VSM-02

15 Capítulo 15


Notas iniciais
VOLTAMOS! É isso aí, galera; quanto tempo, neh? Desculpem a demora! Aqui está o momento pelo qual todos estiveram esperando (para quem tá com preguiça de reler o último cap., Annie desmaia por culpa da toxina exalada dos lírios da Calipso e blá blá blá...). Sugiro que releia ao menos o último capítulo se, assim como eu, Lira, você tem uma memória "daquelas". Vemos vocês nos coments?

-Faz muito tempo? Digo, desde que nos separamos?

Aperto os olhos contra o sol que brilha na relva. Posso ouvir pássaros e sentir a brisa no rosto. Pássaros. É tão raro, lá na Colônia. Mas esse lugar... Não é a mesma coisa. Não é nítido o suficiente.

Sei que não é real.

Luke, sentado ao meu lado, dá de ombros. -Eu não sei. Vários anos, não é?

Assinto. Tento relaxar, mas há uma linha fina e tênue entre nós. Ele não faz mais parte do meu mundo. E estou quase partindo para o dele.

Desistir de tudo. Todos os problemas, dores... Não seria tão mais fácil?

-Não faça isso, Annabeth.

Bufo e recosto a cabeça em seu pescoço. É uma calmaria quase consistente, mas ainda distante. -Aqui é tão bonito.

-É o parque onde fizemos um piquenique no seu aniversário de seis anos. -ele diz. -Você escolheu por que ficava longe do barulho da cidade.

Fecho os olhos e inspiro. O odor dos lírios me assusta, mas, aos poucos, ele se desprende de mim e o cheiro de grama molhada me reconforta. -Luke, você não...

-Annabeth, pare.

-Mas é tão duro. -replico. -Sem vocês aqui...

-Você tem se virado bem. E você nunca está sozinha. Estamos com você.

Sinto o vento ficar levemente mais agitado. Meu irmão passa o braço sobre meus ombros e toca o colar de contas em minha garganta. Eu queria ficar. Eu juro que queria.

Mas... ele está certo. Não devo ficar. Tenho que voltar, não é? Tenho que ajudar aquelas pessoas. Preciso acordar.

-Não vai ser fácil, Annie.

-Eu sei.

-E você vai cair.

O vento piora sobre meu rosto e semicerro os olhos para um ponto à minha frente. -Eu sei.

-E então?

Respiro fundo. O céu se encheu de nuvens negras sem que eu percebesse, como fumaça.

-Eu vou lutar.

Seu sorriso me compensa. Como poderia esquecê-lo? -Não se assuste. A vida vale a pena.

Me afasto devagar; sinto meu corpo pesado, como se a gravidade aumentasse apenas por eu me mover. Minha voz sai sonolenta: -Você sempre tem razão.

Recuso-me a olhar para sua camisa, ganhando a mórbida tonalidade vermelha. Sangue, eu sei. Encaro o turbilhão de vento, nebulosas e raios à minha frente. Meu peito arde pela falta de ar; a tempestade poderia muito bem estar saindo de dentro de mim. Quase a sinto na minha garganta, pronta para explodir.

Mas, então, antes que eu possa voltar à mim...

Avisto, na tempestade, um avião. Uma aeronave caindo. Na asa, o número 325.

Frank Zhang.

Seu fantasma invade meus sonhos. A imagem de seu rosto, lutando contra Ryanks naquela invasão, surge diante dos meus olhos, em meio a fumaça e cinzas. E seus irmãos. Hazel, Leo.

"Eles não passam de crianças".

Eu sei, Frank. Juro que vou tentar.

Meu rosto está encharcado, tanto de lágrimas quanto da chuva e não sei qual o limite entre elas. A maldita chuva, que castiga minha pele.

Ele vai estar sempre aqui também.

Fantasmas na minha cabeça. Não posso esquecê-los. Não posso s.

Uma voz conhecida me puxa para a sanidade. Senti tanta saudade do seu timbre entediado e irritado.

"Acorda, Chase. Deixa de manha."

Eu obedeço.

...

Pulo de susto em algo confortável, que range com o peso. O s é metálico. Uma maca, eu acho. Não sei, não enxergo nada. Meus olhos estão tampados. Minhas mãos estam pesadas. Qualquer movimento é doloroso. Emito um grunhido, tentando tocar meu estômago e sinto-o revirar, fazendo com que o gosto de bile suba e desça até minha língua.

