Valente. Era de se esperar essa definição para uma aluna da Grifinória que além de brilhante, também era conhecida por sua coragem. Hermione Granger era uma bruxa nascida-trouxa que teve que superar muitos obstáculos. A própria transição de um mundo normal, conhecido como trouxa, para um totalmente diferente que era o mágico já era coisa demais para se administrar. Bom, não para ela. Assim como seu nome era o feminino de Hermes, deus viajante e por isso bom com travessias, Hermione se deu muito bem entre os bruxos.

A garota que por ser tímida aos onze anos, muitas vezes era vista como inadequada para a amizade, fez dois excelentes amigos. Ronald Weasley, com quem terminou o rápido namoro há algumas semanas, e o famoso Menino Que Sobreviveu, Harry Potter. Ou só Harry para ela, namorado de sua também melhor amiga Gina Weasley. Hermione que não ousasse a chamar de Ginevra, seu nome de batismo. A mais nova dos Weasley, que costumava ser uma jovem sempre com muita atitude e bem-humorada, transformava-se subitamente em um monstro pior que a Lula Gigante e um Rabo-Córneo Húngaro juntos. Se fosse perguntada, Hermione diria preferir ser madrinha e alimentar constantemente o fruto de amor entre a habitante do Lago Negro de Hogwarts com um dragão que quis matar Harry há alguns anos a ser vítima do olhar mortal e sorriso sádico de Gina quando seu primeiro nome é pronunciado.

Barreiras tiveram que ser derrubadas para que ela chegasse onde estava atualmente, escondida atrás de uma pilastra da biblioteca e observando o garoto loiro sentado a mesa que comia uma maçã verde, para desespero de Madame Pince, caso a bibliotecária o visse. Barreiras como a transição entre dois mundos completamente diferentes, timidez e o resto de suas inseguranças, que vez ou outra davam as caras. Infelizmente, hoje era um desses dias.

Depois que Lord Voldemort foi derrotado na Batalha Final que aconteceu no mesmo castelo em que estava agora, sentimentos conflitantes a perturbavam cada vez mais. A lembrança dos olhos cinza como prata derretida voltaram com tudo a sua mente, fazendo as borboletas metafóricas dançarem felizes em seu estômago. Talvez os bichinhos quisessem sair de dentro dela e irem na direção de Malfoy, rodopiando em volta dele. Exatamente assim como ela. Quer dizer, tirando os rodopios. Em um mundo perfeito, ela preferiria ir até ele e sentar-se na cadeira em seu lado, perguntar como foi seu dia e o que estava lendo. Mas suspirou frustrada ao fechar os olhos e tentar se convencer que estava tudo bem em o mundo não ser perfeito. Teriam paz, era o importante. Os outros mais do que ela naquele momento, pelo menos. Aparentemente, respirou alto demais.

— Olá! Tem alguém aí? — Draco foi para trás ainda na cadeira e perguntou na direção em que Hermione estava. Diante do silêncio, ele tentou mais uma vez. — Madame Pince? Pirraça? — Não obtendo resposta, continuou em um tom mais baixo. — Devo estar ficando louco, isso é medo de ser pego. Estou parecendo até a Granger, ficando aqui até tarde para ler. Daqui a pouco vão me crescer cabelos de vassoura e um nariz empinado... Oh, o nariz já é assim.

Ele riu e voltou a mastigar sua maçã, convencendo-se que estava sozinho na biblioteca enquanto continuava sua leitura sobre as características das poções mais poderosas do mundo. Já a grifinória que voltou a observá-lo sorria, dessa vez sem denunciar sua posição. Quando se pôs nessa situação tão incomum? Suspeitava que a semente tivesse sido plantada em seu coração quando o garoto parou de implicar com todos no sexto ano, mas tinham coisas demais acontecendo no momento para Hermione perceber. A semente poderia ter sido plantada ali, mas só germinou na Batalha de Hogwarts ao ser salva pelo loiro. Ou melhor, com o olhar que ele a mirava depois de a salvar.

Hermione lutava bravamente contra os seguidores de Voldemort, já havia derrotado alguns Comensais da Morte e constantemente dava assistência a um colega para derrotarem um inimigo em comum. Em algum momento se perdeu de Ron e vagava sozinha por um corredor cheio de corpos quando se assustou com um vaso que foi arremessado. Pirraça, o Poltergeist, fez isso e conseguiu deixar um adversário desacordado. Ela agradeceu e continuou em busca de colegas feridos, tentando ignorar os rostos conhecidos que jaziam inertes.

Haviam morrido, mas suas mortes não haviam sido em vão, assim como as vidas não foram. A guerra já estava no fim, Voldemort quase derrotado. Ela só queria encontrar Ron e por Merlin, que ele estivesse vivo. Distraída como estava, não viu Antonin Dolohov às suas costas, a uns bons sete metros de distância. Um quadro com camponeses conseguiu gesticular a tempo antes que ela se jogasse no chão e escapasse da Maldição da Morte.

