Valentine Hunters
7 Santa Maria Novella
Notas iniciais
— 7 –
SANTA MARIA NOVELLA se localizava transversalmente em Piazza di Santa Maria Novella, uma estação ferroviária de mesmo nome e era a principal Catedral de Florença. Por ser uma grande igreja e uma das principais dioceses do Vaticano no Centro-sul da Europa, especificamente na península itálica, permitia um rico comércio marítimo pelo Mediterrâneo.
No claustro adjacente da Basílica, se encontrava o Bispo diocesano Giovanni Giordano, caminhando pelo jardim com uma cópia da bíblia em mãos. A dupla de viajantes o encontra passeando e se dirigem até ele, respeitosamente.
– Vosso Reverendíssimo – saudou o velho, retirando a carta que havia mostrado ao grupo de frades. – Trago as saudações do Vaticano e me apresento para os meus serviços.
O velho bispo calvo esboça um sorriso.
– Entendi. Você deve ser aquele de quem tanto falavam por aqui, o Paladino Jonh Helsing. Glorificado seja o Senhor que o enviou!
O homem franziu o rosto.
– Com todo o respeito Vosso Reverendíssimo, mas eu gostaria que se referisse á mim apenas como um padre. – pediu Jonh.
– Como quiser, “padre” Jonh – Ele fez uma pausa, mirando a garotinha atrás do paladino. – E quem seria essa jovem que vos acompanha?
– Essa é minha discipula e neta, Linne. – Ele a apresenta para Giovanni.
– Oi! Como vai... – Subitamente, Jonh dá um cascudo em Linne. A menina se retrata prontamente. – Quero dizer... é uma honra conhece-lo, senhor Bispo Giovanni!
Ele solta uma risada.
– O prazer é meu. Venham! Vamos para a casa capitular e lá discutiremos nossas pendências. – Convida.
Eles seguem o bispo pelos corredores do claustro até a casa capitular, um salão separado da basílica onde geralmente se acontecia reuniões de cunho administrativo, sobre a ordem ou sobre a direção da diocese no geral. O salão era enorme e possuía uma arquitetura medieval surpreendente, com vários afrescos condecorando o teto, vitrais que mais se pareciam mosaicos e uma tapeçaria tão bela quanto antiga. Linne fica encantada com toda aquela estrutura antiga e renascentista, comtemplando cada centímetro do salão, boquiaberta. Diferente de seu avô.
Eles chegam até o centro do salão, onde se sentam em um conjunto de bancos de madeira próximos ao pilar central da casa capitular. Giovanni acomodasse, colocando sua bíblia em orifício circular embutido no próprio pilar, lembrando uma gaveta.
– Muito bem – começa ele, cruzando os dedos. – Essa é a resposta do Vaticano à minha requisição?
– Sim – confirma o paladino, ajeitando seus óculos. – O Episcopado liberou a permissão para uma investigação a qual o senhor solicitou.
– Perfeitamente – Giovanni fez uma pausa, tirando um lenço de suas vestes litúrgicas. – Já deve estar por dentro da situação, estou correto padre Jonh?
– Correto Vosso Reverendíssimo. Por se tratar de um caso de vampiros em uma importante diocese como essa, o Papa não pensou duas vezes em me enviar.
– Pensei até que enviariam o ilustríssimo paladino Albedo. – diz o bispo, reflexivo.
– O senhor Albedo está em uma missão em Roma. – explica Jonh. – Por isso fui enviado em seu lugar para essa investigação.
– De qualquer forma, temo que estejamos lidando com forças diabólicas e sombrias, meu caro padre. Ultimamente vem ocorrendo inúmeros ataques contra a nossa sagrada ordem. Desconfiamos de que seja obra dos agentes do próprio Satanás. – relata Giovanni, atemorizado.
Jonh permanece com sua expressão fria e inabalável, enquanto que Linne fica espantada com a história.
– Quando começou a acontecer esses ataques? – pergunta ela, curiosa.
– Faz algumas semanas minha jovem – Ele faz uma pausa elevando sua mão até a cabeça, como se tentasse se lembrar de algo. – Foi terrível o que fizeram com nossos irmãos e irmãs! Que Deus os tenha no paraíso!
O paladino se levanta de repente, pegando sua bagagem.
– Diga-me, Vosso Reverendíssimo, se os ataques aconteceram dentro ou nas proximidades da Catedral.
– Em sua maioria nas proximidades. – informa Giovanni.
– Então creio que devo ficar aqui por alguns dias, para averiguar o caso. Estaremos em estado de alerta constante para eventuais ataques contra a casa do Senhor.
– Tem a minha benção, padre Jonh! – diz o bispo, aliviado. – Vou me certificar de garantir uma estadia adequada para vocês.
– Agradeço sua generosa oferta e hospitalidade, mas iremos ficar em um albergue próximo daqui. – diz o padre.
– Como desejar – O bispo cata sua bíblia na coluna novamente, já se retirando. – Agora, com sua licença, tenho alguns assuntos a tratar na Sacristia. Até depois!
Giovanni se retira, ficando apenas Jonh e Linne dentro da casa capitular. Ele arruma sua mochila novamente nas costas, chamando sua neta para eles irem embora. Linne estava ansiosa para confirmar com os próprios olhos o que o bispo havia contado a eles.
– Vô! Nós vamos caçar vampiros hoje? – pergunta ela, animada.
– Eu irei! Você irá ficar no albergue.
A menina torce a boca, irritada.
– Por que? Só porquê...
– Você irá ficar no albergue e fim de papo! – determinou Jonh. – Você ainda não está pronta para vampiros. Eles são um dos piores tipos de demônio que existem!
