Valente
3 III
Notas iniciais

Scarlet
Tudo havia começado nesse hotel. Àquela altura, eu não saberia dizer exatamente o que era tudo, mas havia certamente começado lá. Ou pelo menos eu nunca havia notado outros acontecimentos parecidos antes.
Eram coisas pequenas, no início, que passariam despercebidas por qualquer pessoa um pouco mais agitada. Eu, porém, havia percebido e estava cada vez mais apreensiva. Quando chegamos no hotel, eu acreditava, convicta, de que havia uma explicação racional para tudo que acontecia.
Por isso não mencionei a ninguém quando fui pegar um panfleto do balcão e ele caiu no chão bem quando fui pegá-lo, como se um vento tivesse o soprado, mas não havia sequer uma janela aberta no hotel devido ao ar condicionado. Não mencionei quando fui ao banheiro do saguão e pensei ter visto, por meio segundo, um vulto no canto do banheiro pelo espelho. Não mencionei como, sozinha e indo em direção ao meu quarto, as luzes do corredor falharam e ficaram piscando até eu chegar a minha porta, quando finalmente se estabilizaram de novo.
Portanto, não acharia relevante mencionar como, ao sair da suíte de Aidan, onde George e Bexi estavam tendo uma sessão, eu caminhava pelos corredores do hotel com calafrios. Aidan me esperava na área das refeições do hotel, querendo fazer um lanchinho antes de partirmos para o centro da cidade. Assim que eu havia saído da suíte e começado a caminhar, parecia que algo estava me empurrando para frente, como um vento forte quase me carregando. Tão repentinamente como veio, porém, parou, e fiquei no meio do corredor, atônita por alguns minutos antes de conseguir voltar a andar.
Essas coisas pareciam só acontecer quando eu estava só e, apesar de terem começado cerca de vinte e quatro horas atrás, somente aconteciam quando eu já havia abaixado a guarda e não esperava tão cedo por outro incidente.
Eu ainda debatia comigo mesma se deveria discutir isso com alguém. Por um lado, eu tentava manter meus pensamentos longe disso, dispensando preocupações com a desculpa de que tinha, logicamente, uma explicação plausível para todos os ocorridos e que eu iria parecer uma tola me preocupando com isso. Imagine se eu revelasse ou demonstrasse qualquer medo dessas coisas, tão bobas? Esses lobisomens todos iriam voltar a me ver como a raposinha que acreditavam que eu era, mas não somente isso. Veriam-me como a pequena raposa amedrontada. Ah, eu iria morrer antes de admitir medo a qualquer um deles, até mesmo Riley. Poderia contar à Becca, se ela estivesse aqui, mas justamente por causa dela precisava ser forte para a ajudar.
Quando eu parava para refletir sobre a pequena parte de mim que se amedrontava com essas coisinhas, sentia-me mais frívola ainda. O que eu era, afinal, se não um ser sobrenatural? Desconhecida pelo mundo, pela ciência? Tanto eu, quanto os lobisomens que me cercavam e eu chamava de amigos, de amantes; O que éramos, do que éramos capazes? Minha própria melhor amiga, parte dela era literalmente um fantasma! Se fôssemos maus, podíamos realmente tornar a realidade de muitas pessoas em um filme de terror, grotesco e assustador.
Então por que passar tanto tempo remoendo essas coisas? Por que, de repente, ficar com o corpo todo tenso quando eu percebia que estava sem a companhia de alguém?
Ninguém visível, pelo menos…
Era irritante, em parte, não saber o que estava acontecendo comigo, ou se havia, de fato, algo acontecendo. Eu repetia em minha mente: Era inexplicável? Não, eu apenas não tinha as respostas, mas alguém teria.
Mesmo assim, mesmo com todas as minhas tentativas de me convencer de que tudo não se passava de imaginação fértil, problemas elétricos no prédio, a luz brincando com minha visão, eu ficava estalando meus dedos de forma nervosa e olhando por detrás do meu ombro enquanto caminhava.
Apenas consegui relaxar quando encontrei Aidan. Ele não era meu Alpha nem nunca representaria para mim nada parecido com um líder. Porém, ele era companhia, e aquela parte de mim que insistia em temer se aliviou.