A parte boa era que ainda estava viva, a ruim é que iria morrer. Caiu de qualquer jeito, o corpo por cima do braço. Caiu em cima de muito entulho, ali ficava uma estátua que foi destruída, por mais que não desse para reconhecer. Ela não se importaria mesmo com o lugar no momento de sua morte eminente.

A varinha caiu de sua mão, parte do pulso começou a sangrar. Seus olhos embotados não conseguiam achar o objeto que era sua última salvação, mas ainda assim ela procurava. Uma voz diferente soou com uma gargalhada cruel. Hermione tateou em busca da varinha e a encontrou quando o segundo Comensal falou.

— Será que conseguimos matar essa aí duas vezes?

Foram as últimas palavras do homem, pois Draco Malfoy chegou nesse instante bradando.

— Avada Kedavra!

O olhar de Dolohov, que viu tal traição com surpresa, passou para puro ódio quando levantava a varinha. Porém Hermione foi mais rápida.

— Petrificus Totalus!

E Draco mais firme.

— Avada Kedavra!

Ela o olhou, ainda no chão. Draco engoliu em seco e devolveu o olhar, mas por Merlin… Não era o mesmo assombro que deviam estar em seus olhos castanhos que encontrou ali. Encontrar qualquer coisa em alguém que ostentava a mesma máscara de indiferença que o garoto sempre usava já seria uma surpresa, mas o que viu a deixou atônita.

Os dele estavam preocupados. Olhou seu corpo todo, provavelmente a procura de ferimentos, devido a situação. Mas quando os cinzas e os marrons se encontraram, uma nova cor poderia ser criada no exato momento, tamanha a intensidade. Preocupação misturada com a mais pura felicidade fizeram os olhos cinzentos de Draco Malfoy parecerem os mais calorosos do mundo.

Eram eles que a garota procurava com tanto afinco sempre que tinha a oportunidade, e até quando não tinha. Era o que Hermione queria ver depois, quando tudo acabou e ela continuou seu namoro com Ron, conforme ele havia anunciado para os quatro ventos, às quatro casas e todos os quartetos que fossem.

Não conseguiu dizer nada a Draco depois de ser salva, ele tomou seu pulso e murmurou um feitiço, fazendo o machucado parar de sangrar. Em seguida esboçou um sorriso que não foi retribuído, meneou a cabeça e foi embora, de forma tão súbita quanto havia chegado.

Hermione observava o garoto ir embora, e uma parte dela foi junto. Na hora não conseguiu agradecer devido a sua experiência de quase morte e ao susto talvez maior ainda que havia sido ser salva pelo inimigo de infância. Agora que o choque estava se esvaindo, um sorriso bobo ameaçou tomar seu lugar. Mas foi só olhar em volta e se dar conta da realidade de sua situação que o pesar a inundou de novo.

— Agora não, Hermione. Temos uma guerra para ganhar. — Ela murmurou para si e tentou se manter o mais atenta possível. Não iria morrer, pelo menos não agora. Era a sabe-tudo de Hogwarts, e exigia ter uma resposta para tudo aquilo, Malfoy querendo ou não dar. Ele foi embora antes que ela pudesse agradecer.

E assim os soldados de Voldemort caíram, um por um. Mortos ou presos, não poderiam mais fazer mal a ninguém. Somente a família Malfoy foi perdoada de seus crimes, Harry e Hermione depuseram a favor de Narcisa e Draco. E então a escola foi reconstruída por toda a comunidade bruxa, os alunos que sobreviveram voltaram para concluir seus estudos e em primeiro de setembro houve um memorial de guerra lindíssimo, mais uma vez com toda a comunidade bruxa presente.

A vida seguiu seu rumo, e embora não tivesse encontrado a coragem logo de cara para romper o relacionamento com Ron, Hermione logo pôde ver que sentia mais que gratidão pelo sonserino que antes era a personificação de seus pesadelos.

Os olhos dele não a deixavam em paz em momento algum, mas não fisicamente. Draco a evitava, ela chegou a pensar que estivesse arrependido em a ajudar e se envergonhasse da traição em favor de alguém com quem nunca se deu bem. Mal sabia ela que o afastamento do rapaz era por causa de seu namoro. E embora o sonserino não estivesse muito visível ultimamente, eram seus olhos que Hermione via quando fechava os dela. Era Draco que procurava constantemente, chegando a levantar suspeitas de Harry e Gina por diversas vezes.

Então há cerca de três semanas quando Ron a beijou na mesa da Grifinória e Draco viu, a culpa a consumiu ao ponto de a única reação dela ter sido pedir para conversar urgentemente com o ruivo e explicar a situação. Ron tentou convencê-la que aquilo era a maior loucura que já ouviu, mas a garota sorria ao dizer que a loucura era dela e que precisava ser sentida, se não pudesse ser vivida.