Linne baixa a cabeça, suspirando.
– Só queria que o senhor me desse uma chance...
– Quando chegar a hora, você terá sua chance. Agora vamos! Temos que descansar para a noitada.
Assim eles se retiram, deixando Santa Maria Novella e se hospedando em um albergue que ficava na rua detrás da estação. Assim, eles teriam como entrar rapidamente em ação caso ocorresse algo de suspeito na basílica, e que com a experiência de Jonh, não seria difícil identificar. Por hora, queriam apenas descansar depois da longa viagem que fizeram até Florença.
Seria uma noite bem longa.
A noite chega para a populosa Florença e Rose e seus funcionários se preparavam para a empreitada na grande catedral italiana. Antes de saírem do hotel, ela repassa as instruções para os três novamente.
– Então chegou a hora, meus queridos empregados! Vou repassar o que vamos fazer lá, para na hora ninguém fazer merda. – Ela faz uma pausa, pegando suas pistolas. – A catedral à noite é quase vazia, então quando chegarmos lá iremos vasculhar cada buraco de parede daquele lugar, entenderam? E vamos fazer isso rápido. Quanto menos tempo eu passar lá dentro, melhor.
Eles concordaram com as instruções e saem noite adentro, pelas ruas serenas da cidade. Ficava do outro lado da cidade, então precisariam de uma carona para chegar lá e Rose rapidamente se encarrega de providenciar uma. Andaram um pouco até encontrar um taxista parado em uma calçada próxima a uma pastelaria. Rose fala com ele e o encara profundamente, deixando-o em um estado igual ao da atendente do hotel. Após isso, ele os leva até Santa Maria Novella, sem cobrar nada pela corrida e ao chegar lá, a vampira estala os dedos, fazendo-o recobrar a razão.
– Onde eu estou? Eu dormi... – Ele olhou em volta e estava em frente à grande Catedral. – Mio Dio! Onde estou? – exclama o taxista e se depara com um grupo de jovens parados a sua frente.
– Você estava dormindo aqui em frente a igreja, e decidimos te acordar. Cuidado para não ser roubado, hein? – diz Rose com uma piscadela.
O taxista barbudo coçou a cabeça, confuso.
– Tem razão. Devo ter sonhado que estava em outro lugar. Obrigado jovens! – Ele agradece e depois vai embora, sem se lembrar de nada.
Jareth entorta a boca, incomodado.
– Como você fez aquilo?
– Aquilo? Se chama mentir. É divertido de vez em quando. – retruca, brincalhona.
– Não. Você deixou ele e a moça do hotel parecendo zumbis.
Rose começa a rir, entendendo ao que Jareth se referia.
– Ah, sim! Isso é um dos meus truquezinhos, baby! Ninguém resiste ao olhar de uma donzela linda e charmosa como eu!
Jareth tapou a boca, segurando o riso.
– Acho que devia começar a se olhar mais no espelho. Espera, você não vê nada, porque não há nada por dentro! – alfineta com sarcasmo.
Rose empinou o nariz.
– Olha como fala comigo, ou vai virar lanchinho de monstro, está ouvindo?
– Estamos quase chegando! – cortou Jin, focando na imensa catedral na frente deles.
Jareth, Jin e Angelita ficaram boquiabertos com a majestosa construção e a bela arquitetura do lugar feita por um comerciante local, Leon Battista Alberti. Sua contribuição consistia em um largo friso decorado com quadrados e tudo que se encontra acima dele, incluindo os quatro pilares verde e brancos e a janela redonda, terminando em um frontal com o emblema Solar Dominicano. As quatro colunas com capitólios coríntios da parte inferior da fachada, também foram adicionadas por ele. Tudo isso com o toque frio e silencioso da noite enluarada que circundava a cidade – a vampira se sentia praticamente em casa, se não fosse o fato de ser um lugar abençoado e território da Igreja Católica.
Não havia ninguém por ali naquele momento como previu a vampira, e ela empurra os portões pesados e majestosos da igreja, abrindo-os lentamente. O vasto interior, baseado na planta da basílica, foi projetado em cruz latina e dividido em naves – dois corredores com vitrais e um curto transepto. A maior nave tem 100 metros de comprimento, o que lhe proporcionava uma impressionante austeridade. Tendo um efeito de ilusão ótica de trompe-l'oeil na nave que vai em direção ao aspe, fazia-o parecer maior do que realmente era. Os finos pilares compostos, entre as naves e o corredor, ficavam cada vez mais próximos a medida que adentravam o espaço. O teto da abóbada consistia de arcos ogivais com quatro contrafortes em preto e branco. No interior da Capela Tornabuoni, onde ficava o altar principal e a sagrada cruz de bronze, havia um homem de estatura alta, parado sobre a luz do luar que descia da sacada dos vitrais.
O homem vestia roupas clericais pretas, cobertas por uma jaqueta negra com fivelas prateadas e reluzentes. Tinha um aspecto de idade avançada, possuindo longos cabelos grisalhos presos por um rabo de cavalo, uma barba rala por fazer e grandes óculos de aro grosso que cobriam seus olhos frios e assassinos. Em seu pescoço estava pendurado um crucifixo de prata, amarrado por um cordão de couro e carregava uma grande mochila nas costas.
– Estava esperando por vocês, mas não imaginava que fossem um grupo de vampiros. – diz ele em um tom duro e imponente.
Rose solta um sorriso malicioso, sacando sua pistola.
– Não esperava que fosse tão fácil. Então você é quem é responsável pelos ataques aqui em Santa Maria Novella?
