Vai uma pizza?
1 Prólogo — O novo entregador
A campainha soou pelo pequeno apartamento com estridência, fazendo Ino xingar, estressada, e largar o secador desajeitadamente na penteadeira para ir atender quem quer que fosse.
Ela mal chegou à porta e já tinha se arrependido de pedir uma pizza média. Aquilo acabaria com sua deita do mês! Infelizmente, era uma daquelas pessoas que descontava todas as frustrações e tristezas em uma quantidade exorbitante de carboidratos e açúcar refinado.
No momento que abriu a porta, foi recepcionada com uma lufada de fumaça de cigarro, que adentrou no seu nariz queimando tudo. Tossiu, se perguntando o que diabos era aquilo.
Assim que conseguiu focar a visão, avistou um cara ruivo exibindo um sorriso preguiçoso enquanto tragava o cigarro outra vez. Como se ela não tivesse acabado de ter um acesso de tosse há poucos segundos.
Que abusado! A lei de Murphy só poderia estar tirando uma com a sua cara. Não havia outra explicação para sucessão de situações desastrosas que passara desde o dia anterior.
Visualizou-se socando a cara dele com um daqueles golpes que a Yoo Hye Jung, de Doctor Crush, aplicou naquales seguranças. Com direito a chave de braço e membros destroçados, mas não tinha coordenação nem habilidade para isso...
— A pizza de Shimeji e palmito é para aqui? — A voz dele cortou sua linha de pensamento.
Ino teve a sensação que já havia escutado aquele timbre rouco e baixo em algum lugar, porém logo afastou o pensamento.
— Sim — respondeu, concisa, afastando o resto da fumaça com a mão para ver se ele se tocava.
Não funcionou, pois ele deu outra tragada, essa ainda mais forte.
— Qual o seu problema, ô, garoto? — questionou ela, irritada com tamanho desaforo.
Imaginou que tipo de situação os donos da pizzaria estavam para contratar alguém tão... mal-educado. Tudo nele gritava problema; desde a roupa rasgada ás inúmeras tatuagens que podia ver em quase todas as poucas superfícies não cobertas, até mesmo na cara.
Parecia um completo marginal.
— Como? — Ele fez uma expressão de desentendimento.
Isso deixou-a mais estressada ainda.
— Você está fumando bem na minha cara, mesmo eu já tendo deixado claro que isso me incomoda.
— Tenho certeza que seu carro produz bem mais fumaça e você não reclama dele. — zombou. Antes que Ino pudesse replicar, ele completou. — Deu 25 reais e 50 centavos. Vai ser à vista ou no cartão?
Ficou o olhando por longos segundos em uma expressão embasbacada, todavia, logo se recuperou ao ver um sorriso sarcástico surgir no rosto dele.
Odiava parecer uma completa pateta.
Quando vivenciava qualquer situação que saia do seu controle ou hábito, até mesmo quando sentia muita raiva, a mente de Ino dava uma espécie de Bug que a impedia de pensar com clareza. Por isso, em vez de responder, puxou a caixa da mão dele com brusquidão e jogou o dinheiro em sua cara, fechando a porta com força em seguida.
Pensou ter escutado um “Nojentinha mimada”, que preferiu ignorar.
Atacou a pizza sem dó nem piedade enquanto amaldiçoava até a quinta geração do entregador.
Fale com o autor