Ao meu lado, alguém se mexe. Paro instantaneamente. Ouço algo se arrastando, alguém levantando da cadeira.

-Até que enfim, garota. -a voz é feminina. A mesma voz dos sonhos. -Sério, quando foi que você ficou tão fraca?

Apesar das dores e da dificuldade para respirar, um grande sorriso se instala no meu rosto. Ainda não vejo nada além de escuro.

-La Rue. -sussurro. Eu poderia gritar, se meu coração voltasse ao ritmo normal. Os bipes cardíacos soam perigosamente rápidos.

Odeio não saber o que está acontecendo.

—La Rue... -repito.

—Cala essa boca, Chase. Aqueles malandros de jaleco mandaram você descansar.

—É bom ver que você está melhor. -digo, irônica. -Eu quero sentar.

—Chase...

—Eu disse—repito, selvagem e lentamente, descobrindo as grades da maca e me agarrando a elas. -que quero me sentar.

Ouço-a bufar. -Tá bem. Faz o que quiser, comandante.

Obviamente, não foi uma das minhas melhores ideias. O simples ato faz meus pulmões arderem. Não respiro. Não consigo respirar. Abro a boca na tentativa de sugar o oxigênio, mas sufoco.

Ouço um clique. Uma lufada forte de ar passa por minhas narinas. Sinto meu peito queimar e cócegas no nariz. Esforço-me para tocá-lo e os sinto.

Tubos. Tubos de respiração.

-O que...

-Você sabia que intoxicação mata? -a tenente pergunta.

Me acalmo, ou tento. É, agora sei.

Clarisse ajeita travesseiros atrás de mim, ou ao menos é o que suponho. Seus gestos brutos me reconfortam de um jeito estranho.

-Eu estou... -umedeço os lábios, ansiosa. -cega?

Silêncio. Algo se desprende ao redor do meu rosto. -Não; ainda não.

A luz clara e seu reflexo nas paredes brancas me dão dor de cabeça. A enfermaria. Levo tempo para me acostumar com a claridade e, aos poucos, posso definir a figura alta e forte da tenente. Ela segura uma faixa nas mãos, tingida de sangue. Franzo as sobrancelhas.

-Clarisse...

-Tentaram te matar, Chase.

Não reajo. Minha mente não está trabalhando bem, acredito que por causa de remédios. Ela me estende um pequeno espelho redondo, antes apoiado na mesa rolante de metal. É do tamanho da minha palma e está rachado. Olho e me assusto com a imagem sobre ele. Sinto meu coração falhar uma batida.

Minhas íris estam completamente vermelhas.

-Mas que... -minhas palavras falham. A pupila parece se desfazer conforme se funde ao vermelho.

-Isso porque você não viu antes. -Clarisse se senta na maca, empurrando meus joelhos para o lado. -Estavam sangrando. Sua pele estava ficando pálida. Você se debatia e não respirava... Annabeth, foi terrível.

Há manchas vermelhas que marcam olheiras rubras e saem em meus dedos quando as esfrego.

Não pode ser. Não pode. Não, por favor; não eu.

Desço o olhar para o lençol que me cobre e o arranco num puxão. Grito. Clarisse apenas vira a cabeça na direção oposta.

A marca infectante me encara de volta.

Sinto falta de ar, mas os tubos continuam ativos. Receosa, toco-a e sinto a elevação na pele. As lágrimas doem ao tentar mantê-las no lugar. Quando choro, não é por dor. Não por medo, não por pena. Choro por desespero. Falta de controle, inexperiência. Eu...

-Não entendo. -as palavras saem embargadas.

-Calipso. -Clarisse parece derramar desgosto sobre o nome.

Uma risada macabra escapa pelos meus lábios junto aos soluços. Eu deveria saber. Todo esse tempo, fui enganada.

O que é pior do que ter uma invasão inimiga na sua base?

Saber que você abriu a porta para que ela acontecesse.

E agora sou um deles.

Sobressalta, agarro o braço de La Rue com força. Ela franze as sobrancelhas e me encara. Trato de olhar em seus olhos.

-Me mate.