O padre trincou os dentes.
– Não levante armas de morte na casa do Senhor, criatura vil! – repreendeu ele.
– Não vai começar uma missa aqui para mim, vai? – zombou a vampira. – Vamos logo para o que interessa. Guarde suas orações para quando estiver junto do seu Deus.
– Aqui dentro não – Ele faz uma pausa, descendo do estrado e saindo por uma das portas laterais do corredor. – Sigam-me.
Assim eles saem de dentro da basílica, se encontrando novamente na frente da grande catedral. Rose e Jonh estavam frente a frente, se encarando enquanto o resto apenas assistia aquele confronto que estava para começar. Rose parecia estar empolgada com o paladino, sentindo uma aura selvagem e imponente vindo dele, mesmo não o conhecendo. Ela saca suas pistolas e Jonh desembainha suas baionetas, ficando em posição para atacar.
Luz e sombra
– Tome cuidado Rose! – diz Jareth, atemorizado com o inimigo.
– Lindas lâminas – elogiou a vampira. –, mas realmente crê que elas servirão de alguma coisa contra os meus bebês?
Jonh não ligava para as provocações de Rose, apenas permanecendo de olhos fechados e com o fio de suas baionetas cruzadas. A vampira pareceu incomodada, pensando que ele a ignorava.
– Aquele cara... é assustador. – comenta Angelita, assustada.
Jin arqueou a sobrancelha.
– Aquele senhor... não é um padre comum. Ele tem algo diferente.
– Mas a Rose vai ganhar de todo jeito – determina Jareth. – Não se atreva a perder!
Rose sorriu, enrubescida.
– Assim você me deixa sem jeito, seu idiota. – Ela volta sua atenção para Jonh novamente, que ainda estava em sua posição, balbuciando meias palavras. – E você aí? Vai ficar só rezando mesmo? Não vai adiantar nada...
Subitamente, o padre finca uma das baionetas no chão e levanta a outra para o alto.
– Nós somos instrumentos de da punição divina de Deus aqui na terra! Nossa missão é destruir todo o mal que ronda esse mundo e proteger os fieis e tementes à Deus de todo o mal! Somos os apóstolos de Senhor e com o bendito sangue de Seu filho, Jesus Cristo, purificamos a terra de todo o mal! Amém! – bradou o padre.
Rose soltou um risinho, engatilhando suas armas.
– Faça sua reza padre! Seu destino já está selado! – diz a vampira.
Subitamente, o padre avança contra ela com suas baionetas em mão. Rose o deixa se aproximar para ter a certeza de um único e fatal tiro. Antes que pudesse pensar, Jonh arremessa uma de suas lâminas contra ela, mas a vampira desvia o curso da arma com um disparo. Jonh se esquiva de outro tiro, pegando sua baioneta no ar e trocando golpes rápidos com Rose. Todos ficam impressionados com a velocidade e destreza nos ataques do velho paladino – ele ainda estava longe de mostrar 100% de suas habilidades e Rose tinha certeza disso.
– Estou impressionada! Para um padre velho e caduco, você é bom de porrada! – diz ela, gargalhando.
– Não zombe de um servo do Senhor! – retruca Jonh, sem cessar seus ataques.
Rose toma distância para continuar os disparos, mas Jonh reflete e apara os tiros com suas afiadas baionetas. Antes que a vampira pudesse continuar sua rajada, o paladino arremessa novamente sua lâmina, mas dessa vez nos pés da vampira. Sem entender, e pensando que ele havia errado, ela foca novamente em disparar contra o padre, mas ele some de seu campo de visão por um breve momento.
Jonh aparece no lugar onde havia acertado sua baioneta e desfere uma estocada certeira no peito dela, que cambaleia para trás. Rose revida com um tiro de raspão no rosto de Jonh, mas ele se esquiva de novo, puxando a baioneta do seu peito por uma corrente.
– Rose! – gritou o rapaz, preocupado.
– Muito rápido! – exclamou Jin, impressionado.
– Que velocidade assustadora! – disse Angelita, assustada.
Todos ficaram pasmos com a velocidade assombrosa do padre. Em questão de segundos, ele cobriu uma enorme distância até seu alvo.
A vampira cai de joelhos, sentindo o ferimento causado pelo golpe queimar como uma brasa ardente dentro de seu peito.
– Droga! Lâminas... de prata! – diz ela, cuspindo sangue.
– Exatamente, monstro – Jonh fica em guarda novamente, brandindo suas lâminas. – Baionetas especiais, abençoadas pelo próprio Papa e feitas inteiramente de prata! Essas são minhas armas benditas, Sodoma e Gomorra, perfeitas para matar monstros como vocês!
Rose solta uma gargalhada, se levantando.
– Um golpe de sorte. Mas não conte com a sorte de novo, humano! – Dessa vez, ela quem avança em um combate corpo-a-corpo com o padre, atirando de perto várias vezes durante a troca de golpes. Em um momento, Rose acha uma abertura e encaixa o cano de sua pistola no peito de Jonh, atirando sem pestanejar.
O padre cambaleou para trás, pressionando sua mão contra o peito.
– Ainda de pé? Você já devia ter voltado para o seu criador depois de comer uma bala dessas.
Logo, um corte é feito no flanco esquerdo da vampira, fazendo-a soltar a pistola com qual havia atirado no paladino. Enquanto isso, para a surpresa de todos, ele retira a capsula de seu musculo danificado, mas ele estava vivo.
– Super durabilidade. É uma tecnologia que desenvolvemos para lidar com monstros como vocês! – explica ele. Antes que pudesse continuar, Jonh tomba também, sentindo uma dor perfurante no peito.