Aos poucos ele aceitou, Ron era um bom amigo. Os boatos demoraram mais tempo para se espalhar do que normalmente demorariam, afinal Hermione sempre foi muito discreta com o relacionamento. Já outro sonserino não se importava com discrição.

— Granger! — Blás Zabini estava no lado oposto da sala, então quase gritou no meio da aula. — Ainda está namorando com aquele Weasley? — Apontou para Ron que o encarava, não tão vermelho como Hermione. Draco que estava ao lado do amigo só escondeu o rosto nas mãos enquanto Blás continuava seu show.

— Não. — A garota respondeu simplesmente.

— E com os outros? — Ele conseguiu arrancar risos de todos, inclusive da grifinória.

— Não estou namorando com ninguém, está bem?

— Está ótimo, sabe-tudo. Vamos estudar antes que o professor nos mate.

— Jovens… — Horácio Slughorn se contentou em comentar enquanto suspirava com um ar sonhador.

Isso tinha sido há pouco mais de uma semana, e coincidentemente, a presença de Draco nos lugares comuns do castelo ficou mais assídua a partir daí. Naquela tarde Hermione foi a biblioteca para tentar se concentrar em outra coisa que não uma garota ou outra se oferecendo para Draco. Não se importou em ficar em um corredor para ler, mas então Draco chegou e a valentia pela qual os grifinórios são tão conhecidos a abandonou e agora não conseguiria mais sair dali sem levantar suspeitas do motivo de ficar escondida por tanto tempo.

Contar a verdade estava fora de questão, mas ela não era conhecida como a garota mais inteligente da geração à toa. Daria seu jeito, como já deu para tantos problemas ao longo da vida. Estava de costas para a entrada do corredor pensando em um jeito de se safar quando a voz de Draco soou bem atrás de si.

— Granger! O que faz aqui?

A voz que chegou inesperadamente junto com o tom de irritação assustou Hermione sobremaneira. Ela levou a mão ao peito e se virou.

— Ai, meu coração! Quer me matar, garoto?

— Você está bem? — Ele perguntou ao se aproximar, os olhos eram novamente de prata derretida. Mas será que a garota tinha que quase morrer para vê-los? Isso não parecia muito justo. A mão que foi para o peito como uma forma automática de proteção voltou a descansar ao lado do corpo, e ela respondeu.

— Dor nas costas, somente. Eu não devia ficar sentada no meio do corredor para ler, sou mais… Espere. — Ela riu com deboche. — Por que eu te diria essas coisas? Você não pode esperar que eu conte a verdade assim como não espero que se importe. Com licença, Malfoy. — Mas enquanto deixava Draco embasbacado para trás, se arrependeu e disse algo que estava preso em sua garganta há muito tempo. — E Draco… Muito obrigada por salvar minha vida. Serei eternamente grata.

— Granger, espere. — Ela esperou, enquanto o garoto se aproximava mais uma vez. — Me chamou de Draco?

— É seu nome, não é? Não acredito que só registrou isso do que falei, mas tudo bem.

— Sim, é meu nome. — Ele ria enquanto passava a mão pelo cabelo. — De agora em diante posso te chamar de Hermione também?

— É meu nome, não é? — E então a garota sorriu, deixando a implicância de lado.

— É sim. Sempre gostei do seu nome. Quer saber outra coisa que eu gostaria? Que pegássemos algo de bom na cozinha e que fôssemos jantar na Torre de Astronomia.

— Como é?

— É minha condição para aceitar seus agradecimentos. Fiquei muito tempo aqui esperando que aparecesse depois que sumiu do Salão Principal.

— Você…

— Eu sei que é mais inteligente que isso, Hermione. É possível que depois eu não me orgulhe muito de te chantagear para ter um encontro, mas neste momento não me importo. Quem sabe os outros você não aceite por obrigação. — Estendeu a mão. — Você vem?

— Sim.

Uma simples palavra que foi respondida também quando a pergunta era feita por um oficial do Ministério da Magia querendo saber se Hermione aceitava se casar com Draco Malfoy. Mas adianto-me, adianto-me… Por ora basta saber que a valentia Grifinória não está lá o tempo todo e que isso pode ser muito bom. Basta saber que ela tomou a mão estendida e teve um belo encontro, com tudo que tinha direito. O rapaz por quem estava apaixonada a sua frente, comida boa, sentimento recíproco, assim como uma bela vista e muitas gargalhadas. Que o clássico beijo no final do encontro foi o primeiro de muitos, que o namoro tinha brigas como qualquer outro, mas tanto amor que foi impossível para os outros não torcerem pela felicidade do casal. Basta saber que foram felizes, o sonho da vida de qualquer um.

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