Lá estava meu corpo, ensangüentado e envenenado. Eu não entendi porque ele havia me dado duas alternativas se no momento em que eu entrasse no meu corpo eu iria morrer. Não fazia sentido. Parei na frente dele, que agora estava molhado das lágrimas de Gabriela.

Entrei. A minha alma procurou o lugar certo para se alojar e assim eu voltei a respirar. Um urgh alto; Gabriela deu um pulo de felicidade e voltou a olhar para mim preocupada. Uma criança como ela não deveria se preocupar com nada. Era uma pena vê-la assim. Aquilo destruía meu coração.

O gosto de veneno não ardia na minha boca ou em qualquer outro pedaço do meu corpo. Ele havia cessado. Senti meu estomago e revirar e fechar o buraco que eu ganhara do tentáculo de Baudy. Minha cabeça não sangrava mais também. Senti o gosto de ferrugem e sal arderem na minha garganta.

Meus olhos reviravam sem parar, eu podia senti-los ficarem tontos. Gabriela saiu de perto de mim e correu para Angela. Puxou-a pelas mãos e as duas vieram correndo ao meu encontro.

- Zac? Zac? –Perguntava Angela apavorada.

- Sa-iam da-qui. — Eu dizia cada silaba separadamente. Era muito difícil conter a dor.

- Não vou sair de perto de você. – Disse Gabriela, fazendo pirraça.

- Eu vou fi-car bem. – A cobra que muitas vezes me mordia estava trabalhando novamente. – Angela. – Eu disse.

- Sim? – Perguntara ela preocupada.

- Tire Gabriela daqui. A situação não vai ficar muito bo-a. Eu não que-ro que vocês duas se ma... – Eu tossi. — chuquem.

- Zac. Você não vai...? – Ela não conseguira terminar as palavras.

- Eu tenho que tentar... – Ela assentiu. – Salvar vocês duas. – Seu rosto ficou em choque.

- Ahh Zac. – Dizia ela entre seu choro repentino. – Você não tem que fazer isso.

- É o meu destino. Vá.

Angela pegou na mão de Gabriela e arrastou a menina para longe. As duas choravam enquanto saiam dalí, da cena onde morreríamos todos nós. Pelo menos eu as salvaria. Eu cumpriria minha tarefa de vida, a que eu me incumbi pessoalmente.

A dor estava se tornando excruciante. Eu estava sentindo a queimação, a garganta pegando fogo e o corpo mudando. Os músculos nascendo do nada e os sentidos melhorando. Eu podia escutar cada batimento agora, cada lágrima que caia no chão e cada pessoa que gritava ou chorava por dentro.

Estava me tornando forte e todos os danos anteriores estavam curando-se automaticamente. Eu podia sentir o gosto de sal e ferrugem na minha garganta. Devia ser Azharar, mas eu não me animei. Não queria ser enganado outra vez.

Conforme eu ia melhorando e cicatrizando as feridas as pessoas da cidade viam olhar para mim, com caras confusas, sem entender o porquê da minha melhora. Eu já conseguia içar de joelhos, mas a queimação só aumentava quando eu me mexia. As partículas de ódio começaram a correr por minhas veias.

- Eu quero matá-lo. – Eu grunhia furiosamente. A dor estava começando a ceder.

O casulo de Baudy começara a quebrar, tirando a atenção que eu tinha. Todos se viraram e olharam a criatura de pé. Vestida como uma pessoa normal. O choque passou de cara em cara até parou em mim. Eu não fiquei em choque porque já conhecia o individuo.

- Caio. – Uma mulher gritara surpresa. – Não pode ser.

- Eu já sabia disso. – Falei bem alto, para todos escutarem.

— Estão surpresos? – Disse Caio zombador como sempre. – Desculpe-me pelo susto. –

- Você é um monstro. – Disse a mulher de novo enquanto eu me levantava devagar.

- Eu sei! Sempre fui. Desde que matei aquela família na maldita Casa assombrada. – Disse ele cada palavra separadamente para que todos pudessem entender corretamente.

- Foi você? – Perguntara Izete. Ela sempre foi a que mais me culpou por tudo. Sempre disse que eu era uma aberração e que deviam me matar para garantir a segurança da cidade. Ela olhou para mim. Tentando se desculpar. Não haveria perdão.

- Sim. Eu, Robert e Dara. – Disse ele rindo. Sempre de bom humor.