“O que? Essa arma... eu levei muito mais dano do que eu esperava!”, refletiu Jonh, surpreso.
Rose solta uma gargalhada sádica, pressionando a mão sobre o ombro lacerado. Uma energia dourada começava a sair do ferimento, fechando-o totalmente.
– Você até que é durão para um humano! Gostei de você! – Os olhos da vampira mudam de cor, tomando um aspecto bestial e diabólico. – Você é o primeiro humano que dura tanto tempo! Sinto que vou me divertir muito com você!
Jonh se recupera e cruza suas baionetas de novo.
– Digo o mesmo, vampira! – Ele sorri, sendo raras as ocasiões que o fazia.
Os dois avançam e começam a troca de golpes novamente até que se separam com um empurrão brusco dos dois lados. Rose aproveita a distância para desferir uma saraivada de tiros contra o católico, mas ele esquiva com maestria dos disparos e revida lançando várias baionetas menores que estavam escondidas em sua jaqueta de couro escura. Rose apara as lâminas voadoras com vários tiros, aproveitando o breve momento para carregar um tiro especial que o finalizaria.
– Piercing Light... — Antes que terminasse de carregar o ataque, percebe que as várias baionetas estavam cravadas ao seu redor, prendendo páginas com escrituras sagradas. – Uma barreira?!
– Apenas uma purificação para esse lugar que vocês profanaram. – diz Jonh, estalando os dedos e pegando suas duas baionetas principais.
– Você já está me irritando além da conta, padre de merda! – murmurou Rose, irritada.
– O que ele fez? – pergunta Jareth, curioso.
– Ele ergueu uma barreira de purificação em todo o lugar. Ela queima qualquer coisa “maligna” que ousar passar seus limites. – explica Jin, estupefato. – De fato, esse padre é cheio de truques.
– Será... que a Rose vai ganhar? – questionou Angelita com a voz baixa.
“Rose... você tem que ganhar desse cara!”, pensa Jareth sentindo um aperto no peito e a ansiedade chegando.
Rose toca em um dos papéis benzidos e sua mão se incendeia, porém ela solta uma gargalhada diabólica, queimando todas aquelas escrituras.
– Você é cheio de surpresas humano, mas vai ter que fazer melhor do que isso. – Rose regenera seu membro e segura sua pistola novamente, continuando com seu ataque de energia. O padre cruzou suas baionetas e bloqueou o raio de energia, aguentando toda a pressão da rajada. Logo após um tempo refletindo o tiro energizado da vampira, a lâmina das baionetas trinca e ele se esquiva, pegando de raspão em seu ombro direito. O tiro explode em um quiosque do outro lado da rua.
– O que houve, católico? Se levante e lute! Resista! Me divirta! – Rose gargalhava de forma insana, girando as pistolas fumegantes em suas mãos.
– Senhor. Dai-me forças... para vencer o maligno. – Jonh se levanta, apoiando suas baionetas rachadas no chão.
– Vô! Pega! – A voz de Linne saiu de dentro da catedral dormida. O paladino se virou com os olhos esbugalhados.
Ela joga outra mochila de couro bem grande e pesada para o velho, que ainda não tinha ingerido a ideia de sua neta estar ali.
– Linne! O que está fazendo aqui?! Eu falei para você ficar no albergue! – gritou ele.
– Olha só o que temos aqui – Rose estreita os olhos, para o terror do padre. – Seria sua filha?
– Não toque nela, seu demônio! – Jonh grita, furioso. Rose havia conseguido desestabiliza-lo.
– Não irei fazer nada com ela – fala a vampira. –, mas os meus servos irão.
Jonh abriu a bolsa e dentro dela continha uma besta composta laqueada em prata reluzente, bem antiga e rústica e a apontou para Rose. Ela esboça um sorriso de deleite, aproveitando cada momento daquele confronto.
– Peça-me, e lhe darei as nações por herança, e os confins da terra por tua possessão. Tu os quebrará com um bastão de ferro. Traçá-lo-ás em pedaços como um vaso de oleiro. Sereis sábios, pois agora, ó reis: Sereis instruídos, juízes da Terra. Sirvam e regojizai-vos com o temor do Senhor. Beijais o Filho, de forma a controlar sua ira. Pereçais no caminho, quando sua ira se acender. Abençoados sejam aqueles que Nele confiam. Amém!
Jonh recitava uma passagem da bíblia enquanto a Valentine se preparava para o seu ataque. Linne se junta rapidamente ao seu avô, se escondendo atrás dele.
– Depois vamos ter muito o que conversar, mocinha.
Linne entortou os lábios.
– O senhor devia estar grato por eu estar aqui!
O velho suspira, mas parecia entender o que a neta sentia. Também devia a ela a chance de poder derrotar a vampira com aquela arma sagrada que guardava apenas para casos especiais.
– Muito bem, criança. Fique atrás de mim e faça tudo que eu mandar, ouviu bem? – ordenou Jonh.
– Sim senhor!
Rose sorriu, chamando por Jareth.
– Jareth baby. Quer vim bailar comigo essa noite? – convida ela e o rapaz corou.
Sem pensar muito, ele vai de encontro a sua chefe mesmo sem saber o que faria. Os dois ainda continuavam a se encarar por vários minutos, formando um clima denso no lugar.
– Eu vou cuidar daquele padre e você se encarrega da nossa amiguinha ali, entendeu?
– Sério que você está me pedindo isso?
– Não estou pedindo. É uma ordem! – retruca Rose, em um tom levemente áspero.
