A vaidade do homem não tem mesmo limites. A maioria sofre porque quer. Depois de certa idade, todos já deveriam saber que o ser humano passa por várias fases e faces e que envelhecer é algo inevitável. Algumas pessoas, no entanto, preferem ficar presas a uma inverdade, e achar que rugas e gordurinhas a mais só acontece com os outros. Fazer o quê!

Foi assim com Lígia, uma senhora simpática e bastante comunicativa que conheci através de amigos, durante sua festa de aniversário de sessenta anos. Acreditem! Ela ainda usava minissaia e tinha uma disposição para dançar rock como ninguém. Até aí nada de inusitado. Não era baile à fantasia, mas era o aniversário dela e Lígia poderia fazer naquela noite o que bem entendesse. Afinal, o novo século é um brinde à Terceira Idade. Já ficou comprovado que envelhecer, hoje em dia, não significa mais ficar atrás da cortina, parado no tempo, esperando a morte chegar. Envelhecer, hoje em dia, significa recomeço; vagas em Universidades; filhos criados; ser dono do próprio nariz, além do que, ainda trás consigo, aquela dose a mais de sabedoria e experiência de vida. Tudo de bom! Se não fosse a menopausa; as dores reumáticas; os pés-de-galinha e aquele indesejável pneuzinho implantado na barriga. Tudo de bom! Se não fossem as recordações.

O espelho do homem é o outro homem. É o outro que nos percebe e diz: algo está diferente em você. Lígia é um exemplo disso. Lembro-me que ela entrou em total decadência emocional pelo simples fato de ter sido chamada de tia e de coroa no meio da rua por um grupo de pivetes. Antes disso, era uma viúva alegre e uma dondoca assumida. Uma mulher antenada com seu tempo, supermoderna e que ainda gostava de baladas com as amigas e paquerar garotões. Mas uma inevitável queda em frente a um sinal fechado, mudou completamente o rumo da sua história. Ainda com o nariz grudado no asfalto sujo, Lígia conseguiu escutar o que dizia um grupo de rapazes que caminhava por perto, naquele exato momento: — E aí tia! Da próxima vez toma mais cuidado! E outros dois, mais complacentes, lamentaram: Coitada da Coroa!

Foi como jogar um balde de água fria na vaidade de Lígia; anos e anos se passaram, mas ela ainda se cuidava como se fosse uma menina; pelo menos era assim que ela se imaginava e sentia. Aquelas duas simples palavras soaram em seu ouvido como uma verdadeira ofensa; como um sinal de que não havia prestado atenção ao tempo e a própria vida. O que mais lhe incomodava não era tão somente o fato de ter levado um tombo no meio da rua, próxima a tanta gente, mas porque todos a olhavam naquele momento, como a desequilibrada tia coroa. Por conta disso ficou sem graça, amargurada e envelheceu por instantes, mais sessenta anos.

Só então, Lígia conseguiu perceber a mudança no corpo (engordara mais de dez quilos); percebeu isso remexendo em fotos antigas, através das roupas apertadas e dos amigos que lhe alfinetavam a alma. Só então, se deu conta de que já fazia um bom tempo que ninguém lhe dizia o quanto estava linda nem lhe cortejava. Era como se de repente, se tornasse invisível para o mundo. E foi tudo muito rápido. Foi como virar a página de um livro e encontrar ali, um novo capítulo. Velho tempo feliz! — Dizia para si mesma, com lágrimas nos olhos.

Existem homens e mulheres assim. Atormentam-se quando se dão conta de que o presente já se tornou passado e que já não se pode mais fazer tudo, exatamente, como se fazia antes. São pessoas que preferem dizer: Como fui feliz e não sabia, ao invés de pensar em como ainda é feliz, e não percebe. Talvez seja apenas uma questão de adaptar-se a uma nova realidade. Cada uma de nossas fases e faces tem sua história própria e sua magia. Só envelhece que ainda está vivo. E é a vida que precisamos brindar a cada novo dia que amanhece.

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