O lugar era terrivelmente sombrio, mas eu gostei. Escuro e cheio de teias de aranha em volta do pequeno salão. Havia uma caveira encostada no lado direito e um papel descolorido na mão daquele esqueleto. Havia um feixe de luz no canto inferior esquerdo, então havia uma saída. Era sujo e velho, é claro, devia ser uma caverna ou algo assim. Um lugar bem legal para minha imagem medonha.

“você viu? Eu te disse. Você não sabe aproveitar.” As risadas alegres da voz me fizeram ficar estonteado. Eu não havia percebido a sua influência até que ela havia falado para mim. Cada vez mais eu estava desistindo, acreditando nela. Era difícil não Sr ruim e não desejar coisas ruins às pessoas que tentavam te matar.

-Hey, você é o espírito da casa? – Eu perguntei interessado.

-Não, eu sou a encarnação do ódio. Quando tentaram tirar os ossos das pessoas mortas da casa. – Eu não estava entendendo, haviam tentado tirar os ossos das pessoas mortas na casa? Fiquei imaginando o porquê disso por uns cinco minutos, antes de entrar em choque. As pessoas não foram levadas ao cemitério quando morreram? Por que elas foram enterradas na própria casa? Eu fiquei perdido em meus pensamentos e esqueci que a voz vinha da minha cabeça, e escutava mentalmente tudo o que eu pensava.

Sentei-me perto da fresta de luz e fiquei vagando internamente.

- Você quer saber o que aconteceu? – A voz perguntou, estava muito educada e formal; o que me fez imaginar se ela estava tramando alguma coisa.

- Sim.Eu respondi curioso.

- Então podemos começar. – A voz falou e a dor começou a aparecer; entorpecendo-me. A dor estava me deixando em transe.

Respirei fundo tentando não desmaiar, mas os meus olhos começaram a se fechar, cada vez mais tudo ficava mais escuro e menor. Mais fundo e mais intenso. A respiração ficou lenta e os olhos enfim fecharam-se, fazendo-me desmaiar...

Quando abri os olhos não acreditei em onde eu estava. Tudo estava em preto e branco, uma cena de um filme antigo. O cenário era bem anos 70. Mulheres passavam com grandes vestidos e os homens andavam formais, com chapéus elegantes e charmosos. O centro da cidade era totalmente diferente do que era no meu mundo.

Um palanque no meio da pequena praça central, O chão ladrilhado com pequenos paralelepípedos cinza. Algumas macieiras de tamanho médio estavam circulando o palanque. Os bancos de madeira velha ficavam bem na praçinha velha e estranha. A loja TUDO era apenas um botequim velho e mal conservado. Havia apenas uma luz no centro da loja. As casas eram enfileiradas e amarelas, eu supus, porque não havia cores ali. Havia um coreto do lado oposto da praça.

Havia um comício ali, eu acho. Eu conheci 3 daqueles rostos. Os anciões de Lairwood. Eram chamados de Caio, Robert e Dara. Estavam de pé em cima do coreto. Pareciam estar falando. Discursando sobre algo com os moradores.

Eu dei um passo á frente sem notar e a voz me alertou.

- É melhor você não ir por ai. Temos lugares a visitar. – A voz me disse me fazendo olhar na direção do morro, onde a casa estava.

Eu corei, a ansiedade estava me matando. Eu queria saber o que teria acontecido. A única vez em que escutei a história eu fiquei completamente confuso, pois ela não tinha solução ou qualquer vestígio sobre quem seria o assassino.

- É. Você escolheu um lugar muito bom para morar. – Falara o velhinho sentado perto de mim naquela manhã de setembro, quando eu tinha 13 anos, uma semana depois que eu fugira do orfanato. – Sabe; o que aconteceu ali foi algo que até hoje é um mistério. Ninguém sabe de fato quem matou aquela pobre família. – Eu podia ver a tristeza do Sr. Maison enquanto ele falava das pessoas que ele parecia gostar.