Pegamos um táxi até o endereço no centro da cidade, um museu, o qual Robert havia passado para Aidan. Robert já havia ido ao encontro dos Selvagens horas antes, para cumprir seu papel político, muito tedioso ao meu ver. O caminho até lá permaneceu em silêncio, mas eu sentia que não era voluntário. Aidan, no passageiro, parecia inquieto. Era de se esperar, iríamos descobrir as respostas às perguntas que, há semanas, precisávamos responder. Porém eu estava no banco de trás e não tinha como conversarmos sobre isso na frente do taxista.
Quando finalmente chegamos ao nosso destino e Aidan pagou e mandou o taxi embora, ele grudou do meu lado enquanto entrávamos.
— O que você acha que vão nos dizer? — falou rápido, quase vomitando as palavras. Era visível a necessidade que esteve passando dentro do carro para discutir o assunto. Agora que estávamos cada passo mais perto das respostas, ficávamos mais sedentos por especulação.
— Honestamente, — falei com um suspiro. — não faço a menor ideia. Posso ser uma Selvagem como eles, mas estou tão no escuro quanto você.
Ele bufou, inquieto e apressando o passo. Acompanhei-o.
— Tentei pensar mais a respeito, mas não consigo imaginar nada que uma tribo de Selvagens possa saber ou como podem nos ajudar — acrescentei, agradecendo com um aceno quando ele segurou a porta para mim. O ar condicionado do museu era refrescante e fiz uma anotação mental para reclamar ao Riley sobre ainda não estar tão fresco no fim de tarde como ele prometera.
— Sua posição é compreensível — respondeu sem me olhar, ocupado tentando descobrir para onde deveríamos ir em seguida. — Cresceu sem conviver com ninguém de sua espécie — prosseguiu, parecendo ter achado um caminho. — Imagino como seria se eu estivesse em seu lugar. Provavelmente me surpreenderia com as coisas que tenho o potencial para fazer, para saber, mas que nunca foram ensinadas a mim.
As palavras dele me deixaram mais esperançosa, inclusive pensando nos acontecimentos bizarros do hotel. Talvez meu povo pudesse me ajudar. Ou talvez eu nem precisasse de ajuda, pois, como ele dissera, talvez eu não soubesse meu real potencial. Ao mesmo tempo, contudo, esses pensamentos me deixaram tristes.
— Pode ser, — continuei, observando as obras de arte típicas da região enquanto passávamos. — mas eu me sentiria um verdadeiro lixo se soubesse que, esse tempo todo, eu poderia ter feito algo pela Rebecca que não fiz. Algo pelas duas.
Nessa hora, ele parou pela primeira vez e me encarou nos olhos. Puxou-me para me fazer parar, pois estávamos andando apressados, e me segurou pelos ombros.
— Scarlet, se tem uma pessoa que não precisa sentir remorso, é você. Você esteve ao lado dela desde a luta com Roman. Ao lado tanto de Bexi, quanto de Rebecca. Tem sido uma grande ajuda para todos, principalmente para mim. Sabe que você é a única em quem tenho plena confiança em relação ao corpo de Rebecca e aos seus cuidados.
Meu rosto começou a esquentar e senti um peso dentro do me peito teimando em me fazer chorar.
— Você não deve se culpar por coisas que estiveram longe de seu alcance por causa de terceiros.
Notei que ele não quis mencionar quem eram esses terceiros, mas seu tom deixava claro que estava se referindo ao seu próprio Alpha, homem que estivera perdendo o prestígio de Aidan desde nosso último dia em Las Vegas.
— Sem rastro de dúvidas sei que você faria e fará de tudo para salvar Rebecca, desde situações drásticas como essa, como coisas mais banais, como pintar as unhas dela. — Ele riu baixinho, e me dei conta de que ele provavelmente notava cada detalha que eu fazia com Rebecca. Será que sabia que eu aparava suas sobrancelhas, também?
Tive que rir e me forcei a engolir o choro. Ele tinha razão, eu faria de tudo, e chorar agora não faria bem algum à Becca. Precisava seguir em frente e pensar nela, tornar-me a melhor Selvagem possível para poder ajudá-la.
— Obrigada, Aidan — Sorri e o puxei de volta para continuarmos a andar. — Mas agora vamos, pois temos uma loba pra salvar.
—x-
Aidan
O escritório dele era como nada que eu havia visto antes. Nem parecia um escritório, mas sim uma ala a mais de exposições do museu. Suas prateleiras e estantes estavam cheias de ornamentos antiquíssimos dos povos latinos, enfeites feitos de ouro pelos Astecas, Maias e poucos dos Incas. Havia um par de brincos de ouro, enorme e triangular que facilmente ocupava metade de minha palma, que não era pequena. Estava em destaque em sua mesa, protegido por uma caixa de vidro, mas não havia nenhuma inscrição ou placa com informações.
