VSM-02
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Deixo minha cabeça cair no travesseiro. Chris...
–Clarisse já sabe?
Jackson nega.
–Ela acordou faz pouco tempo e ainda está zonza. Não consegue pensar direito nem falar.
–Sei...- levo minha mão até o rosto. -E... Oque aconteceu aqui?
Toco minhas costelas. Há uma faixa envolvendo-as e toda a parte acima da cintura.
–Você foi esfaqueada. Nos primeiros cinco minutos de luta. E ainda asim lutou melhor que todos. É surpreendente!- ele ri.
–Não sei por que diz isso. Você lutou tão bem quanto eu lá. -digo.
–Eu não estava esfaqueado. Agora...
–E Reyna? Ela está bem?- o corto. Não havia me lembrado da vice-comandante até agora.
–Ela está bem. Apenas alguns cortes leves.- ele responde.
–Thalia?
Sua mão vai parar na nuca.
–Ela... Bem...
–Oquê?
–Perdeu a mão esquerda. E Nico...- Jackson me encara.- Ele morreu em batalha. Sinto muito, comandante Chase.
Fecho os olhos. Ah Nico! Como sua irmã, Bianca, vai ficar? Você serviu bem. Bom trabalho, soldado. Descanse em paz.
–Quantos perdemos?
Ele parece se surpreender com a pergunta. -Doze soldados. Com Nico, treze.
–Algum civil?
–Não. O portão foi fechado à tempo.
Uma lágrima desce pelo meu olho esquerdo. Agora, os sobreviventes esperam nova motivação. É hora de agir.
–Me ajude a levantar. Temos que falar com alguém.
...
–Reyna, você sabia para onde eles iam. Estavam procurando o que?
Reyna se sente desconfortável quando a chamo pelo nome, mas não tenho tempo para boas maneiras.
–A comandante já sabe. Estavam procurando corpos e civis.
–La Rue e Rodrigues te enviaram algum relatório durante a missão?
Estamos no primeiro andar. Crianças brincam ao nosso redor. Elas tem aula pela manhã com professores não formados, mas que sabem muito. Todos na colônia tem obrigações. Temos mais de seis mil pessoas. Bastante? Não. A colônia era para vinte mil. Só há seis. Oque sobrou de metade da França. Todos os dias, enviamos alertas por rádio e televisão avisando nossa localização. Mas poucos conseguem chegar.
–Agora que a comandante citou, eles disseram algo sobre...- ela fecha os olhos para se lembrar. -Ah! Uma marca. Em todos os zumbis. Mas... Foi aí que eles começaram a persegui-los.
Respiro fundo.
–Obrigada vice-comandante Avilla-Ramirez.
–As suas ordens, comandante Chase.
Viro-me para o elevador, e minhas costelas se fazem lembrar. Eu quase caio, mas meu mais novo soldado me segura pela cintura e passa meu braço por seus ombros.
–Obrigada Jackson.
–Me faz um favor? Para de me chamar assim.
Eu rio, oque não acontece a muito tempo.
–Nunca peça um favor assim para sua comandante. E... Não.
Ele revira os olhos e me leva para o elevador.
–Para onde vamos?- ele pergunta.
–Ver a única pessoa que pode nos contar sobre os zumbis. Quíron, meu treinador.
...
Sétimo andar, a sala de avanços médicos. Jackson me leva para perto da porta. Eu a abro.
É um laboratório. Com vários cientistas de jaleco trabalhando com líquidos coloridos em frascos de vários tipos.
–Annabeth, recebi seu recado. O que quer saber sobre os zumbis?- Quíron parece aflito, sentado na cadeira de rodas. Ele perdeu o movimento das pernas quando lutou em sua última batalha. O cabelo castanho ondulado está desarrumado.
– Olá Quíron. Como vai? Tive informações sobre a possibilidade de uma prótese avançada para a tenente Grace.
Ele parece aliviado pela mudança de assunto.- Sim, sim. Na verdade, é um sucesso! Utilizamos a própria mão dela para o molde e agora a parte mecânica está impecável! Thalia receberá a nova mão em dois dias.
–Vocês trabalham rápido.
–Obrigado. Mas não vieram aqui para isso, não é?
Começo a explicar: –Antes da luta começar, a tenente La Rue me chamou pelo walk-talk dizendo que os zumbis, na verdade, pensam sim. E haviam até armado uma emboscada para eles.
O homem fica pálido. Ele indica duas cadeiras para nos sentarmos em um lugar mais afastado. Jackson me ajuda a sentar e depois faz o mesmo na cadeira ao lado. Quíron chega logo após.
–Era oque eu temia. Emboscada, não é? Certo. Então funcionou.
–Pode nos explicar?- digo.
–Não estamos entendendo.- Jackson completa. Olho para ele. Sua perna está com tique. Tem algo aí.
–Os zumbis foram criados para que, Annie? Serem mais fortes, espertos, entre outras qualidades. Aqui no laboratório os chamamos de Ryanks. O vírus VSM-02 deu errado? E daí? Os especialistas sabiam. Era questão de tempo para que isso fosse corrigido. Se minha linha de raciocínio estiver certa, alguns até falam.- Quíron diz.