Olhei ao redor e percebi como eu tinha aquela lembrança tão nítida em minha cabeça. O sol no alto do céu brilhando e sorrindo pra mim, o vento leve em meu rosto enquanto as folhas caiam das árvores. Eu sentado com o senhor Maison no pequeno banco de madeira da praça antes de tudo...

- Sabe Zac, se fosse eu que estivesse no orfanato, eu teria tomado a mesma decisão que você. Só lamento que eu não tenha um lugar para você ficar. Mas você pode ficar naquela casa, se não for perturbador para você. – Me disse com um tom de tristeza, talvez ele gostasse de mim. – Espero que seja feliz aqui. – Suas palavras eram sinceras.

Aquela foi a única manhã agradável da minha vida nesta cidade. Tudo parecia até tranqüilo demais. Ficamos sentados ali a manhã toda, esperando o sol se colocar no ponto mais alto.

— Ahh, enfim o sol chegou. – Ele me disse, mostrando-me o porquê desse comentário. – O sol chega ao ponto mais alto ao meio-dia. Assim, você sempre vai saber quando o meio do dia chegar. – Ele me falou rindo, divertindo-se de suas próprias palavras. Eu concordei; rindo também.

- O senhor é muito inteligente. – Eu lhe disse. – bem, eu vou agora visitar a minha nova casa. – Lhe disse tentando dar um sorriso de ânimo.

- Depois eu irei visitá-lo, à tarde. – Ele me disse.

E eu subi correndo o morro para enfim conhecê-la. A minha casa. Eu não achava que alguém iria se incomodar que eu morasse ali. Já estava quase no fim quando tropecei e meti a cabeça no chão, fazendo-a sangrar. Levantei-me desnorteado e segui em direção a porta. Entrei e dei uma boa olhada na sala. Era grande e tinha uma mesa de madeira empoeira do pé ao seu centro. Um sofá preto e antigo. Um lustre bem simples no teto e um tapete vermelho cor de sangue, estendido no chão.

Havia uma grande janela que dava de frente pra a grande floresta cheia de árvores gigantes. Era perfeita pra mim. Senti-me aliviado quando percebi que ela tinha tudo, cozinha, 2 banheiros e 2 quartos. O melhor de tudo eram os 2 andares.

Nem precisei pensar pra escolher, o meu quarto seria o maior, o que ficava no segundo andar. Fiquei estonteado de ver os quadros que pendiam no corredor. Nenhum deles era de fato das pessoas que moravam lá. Era desenhos estranhos de uma mulher encapuzada de preto, como a morte. O outro era de um homem que tinha a boca no lugar dos olhos e no lugar da boca havia um buraco onde parecia ser uma entrada de mangueira ou algo pra triturar legumes. Embora eles tivessem que ser assustadores eu gostei. Tinha a ver com o meu estilo meio dark.

Eu entrei na ultima porta do corredor, o meu quarto.

- Uau, é bem maior do que eu pensei. – Eu estava surpreso. Devia ser o triplo do tamanho que eu pensei. Tinha uma cama de casal feita de madeira em estado perfeito, O guarda-roupa pintado de preto e branco era enorme, com oito portas e dez gavetas. A cortina verde-grama fechava toda a janela, embora ela fosse enorme. O carpete gigante no chão estava em baixo de todos os móveis do grande quarto.

Havia outra porta, e eu fui rapidamente a ela. Era um banheiro. Antigo, porém muito bem conservado, uma beleza que eu nunca tinha visto antes. Desci para a cozinha e fui procurar comida. Bem, a casa estava desocupada há algum tempo e era lógico que nada deveria estar ali. Abri as portas do armário de madeira e havia uma caixa cheia de pacotes de biscoito.

- Já está com fome? – Senhor Maison perguntou da porta que dava para fora da casa.

- Ahh, você veio! – Eu disse surpreso.

- Eu disse que vinha. – ele me respondeu. – Você quer fazer um piquenique?

- É claro. – Eu disse feliz – Eu nunca fiz um piquenique. Ele riu da minha cara de tristeza falsa.

- Bom. Vamos começar então.

- O que temos para comer? – Eu perguntei desconfiado.

- Temos biscoito de chocolate, morango, flocos e baunilha.