O rapaz suspira, incomodado com o fato de ter que enfrentar uma mulher. Seu aspecto era de uma jovem da sua idade, com cabelos loiros e escorridos, sardas no rosto fino e o corpo delgado. Vestia as mesmas roupas de seu avô e também possuía seu crucifixo pendurado no pescoço. Jareth a admirou por alguns minutos, encantado com a beleza da jovem e a vampira trinca suas presas.
– Vai ficar aí babando por quanto tempo? – pergunta, dando uma cotovelada na nuca dele.
– Ai! Ai! Desculpa!
– O que eles vão fazer? – pergunta Angelita, curiosa.
– Provavelmente irão lutar em duplas agora. – responde o faxineiro. – Temo que o senhor Jareth tenha problemas com aquela jovem senhorita. Apesar de muito nova, ela aparenta ser bem treinada.
– Vamos resolver isso de uma vez, padre. Estou louca para terminar com isso e voltar para o meu caixão. – disse ela, engatilhando suas pistolas.
– De fato, terminemos com isso. Vou cumprir os desígnios do Senhor e erradicar todo o mal! – responde Jonh, com mesmo ímpeto.
Os dois voltam a se encarar novamente, trocando olhares selvagens, mas antes que pudessem atirar um contra o outro, algo explode o campanário da basílica e desce em meio ao pátio frontal da igreja de forma violenta. Uma nuvem de poeira e destroços caiu junto, dificultando a visão de todos e em meio à confusão repentina, um grito feminino pode ser ouvido – era o grito de Linne.
– Linne? Onde você está?! – gritou o paladino, desesperado.
Rose suspirou, estalando os dedos.
– Jin! Dê um jeito nisso!
– Como quiser, senhorita Rose. – Jin saltou por cima da nuvem de poeira, liberando seus fios e movendo-os rapidamente em círculos, dispersando toda a poeira e os detritos.
Ao fazê-lo, algo grande e aterrador estava parado entre o paladino e a vampira – um ser enorme e bem pesado, com olhos que se assemelhavam a faróis resplandecentes e parecia estar vestindo uma armadura de ferro pesada. Ele segurava a garota em suas mãos, desmaiada e com um ferimento aberto na cabeça. Os dois tomam distância e a criatura reproduz um sonido tenebroso, juntamente com o bater de ferros da armadura.
– Minha neta! Não! – Ela não respondia e o velho entra em pânico.
– Se acalme, velhote. Ela não morreu ainda – informa Rose, notando que a menina ainda respirava. –, mas o que é essa coisa?
– É mais um de seus servos vampira? – acusou Jonh, apontando sua besta para ela.
– Não. É o meu alvo! – diz Rose, sorrindo.
– Alvo? O que está dizendo?! Explique-se! – exigiu o paladino.
– Nós estamos aqui atrás do responsável pelos ataques na catedral – explica Jin, estralando os dedos. – Não viemos para atacar ninguém, muito menos o senhor, caro padre.
– Não precisa explicar Jin! – irrompeu ela. – Nós não temos nada com você ou sua igrejinha, e é só o que precisar saber, velhote.
Jonh mordeu os lábios, baixando sua besta e focando sua atenção na criatura. Naquele momento, salvar sua neta era mais importante do que tudo e se precisasse, ele trabalharia até com aqueles vampiros para isso.
– Está certo. Ajude-me a salvar minha neta e esqueceremos do que aconteceu aqui.
– Não tente barganhar comigo, padre. Eu estou fazendo isso por meus próprios interesses. Não por sua neta. – esclareceu ela. – Se eu tiver que matá-la para isso, não hesitarei em nenhum momento...
– Ela vai ajudar o senhor sim. – cortou Jareth, encarando sua chefe com reprovação.
Rose cuspiu.
– Não me venha com sentimentalismo de novo, Jareth baby. Qualquer dia desses eu te mato!
– Mas não hoje – rebateu, seco. – Hoje você vai ajudar o padre, sim?
– É só ele não ficar no meu caminho! – responde ela, estreitando os olhos.
Uma gargalhada surgiu de trás do monstro de armadura e a voz era conhecida pelo paladino, que pareceu não acreditar no que ouvia. Ela vinha do interior da adormecida Santa Maria Novella, e acompanhada de um bater de palmas.
– Essa voz... não pode ser!
– Reconhece essa voz, humano? – pergunta Rose, curiosa.
– Preferia não ter reconhecido...
O individuo misterioso surge das sombras, com sua face distorcida e uma aura maliciosa. Ele vestia roupas de padre brancas e carregava uma bíblia debaixo do braço; possuindo também calvícies de idade e uma papada robusta.
– Eu esperava que vocês se matassem, mas estava demorando demais e resolvi intervim. Há testemunhas demais aqui!
– O que significa essa traição, bispo Giovanni?!
Memórias borradas
O bispo abriu um sorriso depravado no rosto.
– Você não é tão sábio, paladino Jonh Helsing? Deveria entender os meus motivos.
Naquele momento, todos ficaram boquiabertos com a forma que Giovanni se referiu ao padre. Rose fica surpresa, refletindo por alguns instantes.
“Paladino? O que um paladino do Vaticano está fazendo aqui? Com certeza, não é por nossa causa... ou será que...? Será que o Vaticano saberia da minha existência de alguma forma?”, se questiona Rose, intrigada.
— Isso é algo bem chocante. – comenta Jin, estupefato. – A senhorita Rose estava lutando contra um paladino esse tempo todo...
– Paladino? Tipo paladinos de RPG? – pergunta Jareth.
