Vaes Tolorro
1 Vaes Tolorro
– Você só pode estar brincando – disse o guarda que estava na porta. – Não estava aqui, eu iria me lembrar desse teu cabelo de viado.
Metade dos que estavam na fila para entrar na exclusiva festa do Magister Pan Da Monium torceram a cabeça para escutar a confusão. A outra metade se afastou para que, no provável caso de o guarda cortar a garganta do carinha esquisito de cabelo azul, não manchassem seus vestidos de seda. Dany Tray, de 13 anos, que estava com seu BFF, Sor Jiron, chegou bem perto para não perder o barraco, e se possível, entrar de fininho no meio da confusão.
– Eu juro que estava lá dentro, — disse o rapaz de cabelo azul – eu voltei porque esqueci o meu manto.
Dany ficou olhando meio embestalhada para o rapaz. Preciso perguntar qual é o salão que ele faz o cabelo, ela pensou. Da última vez, tinha sido um desastre. Ela queria Platina, mas a cabeleireira deve ter usado uma tintura vagabunda (não da Casa Wella) e ficou mais para Ouro Branco. Além disso, errou feio com as sobrancelhas. Ela mandou queimar a maldita cabeleireira viva, mas não deu tempo para arrumar antes da festa mais badalada de Nova Pentos.
– Tá, pode entrar – disse o guarda. Ele parecia meio tonto, como se estivesse hipnotizado.
O rapaz de cabelo azul entrou na festa, e, vendo que o segurança ainda estava meio besta, Dany agarrou o braço de Jiron e o arrastou para a festa. A festa era como todas as outras, com musica boa, comida e bebida à vontade, dança da garrafa, gente pelada pendurada no lustre, luta na lama com girafas, banho numa piscina de pudim de limão com cobras venenosas e caranguejos gigantes, esse tipo de coisa normal.
Sor Jiron parou.
– Dany, — ele disse – a gente tinha convite, até coleira VIP. Não precisava entrar de penetra.
– É, mas assim não tem graça – Dany respondeu, se sentindo meio ofendida com a insinuação dele de fazer uma coisa honesta – Além disso, gostei daquele cabelo.
– Você tá a fim dele, não tá? – Jiron rebateu, todo ciumento – Porque eu posso...
Dany não estava com paciência para os pitis de Jiron.
– Preciso te mostrar o certificado de novo? – ela perguntou, interrompendo o mimimi. Ele ficou quieto. Quando o Rei decretou que agora a Friendzone era um estado civil oficial, e que ficar forçando a barra resultaria em pena de morte, e não uma morte legal, perdendo a cabeça, mas morte até ter um derrame ouvindo as piadas horríveis do Bobo Fifi, Dany foi uma das primeiras a oficializar a relação.
Eles foram em silêncio para a pista de dança, Sor Jiron de cara emburrada. Não que ele fosse ruim, ele até dava para o gasto. Ele era magricela, com o nariz grande e olhos pequenos, e não tinha muita coordenação motora. Ele teve a infelicidade de escolher um gibão com a frase “FEITO NA ILHA DOS URSOS” bordada na frente. Desse jeito ele iria ser comido vivo no exército. Mas como Bestie ele até que era legal, tirando a parte de ele ser um mala e que ele só era cavaleiro quando jogava RPG*.
*RPG: um jogo de taberna, só que sem a taberna. É o acrônimo de Rindo Pra Garamba (o bobo Cara Abestalhada, que foi o inventor do jogo, era semianalfabeto, mas o nome pegou assim mesmo). O jogo geralmente consistia em um grupo de cavaleiros bêbados que não tem o que fazer que se vestem de mulher e cantam desafinadamente músicas de cantoras famosas. Porém, alguns cortesãos entenderam tudo errado e acharam que o jogo era para fingir que eram cavaleiros. Então essa última variação do jogo acabou ficando mais famosa, apesar de se poder encontrar cavaleiros vestidos de mulher com extrema facilidade, mas nem sempre é de brincadeira.
– ... e então o cheiro era horrível, pior do que quando você esquece de lavar a periquita... – dizia Jiron, mais um monte das besteiras aleatórias que ele adorava dizer. Dany estava, como sempre, fingindo que ouvia, enquanto procurava pela multidão o rapaz de cabelo azul –... e então eu disse “Você está sem calça!”, mas eu também estava sem e... – E então finalmente ela o viu, se esgueirando por uma discreta porta nos fundos do salão, com uma placa na porta que dizia “ENTRADA PROIBIDA, MAS ENTRE, NINGUÉM ESTÁ PRESTANDO ATENÇÃO NESSA PORCARIA DE PORTA MESMO”. -...e por isso, naquela semana eu não podia mais sentar... – ele ainda estava falando! Dany o deixou falando sozinho, e ele não pareceu perceber.