Sua boca ameaça abrir, mas a corto. -Clarisse, eu vou matar pessoas. Eu não vou ser mais sua comandante. Vou ser um monstro. Por favor, acabe com isso agora.

Não tenho tempo de terminar a última palavra. Ela me acerta um tapa.

-Recomponha-se, comandante Chase!

Massageio o lugar do tapa por puro reflexo, mas algo me parece estranho. Não sinto dor, ao menos não o quanto deveria.

Não de um tapa vindo de La Rue.

-Em segundo lugar, -ela desce os olhos. -pode, por todos os malditos Ryanks, me largar? Isso dói!

Solto seu punho e percebo, com horror, a terrível marca avermelhada deixada na pele. Mas... eu podia jurar que...

É como um clarão quando percebo: sou Ryank. Se minhas emoções me subirem a cabeça... Sou muito mais forte. Muito mais rápida. Resistente, inteligente.

Sou um monstro.

-Quíron tentou te alertar ontem. Te chamou no walkie-talkie, mas já era tarde. Quem imaginaria que a comandante é alérgica a lírios.

-Por que ainda não perdi a cabeça? -indago, me esforçando para me concentrar em algo que não me leve ao estado de choque.

-Bom... -Clarisse se levanta e vai até um armário da minha ala na enfermaria. Ela se volta para mim com uma máquina semelhante a uma seringa, estranha, metálica, grande e com vários medidores na superfície, na esquerda. -Isso daqui. É um troço bizarro que faz umas coisas com partículas e sei lá... Você sabe que não sou muito intelectual.

Meu cérebro começa a trabalhar mais rápido, talvez melhor do que o comum. Já ouvi falar disso antes, quando também estava à beira da morte.

-O estimulador de células humanas. -digo.

(N/A: Gente, tá falando dessa coisa no capítulo 12, para quem não lembra.)

A tenente concorda. -Foi uma ideia simplesmente genial.

As peças se encaixam no quebra-cabeça. Como não notei antes?

-Ele estimula células humanas, -digo. -não animais. Pode curar os Ryanks.

-Não é bem assim. -Clarisse me joga o objeto. -Ele estimula células humanas, não destrói as animais. É assim que minha memória voltou. E Chris, ele está quase bom.

Sorrio brandamente, por ela. -Que bom que minha guerreira está de volta. Reyna é sensata demais e Thalia, só mata se for extremamente necessário. Estava sentindo falta de uma psicopata.

La Rue revira os olhos e se senta na cadeira ao lado. -Quando você chegou aqui, ia virar um daqueles zumbis estúpidos do lado de fora. Com o estimulador, porém, obteve o VSM-02. Ainda não é uma pessoa normal. Mas você sempre foi estranha.

Ela não se preocupa se os comentários machucam ou não, e isso é o que mais gosto em Clarisse. Com ela, não há enrolação ou sentimentalismo. Nos xingamos e encontramos soluções.

Concordo. -Tem razão. Mas, quanto a Calipso... -mordo o lábio. -me diz que você já arrancou as unhas e os dentes daquela maldita filha de zumbi. Ou melhor, torturou-a com os espinhos daquelas plantas desgraçadas. Melhor ainda, rasgou...

A tenente assovia. -Quem me dera. Eu bem que queria, mas Jackson já se encarregou disso. Posso dizer? Foi um espetáculo e tanto.

...

—Você sabia o que ela planejava.

Jackson ri, irônico. Estamos na sala de treinamento, em um dos ringues. É como se fosse a primeira vez que estivemos aqui, mas tanta coisa mudou... Eu achava que ele era um problema, mas então tudo ao meu redor se tornou muito mais que isso.

É assustador.

Ninguém contou à população da Colônia 3 que sua líder agora é um mutante. Por ora, apenas os cientistas me deram um estimulador de células humanas em versão pocket, para que, toda vez que eu me sentir tentada a correr, brigar ou fazer qualquer coisa estranha sem necessidade, devo apertar um dos botões na pulseira em meu braço esquerdo. Emoções numa taxa alta demais; nervosismo, ansiedade... qualquer coisa pode ser um gatilho. Todos nós recebemos um.

Jackson e eu temos que acioná-los toda hora.

Ele revira os olhos. -Não te contaram nada do que aconteceu lá, não é?

—Nada.

—Foi o que pensei.

