Já era de manhã quando abri meus olhos e percebi que a casanão havia cantado pra mim. Tudo estava diferente. Os móveis preto e branco que tinham uma beleza suave e calma, agora estavam numa cor de vermelho e roxo, cores que certamente chamariam a atenção em uma loja de eletrodomésticos. Cores malignas e sombrias.

O humor da casa era maldoso. Ela parecia querer vingança, a simples e pura vingança suprema. O ódio queimava nas paredes como fogo, uma cor vermelha, forte como sangue. Eu conseguia sentir o gosto de enxofre na minha boca, o gosto da madeira e do sangue, eu me sentia da mesma forma que a casa, mas não tinha a raiva, era como se eu entendesse tudo o que ela queria que eu fizesse. Tudo o que ela sabia sobre o que tinha acontecido.

Eu me vi entediado, cansado e de certa maneira; morto por dentro. Já estava perto do natal e eu não tinha nada pra fazer. Eu realmente queria hibernar, mas não era um urso.

- Helena? Cadê você? — Eu perguntei, reconhecendo que ela estava aqui em casa. Eu gritei, mas ela não me respondeu, então resolvi descer pra ver se ela estaria lá na cozinha cantarolando e fazendo o maldito bolo sabor de queimado.

- Helena; você ta aí? — Eu repeti confuso, sem saber o porquê de seu sumiço.

Ela não está mais aqui” A casa me respondeu, mostrando um tom de divertimento. “Ela foi passear, você não sabia? Ah é! Você estava dormindo, muita coisa aconteceu aqui.” Eu não conseguia entender o porquê de a casa agora parecer sedenta por sangue.

O que teria acontecido aqui nesse tempo em que eu estava dormindo. Tudo parecia igual, exceto pela casa, ela parecia ser outra agora. Com outra personalidade.

Eu não estava entendendo nada. E mesmo se quisesse, eu não iria conseguir, então resolvi ir a loja comprar coisas para fazer uma sobremesa para mim. Fechei a porta da sala, trancando-a, e saindo sem reparar muito no local em volta, nos vestígios do outono passageiro; na brisa do vento que passava ao longe e o medo que a floresta estava me transmitindo.

As grandes árvores que sempre me faziam melhor no fim do dia, agora me arrepiavam. O frio passava por mim e congelava os meus sentidos. Eu descia muito mais devagar agora, sempre espiando a casa. Embora eu não sentisse nada, e nem visse nada, eu podia perceber que havia algo errado.

Eu já estava na rua da loja quando percebi os olhares amedrontados em volta de mim. Pessoas se escondendo. Olhando torto e disfarçadamente. Sussurrando, profanando. Sem escondendo da minha presença. Olhares vazios que desapareciam de vista quando eu me virava pra olhar. Por que estavam me olhando desse jeito? Por que eles estavam me evitando novamente? Muito mais criticamente.

Assustado e preocupado com a reação das pessoas, eu entrei rápido na loja TUDO e fui à seção de alimentos. Peguei tudo o que queria, mas estava com muita vontade de sumir; as pessoas se escondiam e imploravam baixo. O medo crescente agora se tornava pânico. Uma criança de 8 anos começou a chorar, aterrorizada.

Eu fui ao caixa, e paguei as minhas compras, sendo rápido o suficiente pra sair antes que outras pessoas fossem alarmadas.

Quando voltei, a rua estava vazia, não havia uma luz ligada na casa, parecia que todos haviam se enfiado debaixo da terra para pra não ter que passar por mim. Como já não via ninguém, resolvi seguir para casa. Já estava mais frio que antes, uns 15 graus. Eu estava usando um casaco preto e uma calça jeans que eu comprei há 3 meses, quando fui viajar para outra cidade, aonde não me conheciam.

Andando mais rápido eu me perdi em pensamentos sobre o que a casa disse sobre os acontecimentos enquanto eu dormia. Já estava andando como um zumbi e sabia o caminho de cor, então era só subir; sem olhar muito pra onde estava indo. Acordei com o cheiro de algo queimando, e agora já estava escutando pessoas gritarem.