- Flocos? – Eu perguntei confuso. Não existia biscoito de flocos. Existia?

- É claro que sim, e é também muito gostoso. Você deveria experimentar.

- Tá bom. – Eu disse.

Peguei um de flocos e mastiguei bem devagar, apreciando o sabor. Meus olhos não estavam focados em nada, as quando os foquei no senhor Maison eles viram o pavor e o medo nascendo. Por que o senhor Maison ta assustado? Eu me virei e havia uma ponta negra como carvão no formato de um tentáculo. Tentei levantar e quando estava de pé o tentáculo me chicoteou e eu bati a cabeça na quina da mesa de madeira. A minha cabeça começou a ficar quente e o cabelo molhado.

Eu estava sangrando. Tudo começou a ficar escuro, escapando dos meus olhos enquanto eu tentava me reerguer. Meu corpo começou a se entorpecer. Droga, eu estava morrendo e não havia motivo para isso. Meus olhos começaram a arder e a fechar sem que eu mandasse. Eu pisquei algumas vezes e meu corpo começou a deitar no chão frio da casa. Consegui virar o rosto e vi a face do Sr. Maison perto da minha. O sangue saindo dos seus lábios e uma lagrima do seu olho esquerdo. Essa seria a ultima a lágrima dele...

- está se divertindo? – A voz perguntou. Excitada.

- Nenhum um pouco. – Eu respondi.

- Será que podemos ir agora? – Ela me perguntou impaciente.

- Sim, vamos. – eu respondi e balancei minha cabeça pra me recompor e comecei a seguir morro acima.

Era tudo ainda mais bonito do que costumava ser na minha época. Havia muitas flores por todo o percurso. Quando chegamos a casa, eu fiquei surpreso por haver pessoas lá.

Uma garotinha loira e muito bonita estava sentada na grama brincando. Ela tinha uns grandes olhos verdes e bochechas grandes. Seu cabelo era traçado e seu vestido rendado ia dos ombros até os joelhos. Ela cantarolava sem parar, uma canção que eu conhecia. Era a minha canção de ninar.

- Ahh, você descobriu? Devo dizer que você é muito inteligente.

- É claro que eu sou. – Eu disse sombriamente.

- Ela era a mais alegre entre os espíritos da casa. – Me falou apontando na direção dela. – Ela gostava de você.

- Para onde foram os espíritos que estavam na casa? – Eu perguntei curioso, me lembrando o quanto eles me faziam bem.

- Eu não sei. – A voz disse-me sinceramente. – Alguns fugiram e outros continuam vagando por aí. Você sabia que 2 pessoas já ficaram loucas em Lairwood?

- É verdade?! — Eu disse confuso. – Você como ninguém sabe que eu não tenho visitado aquele lugar.

Como ela poderia saber dessas coisas? Não havia percebido o quão poderosa essa voz era forte. Perdi-me inconsciente nos pensamentos...

- Amanda, já é hora do almoço. Vamos almoçar filha. – Falou uma mulher muito elegante, vestida de cozinheira. Seus grandes cachos loiros e seus olhos verdes e expressivos me faziam ver além de uma pessoa. A mulher com o rosto de coração era um anjo. Era um pecado fazer algo de ruim com ela.

- Tá bom mãe, eu já estou indo. – Ela respondeu já se levantando automaticamente para dançar graciosamente para dentro da casa.

“Vamos entrar” a voz me disse por pensamento. Eu me apressei para não perder Amanda de vista. Eu adorava assisti-la andar graciosamente, pulando alegremente pela casa.

A casa parecia muito familiar, afinal ela estava da mesma maneira quando eu cheguei para ser seu ultimo companheiro. Mas o humor dentro dela era muito mais confortante. Era um lugar mais aconchegante, não tão sombrio e pessoal como eu gostava. Havia toalhas enormes em cima dos móveis; a mesa, a cômoda. A grande janela era tapada por uma cortina cor verde-claro.

O cheiro de comida vindo da cozinha era delicioso, e me perguntei se isso era mesmo uma lembrança!