Franzo as sobrancelhas e nego. Apoiado nos elásticos do ringue, ele bufa. -Pensa um pouco, Annabeth. Sei que está louca de raiva comigo, mas já basta. Agora você também é Ryank; deve entender o que passei. Então pare com essa idiotice toda, certo?

Meu queixo cai. -Idiotice? Escuta, eu...

Perseu, é claro, me interrompe. -Escuta você. -ele aponta um dedo para mim. -Não escolhi isso, mas você virou meu foco, Annabeth. -ele abre os braços num gesto amplo. -É simplesmente impossível que eu te traia, muito mais te matar. Será que não vê? Eu não sabia dos planos daquela megera. Os lírios; por acaso você tinha ideia de que é alérgica? Calipso sabia. -uma pausa para complementar o raciocínio. -ou melhor, descobriu.

—Isso é ridículo... -rolo os olhos.

Percy sorri maldosamente, como se fosse divertido mostrar que está certo. -Você vai aprender também. O olfato de um determinado animal é capaz de verificar quais corpos são malignos ou benignos para seu metabolismo. Calipso era obcecada por plantas, e viu nelas o jeito mais fácil de te derrubar. E esperou a hora certa. Ela sabia que estávamos brigando.

Nesse momento, Percy para e caminha até uma das barras de ferro onde os elásticos são amarrados e se recostava sobre ela, cansado. Suas forças parecem sumir conforme ele formula as próximas frases.

—Annabeth, Calipso nunca foi humana. -um suspiro. -Não havia VSM-02 para ela. Quíron acionou alerta vermelho para os superiores, tentando te avisar. Ele descobriu que o sangue dela era totalmente contaminado. Mas não foi rápido o bastante.

Eu tremo. Esse tempo todo, ela raciocinava para viver. Queria me matar, e não fez isso antes pois sabia que Jackson me protegeria.

-E o namorado dela? -indago. -Aquele que a seguia?

Seu peito sobe e desce num ritmo acelerado, nervoso. Só lhe resta a mão pelos cabelos, e saberei que está desesperado. Apenas um movimento. Ao mesmo tempo que imploro para que não aconteça; para que ele tenha uma visão melhor da situação, espero que Percy o faça. É o costume que me ajudou a lê-lo tantas vezes que me faz sentir bem. Algo que conheço.

Eu conheço Percy Jackson.

Será?

-Tenho certeza que Calipso bolou a história. Ela quem perseguia o cara, não o contrário. Não o reconhecia como comida ou zumbi. E ainda mais, acho que essa pessoa não era seu "namorado". -ele faz aspas com os dedos. -Tudo foi apenas para parecer real. Desde o começo. Por isso Leo comentou comigo que já a tinha visto em algum lugar. Calipso já nos conhecia. Nos seguia em casa. Eu devia ter notado. Droga, eu...

E então ele passa os dedos entre as mechas negras e bagunçadas do cabelo. Suspiro. Estamos perdidos.

O plano é tão bem bolado... -Ela é genial. -sussurro, espantada.

Percy dá um riso curto com o canto dos lábios e um som baixo da garganta. -Nessas horas eu me pergunto o que nos torna mais humanos que eles.

Não sei qual o verdadeiro destinatário da frase, mas ela me choca mais que, aposto, qualquer um na Colônia 3. Preciso andar pelo ringue, de um lado para o outro, como uma tola, para me acalmar.

Jackson respira fundo. Seus olhos me seguem na caminhada. Ele dá de ombros. -Eu me entregaria para te salvar.

Paro no lugar e giro nos calcanhares até me voltar a ele. -O que disse?

—É isso, Annie. -ele avança para perto, e não consigo recuar. -Frank se entregou para salvar os irmãos. Nossa fé é voltada para aqueles que são corajosos o suficiente para se entregarem no lugar de outras pessoas. E você...

—Percy... -tento impedi-lo de continuar, mas sua mão roça gentilmente minha nuca e me faz encará-lo.

—Você se entregaria para salvar esta Colônia. Lembra do que me disse quando te pedi para não lutar?

Antes que eu perceba, a memória voa por minha mente como um flash.

—Enquanto houverem pessoas a quem posso ajudar, não vou ficar parada.

Percy assente com o mesmo riso de canto. Está tão perto que posso sentir o cheiro de maresia reconfortante que tem. -Você ainda tem dúvidas do motivo de ter virado meu foco?