- Seu monstro. – Disse Izete, dando dois passos para trás.

Caio rodou sua mão esquerda num movimento que eu conhecia. Um cajado escuro aparecera do nada e materializara-se na mão dele. A morte veio rápida demais e passou na minha frente, dando um sorriso tentador. Parou na frente de Izete e ela não compreendeu o que isso significaria para ela. O fim.

Eu podia dizer a ela para correr, mas não adiantaria. Caio soprou um “mate” e foi tudo. Izete fora cortada ao meio, cada pedaço caindo para um lado. As mulheres gritaram. Os homens prenderam o grito e eu de pé dei um passo à frente.

Ele não pareceu notar a minha volta à vida. Eu dei mais um passo em silencio. Ele girou o pescoço um pouco e parou, sentindo o cheiro de todos. A lua de repente ficou cheia e meus olhos se abriram ao máximo de espanto. Ele estava controlando a lua? Por quê? Eu não sabia que não teria nem uma chance de vencer.

- Zac. Você voltou? – Disse Caio sorrindo maliciosamente.

- Ah sim. – Disse no mesmo tom debochado. Se eu estivesse destinado a morrer iria morrer debochando.

- Que bom. – Disse Caio divertindo-se. – Eu terei com quem brincar. Os humanos – Por que ele tinha que enfatizar essa palavra? – não duram muito tempo.

- É verdade. – Eu disse sombriamente. “Mate-o” disse a voz. Meu rosto paralisou-se, o choque o fez ficar assim. Azharar estava de novo comigo.

- Você gostou de ter visitado nossa casa? – O que ele quis dizer com NÓS?

- Mais ou menos. Você sabe! É muito quente. – Ele riu. Sempre ria de tudo.

- É, mas você se acostuma.

Eu vi sua mão com o cajado se mover. Ele sibilou uma palavra de morra à morte e ela veio ao meu encontro. “Não ouse” eu sibilei também e ela levantou sua foice para mim. “Você não o escutou?” perguntou a voz. “Você deve obedecê-lo como obedece a mim” e a morte parou na mesma hora.

Encarou-me respeitosamente e virou-se em direção a Caio. Ele ficou surpreso por um segundo e depois se recompôs. Olhou-me como se tivesse tirado uma conclusão. Respirou fundo e deu um passo à frente.

- Azharar. Você só deveria estar de volta depois de amanha. – Disse ele lembrando Azharar.

Um tremor passou pelo meu corpo e meus olhos queimaram. A cor escura que costumava ter transformara-se num amarelo liquido. A serpente do ódio começou a correr por minhas artérias me deixando agitado. As pessoas começaram a cochichar e algumas fizeram ssshhh.

- Não seja chato. Eu pedi para chegar mais cedo.

- Ahh claro. – Dissera Caio Debochado.

- Então? Você não deveria estar guardando as portas do inferno? – A palavra inferno fez algumas pessoas sacudirem. Os mais religiosos fizeram o sinal da cruz.

- Cerberus está lá. Ninguém é louco o suficiente para tentar passar por ele. Você sabe bem disso.

- Ahh. – Não consegui encontrar outra palavra.

- Bem. – Interrompera meus pensamentos. – Desta vez eu não vou te exorcizar. Vou te matar. – Disse mostrando o domínio e a convicção de suas palavras. Eu ri. Aprendi a lidar com a morte de várias maneiras.

Meu corpo começou a se retorcer, uma ação involuntária provocada por Azharar, tentando invadir meu sistema, tentando dominar o meu eu e usar o meu corpo da maneira convencional.

O gosto da ferrugem ardera da forma mais horrenda possível. Eu estava literalmente pegando fogo, explodindo de raiva e ódio. As partículas de enxofre entraram na minha circulação e estavam se reproduzindo rápido demais, como se uma reação em cadeia tivesse explodido dentro de mim.

Caí de joelhos e me agarrei ao chão enquanto a dor cortava-me por dentro, a transfiguração iniciando-se novamente depois de meu corpo se desacostumar a Azharar. Engoli em seco, saboreando o gosto de sal que vinha da minha cabeça. Eu não poderia ter tanto sal assim dentro da garganta.

Tudo começara a girar freneticamente, como se eu estivesse numa montanha-russa, mas meus reflexos estavam adormecidos – eu não consegui mais me mover – Estavam reagindo à transformação dele.