- Mamãe, quando o papai vai chegar? – Perguntou Amanda curiosa, seus grandes lábios rosados estavam agora num pedaço de bolo que faria até o Presidente sucumbir. Meu estomago roncou e eu me vi querendo um pedaço daquele bolo.

- Acho que só mais tarde, meu amor. – Respondeu a linda mulher.

“Qual é o nome dela?” Eu pensei, esperando pela resposta que eu tinha certeza de que viria. Respirei fundo ao ver àquela cena melosa. Mãe e filha, felizes conversando na cozinha.

Eu não via perigo ali. Nada que me fizesse crer que de alguma forma iria quer matá-los. Pelo que me parecia eles não tinham inimigos na cidade, não eram odiados por bruxas ou vampiros da época; se é que eles realmente existiram...

“Ainda não entendo” eu murmurei para a voz.

- Seu nome é Laís, e o que você não entende? Pode me perguntar! – Eu engoli aquilo por um segundo. Por que essa voz estava tão boazinha?

- É. Eu não vejo algum tipo de perigo, er; você sabe, eles não parecem ter inimigos. – Eu disse ofegante. Estava ficando difícil respirar. Um momento puro de agonia e a ferrugem estavam novamente na minha boca. Eu já havia entendido. Eu estava desmoronando de novo. O ultimo suspiro da bela criança foi o que eu pude escutar antes que meus olhos se fechassem como seu estivesse indo para um bueiro escuro. A respiração mais rápida; como se eu lutasse para me libertar das correntes. Uma dor cortante dilacerando meu coração.

Abri os olhos e fiquei paralisado. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Um quarto elegante e com cortinas marrom-café nas janelas muito bem alinhadas com a grande e bela vista das montanhas altas e verdes, cobertas por musgos. Eu reconheceria este lugar mesmo se tivesse com olhos vendados.

- Bem vindo à prefeitura de Lairwood. – A voz me disse zombeteira. – O nosso elenco principal já esta quase chegando.

A cadeira de madeira estava no mesmo lugar de antes, atrás de uma mesa com pilhas de papeis esparramados encima dela. A foto do prefeito num quadro velho e mal conservado no canto esquerdo da mesa. A pequena samambaia no canto direito.

Tudo parecia exatamente igual, exceto pela foto, Robert não era mais o prefeito da cidade, ele se aposentara aos 45 anos e dissera que não gostaria de voltar à política novamente. Ele não parecia ter esse intuito na época. Eu fiquei absurdamente imóvel e sem respirar, só me dei conta quando meus pulmões começaram a reclamar. Um barulho irritante começou a se aproximar, vindo da porta da frente. Meu corpo ficou rígido até que Robert apareceu e eu me lembrei que era só uma lembrança. Ele não poderia me ver afinal.

- Por que estamos aqui? – Eu perguntei surpreso. – Ele sempre foi uma pessoa boa, não? – Eu perguntei para a voz e estava começando a ficar frustrado pelo silêncio dela. Um minuto se passar e ela não havia me respondido ainda, então a ignorei e comecei a prestar atenção em Robert.

Ele era muito mais jovem, tinha os cabelos muito rebeldes em uma forma de uma pequena cachoeira que escorria pelos ombros grandes e estranhos. Sua barba feita por especialistas; deduzi eu, porque ele não tinha essa capacidade motora. Seus 1 metro 99 centímetros de altura sempre deixava as pessoas com torcicolo.

- Essas pessoas não são tão boas quanto parecem ser. – Disse a voz amargamente. Fiquei quieto a sua acusação, não podia defendê-los porque eles nunca me defenderam desde que cheguei. Afastei-me da cadeira de madeira que ficava no centro perto da mesa do prefeito e fui para o canto aonde a samambaia se acomodava feliz com a vinda do sol.

- Robert. Posso entrar? – falou a voz exigente e arrogante que já conhecia. Dara. A malvada e sem coração. Era difícil olhar para ela sem sentir algum tipo de repugnância.

- Claro. – Respondeu ele de bom humor. – entre e acomode-se. – Eu a fitei raivosamente enquanto ela se aconchegava na cadeira velha de madeira para visitantes. – Então o que posso fazer por você? – perguntou ele satisfeito pela odiosa visita.