– Um paladino é alguém escolhido à dedo pelos cardeais da Igreja Católica, desde o seu nascimento. Esses escolhidos são submetidos a rigoroso treinamento durante toda a sua vida, para serem verdadeiras máquinas de guerra contra monstros, a serviço do próprio Papa. Com certeza não é um simples padre que você encontra em qualquer igreja de esquina de bairro. – elucida o faxineiro.
– Paladinos são assustadores... – diz Angelita, impressionada com a história. – Ele estava lutando com a chefe de igual para igual.
– Nunca pensei que existissem de verdade. – completa Jareth.
– Atualmente, na Igreja Católica á somente quatro pessoas que foram dignas dessa posição, antigamente ocupada pelos Templários. E agora temos um deles aqui à nossa frente.
– Realmente é algo impressionante!
– Tinha que ser alguém assim para ser um oponente digno para mim. – gabou-se a vampira, sorridente. – Pena que esse monstro aí salvou a sua pele.
Jonh trincou os dentes.
– Não subestime um servo de Deus, criatura diabólica! – rebate, austero. – Por hora, minha neta é mais importante do que você!
– Finalmente algo em que concordamos! – Rose aponta suas pistolas para o bispo ao lado do monstro. – Agora tenho permissão do seu Deus para mandar outro inseto para lá?
Giovanni riu, dando de ombros.
– É uma pena lhes informar, mas quem receberá a punição divina aqui serão vocês! – Ele fez uma pausa, repousando a bíblia sobre o braço robusto do monstro. – Há muito tempo, eu vivia uma vida chata e tediosa como um bispo dirigente dessa igreja. Eu não via o verdadeiro proposito de Deus para a minha vida, até que Ele me mostrou!
– O que está dizendo?! Está enlouquecido, bispo! – atacou Jonh.
Rose boceja e depois atira contra Giovanni, mas aquela coisa coloca-se no meio, ricocheteando a bala.
– Quanta falação! Podemos ir logo para o que interessa, antes que eu durma aqui?! – diz a vampira com a voz largada.
Giovanni continua a rir em um tom de escarnio. A armadura volta a tomar sua posição ao seu lado.
– Você será a primeira que irá sentir a mão de Deus pesar sobre sua cabeça, por sua heresia! – grita o bispo, estendendo sua mão para Rose.
– Ui! Estou morrendo de medo! – Ela fica me posição para atacar, liberando sua aura dourada. – Isso seu eu não mandar você para o inferno primeiro!
A armadura avança em uma velocidade surpreendente para o seu tamanho e tenta golpear a vampira e o paladino que estava ao lado dela. Rose se esquiva com uma destreza sobrenatural, agarrando o braço metálico dele e usando-o de impulso para desferir um chute que faz o elmo de ferro voar longe, o empurrando para trás. Para a surpresa e o medo de todos, não havia ninguém dentro da armadura.
– Que diabos é isso?! – Rose esbugalha os olhos, surpresa.
– Santo Deus! – exclamou Jonh, chocado.
– Surpresos? Esse é o instrumento definitivo de punição, criada por Deus para mim! Seu nome é Heinkel! – revela Giovanni, louco.
– Por que não tem ninguém ali dentro? – pergunta Angelita. – Essa armadura é assustadora!
– Eu nunca vi algo parecido com isso. – respondeu Jin, sem palavras.
– O que é essa coisa? – Jareth também estava com calafrios ao olhar para a armadura.
– Entendi... por isso minhas balas não surtem efeito nesse monte de lata! – concluiu ela, guardando as pistolas em seu vestido novamente.
– Bem observado, demônio – diz Giovanni, gargalhando. – Na época que tomei conta dessa diocese, tratei de explorar cada centímetro dessa igreja, incluindo o subsolo. Foi lá onde eu o encontrei, selado com vários encantamentos antigos e sacros. Desde então, me dediquei a pesquisar sobre o porque aquela armadura estaria selada e confinada ali e cheguei a uma conclusão: eu fui escolhido por Deus para acha-lo e usá-lo para punir os injustos e hereges!
Rose solta uma risada de deboche ao ouvir a história dele.
– Nossa! Você é bem mais pirado do que eu pensei que seria! Não sabia que a Igreja tirava seus bispos de sanatórios!
Giovanni franziu seu rosto em ira.
– Você vai se arrepender por essa heresia! – Ele ordena que a armadura ataque novamente com um gesto de mão.
A vampira recebe o ataque direto da armadura fantasma, segurando seu soco com uma mão espectral feita de sua energia. Ela não moveu um dedo para aparar o ataque de um monstro daquele tamanho e Jonh se surpreende ao ver a cena. A expressão confiante de Giovanni desaparece subitamente, dando lugar a um semblante de medo.
– Se você está controlando essa coisa, então isso lhe torna o responsável pelos ataques recorrentes em Florença e, consequentemente, meu alvo! – diz Rose, tirando uma das pistolas da cintura e a apoiando sobre o braço. – Eu não estou nem aí para esse papo sobre escolhido de Deus ou punição divina. As merdas que você fala só confirmam o quão louco e doente você é!
– Espere! Você não pode fazer isso! Eu sou um servo de Deus! Sou eu que devo punir os injustos em nome Dele! – gritou o bispo, apavorado.
Rose engatilha a arma, sorrindo de forma insana.
– Se você é realmente um servo temente a Deus, então vai entender que Ele nunca aprovaria isso! – repreende ela. – Agora, diga um olá para a minha amiguinha!
– Não! Espere!