— Belo, não é?
Virei-me para cumprimentar o dono daquela voz rouca e carregada de sotaque, arrependendo-me um pouco de não ter dado tanto atenção à língua espanhola no meu ensino médio. O Sr. Gutierrez, gerente do museu, fechou a porta atrás de si. Já estava perto de se aposentar, ou pelo menos aparentava estar, e usava um bigode branco que, apesar de eu ter achado um pouco cômico, combinava com sua aparência.
Demorou um pouco a retornar a sua sala, onde havia me deixado, mas era compreensível. Ele tinha levado Scarlet para conhecer os outros funcionários do museu, alguns sendo seus próprios filhos. Eu tinha a impressão de que pelo menos alguns seriam também Selvagens. Tinha certeza de que ela também achava, pois escondeu seu nervosismo muito mal quando nos despedimos.
— É uma peça e tanto — respondi, verdadeiramente impressionado em como, desde antigamente, os humanos conseguiam produzir acessórios tão belos.
— É muito valiosa, feita de ouro puro e maciço. De um ponto de vista histórico, não tem nada de muito especial, não mais do que qualquer outro par de brincos da época. — Ouvia com atenção, agora não mais olhando para o par de brincos, mas para os olhos gentis do Sr. Gutierrez. — Porém, particularmente para mim, é a peça mais rara do museu inteiro.
Fiquei extremamente curioso quanto a isso, e tinha certeza de que minha curiosidade transbordava pela minha expressão. Isso ou Sr. Gutierrez já era experiente o suficiente trabalhando no museu para saber quando um visitante estava sedento por mais conhecimento.
— Deve estar confuso, Sr. Rucker, sobre o motivo de essa peça não ter nenhuma placa informativa, se é tão valiosa para mim, não é mesmo? — Assenti, virando-me novamente para o brinco enquanto o senhor se dirigia até sua mesa e se sentava em sua poltrona. — Por favor, sente-se, Sr. Rucker.
Sentei como me pedira e esperei por sua explicação. Ele abriu uma gaveta e retirou uma caixinha de charutos. Ofereceu um para mim antes de acender o seu, mas educadamente recusei.
— Sei que essas coisas não tem muita graça para vocês, — falou dando sua primeira tragada e soltando a fumaça lentamente. — mas alguns gostam apenas para manter o hábito ou as aparências.
Fiquei pensando se Robert não teria aceitado um anteriormente, então.
— Acontece que essa peça possui, para mim, um valor diferente do esperado — continuou a me explicar. — Não é, como falei antes, mais valiosa monetariamente do que outras várias peças que temos expostas. Também não pertenceu a ninguém historicamente relevante. Porém, para meu povo, é um símbolo do nosso nascimento.
Imediatamente entendi o que ele quis dizer. Robert não havia me confirmado, mas eu supunha que o gerente com o qual ele queria que eu falasse fosse um Selvagem. Quando o Sr. Gutierrez mencionou seu povo, só podia estar falando de sua raça sobrenatural, e não sobre o povo da região.
— Sr. Gutierrez, — aproveitei a pausa que ele deu para perguntar. — o senhor é um Selvagem, ou apenas um historiador com conhecimentos sobre o sobrenatural?
— Por favor, pode me chamar de Miguel — pediu, e em seguida riu de minha pergunta.
— Tudo bem, o senhor pode igualmente me chamar apenas de Aidan. — Retribuí com um sorriso.
— Sou ambos, Aidan — explicou. — Se bem que sim, antes de me tornar historiador com especialidade no sobrenatural, nasci com a habilidade de me transformar em uma ágil águia. Habilidade não tão incomum aqui, pelo que sua jovem colega me confessou, quanto é no seu país. — Concordei com um aceno de minha cabeça.
— Scarlet cresceu sozinha e sem saber que havia outros como ela.
— Bem, iremos remediar isso, pode ter certeza. Ela já deve estar se sentindo em casa a essa hora. — Com isso, confirmou minhas suspeitas de que ele havia a levado para conhecer seus familiares, da mesma forma que uma alcateia é a família de um lobo. — Esses brincos, Aidan, — voltou ao assunto anterior. — pertenciam à grandiosa Erandi, a primeira dos Selvagens.
