2. QUEM É VOCÊ?

Já era de manha, mas não muito cedo, umas 11 horas da manha e umcheiro muito bom de bolo e um voz cantarolando canções que eu gostava. Uma voz vinda da cozinha, da onde vinha o cheiro de bolo, o que me fez lembrar a minha visita indesejada, parada, na minha porta a noite, perguntando aonde era o banheiro.

Eu já estava pensando no porque dela estar ali. Embora eu não a conhecesse eu não confiava nela. Os meus olhos não pareciam querer se abrir. Minhas pernas desceram da cama lentamente, os meus pés se colocaram no chão e eu me levantei pra descer as escadas. Já estava na cozinha quando aquela enorme saudação me fez pular de susto.

- BOM DIA, você deve estar com fome, eu fiz um café da manha pra você.

- Obrigado, mas não estou com fome. Eu não como muito de manha. E você parece estar muito à vontade aqui, certo?

- Ah, er, desculpa, mas eu me sinto muito bem nessa casa.

- Você quer um copo de suco? — Ela me perguntou já colocando ele na minha frente, algo com uma cor alaranjada e tinha algo efervescendo no fundo. — Toma, está muito gostoso.

- Ahh, ta bom. — Eu disse e me virei desajeitadamente pra derrubar o copo com cor alaranjado. — Ahh, desculpe, eu sou desastrado, sempre fui assim.

- Ahh. Não tem problemas, eu posso fazer outro. — Seu rosto agora estava em brasa, um ódio nascendo nele e muito mal se escondendo.

- O que você tem? Esta com dor de barriga? Eu perguntei descaradamente.

- Ahh, não, er, mais ou menos, já vai passar. — Me disse e saiu correndo para o banheiro.

Eu levantei e fui em direção a geladeira e peguei um sanduíche já pronto que eu guardava num compartimento escondido. Peguei-o e comi rapidamente antes que ela pudesse voltar.

O conteúdo do copo que agora estava encima do jornal no chão estava corroendo as páginas, eu já podia jurar que aquilo era um tipo de veneno, mas não tinha como provar. Eu não tinha nada pra fazer, então decidi ir à sala e pegar um livro pra ler.

Ela já estava lá há muito tempo, e eu nem sabia quem era ela...

- Hey, você já está melhor?

- Sim, é. Você não comeu nada. — Ela se sentou no sofá na minha frente, E lá ficou me observando por um bom tempo antes de falar qualquer coisa.

- Qual é o seu nome? — Eu perguntei, fingindo não ter interesse algum, apenas pra puxar assunto.

- Er, me chamo Helena. Ela me falou, hesitante por um momento. — E o seu? — Eu olhei com cara de duvida, mas tive que responder.

- Chamo-me Zac. Er, você não tem família? — Eu forcei, tentando extrair muitas informações, todas possíveis, eu queria suas fraquezas e seus defeitos. Eu era observador e critico, vivia muito bem sozinho e não confiava nas pessoas. A vida me ensinou desta forma, eu não tinha com quem contar quando meus pais morreram. Eu tive que me virar e aprender tudo sozinho.

- Er, eles morreram, quando eu tinha 15 anos. — Seus olhos caíram de tristeza, e eu senti uma dor forte no coração, porque me sentia da mesma maneira que ela. Nós éramos órfãos. — E você, vive sozinho aqui. — Não era uma pergunta, como se ela soubesse mais sobre mim. — Onde esta a sua família?

- Há, eu não tenho família, eu sou órfã, como você. — Disse numa voz fria e então sai em direção à cozinha. Era estranho o quanto me machucava falar dos meus pais, os únicos ligados a mim, de todas as formas; eu não tinha parente, éramos eu, meu pai e mãe. Eu de certa não podia agüentar nada que viesse se tornar um assunto sobre os meus pais.

