que apenas responde com outra risada de escarnio.

— Não se preocupe, senhora Wolfgang! Seu sobrinho estará seguro e em boas mãos! – assegura.

Abigail se recompõe e a deixa partir, sem questionar mais nada. Enquanto a observava, a condessa refletia consigo:

Nunca imaginei que ainda existissem vampiros como os Valentine vivos nesse mundo. Essa jovem vampira... essa Valentine... pode se tornar um grande problema no futuro!”, ela fez uma pausa suspirando e volta para a sala onde Jareth e Edgar estavam.

Mas nada pode ser dito por enquanto...”, Abigail conclui em seu pensamento.

“A sombra... já começou a mover seu destino!”

Jareth suspira, deitando sua cabeça dolorida na almofada.

Acho que foi só um sonho mesmo...”