Erandi, primeira dos Selvagens. Posicionei-me mais a frente, apoiando meus cotovelos em meus joelhos, prestando o máximo de atenção possível. Achava que Scarlet também deveria estar ouvindo esta história, mas queria gravar cada detalhe para compartilhar com a raposa, caso ainda não tivessem contado a ela por algum motivo.
— Erandi não era uma moça importante em sua sociedade, era apenas mais uma jovem na civilização Asteca. — Assenti, lembrando que na América Pré-Colombiana, o atual México tinha sido ocupado principalmente pelo Império Asteca. — Contudo, seu avô era um sacerdote, um senhor tão ligado aos espíritos e à natureza que era o homem mais velho de sua cidade e considerado o mais sábio. Quando os europeus chegaram, os outros sacerdotes, preocupados, buscaram o conselho do avô de Erandi, pois todos tinham um grande respeito por ele. Seu conselho havia sido de, se os europeus se mostrassem vilões, fazerem uma oração coletiva, um apelo aos deuses e aos espíritos por ajuda, pois era a única coisa que podiam fazer. Acreditavam fortemente em destino e nas decisões divinas. O que os deuses quisessem, iria acontecer, por isso decidiram que rezar e fazer sacrifícios iria deixar os deuses satisfeitos com seu povo, dando a eles proteção e triunfo.
O Sr. Gutierrez fez uma pequena pausa, mas não quis interrompê-lo. Portanto, continuou:
— Claro que sabemos, pelo que a história nos contou, que nenhum dos povos originários das Américas ganhou nenhuma de sua lutas, mas realmente tentaram. Erandi não era a única neta do grande sacerdote, pelo contrário, todos os jovens da cidade foram escolhidos, mas, por ela ser a mais velha, foi a primeira a ser sacrificada.
Fiz uma cara surpresa, o que arrancou um sorriso do homem.
— Não se preocupe, Aidan, não foi o tipo de sacrifício que você tem em mente — explicou, dando mais uma tragada em seu charuto. — Ele não faria isso com os próprios netos. Reuniram-se todos os sacerdotes da cidade em torno de uma fogueira gigante, a maior já feita no local. Todos os cidadãos também foram chamados, rezando aos deuses durante todo o processo. Os selecionados, começando por Erandi, esperavam em pé sua vez de atuar, ao lado dos sacerdotes. O avô de Erandi, então, iniciou uma prece que todos acompanharam, inclusive os selecionados, pedindo aos deuses, à natureza e aos espíritos para dar a eles a essencial força e proteção contra os invasores.
Apontou para o vidro com o par de brincos, abrindo um sorriso.
— Ela estava usando esses brincos no ritual.
Voltei minha atenção aos brincos mais uma vez, agora olhando para eles com novos olhos, sabendo das coisas que aquela joia havia presenciado.
— Após a oração, Erandi foi incentivada a andar até as chamas. Sim, — falou antes de eu poder interrompê-lo para confirmar se havia entendido direito. — ela literalmente adentrou a fogueira. Acreditavam que, dessa forma, os deuses conseguiriam passar suas dádivas aos escolhidos. Os sacerdotes tinham em mente algo como um exército de guerreiros e guerreiras iluminados com vasta inteligência, força física e habilidades bélicas nunca antes vistas. Não foi bem isso que receberam.
Soltou uma risada para si mesmo, como se a piada fosse somente dele, e abriu a gaveta para pegar mais um charuto. O Sr. Gutierrez parecia ter um vício, então. Agradeci por ser da raça dos lobisomens e ser imune a esses perigos.
— Erandi, para a surpresa e maravilha de todos, não sentiu dor ao adentrar as chamas, não emitiu um grito ou gemido sequer. Quando, por fim, saiu da fogueira, não saiu queimada. Também não saiu com seu corpo habitual, nem com nenhuma forma humanoide. No lugar de Erandi, estava um lindo jaguar pintado. O povo ficou espantado, mas logo perceberam que essa era a bênção escolhida pelos seus deuses, essa era a arma que iriam usar para vencer os europeus. Um por um, os selecionados atravessaram a fogueira, cada um assumindo uma forma diferente de predador local.
— E assim nasceram os Selvagens — adivinhei.