A vampira lançou a enorme e pesada armadura longe como se fosse uma mísera caixa de papelão e atirou uma bala certeiro no peito do bispo, que é empurrado para trás com a pressão do impacto e cai sentado na entrada da igreja. O disparo abriu um buraco em seu tórax do diâmetro de uma tangerina, manchando com sangue os portões da catedral. Após sua morte, a armadura que atendia por nome de Heinkel fica desorientada, talvez por está sem a parte do elmo ainda.
– Requiescant in pace! — disse Rose, soprando o cano da arma cheia de pose.
Jonh corre imediatamente até sua neta caída. Ela ainda estava viva, porém, desacordada e com uma ferida na testa. O paladino trata de fazer os primeiros-socorros.
— Graças aos céus! Você está bem! – disse Jonh, aliviado.
A vampira bufou, colocando a arma na cintura novamente.
– Graças a mim, você quer dizer! Se não fosse por mim, sua neta estaria amassada como uma bolinha de papel!
Jonh endurece a voz.
– Você tem a minha gratidão vampira, mas não pense que isso acabou por aqui! Ainda vou acertar minhas contas com você algum dia! – diz o paladino.
– Então entra na fila vovô! – responde Rose, sarcástica. – Algum dia quem sabe a gente volte a brincar!
Após arrumar seus equipamentos, Jonh pega Linne em seus braços e passa por Rose e seus funcionários, descendo os degraus que levavam a basílica. Antes de continuar seu caminho pelas ruas escuras, ele para no ultimo degrau e sem se virar, pergunta:
– Qual é o seu nome, vampira?
– Rose. Rose Valentine! – responde ela.
O paladino sorri.
– Rose Valentine... meu nome é Jonh Helsing! Um dia iremos terminar esse duelo.
– Sim, iremos.
E assim ele some no meio da escuridão da cidade adormecida. Rose estica os braços para o alto, soltando um grito animado.
– Muito bem! Terminamos nosso trabalho por aqui, meus bebês! Vamos voltar para casa que eu quero logo ver minhas verdinhas lindas, empilhadas no meu birô.
– Senhorita Rose. O que fazemos com ele? – pergunta Jin, apontando para armadura sentada perto de um poste tombado.
A vampira se dirige até ele, ficando de cócoras em sua frente.
– Estou em dúvidas se mandamos para o ferro-velho ou incineramos. – diz ela com a mão no queixo.
– Heinkel... falhou... – diz a armadura com eco na voz. Era uma voz grave e masculina. Jareth e Angelita se assombram com a fala repentina dele.
– Essa coisa fala? Que interessante! – diz Rose, impressionada.
– Heinkel... falhou... – repetiu ele.
– Seu nome é Heinkel mesmo?
– Sim – responde. – Heinkel... não ter sentido...
Sua fala era primitiva e simples, mostrando uma parca inteligência. Jin procurou seu elmo que ela havia chutado anteriormente e o devolve para o monstro.
– Você então estava sendo controlado por aquele bispo? – pergunta Rose.
– Giovanni... dar sentido para Heinkel. Heinkel não servir para nada...
Todos se entreolharam. Rose suspira, tocando no elmo dele e fechando brevemente os olhos.
A vampira conseguia ver flashes e imagens através da energia que preenchia a armadura, como se estivesse lendo um livro. Nelas, ela via um homem alto e forte, vestindo uma armadura medieval e ao seu lado, jazia uma mulher bem bonita, de cabelos longos e pretos, trajando vestidos de linho branco e possuindo vários adornos. Ainda podia enxergar como uma espécie de batalha, onde o castelo que abrigava aquela mulher fora invadido e ela morria em um ataque de vários soldados, armados com espadas e lanças.
Desolado com a morte de esposa, o destemido cavaleiro pesou amargas lágrimas e, desesperado, procura a ajuda de uma velha bruxa que morava em uma das aldeias próximas. Ela dizia que poderia reviver sua amada, mas o cavaleiro teria que pagar um alto preço para isso.
Determinado a trazer sua amada de volta a vida, ele aceita as imposições da anciã e assim ela conduz um ritual, invocando forças antigas e ancestrais para cumprir o desejo dele. O ritual é um sucesso e sua mulher ressuscita, mas o preço a ser pago foi muito alto – o homem teve que abdicar de seu corpo físico, tendo sua arma confinada em uma armadura especial, criada pela própria bruxa e privado de qualquer tipo de sensação ou sentimento. Além disso, com o passar dos anos, sua inteligência e mente, por estarem longes de sua matéria física original, iriam se deteriorar gradativamente.
Quando ela retorna, suas memórias ficam borradas e ela não se lembra do nobre cavaleiro que deu seu próprio corpo em pró de sua vida. Com isso, ela o esqueceu completamente e o cavaleiro apaixonado foi condenado à uma vida na apatia e na solidão, longe do afeto de sua amada.
– Carmilla... – murmurou ele em um tom melancólico.
Ao terminar de sondar a mente da alma que possuía a armadura, Rose sente uma profunda tristeza que veio acompanhada de suas memórias. Ela podia sentir toda a solidão, tristeza e confusão que permeavam a alma do cavaleiro Heinkel. Assim ela se levanta, se sentindo enfadada.
– O que aconteceu Rose? – pergunta Jareth, preocupado.
Ela faz uma pausa, reorganizando as ideias.
– Heinkel. O que acha de trabalhar para mim? – Todos se surpreendem com a proposta inesperada de sua chefe.
Ele levanta seu elmo e seus olhos brilhantes se incendeiam como brasas vivas, olhando para a ela.
– Carmilla... é você...