Caio se contorcia também, da mesma maneira que eu enquanto os espectadores viam ao vivo um show de horror. Ele gritava e rugia palavras ininteligíveis até para mim enquanto seu corpo abria-se e os ossos começavam a sair de seu corpo, o transformando naquela caveira feia e estranha.

Eu dava voltas ilusórias para lá e para cá. Meus olhos não enxergavam nada mais do que borrões de tintas diversas, me fazendo desejar que ele parasse, mas eu não queria que ele parasse. Eu queria matar Caio.

As minhas asas começaram a cortar violentamente as minhas costas. Elas saiam em pequenos grupos, poucas penas de cada vez. O maldito choro de uma menina estava me deixando ainda mais angustiado e eu desejei poder matá-la para acabar com seu sofrimento.

Caio estava ajoelhado, olhando para mim, mas eu duvidava que ele de fato pudesse ver-me. A dor o afetava mais do que a mim. Ele quase chorava enquanto sua pele pálida e frágil era rasgada pelos ossos de mármore que iam aparecendo em cima de sua pele.

Seu rosto estava contorcido de dor e seus olhos estavam do amarelo mais vivo que eu já vira na vida. Seu cajado transformara-se naquela foice muito particular, com uma cabeça perto da ponta e comprida que se alargava numa linha quase reta que agora estava cintilando um amarelo venenoso. Os olhos da foice tinham um tom vermelho sangue muito estranho e os olhos de Cio estavam do mesmo amarelo venenoso da ponta da foice.

Eu podia sentir a voz invocando o desejo de destruir Baudy. O demônio que sempre fora ruim e que nunca acreditara que ele de fato serviria para alguma coisa. Eu podia sentir seu corpo e mente gritar pela morte dele.

Eu já estava quase completo, as asas no lugar – agora que eu me acostumara com a dor cortante e latejante do demônio – os olhos amarelos e a flauta que eu nunca vira antes em minhas mãos. Os meus olhos ficaram mais amarelos do que eu tinha previsto e minha roupa ficara roxo escuro e a cor me fez sentir o tipo de veneno que eu tinha.

As trevas emanavam de mim. O meu corpo emanava uma onda de raiva vermelha que parecia cobrir-me, como um manto protetor. Ela saia e ficava presa entre meu corpo e o ar da noite. Eu refletia mais do que a lua por causa dessa proteção.

Havia uma chave no meu pescoço e eu não sabia para que ela serviria. Os meus olhos furiosos procuravam qualquer vitima e diversas vezes eu pedia a Azharar para controlar-se, Ele pedia desculpas – o que era estranho para um demônio – mas dizia que só Baudy interessava para ele.

O público fazia suas apostas. Quem venceria o duelo? O menino espírito-ruim da casa mal assombrada ou o grande ancião demônio que sempre cuidou da cidade? As dúvidas pairavam no ar da noite gélida. Todos cochichavam e eu tive que me controlar umas duas ou três vezes para não destruí-los.

- Saiam já daqui. – Ordenei. Queria que todos estivessem a salvo quando tudo acabasse; mesmo os que não mereciam – o meu negócio era com Baudy.

— Quem você pensa que é? – Perguntara um menino loiro, de óculos de fundo de garrafa e de pele branca. “Abusado” a voz disse. Eu concordei.

- Um demônio. – Cuspi as palavras para ele, que automaticamente paralisou-se por um instante e depois correra para longe.

- Um demônio que quer salvar a todos? – Disse Baudy, intrigado. –Ahh, você é uma vergonha para nós.

- Será uma vergonha quando eu te mandar para o inferno com o rabo entre as pernas. – Respondera Azharar por minha boca. Percebi que a conversa seria somente entre eles.

- Coitado. Você não tem toda essa força. Não é capaz de me matar.

- Veremos.

A cena ficou misteriosa. Embora eu tivesse dito para os espectadores irem embora eu podia vê-los por detrás dos arbustos.

— Vamos para a casa. – Eu disse, interrompendo a discussão dos dois.

Caio assentiu e começou a subir morro acima, onde nos encontraríamos para a luta final. Eu corri na direção dele, deixando o publico curioso para trás. Era estranho me sentir tão vivo enquanto corria de encontro à morte. Sentia-me um guepardo atravessando as árvores sem sequer encostá-las.