Tenha cuidado com ela. Ela é perigosa”

Havia uma voz sussurrando pra mim, mas não havia ninguém junto a mim na cozinha, éramos apenas eu e a casa. Eu olhei para a sala, procurando por ela, mas ela havia sumido. Eu dei de ombros, e bebi um copo de água, olhando para o relógio às vezes, pra ver se o tempo havia passado. Embora eu tivesse vontade de saber tudo sobre ela, ou expulsa-la da minha casa, eu tinha que saber o motivo dela estar aqui.

Levantei-me e fui em direção a janela, pra ver o mundo em volta de mim. Segui e em 5 segundos já estava lá. Eu corria muito bem, eu era veloz, já havia precisado da velocidade muito mais vezes do que eu podia contar. Estava perdido na vista panorâmica em volta de mim, totalmente desligado nos pensamentos...

-Então, é verdade que ele é um monstro? Ele já os chamou? — o meu senso se ligou e de repente eu acordei. La estava ela, conversando com os mesmos rapazes que tentaram me bater, ou fazer qualquer coisa que eu certamente não gostaria.

- Eu ainda não obtive nenhum resultado com ele. Eu preciso de mais tempo. — Ela estava aqui pra descobrir algo sobre mim. Eu podia sentir isso. A vibração maligna se contorcendo em mim, e eu podia sentir o sangue fervendo, queimando na minha circulação, me deixando nervoso, maluco.

- Eu não posso me demorar aqui, ele pode vir aqui e descobrir tudo. — Eles se dirigiram para a floresta com grandes arvores e lá desapareceram completamente. Percebendo que ela estava voltando, me vi de novo indo em direção a cozinha, e comecei a pegar coisas para preparar o almoço.

- Oi Zac, Se você quiser, eu posso preparar o almoço. — O silêncio percorreu o meu rosto, deixando-o fechado, literalmente. — Tudo bem então, eu fui sentar-me lá fora. O dia está lindo; você deveria ver. — Seu esforço por uma conversação estava me deixando doido, eu nem queria olhar pra ela.

Ficamos em silêncio, e só o som dos pássaros era a única coisa que nós podíamos ouvir.

Tenha cuidado com ela. Ela é perigosa”

E lá estava o barulho de novo, me dizendo o que eu de fato já sabia. Eu não sabia quem falava comigo, mas devia ser a minha consciência, ou algo parecido.

Não havia outra explicação, afinal, não havia ninguém. Será que eu estou ficando maluco? A cada minuto eu sabia que algo estava errado. Eu só precisava de um tempo, pra poder entender.

O dia já estava quase acabando, o sol estava se pondo e eu sabia que precisava de mais tempo. O que quer que fosse o que ela estava tramando, eu ia descobrir. Eu precisava.

- Hey Zac, eu estava pensando, vamos sair por aí hoje? — Ela disse me fazendo estremecer e tossir com o seu pedido. — Sabe; você fica muito em casa. — Acho que agora eu sei, ela queria me tirar de casa. Será que havia alguma coisa aqui que eu não sabia. — Vamos sim, é bom sair de vez em quando.

- Eu não gosto de sair de casa, e nem sou bem vindo. — Eu disse obscuramente, fazendo Helena pular e capotar de medo, apenas em seu rosto.

Eu não ia sair de casa, e invocaria um tubarão se fosse preciso. Mas tudo que ela fez em seguida foi assobiar tão desesperadamente quanto foi possível. Eu deitei no sofá e comecei a assistir TV. Um canal sobre um desenho obscuro, a morte; que passava todos os episódios tentando levar alguém, e quase sempre alguém era morto. Eu gostei, sempre fui fascinado por essas coisas, sombras; fantasmas e zumbis.

Eu era diferente, e mesmo assim normal. Era tedioso ter uma visita, e essa visita era totalmente indesejada, sem tirar o fato de que ela provavelmente queria acabar comigo ou sei lá o que.

Meus olhos estavam fechando, sem eu querer, eles estavam me dizendo que eu tinha que dormir. Mas eu estava lutando contra o sono. Mas as minhas pálpebras estavam se fechando com mais e mais força. De repente eu havia desmoronado. Mal percebi e já estava roncando no sofá.

Helena se levantou e foi em direção a janela.