— E assim nasceram os Selvagens — repetiu, assentindo. Notei que ele parecia orgulhoso de suas origens, mesmo com sua raça tendo declinado muito ao longo dos séculos. — Mas não fomos exclusividade nem do Império Asteca, nem dessa época. A maior parte dos Selvagens vieram mesmo da leva de Erandi e, daí para a frente, de seus descendentes. Mas há relatos sobre os índios norte americanos terem Selvagens, os Incas nos Andes, os Tupi-Guarani no Brasil. Meus netos em algumas viagens para a Austrália e para a Sibéria, descobriram que os aborígenes e esquimós da região também possuíam Selvagens. Tudo sendo uma espécie de arma para se defenderem de seus respectivos invasores.
— Mas os primeiros, a primeira de fato, foi Erandi?
— Sim, Aidan, nossa Erandi. Por isso, para mim e para minha tribo de Selvagens, esses brincos são o símbolo de nossa origem. Temos muito orgulho de sermos descendentes dos primeiros de nossa espécie. — Assenti, conseguia compreender o sentimento. Apostava que a família Latham deveria se sentir de forma semelhante. — Mas, enfim, não foi por causa disso que você veio até aqui. Por mais feliz que eu fique em dividir a história de nossa mãe maior e nossa espécie, sei que deve estar muito preocupado com sua amiga.
— Ela é mais que uma amiga, — disse. — é minha responsabilidade. Como Alpha dela, eu já não devia ter permitido que algo tão horrível lhe acontecesse, mas deixei. Agora irei consertar as coisas.
— Claro, entendo. Robert me deixou a par de tudo que aconteceu anteriormente. — Olhou me com com empatia. — Sinto muito por tudo que passaram. Mal consigo imaginar como deve ter sido assustador, principalmente para a pobre moça.
— Está sendo assustador. — Decidi ser sincero com ele. — Não sabemos o que podemos fazer, não sabemos se podemos fazer qualquer coisa. Viemos com a esperança de que vocês tivessem as respostas, mas mesmo assim, não sabemos como ela ficará depois de tudo, se ela será a mesma Rebecca de antes… — Abaixei minha cabeça, tentando esconder minha preocupação. Não podia fraquejar agora.
— Iremos ajudá-los sim, Aidan. Não se preocupe quanto a isso. Como contei a você, viemos da natureza, dos deuses, dos espíritos. Nascemos deles. Sabemos o que fazer. — Levantei a cabeça para encará-lo. — Os lobisomens não são tão diferentes de nós quando se olha atentamente. O que ligou Erandi ao seu lado animal, seu jaguar, foram os espíritos. Quem ligará sua amiga a sua loba, também serão os espíritos.
Encarei-o confuso.
— C-como assim?
— É difícil de explicar, principalmente para alguém que não vive a cultura e nunca vivenciou nada do tipo. — Suspirou, mas tentou me explicar. — Tudo que nos liga, os Selvagens, a esse mundo está no mundo espiritual. Nunca tiveram casos como o de vocês, de um lobisomem perder sua habilidade de se transformar, mas estamos apostando que seja similar.
— Selvagens perdem a habilidade de se transformar? — perguntei. — Que eu saiba, os Selvagens não têm, como nós, outro espírito dentro deles.
— É verdade, somos um só. Mas, enquanto vocês são sempre dois, nós somos um e ao mesmo tempo vários.
Pisquei algumas vezes, deixando minha completa confusão transparecer para ver se ele me explicava melhor tudo isso. Segurei-me para não bufar de impaciência.
— Vocês não sabem sobre isso, pois sua única conhecida da espécie também não sabe. — Sorriu, achando graça de minha confusão. — Scarlet irá aprender logo.
Pude notar em sua expressão que estava genuinamente feliz por outra dos seus ter achado seu caminho de volta pra casa, e agora aprenderia o que podia realmente fazer com suas habilidades.
— Nós Selvagens nascemos com o dom de virarmos um animal, certo? — Concordei. — Esse animal é o que melhor nos representa, com o qual nos identificamos mais e, claro, dependendo de onde nascemos, recebemos um animal daquele habitat. Porém, não precisamos ficar presos a uma forma só. — Arregalei meus olhos ao ouvir essa informação e o Sr. Gutierrez achou graça novamente. — É verdade, Aidan. Com o tempo e a fortificação de nossos laços espirituais, podemos adquirir a habilidade de nos transformar em animais além daquele nosso de origem, vários outros.
— Isso é… incrível — lutei para achar a palavra certa, mas somente essa descrevia o que realmente estava passando pela minha cabeça.