Subi correndo desesperado e vi pessoas com tochas em fogo nas mãos, queimando a casa e gritando, rindo; felizes e orgulhosos pela coragem. Tudo o que eu pude fazer foi me esconder atrás de uma árvore e deixar as lagrimas caírem sobre os meus olhos enquanto tudo o que eu tinha estava sendo levado pelas chamas.

Todo o tempo que estive aqui e tudo o que eu tinha desde que cheguei foi a casa, mesmo ela não sendo minha de verdade. Cada parede da casa estava sendo devorada e eu não podia fazer nada sobre isso. O dia sumiu por causa da fumaça e todas as pessoas estavam subindo pra ver o estrago.

As lágrimas já tinham acabado e o ódio havia tomado conta de mim. Era difícil não se sentir frustrado e irritado, afinal; eu nunca tinha feito nada pra essas pessoas, e agora elas me humilhavam e destruíam tudo o que eu tinha.

Uma mulher estava preocupada e aliviada ao mesmo tempo, e conversava com outra senhora que estava perto.

- Será que o menino está bem? — Ela perguntou preocupada, sem notar a cara de frustração e desentendimento da velha senhora.

- Aquela tentação já deve estar morta. — Ela disse sem ressentimento algum. — Foi melhor assim. Ele só trouxe preocupação e medo pra esta cidade. E você sabe muito bem disso. — Nesse instante todos ficaram em silêncio observando os restos queimados da casa.

Eu me sentia perdido, já não tinha mais nada, apenas a roupa do corpo. Não tinha parentes, eu estava totalmente sozinho no mundo, e nem sabia onde Helena estava. Levantei-me e fui pra um lugar onde eu pudesse dormir. Corri pela mata de árvores gigantes; que eram minhas únicas vizinhas desde que cheguei aqui.

Enquanto eu corria o mais rápido possível, os gritos de alegria ecoavam na noite, urros de felicitações e tudo o que eu podia fazer era me esconder. Todos achavam que eu estava morto, e é assim que eu iria ficar até conseguir fazer a minha vingança suprema, era o que eu queria; o ódio que agora estava sendo levado a todos os lados do meu corpo pelas artérias me dizia isso. A floresta era escura demais pra olhos humanos, embora eu fosse um humano, eu conseguia enxergar bem, sem bater nas árvores pelo menos.

Tudo estava silencioso agora, eu até conseguia escutar os animais noturnos, cantarolando ou namorando, eu não sabia dizer. Eu corri sem parar até não aguentar mais, até que cheguei num lugar onde havia uma arvore enorme que mais parecia um abrigo feito pra mim, era um pouco pequeno, mas confortável, como uma casa escondida, eu só precisaria de um pano marrom da mesma cor pra escondê-la. Sua entrada era um como uma de um arco-íris, circular e aberto.

A árvore devia ter uns 852 anos ou mais, porém eu gostei e decidi que ficaria ali até decidir como seria minha vingança. Não havia nada dentro da casa, a não serem as folhas da própria árvore. Eu juntei um punhado delas e coloquei minha bandana por cima dela, fazendo dessa junção um travesseiro, e me deitei, esperando o sono chegar. Não demorou muito e eu já havia desmoronado.

"Você viu? Você tinha tudo nas mãos e não fez nada!" As risadas altas e malvadas ecoavam com um eco gigante, indo e voltando; fazendo-me ficar tonto com todo o barulho.

"E agora, o que vai fazer? Eu te dei todas as oportunidades possíveis pra que você acabasse com todos eles e você falhou" Mais risos, e eles me faziam arder, estavam queimando as minhas veias, o gosto amargo de enxofre e sal na minha boca estava me deixando enjoado.

"Você é patético." A voz se calou e as risadas se transformaram num silêncio que estava cortando os meus ouvidos, eles estavam sangrando de dor, tudo estava ficando quente e vermelho, o meu coração batendo tão forte que estava machucando o meu peito, ele queria sair. Eu respirei devagar, porém profundamente, procurando acalmá-lo.

O silêncio estava sumindo de novo, se transformando numa melodia triste e raivosa, as notas mais graves e os acordes mais famintos, agressivos, me esfaqueando, fazendo cada parte do meu corpo arder, queimar e sangrar sem parar. Eu olhei ao redor e o inferno estava em meus pés, o fogo subindo e gritando na vontade de possuir a minha alma. Eu fechei os olhos com força e respirei fundo e os abri novamente. "ufa" eu pensei, era só um sonho. Um passo foi tudo que escutei antes de gritar de dor...