Seus olhos verdes-mar refletem toda a tristeza que me sufoca. Tudo o que sofri, ele também já sofreu. Fui egoísta ao ponto de achar que ninguém se sentia tão pequeno quanto eu. Ele esteve aqui esse tempo todo. Eu não sabia que Percy era um Ryank, mas isso não matou seu lado humano. Ele se apaixonou por mim de um jeito tão real, e eu esqueci de todo esse sentimento quando deixei a raiva subir à cabeça.

Faço aquilo que devia ter feito à muito tempo.

-Me desculpe.

Ele se surpreende, claro, mas tenta esconder. Continuo:

-Eu fui a pessoa mais idiota, fria, cruel e injusta com você. Sou responsável por tanta dor, Percy; eu entendo perfeitamente se você quiser me esfaquear agora. Eu não ligo, porque eu fui comandante Annabeth Chase por tanto tempo, que o único entre nós que perdeu a humanidade não foi você. Você se entregou, tomou o cuidado de me manter segura, e eu ignorei. Porque sou orgulhosa demais. Eu... -meus olhos pousam em nossos coturnos. Sinto cada pulsação de meu coração até a ponta de meus dedos. -Eu nunca vou merecer ficar do seu lado. Sinto muito.

Ele tenta enxugar as duas únicas lágrimas em minhas bochechas. Posso sentir que está confuso. Sua boca se abre e fecha algumas vezes, tentando formular a resposta correta.

Mas eu não posso continuar aqui. Eu só o machuquei. Machuquei gente demais.

Posso sentir. É forte. E é arrebatador. Como se uma descarga elétrica gigantesca tomasse o lugar do sangue em minhas veias.

Eu não devia, mas não ouso apertar o botão da pulseira de controle quando um instinto sobre-humano me faz fechar os olhos e correr.

...

Père-LaChaise. O cemitério mais famoso de Paris. Me surpreendo. Corri até aqui sem sequer suar, e são quase 40 quilômetros.

Minha visão é quase em branco e preto. As cores só começam a voltar quando noto que preciso controlar a respiração afim de que o estimulador de células faça efeito.

Me sento em frente a uma das lápides e solto o cabelo. Como alguém pode não sucumbir à essa sensação? Esse instinto... É pura liberdade.

Um nome apagado faz jus a alguém que morreu com importância o suficiente para ser enterrado aqui. Inspiro e expiro. Conto até sessenta e me recordo dos pelotões do meu exército. Qualquer coisa que me faça pensar é esclarecedor. O aparelho em meu pulso emite bipes que vão desacelerando aos poucos. Posso ver com mais nitidez.

Qual foi a última vez que sai para correr assim?

Depois que tenho certeza de que não vou escalar uma árvore ou algo do tipo, me levanto e vou para a ala das mortes atuais. Várias aqui são por culpa do vírus. Distraída, leio os nomes em voz alta. Não ligo se alertar minha localização, passei por três zumbis até aqui e nenhum fez mais do que me encarar.

Daumerrie, Nateu-Audrik, Fitzgerald, Kastone...

Uma fileira de túmulos chama a minha atenção. Todos eles têm um x rubro em cima dos nomes. O Dr. Brunner me trouxe aqui uma vez, quando eu era bem mais nova. Essas pessoas tiveram influência sobre a criação do vírus ou sobre a busca por uma cura. Sei de cor cada nome em cada lápide, mas leio-os mesmo assim. Era um dos meus hobbies aos quinze anos, correr ao Père-Lachaise e ler os sobrenomes abaixo da faixa de tinta vermelha.

Esme, Lamartine, Courtney, Beaumont, Marvel, Parker, Chermont, Woodland, Jackson.

Quase tropeço de susto.

Jackson?

Me abaixo em frente à lápide desgastada e analiso. Não consigo definir muita coisa. Arranco a adaga da bota e raspo a pedra até que a tinta saia. Meu coração falha uma batida.

Selina "Sally" Jackson.

Contribuinte ao aperfeiçoamento do Vírus Vasos Sanguíneos Modificados, Segunda Tentativa.

...

-Eu sabia que em algum momento vocês iam entender que meus super dotes de computação são incrivelmente úteis. Vou querer uma medalha por isso.