- Eu vim para que pudéssemos por um fim àquela situação. O rosto alegre de Robert se transformou numa mascara de seriedade que enganava todas as pessoas da cidade.

- Hum. – Foi tudo o que ele conseguiu dizer. Olhou para a janela e fitou o vazio, onde eu estava exatamente. Depois olhou de volta e sua face estava relaxada de novo.

- Não devemos esperar Caio? – Ele perguntou.

- Ele já esta a caminho. – Dara rebateu sem sequer pensar no que havia escutado.

- Desculpem o atraso. – E lá estava Caio entrando pela porta. Suas roupas exóticas me fizeram rir silenciosamente. Sentou-se do lado da senhora nojenta e mordiscou um pedaço de sonho que estava na bandeja.

- Então. – Disse. – Já se decidiram sobre o que iremos fazer com o-que-vocês-sabem-o-que? – Disse cada palavra separada e claramente.

- Ainda não. – Respondeu Dara friamente. – Estávamos te esperando seu inútil. – Dara era simplesmente o tipo de pessoa que eu nunca me daria bem. Bem, acho que ninguém se daria bem com ela.

- Então vamos logo. – Respondeu Robert impaciente.

- Eu acho que devíamos matá-los. Eles estão causando muitos problemas para nós. – Respondeu Dara naturalmente. Como se matar pessoa fosse algo normal.

- Ahh não. Por que sempre assassinato? – perguntou Caio aborrecido.

— Embora eu não goste disso também- começou Robert. – eu acho que esta seja a única opção. – O murmúrio baixo e irritante de Caio não fez com que Robert parasse. – Ele quer nos destruir. Ele nos atrapalha e faz as pessoas ficarem contra nós. Sabe-se lá o que ele vai fazer depois.

- Eu escutei algumas pessoas falarem que ele vai se candidatar para prefeito na próxima eleição! – Disse Caio agora alegre por ter enfim conseguido irritar Robert.

- Ele não vai se pudermos evitar. – Disse Dara por fim quebrando o melhor silêncio que eu já ouvira. Sua voz de cobra, uma voz acida e sem emoção alguma.

O cenário ficou mais cinza do que antes e de repente começou a escurecer. Tudo começou a revirar como antes e eu não conseguia me acostumar com a dor. O vômito estava chegando e eu não conseguia evitá-lo, mas quando ele parecia estar chegando a minha língua; tudo parou.

Estávamos de volta a casa e o som de uma discussão estava aumentando, como se o volume de um rádio aumentasse gradativamente. Eu corri para alcançar os gritos ruidosos e enraivados da cozinha. Paralisei no mesmo instante em que vi os três anciões na casa onde devia ser o meu lar. Eu não conseguia escutar a discussão porque estavam todos falando ao mesmo tempo enquanto a pequena Amanda estava chorando absurdamente alto.

- Laís, leve a Amanda para cima e fique por lá. – Disse Marcos num tom de autoridade. – Lennon, você fica aqui comigo. – Lennon assentiu.

- Então- Começou a voz de Dara rispidamente. – Você nos causou muitos problemas. Você não deveria mexer conosco.

- Eu não acredito que vocês tenham coragem de vir aqui. Vocês enganam as pessoas. Como elas podem acreditar em vocês? – Disse Marcos indignado.

- Pai, tenha calma. – Disse Lennon, que parecia pressentir que algo ruim estava prestes a acontecer.

- Está na hora de você pagar. – Disse caio com um sorriso no rosto, mostrando a antiga pistola de prata; que agora estava sendo apontada para Marcos.

- Vamos acabar logo com isso. Eu não suporto sentimentalismo. – Disse Dara arrogantemente. O riso alto de Caio fez um sorriso maligno no meu rosto nascer, satisfazendo o demônio que estava em mim.

- Vocês não teriam coragem. – Disse Marcos desafiando. O riso de Caio só aumentou.

- Você não conhece Dara. – disse ele, divertindo-se de novo. – Você não deveria duvidar de alguém com uma arma. – Ele tossiu mais uma vez para encobrir um riso.