- Psiu, vocês já podem começar.

E lá se foi o dia, dando lugar à noite ofuscante, a lua tomando a sua posição, seu ultimato desde o principio. Os três homens estranhos já estavam lá, cavando com pás gigantes, tentando encontrar alguma coisa. A grama sendo arrancada e todas as flores morrendo a cada batida da pá. A dor ecoando da casa, seu grito de pânico e medo havia se formado agora.

Um murmúrio baixo, inaudível para os ouvidos humanos. Um grito de suplica correndo por toda a casa, uma nova corrente elétrica havia se formado, passando por toda ela, desde a cozinha até o quarto de hospedes que ficava no segundo andar. Uma onda de agonia e dor corria de dentro pra fora agora.

- Hey irmão, porque ta saindo uma fumaça preta da casa? — O médio entre os três perguntou preocupado, largando a pá.

- Não é nada, Helena deve estar cozinhando algo, ela não é uma das melhores. — O maior debochou enquanto o menor pulava no grande buraco e tirava de lá um baú velho, de cor marrom antigo.

- Hey, irmão, uma ajudinha aqui. Isso ta pesado. — Ele falou ao médio que agora estava ajudando ele a subir o grande baú.

- Helena, vem aqui, acho que achamos o que procurávamos. — Helena já estava na ponta da janela, quase pulando, num sentimento de ansiedade e culpa que parecia corroer ela por dentro. A grama bonita e verde que dormia ali sobre a terra agora estava marrom e podre.

O cenário havia mudado. Tudo o que era verde e bonita agora se transformara num misto de tristeza e ódio, um cinza cintilante e as folhas agora estavam marrons de velhas. Toda a primavera havia se transformado em outono em um piscar de olhos.

- O que está acontecendo Helena? — O menor perguntou dando um pulo de medo que fez o maior cair e quase comer um pedaço de uma folha.

- Eu não sei. — Ela respondeu. — Eu nunca vi isso acontecer antes. Será isso uma reação dos espíritos? — Todos estavam quietos agora. Havia ali uma interrogativa crescendo e sempre ficando maior a cada instante. Um minuto e tudo estava acabado. A casa parecia gritar agora, seu sangue correndo nas paredes e todo o drama parecia ter dobrado a força natural.

A fumaça preta agora estava vermelha e parecia se formar e se transformar em tentáculos. Eles pareciam querer puxar ou agarrar algo. O medo havia se tornado o tema principal deste dia. O escuro fazia a mata em volta muito mais perigosa. O uivo dos lobos estava assustando a todos.

- Hey Helena, o que esta acontecendo? — O menor perguntou assustado.

- Er, eu já disse que não sei. Vamos abrir logo este baú. — Ela respondeu irritada. O maior já estava abrindo o cadeado enquanto eles discutiam o porquê de a casa ficar tão agitada. O barulho era alto e cada som não fazia a mínima diferença. Tudo parecia inaudível no ruído doloroso para os ouvidos. Tudo parecia acabado. Não havia possibilidade de sair vivo dali. A morte estava chamando tão fortemente que era impossível não pensar nela e não desistir da vida. Era o minuto final.

- Olhem, são ossos. — O maior pulou de nojo e frustração pelo trabalho duro e em vão. Uma respiração alta foi o que eu pude fazer antes de acordar. Minha cabeça estava pesada e confusa, os meus sentidos não estavam trabalhando da maneira correta. Eu podia sentir isso. Mas eu sentia também o cheiro de queimado, o rancor e o ódio ecoando pelas paredes vermelhas de sangue da casa, o puro grito da criança que agora se transformara em um apelo de morte, um grito e raiva.

“Eu quero matá-la”, a voz dizia de novo.

“Por que ele não pode me deixar em paz? Eu quero saber! Eu quero o sangue.”

Eu balancei a minha cabeça pra afastar as coisas ruins. Levantei-me e fui olhar na janela, mas não havia ninguém e tudo estava normal.

Eu acho...

Notas finais
Devo continuar??? Opine por favor!!!