– Eu não sou a pessoa que você ama, cavaleiro! – disse Rose. – Mas se você quiser algum motivo para continuar com sua vida miserável, deixe esse lugar e caminhe ao meu lado!
– Rose, o que você está...
– Responda de uma vez! – exigiu ela com um grito.
Heinkel se levanta, ficando de joelhos a sua frente.
– Você salvar Heinkel! Heinkel servir a você – responde o cavaleiro em submissão.
– A partir de hoje, você servirá somente a mim. Eu serei sua senhora, entendeu?
– Heinkel servir a você – ele concordou, baixando o elmo.
– Bom menino. – A vampira sorriu de forma maliciosa. – Eu sou Rose Valentine e hoje eu sou sua mestra!
– Mestra... Rose... Heinkel servir Rose. – repetiu ele.
Jareth fez uma careta azeda, mirando sua chefe.
– Não acredito que essa coisa vai voltar com a gente! – resmunga o rapaz.
Rose solta uma gargalhada.
– Nem as armaduras resistem ao meu charme!
– Heinkel é nosso novo companheiro? Como devo me referir a ele? – Jin se questiona. – Tenho de ser cauteloso para não ser mal-educado com ele.
– Ela domesticou uma armadura falante! Isso foi assustador! – diz Angelita, cobrindo os olhos.
– Você me impressiona mais a cada dia. Eu hein? – comenta Jareth. – Já não recrutou esquisitões demais para a equipe?
– Vou considerar isso um elogio! – diz a vampira rindo. – Então, como eu estava dizendo, meus queridos, vamos voltar para casa!
– Agora?! Mas ainda é de madrugada! – apontou Jareth.
– E além disso, você disse que não queria comprar seus doces italianos, senhorita Rose? – relembra Jin.
– Bem lembrado Jin! Acho que podemos ficar mais um dia ou dois! – corrige, enquanto ria. – Essa cidade é muito grande e tem vários lugares para conhecer! O que me dizem?
– Por mim, tudo bem! Queria muito viajar! – Jareth concorda animado. Era primeira vez que conhecia, de fato, outros cantos da Europa. Não queria perder nenhum momento daquela viagem.
– Como preferir, senhorita Rose! – responde Jin.
– Eu... também não vejo problemas... – disse Angelita, tímida.
– Heinkel acompanhar Rose onde ela ir.
Rose sorriu, levantando seus braços para o alto.
– Então fechou! Considerem isso como a folga de vocês pelo trabalho e uma comemoração pela chegada do nosso novo funcionário!
Enquanto isso, na Transilvânia...
Abigail e Edgar acabavam de chegar ao Castelo de Bran, um monumento histórico situado na fronteira entre a Transilvânia e a Valáquia e que hoje servia de quartel-general para as reuniões da Corte da Irmandade. Também fora o palco da lendária batalha entre o conde Vlad Tepes, também conhecido como Drácula e seu irmão lobisomem, Radu. Os vários quadros e afrescos espalhados por toda a dimensão do castelo, remetem àquele dia histórico e para alguns, até folclórico.
O casal Wolfgang entra pelos portões do castelo, pega uma escadaria de pedra antiga e desgastada, chegando até a torre principal e a mais alta daquele lugar, onde se encontrava uma grande mesa redonda de mármore. Lá estavam todos os outros Reis Sem Vida, sendo que Caius Silverfang se assentava na cabeceira da mesa.
– Abigail! Quanto tempo! – Frida a recebe calorosamente com um abraço.
– Quanto tempo passastes, velha amiga! Os anos foram gentis com você! – comenta a condessa.
– Deixe as formalidades para a reunião de agora. Sinto um clima bem pesado aqui. – cochichou ela.
Caius encarava as duas, rindo com uma face maligna.
– O que é tão engraçado, Caius? – pergunta Abigail com uma voz imponente e dura.
O gigante lobisomem deu de ombros.
– Nada demais. Estou apenas muito satisfeito em rever minhas velhas rivais! – responde, indiferente.
Uma veia estourou na testa de Frida.
– Quem você está chamando de velha, seu vira-lata?! – gritou Frida, irada.
– Que povo barulhento! Irritante! – resmungou Sirius para si.
– O povo daqui está muito animado, não é irmão?
– Está mesmo, irmã! Será que eles vão brincar conosco?
– Silêncio, todos vocês! – Uma voz profunda invadiu o salão fechado. As luzes dos candelabros que iluminavam a sala se apagam repentinamente.
Um ser encapuzado adentra a sala, trazendo consigo uma espécie de bola de cristal. Todos se sentam em silêncio e esfera espelhada reproduz uma espécie de imagem, mostrando vários anciões com seus rostos cobertos por capuzes negros ou máscaras. Haviam cinco deles, sentados em uma espécie de bancada e estavam em um lugar escuro, fora dali. O do meio tomou a iniciativa.
– Reis sem Vida! Hoje iremos tratar de um assunto de natureza meticulosa. Algo que não será de grande incomodo para nós, mas que se não for detida agora, poderá vim a se tornar uma grande ameaça para todos nós no futuro.
– Parem de enrolar, seus velhos decrépitos! – Sirius se levanta, esmurrando a mesa. – Eu já sei muito bem por que nos chamaram aqui!
Eles ficam em silêncio e o ultimo da esquerda solta a voz.
– Está correto, Scarlet.
– Os senhores Wolfgang também já devem estar inteirados da situação, não é mesmo?
Abigail e Edgar permanecem em silêncio.
– E o que seria essa tal ameaça? Seja o que for, vou esmaga-la com minhas próprias mãos! – disse Caius.
O ancião do centro, cruzou os dedos.
– Ela voltou.
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