- Caio. Dê-me esta arma aqui. – Disse Dara azedamente.

Um minuto em silêncio passou-se e então Caio desistiu e entregou a arma para Dara. Ela sorriu maliciosamente e apontou-a para Marcos. Era o fim. Eu podia sentir a morte passando e deixando os cabelos do meu braço se eriçar.

A morte, Encapuzada e com sua foice chegou tão rápida que eu nem pude vê-la chegar. Parou em frente a Marcos e rodou sua foice num movimento treinado antes de cortá-lo, mas nada aconteceu. Eu podia ouvir as risadas da voz na minha cabeça, mas preferi ignorá-las por enquanto.

Eu estava tão envolvido no assunto que eu havia me esquecido de pedir compaixão a voz. A arma apontada para ele e seu filho tenso ao lado sem poder fazer nada. Sem poder salvar seu pai. O ódio foi crescendo em mi e me fez chegar mais perto de Dara, para que fosse possível estrangulá-la. A voz na minha cabeça ria sem parar, estava se divertindo com todo o meu desespero.

- Então. – Dara quebrou o silêncio. – Qual é o seu ultimo pedido? – Perguntou ela apática.

- Filho, eu te amo. Cuide bem da sua mãe e de Amanda. – Disse marcos vendo o fim mais perto enquanto a morte brincava de morte ao lado dele.

- tudo bem. – Disse Lennon chorando lágrimas silenciosas.

Um segundo foi o suficiente para que a bala se agregasse no peito de Marcos, fazendo-o cair. Os momentos finais entre pai e filho estavam ali. A morte; sorrateira puxou a alma que saia do corte antes feito por ela, encaminhando-a para dentro de si. “Você quer ver o resto?” perguntou a voz.

Lennon levantou-se e saiu de perto de seu pai que já fora levado pela morte que agora retornava.

-Robert. É sua vez de brincar. – Disse Dara com um sorriso no rosto. Nem sorrindo ela era menos feia. Ela era a maldade em si. Não precisava de nenhum demônio para isso.

Robert saiu de sua posição “estatuosa” e pegou a arma das mãos dela. Num piscar de olhos a bala já atravessara o coração de Lennon, fazendo o sangue se espalhar por toda a cozinha. O cheiro do sangue me fez estremecer. A ferrugem estava novamente na minha língua, e eu senti vontade de vomitar.

- Caio. – Murmurou Dara de mal humor. – As duas são suas. Você adora esses joguinhos sentimentais. – disse ela com reprovação.

E então Caio desapareceu parecendo extremamente feliz. Subindo as escadas ao encontro das duas mulheres ainda vivas. Laís e Amanda.

Eu cheguei antes para poder ver a seção completa.

- Está tudo bem. – Dizia Laís Para Amanda, se enganando muito mal.

- Não está não. – Amanda dizia. – Tem alguma coisa errada mãe. O silencio invadiu o quarto que um dia foi meu.

- Laís? Cadê você? – Perguntava a voz debochada de Caio. – Eu vim para te ver. Por favor, não fuja de mim. – Ele pedia pavorosamente, a diversão era garantida para ele nessa memória.

- Amanda fique aqui. – Disse-lhe Laís. – esconda-se se alguém vier.

Saiu Laís pela porta apressada, deixando Amanda lá, sozinha e desprotegida. A voz de Caio escoava alto e Amanda o escutou claramente enquanto ele falava pra Laís o quanto se divertiram com os garotos lá em baixo.

Em 10 segundos Amanda já havia estava debaixo da cama, chorando; seus olhos bondosos e infantis todos molhados e assustados demais. Ela cantava uma mesma cantiga, tentando se acalmar. Era a minha canção de ninar. O meu canto preferido sendo escutado ao vivo e a “cinza”. Era uma tortura fazer isso com alguém tão frágil e inocente. Ela tapara os ouvidos quando sua mãe gritava de dor enquanto caio a torturava alegremente sem o mínimo de culpa.

Essa memória me torturara mias do que todas as outras. O pequenino anjo com medo. Escutando os gritos de sua mãe.