— Obrigado, Aidan. — Apagou seu segundo charuto e agora parecia estar satisfeito. — Entretanto, o método que temos para desenvolver nossa espiritualidade é através da meditação — continuou a explicar. — Para quem está apenas observando, não enxergam nada além do Selvagem parado, imóvel, em seu estado de paz. Ali, porém, está apenas o corpo. A alma está no mundo espiritual, adquirindo conhecimento e passando por testes para provar aos espíritos de que é merecedor. Entende aonde quero chegar?
— Mais ou menos, Miguel. — Tudo isso era muito interessante, de fato, e eu certamente levaria Scarlet para comer fora antes de voltarmos para o hotel para dividirmos nossas descobertas. Mas eu não estava, na verdade, entendendo o que isso tinha a ver com a Rebecca.
— Acredito que o espírito humano de sua amiga esteja preso no mundo espiritual. — Não teve como eu não reagir a isso. Ela estava presa sei lá eu onde, e sei lá como iria fazer para pegá-la de volta.
— O quê?!
— Calma, não se desespere. Não é nada fácil de se fazer, mas não é impossível.
‘Calma? Calma?! Como esse cara espere que eu fique calmo em uma situação dessas?’ Berrava meu lobo internamente, tendo se controlado até aquele momento e ficado apenas a ouvir. ‘É da Rebecca que estamos falando! Como vamos fazer isso? Não sabemos por mais quanto tempo o corpo dela irá aguentar esperar, e não sabemos o que pode acontecer com Bexi enquanto está fora. E se ela sumir? Ela é um fantasma agora, Aidan, não é normal ela ficar aqui dessa forma. Uma hora ela vai embora, não poderá viver como um espectro até o fim dos tempos. E se a perdermos? Ambas?’
Tive que respirar fundo para não transmitir nossos sentimentos de raiva e desespero para o Sr. Guterrez.
— Desculpe-me, Miguel, mas ainda não entendi como isso seria possível. Não sei como entrar no mundo espiritual, e muito menos como achar Rebecca se conseguir entrar lá. Não tenho muito tempo para o senhor me ensinar-
Eu pretendia continuar, mas ele me interrompeu no meio da frase
— Desculpe, Aidan, mas acho que você realmente não entendeu o processo, — Encarei-o esperando logo respostas concretas.
— Por favor, Miguel — falei com um suspiro, reprimindo meu lobo de volta para o fundo de minha mente por ora. Ele estava muito agitado, não para de martelar minha cabeça com perguntar para as quais eu não tinha as respostas nem força para ouvir. — Eu preciso saber o que fazer, deve haver uma maneira mais fácil, mais rápida.
— Aidan, — Quem suspirou dessa vez foi o Selvagem e, antes de continuar, apoiou seus cotovelos em sua mesa para se aproximar de mim. — não é você quem vai salvá-la. Para poder encontrar sua amiga em meio aos espíritos, precisa-se sim ser uma pessoa próxima a ela, com uma forte ligação com a moça em questão. Mas essa pessoa… sinto, Aidan, mas não poderá ser você. Apenas Selvagens, por serem filhos dos deuses da natureza e abençoados pelos espíritos, têm a capacidade de adentrar seu mundo. Talvez até pudéssemos tentar doutriná-lo para entrar na planície dos espíritos, mas levaria muito mais tempo; muito mais tempo mesmo.
Fiquei imóvel, estático. Eu não poderia fazer nada pela Rebecca? Seria inútil mais uma vez, como quando permiti que ela fugisse com o idiota do Mathias e fosse levada embora por Roman e seus capangas?
— Aidan, — chamou-me novamente, percebendo certamente meu desespero e conflito interno. Eu era seu Alpha, eu deveria poder salvá-la! — iremos treinar Scarlet bem, disso pode ter absoluta certeza. Quando ela estiver pronta, e prometo que isso também não irá demorar, ela se conectará ao mundo espiritual, e lá achará sua amiga.
Meu olhar caiu de volta à peça protegida pela caixa de vidro. Erandi, a mãe dos Selvagens… Eu estava em seu território agora. Ela era uma Alpha invisível em um território invisível. Estava imerso agora em seu mundo, sua cultura. Querendo ou não, eu precisava obedecer às regras dela. Precisava respirar fundo, dar dois passos para trás e deixar Scarlet assumir as rédeas.
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