Reviro os olhos e me sento na cadeira ao lado de Leo. -Se você conseguir mesmo esses arquivos, eu te transformo num superior da área de computação da Colônia 3, ou qualquer coisa assim.

Ele ergue um dedo. -Ahn... Também vou ter direito a essas armas incríveis e exageradamente grandes?

-Nerd, você não vai aguentar carregar nem a medalha no peito, que dirá de uma arma.

Ele estala a língua. -Xeque.

Seus dedos se movem tão rápido pelo teclado que fico tonta. Na tela, ele atravessa frequências como crianças desenham riscos no programa Paint. Não encontro código algum, mas sua mente trabalha de um jeito quase surreal, vendo falhas de pixels em lugares que, para qualquer outra pessoa, pareceria perfeitamente normal. É impressionante.

-Vocês realmente não fazem ideia do que sua mãe fazia no trabalho? -indago. -Percy me disse que ela foi levada pela Segurança Nacional. Deveria ser importante, certo?

Leo dá de ombros. -Ela me adotou quando eu tinha meses de vida. Eu e a Hazy. Nós não nos lembramos de muita coisa. Sally morreu quando completamos três.

Apoio a cabeça na mão. -Percy mentiu uma vez dizendo que vocês procuravam por ela, lá fora.

Nesse segundo, percebo o quão forte Leo é. Ele ri, faz piadas e finge ter a mentalidade de um jovem de catorze anos, mas já passou disso há muito tempo. Sua feição é tão destruída quando ele pausa o computador por um minuto e respira fundo que eu poderia abraçá-lo agora mesmo.

—Era o que ele dizia para mim, Frank e Hazel. Por anos, hackeei computadores que ainda funcionavam em antigas lojas de eletrônicos, deixamos sinais como esse -ele desenha um S com estrelas do mar em volta, como o que vi em sua casa, há semanas. -por toda Paris e até fora dela. Percy resolvera manter o segredo durante muito tempo, porque gostava que tivéssemos esperança.

Não contenho minha mão em seu ombro e mando-lhe um olhar de compreensão. Leo sorri minimamente.

—Vocês dois se parecem muito mais do que consegue ver, comandante Chase. -ele solta, receoso, com medo de dizer algo que o incrimine. -Tenho certeza que a senhora tomaria as mesmas escolhas que ele se trocassem de lugar e vice versa. Talvez por isso lutem tão bem juntos.

O silêncio em seguida só é quebrado quando um silvo baixo é emitido pelas caixinhas de som do velho computador. Leo continua seu trabalho.

—Você e Hazel são irmãos de verdade?

—Bingo. -ele assente. -Muitos bebês se tornaram órfãos na época do alerta geral. Aqueles que ainda tinham condições de sobreviver poderiam adota-los, se quisessem, sem precisar de toda a burocracia. Somos gêmeos. Tudo o que sei é que nós estávamos nos Estados Unidos quando chegamos à casa dos Jackson. E que nos mudamos para cá dois anos depois.

Assinto. -Entendo. O que precisamos descobrir, então, é: Quem é Selina Jackson?

Leo respira fundo e se recosta na cadeira. -Não sei se vamos gostar de saber.

-Por quê? -franzo a testa.

Ele aponta para o computador. Em negrito, está escrito: Arquivos Secretos, Estados Unidos da América, lista de Procurados Internacionais.

Meu sangue gela. A Colônia do que um dia já foi os Estados Unidos não é tão grande, fica no Kansas. Sei que o problema não será abrir os documentos, mas sim mexer com o passado dessa forma. O passado de toda uma tragédia. Da mulher que deu à luz a Percy, adotou Leo, Hazel e Frank. Deveríamos mesmo?

-Claro que devemos. -Leo responde, como se lesse minha mente, e tenho um momento de estranhamento.

Assinto. -Tudo bem. Vá em frente.

Rapidamente, ele transpassa mais páginas e telas até que a lista se abre. O garoto clica no nome que queremos e manda o documento para impressão. Pego os papéis da bandeja.

Devoro as palavras como um animal faminto conforme sinto meu sangue gelar.

Selina Jackson. Pesquisadora, cientista; mãe de um filho e paciente terminal.

Notas finais
*-* E aí? Gostaram? Não? Comentem, vamos lá! Até o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.