A lua cheia mostrava-me o caminho... – bem, eu conseguia enxergar na escuridão, mas aquela sensação era diferente. -... Enquanto eu tentava segui-lo sem o perder de vista.

Ele parou exatamente no meio da casa que, me lembrava de muitas coisas. Encarou-me por um minuto interminável antes de falar alguma coisa. O silencio da noite era inquietante. Os animais pareciam ter fugido, deixando-nos sozinhos para o confronto final.

- Então? – Disse Caio, quebrando o silencio. – Você vai se entregar e morrer como o fraco que é ou vai tentar vencer e morrer com dignidade? Azharar?

Faltou-me o ar, a respiração falhava e eu me sentia ofegante, como se estivesse tendo uma convulsão, como se estivesse morrendo. A raiva que ele tinha era como veneno de enxofre, me queimava com tanta força que meus sentidos desapareciam por completo e eu perdia a locomoção motora.

A ardência era tão forte que meus músculos ficavam rígidos demais para que eu me movesse. Meu corpo não estava conseguindo a se adequar ao ódio de Azharar, a fúria que ele sentia e ao desejo que ele tinha e matar Baudy. ”Calma” eu pensei alto e ele acalmara-se um pouco.

- Então. Então você morrerá. Foi tudo que Azharar pode dizer por minha boca sem perder a compostura.

Eu sentia como a situação estava ficando perigosa. Cada instinto do meu corpo dizia-me que a luta final começaria. Cada fio de cabelo meu apontava-me uma guerra demoníaca em que um de nós iria cair e retornar ao inferno.

A tensão que eu sentia vinha do ar em volta, de cada gota de suor que vinha das plantas e das árvores molhadas. Até agora eu não tinha percebido a chuva grossa que me molhava e me limpava de alguma forma.

A arena de batalha que nascia em volta de nós dois parecia estar transformando-se em um circulo gigante, como da ultima vez; quando criaram uma roda de fogo para me deter. A mesma situação, mas agora seria tudo ou nada. Seria a nossa chance de exterminar um dos maiores vermes do mundo.

- Pode vir. – Disse Azharar.

A chuva forte tornava-se minha aliada, ou talvez aliada dele. Levantei minhas mãos E as cruzei num X meio diagonal e o vento forte começou a nascer. Caio fizera o mesmo. Os movimentos eram iguais e uma tempestade estava começando.

As folhas das arvores caiam – o outono havia chegado mais cedo esse ano – sem parar enquanto meus olhos encaravam os dele. O monstro. O que morreria esta noite e para sempre iria queimar no inferno.

Um barulho insuportável estava vindo de ambos os lados, deixando-me meio surdo. A ventania veio cortando as árvores centenárias e as fazendo em picadinhos. A lâmina de vento que veio cortando do lado de Caio estava chegando à metade do caminho.

A minha lâmina também chegou ao mesmo tempo em que a de Caio – as duas chocaram-se e isso fez um redemoinho nascer no meio do campo de batalha – e tudo tremeu na noite chuvosa.

Pedaços das árvores voavam para todos os lados enquanto nós dois nos esquivávamos deles. O vento era tão forte que eu quase voei, tive que me segurar, já estava descalço então finquei meus dedos no chão gelado e molhado.

A pressão fazia tudo que estava caído voltar ao ar, como se não houvesse gravidade. Coloquei minhas mãos para trás e as bati juntas para frente, como se estivesse batendo palmas e o redemoinho no meio do campo de batalha cresceu e foi correndo para o lado de Caio, que pulara por cima, esquivando-se, deixando o redemoinho ir para longe de nós, fazê-lo se perder no meio das grandes árvores.

- Ahh. Muito bom. – Gritara ele do outro lado. – Mas já é hora de terminar com isso.

Caio começara a tremer novamente, um tom cinza tomando conta de 50% de seu corpo – bem, de seus ossos. Afinal, ele era uma caveira. – talvez eu estivesse maluco, porém ele estava ficando no modo Dualway. A dualidade de sua voz e seu corpo estava me assustando.

- Como eu faço para ligar isso? – Perguntei para Azharar.

- Ligar o que? – Perguntara ele, mal prestando atenção em minha pergunta.

- Ligar o Dualway? – Um choque passou pelo meu organismo.

- Não sei. O que você quer exatamente? – Disse ele sussurrando.

- Eu quero 50% de você aqui comigo.