Esse desgraçado não vai sair daqui antes de me dizer o nome do seu cabeleireiro, pensou Dany Ou não me chamo, não me chamo... Ela sentiu uma dor de cabeça. Era muito estranho, ela tinha esses lapsos de memória em raras ocasiões, só quando tinha uma prova de matemática, ou onde tinha deixado as chaves do castelo, ou onde tinha estacionado a carruagem, ou em que cidade estava, ou como se caminha, ou na casa de quem tinha acordado sem roupa. Mas às vezes esquecia o próprio nome. Tinha esquecido de tomar seu Guaraná Cerebral de manhã.
Ela entrou pela mesma porta, e depois de um longo corredor (e uma discussão mental porque o nomes era corredor e não andador), Dany saiu para fora do palácio. Já quase tinha desistido de encontrar o carinha de cabelo azul quando ouviu alguém gritar “FOGO!”, e viu que era o próprio que estava gritando. Ela ficou imaginando qual seria o problema que ele estaria tendo.
Dany saiu correndo atrás dele, sentindo-se grata pela parte da corrida não estar sendo narrada por um cara gordo e barbudo que gosta de contar tudo nos mínimos detalhes. Quando finalmente conseguiu alcançar o rapaz, percebeu que o vilarejo perto do castelo estava em chamas. Como ela curtia uma boa fogueira, ela entrou direto nas chamas. Isso aqui é que é festa, ela pensou. Ela não costumava gostar de qualquer ambiente abaixo de duzentos graus, e, além disso, o pudim de limão com as cobras era uma vergonha. Uma festa com o mínimo de bom gosto serviria com pudim de pêssego.
O fogo parecia bem divertido, mas Dany de lembrou que tinha que encontrar o rapaz de cabelo azul, ou o futuro do seu cabelo estaria em sério risco. Ela caminhou até o centro do vilarejo em chamas, passando por entre umas pessoas que fugiam gritando.
–FESTA ANIMAL! UHUL! — ela gritou de volta as pessoas, que por algum motivo estranho não pareciam estar se divertindo tanto quanto ela.
Acabou encontrando o Cabelo Azul no meio do vilarejo em chamas, onde o fogo já tinha recuado um pouco, mas ele não estava sozinho. Ele estava com três amigos, que estavam carinhosamente segurando-o pelos cabelos e apontando umas espadas pra lá de esquisitas para a garganta dele. Eles estavam montados a cavalo, e tinham umas roupas de couro preto bem reveladoras. Não conseguia enxergar os dois que estavam mais atrás muito bem, pois tinha deixado os óculos em casa, mas conseguia ver com bastante clareza o que estava à frente, o mesmo que segurava o Cabelo Azul.
Falando em roupas de couro reveladoras...
Resumindo em poucas palavras: Músculos Abdominais. Ele usava apenas uma calça de couro apertadinha e um cinto que prendia a bainha da espada, que atravessava seu peito definido como se fosse um presunto amarrado, brilhando de suor à luz do fogo. Até havia um cheirinho de presunto defumado no ar. E os braços... ui. Bíceps, Tríceps, Quadriceps, Quintíceps... E-N-O-R-M-E-S.
– Ei, moça, você tá babando!
Dany sabia que tinha ouvido alguma coisa mas não fazia ideia do que era. Ela estava ocupada demais inventando descrições toscas para os músculos dele. Pareciam um monte de melancias douradas molhadinhas. Pareciam com um prato enorme de batatas assadas. Pareciam um churrasco bem suculento no espeto. Dany começou a desconfiar que estava com fome.
– Ei, moça, você tá pegando fogo!
Dany se deu conta de que tinha que responder, se não eles poderiam achar que ela é mal-educada. Falta de educação é só para o segundo encontro.
– Ah, muito obrigada! – Ela respondeu.
– Não, de verdade, você tá pegando fogo!
Aí foi que ela se deu conta que o tempo todo estava em cima de uma pilha de madeira que estava queimando, o que já tinha afetado o seu vestido. Não que ela se importasse muito, o vestido era feio mesmo, mas também é falta de educação entrar em combustão no primeiro encontro. Ela teve que se jogar no chão e rolar para apagar o fogo do vestido. Tarde demais ela descobriu que estava ao lado de um estábulo.
Voltando a se levantar, Dany notou que o Sr. Musculoso olhando para ela, e ela se sentiu obrigada a falar alguma coisa, apesar de seus músculos ficarem distraindo muito.
– O clima está bom, não é? Agradável... – músculos, músculos, músculos — e quente.
Ele não respondeu. Dany ficou um bom tempo tentando se lembrar porque exatamente estava ali.
– Bom, me desculpa se eu estou interrompendo a reunião de vocês, parece divertida, mas eu preciso muito falar com o amigo de vocês aí. – ela disse, apontado para o Cabelo Azul, que não parecia muito contente. Dany achou que a ponta da espada na garganta dele não devia estar muito confortável.
O Sr. Musculoso não pareceu muito feliz.