...E levantei num pulo, eu estava hiperventilando, suando sem parar; estava literalmente molhado, eliminando tudo o que havia no meu corpo. Eu mal conseguia respirar, o medo havia me paralisado, e a cada segundo eu tentava me enganar de que tudo estava bem, que era só um pesadelo, que eu não tinha motivos pra ficar alarmado. Um bocejo gigante foi o que eu consegui fazer pra tirar a paralisia. Eu me pus sentado e observei as paredes da árvore.

Não tinham nada logicamente, o que me deixou entediado depois de um minuto. O sol finalmente havia chegado ao céu. Um milagre pra variar. Eu nunca tinha reparado na luz que o sol produzia na floresta. Um verde claro reluzia de todos os lugares, como numa festa, luzes por toda a floresta. As árvores de 15 metros eram um escudo pra mim, e eu agradecia por isso a cada instante.

Nenhum helicóptero poderia me ver lá de cima. Afinal, eu havia morrido pra eles, o que me faria bem, eu poderia vagar por aí disfarçado, ninguém jamais me reconheceria se eu fosse discreto e soubesse ser invisível, algo não muito difícil de fazer, não pra mim.

Foi assim que passei o dia, construindo meu plano, discutindo internamente pra ver quem eu deveria destruir os que iriam ficar ilesos, e os que eu iria juntar e colocar fogo nas casas deles. A idéia da vingança suprema me deixava excitado, eu era o próprio espírito da casa agora, querendo vingança, querendo o sangue e a alma de cada serpresente na minha condenação.

A noite enfim havia chegado, e com ela a lua cheia, minha lua preferida, grande e intimidadora. Sentei-me na entrada da minha nova casa, que mais parecia uma toca e peguei uma maça que havia encontrado macieira, e comecei a mordê-la, estava com fome e isso era tudo o que eu tinha pra comer no momento. Eu estive me alimentando do ódio desde manhã, então precisava de algo real no meu estomago. Fui me deitar de novo, esperando o sono chegar, e ele veio mais forte dessa vez, e eu caí.

RAHHH RAAAAHH...

As risadas altas e malvadas ecoavam com um eco gigante, indo e voltando; fazendo-me ficar tonto com todo o barulho.

"Ahh, que bom! Você está aprendendo. Muito bem. Está me deixando orgulhoso." Mas agora eu não sofria, eu gostava de ver o fogo, sentindo o calor e os gritos alheios. Eu estava me divertindo, a satisfação estava nos meus olhos. Eles estavam queimando de satisfação, com o mesmo sentimento do monstro que me fazia odiar tudo, que me dava forças... "puro veneno" — eu disse, rindo e sorrindo maliciosamente paras as imagens sendo queimadas na minha frente.

"Você não está sozinho, eu sempre estarei com você"; a voz prometeu. "Agora, você tem 1 semana pra se preparar, no dia 13 iremos caçar" A voz me disse rindo de satisfação adiantada, num tom presunçoso e arrogante, mas eu gostei. Senti-me muito bem com seu tom. Senti-me à vontade naquele inferno, quente e horrendo.

Acordei bem dessa vez, havia disposição em mim, havia um objetivo, mas eu não conseguia me lembrar. Estava com muito sono apesar de dormir 13 horas. Eu corri para o rio, tinha que tomar banho. Eu nem sabia onde ele estava, mas mesmo que eu chamasse, ele não iria me responder. Parei e encostei a minha orelha no chão e pude escutar o barulho da água a norte, então fui naquela direção. Corri sem fôlego até que achei uma cachoeira. Era um lugar realmente lindo, pra mim pelo menos.

Havia arvores em volta, mortas, o outono era o único que reinava aqui. A água num tom de preto leve que mesmo assim refletia tudo. Pedras ao redor do circulo de água que ficava no meio. Um local escondido e seguro feito especialmente pra mim. A cachoeira enorme parecia chorar, e havia duas árvores ao seu lado, protegendo-a

Eu cheguei perto pra poder me ver refletido...