O tremor começara, a dor insuportável ardeu nas minhas articulações e todos os componentes sanguíneos das minhas veias começaram a alargar o canal por onde eles passavam. A queimação fazia-me ficar ofegante oscilante e hesitante. Minhas pernas não agüentaram a dor e caíram. Segurei-me pelos joelhos.

Olhei para minhas mãos e elas já estavam de duas cores distintas. Preto e branco. Uma divisão ao meio corretamente apareceu pelo meu corpo. Um traço que distinguia as cores e o lado em que eu estava e Azharar também.

Eu ganhei o branco e ele o preto. A dor começara a diminuir gradualmente até parar. Levantei-me apressado e Olhei para Baudy e Caio unidos pela maldade – não havia nenhum lado bom ali. Era apenas o cinza dos dois, apenas dois cinzas diferentes que, a olhos nus ou humanos, não perceberiam a diferença.

- A sua hora chegou. – Gritei para ele. Ele rugiu e depois juntou as mãos abaixo da linha do estomago.

- Ha ha ha... – Explodira Caio em risadas. Baudy estava me subestimando de novo. – Você não vai ser capaz de me arranhar.

- Eu não vou te arranhar. – Disse debochando. – Eu vou te mandar para o inferno intacto, assim eles poderão brincar com você por mais tempo.

Como ousa pensar que pode me matar? – Perguntara ele irritado, a conversa estava prestes a terminar. – Eu vou te matarrrrrr.....

O buraco no meu estomago me dizia que eu estava fazendo algo errado, e eu tinha quase certeza de que o errado seria brigar com Caio, mas Azharar queria tanto a morte dele que eu morreria de novo por isso. Enquanto eu respirava devagar Caio começou a movimentar-se entre as arvores numa velocidade anormal.

Eu mal conseguia vê-lo naquele campo de batalha. Ele se movia tão rápido que por mais que meus olhos tentassem enxergá-lo e ver seus movimentos eu não conseguia. O pânico começou a correr nas minhas veias, meu corpo se enrijeceu preparando-se para a batalha.

Pulei, o mais alto que pude. Ele veio atrás de mim. Dei uma braçada no ar e isso bateu nele, voei para trás abrindo minhas asas e ele abriu as suas, seguindo-me numa dança coordenada e muito bem ensaiada. A dança nunca parava.

Cada instinto do meu corpo defendia-se das garras de Caio, esquivando-se e contra-atacando todas as vezes que eu podia. Coloquei minhas mãos na boca e como se fosse cuspir algo, eu cuspi um jato de fogo azul que ele se esquivou e depois me lançou um jato de fogo vermelho.

Ele era rápido demais para mim. Nesse ritmo iríamos perder com certeza. “Azharar” eu rugi na minha cabeça. “Você precisa me ajudar” eu rugi de novo, esperando a sua reação. Nada ele fizera, o ódio o havia deixado paralisado e sem reação alguma, como se um choque muito forte o tivesse colocado em Off.

Eu sabia como o fazer acordar. Comecei a pensar em coisas boas e em anjo e ele rugiu de raiva no mesmo instante.

“Porra” ele xingou.

“Você tem que me ajudar” Disse enquanto eu me esquivava de seus ataques.

“Sim. Vamos acabar com isso.”

Algo torturante começou a queimar no meu corpo. Enxofre, uma dose concentrada com alguma coisa diferente que eu não consegui reconhecer. Aquilo estava tão forte que eu não pensei que conseguiria me manter vivo e não mandar nós dói para o inferno.

“Porra”. Eu xinguei.

“Aguenta isso”

“Isso é forte demais. Não sei se vou aguentar.”

“Você é mais forte do que isso.”

Esquivei-me de um soco de fogo que pairava das mãos esqueléticas de Caio e afastei-me dele, o mais longe possível. Ele cerrou os olhos, – desconfiado ou achando que já tinha me vencido – e esperou que eu continuasse.

Caí de joelhos e esperei que a queimação infernal passasse. Meu corpo ficava mais resistente a cada minuto e eu sabia os efeitos disso. O enxofre sempre deixava um demônio mais forte, mas o corpo humano não estava muito acostumado a esse tipo de substancia correndo no corpo.

A dor começara a sumir devagar, mas estava indo embora. Eu já conseguia levantar-me e foi o que eu fiz. Encarei-o com uma nova sensação de força que veio do enxofre. Uma nova sensação de fúria e ódio que seguiam completamente unidas nessa batalha, que eu estava perdendo.