Jackson quase ri. Eu o encaro.
–Você, por acaso, tem alguma informação que não tenhamos?
Ele se ajeita na cadeira.
–Eu estive lutando lá fora a mais tempo que qualquer um na colônia. Eu já os encarei de perto. Falar? Pode acreditar que falam.
Quíron empalidece ainda mais.
–Se é assim, eles conseguem se controlar?
–Sim, mas apenas quando suas mentes têm um foco. Eles estão na linha tênue entre impulso e raciocínio. São pouquíssimos os que não matam para comer a carne. Estes tem a mente focada e escolheram pensar.- ele fala com naturalidade.
Quíron está de queixo caído. Como ele...?
–Como sabe tudo isso?-indago.
Ele se mexe novamente.
–Você, mais que qualquer um, comandante Chase, deve saber que é necessário conhecer seus inimigos.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até eu me lembrar de outro detalhe. –Clarisse disse algo sobre uma marca. Em todos os Ryanks.
–Ah, sim. Isso é por que durante os primeiros testes, os zumbis foram marcados a ferro quente com esse símbolo. Significa "infectante". A maioria tem no pescoço, mas outros possuem a marca nas costelas. -Quíron explica.
–Mas...-digo.- Se estamos enfrentando um inimigo pensante...
–Eu já disse. -Jackson me corta. Perdeu a noção do perigo? -A maioria pensa, mas apenas arranja soluções para seu maior problema: a fome. E existem os 0,000001% que pensam como vocês. Quero dizer, nós.
Ele rapidamente percebe o que acabou de fazer.
–Sinto muito, comandante Chase. Não vou interrompê-la novamente.
–Assim espero. Bem, obrigada Quíron. Temos que ir.
Ele move a cadeira de rodas para trás, nos dando passagem. Mas, na porta, me chama. Jackson me ajuda a virar.
–Sim?
–Annabeth, tome cuidado. Por favor. E você...- ele aponta para o meu soldado.- tome conta dela.
Estou indignada:- Eu não preciso que...
–Ela tende a ser cabeça-dura às vezes.- Quíron continua, sem me escutar.
–Pode deixar, Sr. Brunner. -Jackson responde, e eu dou um tapa em sua cabeça.
–Adeus, meus jovens.
...
–Certo, e agora, para onde vamos?
–Temos que conversar sobre uma coisa, Jackson.
–Percy.
–Jackson.
–Ao menos tentei. -ele diz.
Eu rio. Havia até me esquecido de como é rir.
...
–Como sabia que eu tinha chegado na sua casa?- pergunto, enquanto caminho para o meu apartamento.
–Acho que você já sabe .- diz, me acompanhando.
–Câmeras -o encaro. -como as conseguiu?
–O que mais achou na minha casa? — diz ele parando de andar.
–Munição.
–Não foi só isso.
–Não.- digo, enquanto ele se aproxima. Mais do que o necessário.
–O que -ele diz, tão baixo que quase não escuto.- mais você achou?
–O que é que tem lá, que eu não posso ver? -desafio, sem nunca tirar os olhos dos seus, verdes e traiçoeiros.
Ele não responde, e então percebo que ainda espera uma resposta. E também percebo que ele muito próximo.
– Fotos. -noto seu peito subir e descer. Está aliviado. Acho que vou ter que voltar para aquele lugar.
–Fotos? -ele pergunta, levantando uma sobrancelha.
–Sim. -e dou-lhe um safanão na orelha -Sai de cima, Jackson! Está pensando oquê? Se chegar perto de mim assim de novo, jab de direita na sua cara!- pego as fotos do bolso e dou para ele. –Quem é a garotinha?
Depois de uns longos segundos ele respira fundo e diz:
–Hazel. Minha irmãzinha mais nova. E os garotos, meus irmãos.
–Espera! -digo percebendo algo- Jackson, aqueles garotos que fugiram com você aquele dia, eram seus irmãos?
–Sim.
–Meu Deus, Jackson! Eles podem estar mortos! Mortos! Você tem que dizer onde eles estão. Tem Ryanks lá fora e...
–Não! -E dou-lhe outro tapa.
–Já falei pra não me cortar, Jackson!
–Sinto muito comandante! Não posso dizer.- diz, e vejo que já chegamos no apartamento. -Não quero dizer.
–Muito bem! Não diga! O irmão é seu! Mas vou te avisar, se eu o achar nas circunstâncias erradas, não pense que vou pensar em você!
–Anda pensando em mim, comandante Chase? -pergunta, sorrindo, e me sinto tão insultada que demoro segundos para responder.
–Perguntou o quê, Jackson?
–Se quer companhia para o café amanha. Percebi que come sozinha.- levanto uma sobrancelha.
–Hum. Não. Como sozinha por que prefiro assim. Agora, me dê licença.
–Até amanha, comandante.
Murmuro qualquer coisa, me afastando, quando lembro que ele salvou minha vida.
–Até mais, Percy! -grito.
E mais rápido do que ele diz "isso é sério...", fecho e tranco a porta.
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