- Não, por favor. – Ela dizia entre seus choros.

- Por que parar? – Disse ele satisfeito. – Isso está melhor do que eu imaginei.

- Por quê? – Ela implorava. – Por que esta fazendo isso? Pare por favor. Esta me machucando.

- Calada. Depois de terminarmos eu acabar com a sua dor rapidamente.

Então o silencio enfim chegou, só eram escutados os passos largos no chão do segundo andar. O movimento da bota de couro preto passando pelo corredor.

- Amanda? Onde está você? – Perguntou Caio enquanto se aproximava da cama onde Amanda estava debaixo.

Amanda automaticamente parou, largando-me do transe. Eu não estava prestando atenção em nada até que a canção cessou-se por completo. Eu estava apavorado, andando para lá e para cá, tentando não deixar que Caio ferisse aquela pequena criatura. Eu pulava nele, mas passava direto. Meu desespero só divertia a voz. Ela parecia cada vez mais contente com aquilo. Vendo-a morrer.

- Pequena Amanda? Não tenha medo de mim! – Dizia ele, maliciosa e divertidamente. – Eu não vou te machucar...

De repente tudo parou, o cenário ficou imóvel, como se alguém tivesse pausado o filme. A lembrança teria chegado ao fim?

- Você esta pronto para ver isso? – Disse a voz numa compaixão falsa.

- Aperte o play nisso logo. – Eu estava impaciente, queria acreditar que havia uma saída para a menina. Queria acreditar que ele simplesmente a deixaria viver.

- Tudo bem então. Já que quer assim. – Disse-me a voz, entusiasmada com minha coragem.

- Pequenina? Onde você está? Eu quero te ver. Você é uma menina tão linda. Eu tenho algo para você.

“Pobre Amanda” eu pensei. Estava tão apavorada que já não conseguia esconder o choro. Saiu debaixo da cama e olhou timidamente para caio, que agora se vira vitorioso no fim das contas.

- Oi. — Disse ele com uma voz simpática. – Me dê sua mão.

- Ahh, não. – Ela dizia entre seu choro. As lágrimas caindo com chuva de seu rosto.

Num impulso ele pegou-a e começou a despi-la. O ódio estava queimando nas minhas veias de Novo. Meus olhos estavam começando a ficar roxos de tanta raiva. Eu tinha vontade de matá-lo. Arrancar seus dentes e dedos um por um. Fazê-lo sofre junto a seus amiguinhos. Eu queria o sangue dele. Queria uma vingança suprema. Queria arrancar a sua cabeça lentamente, cortar seus pulsos e jogar álcool neles. Vê-lo sofrer até que a ultima ponta de dor ceda e sua alma desista de seu corpo.

Mas lá estava ele, e eu impotente. Arrastando pelos cabelos e torturando-a como fez com sua mãe. A colocou numa cadeira e prendeu seus braços e pernas numa e esfaqueou-os antes de colocar fogo neles. A menina queimava e sofria enquanto meus olhos choravam sangue e minha boca esguichava veneno.

Como eu queria matá-lo ali mesmo. Como eu queria salvar a pequenina garotinha. Não havia nada mais do que eu quisesse do que salva-la. A menina se contorcia de dor e sua cabeça estava baixa. Os risos altos e sufocados de Caio acabavam comigo. Destruíam qualquer sentimento bom que eu tinha.

Um grito horrendo de dor ecoou da menina e ela levantou sua cabeça, mostrando agora um buraco onde deveria ser seus olhos. Só o sangue em volta de suas marcas de olheiras enquanto meu rosto se transformara num rosto de caçador. Os dentes a mostra indicando a minha raiva, os olhos roxos e cheios de sangue em volta.

O cenário parou e ficou escuro, fazendo meu corpo arder enquanto eu tentava me levantar na câmara escura. Cheia de teias de aranhas e esqueletos. Levantei-me apoiando no cotovelo, limpando-me, retirando a poeira acumulada na minha roupa. Olhando em direção a fresta de luz que vinha do canto inferior esquerdo.

Notas finais
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