- Já se recuperou pequenino? - Dizia Caio e Baudy debochando da nossa cara.

- Já vou lhe mostrar minha recuperação. – Rugi entre os dentes.

Fechei as mãos e a apontei para cima antes de respirar. Meus olhos cintilaram no amarelo e depois eu pude perceber que a noite chuvosa estava começando a se transformar numa tempestade. As nuvens roxas e que agora soltavam pequenos raios me fizeram sentir mais vivo, mais poderoso.

A tempestade começou a ficar cada vez mais forte. As gotas de chuva do tamanho de bolas de golfe batiam no chão e arrastavam qualquer coisa que estivesse ali. Eu me vi malicioso imaginando como eu poderia matá-lo, de que maneira eu poderia acabar com sua vida.

Caio ainda estava imóvel, fitando-me do outro lado do campo de batalha.

- Uau. – Disse ele, testando-me. – Você já sabe até como criar tempestades.

- Também sei criar passagens para o inferno, só de ida sabe? – Desafiei.

Seu rosto corou de raiva e ele começou a correr, retirando a distancia que havia entre nós, disparando para meu lado sem sequer ser tocado pelos raios que vinham das nuvens roxas que eu havia criado. Deslizou sobre o campo encharcado sem sequer molhar seus pés descalços.

Veio ao meu encontro e rodou seu pé esquerdo ma acertando um enorme chuta na cara. Voei 300 metros de onde estava e bati numa árvore cheia de musgos. Rugi de raiva e de dor. Encaixei-me inteiramente na arvore e disso eu tirei graça. Ri com a ironia de estar lutando com um demônio, quer dizer, uma caveira esquelética.

Voei rapidamente para o meio do campo de batalha e começamos outra dança coordenada. Ele tentava me ferroar com os dedos para me fazer ingerir seu veneno. Eu esquivava de seus golpes serpenteados e estava dez vezes mais forte.

Dei um pulo para trás e uma rajada de vento veio cortando minha camisa preta e meu peito começara a sangrar. O corte curou-se em menos de três segundos e eu ri furiosamente enquanto me jogava com força em cima de Caio.

Dei um pulo e bati o joelho em seu queixo cheio de ossos. Ele gemeu palavras censuradas enquanto seu corpo se retorcia para trás. Os raios estavam cessando no campo de batalha e a chuva estava indo embora. Ele caíra no chão e falou mais xingamentos.

Voei novamente para cima dele e soquei seu rosto, afundando-o no chão. Seu corpo ficou soterrado uns 30 centímetros da cabeça ao umbigo. As pernas presas no ar. Um sorriso maldoso nasceu no meu rosto involuntariamente.

A terra começara a tremer num ponto só, onde Caio estava enterrado. Seu corpo começou a girar numa velocidade impressionante. Seu corpo se transformou numa broca muito potente que quebrou o chão e o soltou do chão onde eu o havia colocado.

Caio serpenteou pra fora do chão tão rápido que eu dei um pulo para trás de susto.

- Você por acaso acha que pode matar-me com isso apenas? – Disse Caio, pela primeira vez o havia visto nervoso, já que ele nunca perdia seu tom debochado.

- Não. – Rugi. – Eu vou acabar com você de outras maneiras.

- Ahh. Você não seria capaz de me matar nem em cem anos.

- Cale a boca. – Eu gritei, com ódio subindo pela minha garganta.

- Como ousa. – Sibilou ele em protesto.

Caio começou a tremer de novo, os dois tons de cinza cintilando furiosamente em seu corpo ósseo. Suas feições mudavam constantemente enquanto ele tremia sem parar. Cobras nasciam de seus ossos e serpenteavam sem parar em volta de seu corpo.

Suas mãos juntaram-se num triangulo equilátero. Seus olhos começaram a faiscar trevas enquanto eu me vi paralisado. Havia cobras por todo o lugar. Me segurando-me e me picando para que eu estivesse impossibilitado de correr quando Caio tentasse alguma coisa.

Tudo começou a ficar roxo. Tudo parecia estar fora de foco. Eu estava voando, tudo estava voando. Flutuando, assim como eu. Havia muitas agulhas grandes e pratas incrustadas no chão estranho.