– Esse aqui? – Ele perguntou, dando um puxão carinhoso no cabelo do Cabelo Azul.
– Aham – Dany concordou, e logo pois o Sr. Musculoso estava cortando a garganta do Cabelo Azul. Os músculos dele brilharam excepcionalmente quando ele fez isso.
– Ei! Ele tinha que me dizer onde era o salão que ele fazia o cabelo! Que droga! – Dany disse, irritada.
– Eu posso cortar a sua garganta também, aí você pergunta. – O Sr. Musculoso disse, e os outros que estava montados atrás dele riram. Dany não entendeu qual era a graça. Se ela queria ouvir piadas ruins, ela teria ficado na festa com Sor Jiron. Ah, é, músculos.
– Não obrigada. Posso perguntar quem é o senhor?
–Eu sou o Khal Drace, e esses são os meus Companheiros de Sangue, Alecho e Ichy. – Ele indicou com a cabeça os outros, mas Dany não deu bola para eles. – Posso perguntar por que a Senhorita fica repetindo baixinho “músculos”?
– Músculos? Não, eu estava dizendo “estábulos”.
– Eu ouvi músculos.
– Eu disse estábulos. Eles ficam legais quando estão em chamas.
– Aham – Drace disse. Ele pareceu pensar um pouco. – E aí, gata, curte cavalos?
– Cavalos são aqueles que tem asas? – Dany perguntou de volta.
–Não.
– Cospem fogo?
–Não.
– Têm escamas?
– Não. Você sabe o que é um cavalo?
– Ahn, não.
– Eu estou em cima de um.
– Aaaah, esses cavalos. Tá, lembrei.
– Dany! – alguém gritou de longe. Quando ela se virou, viu que era Sor Jiron que vinha na direção dela. Ele estava suando e não pareceu curtir muito quando a manga da sua camisa pegou fogo. – Dany, o que você está fazendo aqui com esses selvagens no meio de uma vila em chamas? E você está coberta de...
– Jiron! Me desculpe! Eu sei que vai parecer loucura, mas... eu sei que você não pode vê-los, mas tem três caras esquisitos em cavalos e eu estava conversando com eles!
– Mas eu posso vê-los.
– E nós não somos “caras esquisitos” nem “selvagens”, — Drace falou – somos Dothraki. Se referir assim a uma etnia de minoria é racismo, sabia?
– E eu sou mulher! – disse o cara que Drace chamou de Ichy. Ele tinha um chicote legal.
–Desculpa. – disse Dany. – Bom, de qualquer jeito, vocês já arruinaram qualquer chance de eu descobrir um bom salão de beleza em Nova Pentos. Acho que eu tenho que voltar para a festa então, cabelo horroroso e tudo.
– Calma, aí, não precisa ter pressa! – exclamou Drace – Você não tá a fim de ir conhecer os meus cavalos? Eu tenho um montão deles, e eu tenho um exército também. Sei lá, a gente podia tipo, se casar e você poderia comer um coração de cavalo para dar forças ao nosso futuro filho.
– Você tem um cavalo que tem asas, escamas e cospe fogo? – Dany perguntou.
Drace pareceu pensativo.
– Pra você, gata, eu posso ter.
– Maneiro! – disse Dany.
– Sobe aí – disse Drace, dando um tapa no lombo do cavalo.
Dany correu para perto dele e tentou subir no cavalo, mas acabou caindo de cabeça no chão. Bom, na segunda tentativa sempre funciona, e Dany conseguiu subir... na quinta. Sor Jiron não parecia muito feliz.
– Ei! O que ele tem que eu não tenho?
Dany parou para pensar. As pessoas costumavam dizer que sentiam cheiro de queimado quando ela pensava, e havia muita fumaça no momento. Ela devia realmente estar pensando muito!
– Você quer uma explicação com argumentos válidos, totalmente lógica e que satisfatoriamente explique os intrincados sentimentos que envolvem a sua rejeição?
–Sim. – concordou Jiron.
– E você quer essa explicação resumida em poucas palavras para que não se prolongue ainda mais a sua humilhação?
– Sim, por favor.
– Então lá vai. A explicação é... músculos abdominais! – ela disse, apontando para Drace. – Fui! – Dany completou enquanto o cavalo disparava, e Jiron ficou para trás, com cara de pateta.
Dany apertou com força os lindos e definidos músculos de Drace enquanto corriam pela noite que, por algum motivo, cheirava a churrasco.
Notas finais
Obrigada mãe, você deve estar orgulhosa de me ver fazendo essa "alta literatura". E você querendo que eu fizesse medicina.
Obrigada aos meus dragões, que tentaram me impedir de postar essa tosquice ao ficar mexendo na tomada do computador até desligá-lo. Se ferraram! Agora o Word tem auto-guardar.
E um agradecimento muito especial à todas as autoras de YA desse mundo por suas intermináveis descrições da anatomia muscular masculina. Continuem com o bom trabalho!
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