Elas tremiam sem parar enquanto eu subia mais e tudo começava a não fazer sentido. As aves-agulhas serpenteavam no ar, no meio do nada. “Mas que merda é essa?” Pensara Azharar.

Foi assim que a maldita dor me pegou. As cobras que me mordiam pelo comando de Azharar não tinham nada a ver com isso. A dor das picadas das cobras de Baudy era dez vezes maior do que as de Azharar.

Uma bola negra com fios roxos se espremia contra mim. Por mais que eu tentasse me libertar eu não conseguia me soltar da grande bola que se envolvia em meu corpo. Ela estava me sufocando.

A bola entrou na minha pele, furando-a para que os fios ficassem do lado de fora. Cada corte feito por cada fio parecia um tiro de espingarda. Meu corpo estava roxo e a cada minuto eu me sentia mais fraco.

Eu já estava fraco e cansado, cada vez mais fraco. Eu iria morrer. De novo.

Meu corpo estava deslocando-se. Meu braço parecia se esticar sem que eu pudesse me mover. Havia um buraco entre meu antebraço e o braço. Isso me deixou nervoso. Comecei a me remexer, mas a pele roxa incrustada em mim não me permitia nenhum movimento.

- Arghhh argh. – Eu gritava de dor enquanto meus membros eram arrancados do corpo.

Baudy ficava lá parado olhando para mim. Nem se importava em m ajudar. Afinal, por que ele me ajudaria? Eu tentava sair do ar. Meu braço voava sem parar de um lado para o outro numa cena onde a escuridão era tomada por um vermelho fúnebre.

As agulhas tremiam cada vez mais forte fazendo o chão girar em volta de mim. Algumas se soltaram e começaram a dançar, pareciam estar formando um redemoinho.

Eu ofegava enquanto o sangue escorria de todas as partes do meu corpo. Eu já não agüentava mais. Eu estava prestes a pedir para morrer. Olhei para as agulhas e não vi nenhuma. “Droga” eu pensei. Pelo menos elas conseguiram se libertar.

Fechei os olhos e esperei pela morte. A dor estava me matando. Eu sentia a dor com tanta intensidade que cada gota de sangue fazia meus olhos arderem e chorarem.

No meio daquele redemoinho estranho eu pude ver as agulhas. Elas dançavam sincronizadamente com o redemoinho. As vi sair dali e se colocarem na minha frente. Elas pareciam estar prontas para me atacar.

Abriram-se em forma de coroa, as pontas sempre apontadas para mim. Esperei enquanto tudo se movia cada vez mais devagar. Eu deveria estar em outra dimensão.

Eu já estava com um braço cortado e todo rasgado, a pele num roxo incrustado e todo rasgado e machucado. Já não havia mais sangue correndo no meu corpo. Eu só estava vivo ainda por causa de Azharar.

- Está gostando disso? – Perguntara Baudy, adorando a visão, a cena em que ele era o diretor.

- Desgraçado! – Rugi.

- Um elogio? Que maneiro. – Dissera ele sem sequer se incomodar com minha tentativa de ofendê-lo.

- Vá pro ínfero. – Rugi mais alto.

- Eu já vim de lá pequeno Zac. Mas... – Interrompeu-se ele, respirando fundo enquanto um sorriso nascia de seus lábios. – Mande um abraço para a pequena Amanda. – meus dentes se trincaram, meu corpo se enrijeceu. A dor queimou todos os meus músculos, mas eu não me importei.

- Não ouse falar de Amanda. – Grunhi sem forças. A batalha estava perdida... Pra mim.

- Ohh. – Disse ele numa falsa agonia. – Não se preocupe... – Continuou ele. – Você a verá muito em breve.

Tudo o que consegui fazer foi rugir em protesto.

- Vão. – Disse ele, mas não parecia pra mim.

As agulhas começaram a se afastar, pegando distancia. Fechei os olhos e esperei pelo final. Ele estava tão próximo que eu já me sentia morto. Já me via morto, correndo pela sala VIP do inferno, me destruindo junto aos outros que lá ficariam até o final de suas existências.

Estava demorando demais para acontecer. Parecia uma eternidade.

“Mas que droga é essa?” Pensei.

“Pare. Eu já sei o que isso é” Respondera Azharar.

“Então me fale droga.“ Ordenei.

E foi aí que as agulhas atacaram. Meus olhos se fecharam enquanto a morte vinha para me buscar.

Notas finais
Quase No Final...