Exorcízo te, omnis spíritus immúnde, in... As palavras vinham no meu ouvido enquanto eu ainda estava de olhos fechados; praticamente morto e pelo visto deitado no chão.

Nómine Dei + Patris omnipoténtis, et in nómine Jesu + Christi Fílii ejus, Dómini... Eu já não havia passado por isso? Por que estavam exorcizando-me de novo? Isso não funcionara completamente comigo antes.

Essas palavras não estavam me machucando como da ultima vez. Não parecia estar sendo pronunciado para mim. Tudo o que eu conseguia fazer era ficar parado. Provavelmente no chão, porque não sentia que meus pés estavam suportando alguma coisa.

- Zac. – Uma voz me chamava. Eu deveria estar sonhando, ou tendo meu próprio pesadelo, um pesadelo pelo qual eu me veria louco. A voz de Claudia. A voz de “Sakuya” lembrava-me a voz.

et Júdicis nostri, et in virtúte Spíritus + Sancti, ut discédas ab hoc plásmate Dei N., quod Dóminus noster ad templum sanctum suum...E o exorcismo continuava. Eu ainda não sentia nada, mas provavelmente eu estava tão acabado que não sentiria uma agulha entrando na minha pele.

- Alguém o acorde. – Dizia uma voz ríspida. Sakuya.

- Vovó. – Suplicava outra voz, uma voz de criança. Gabriela estava pedindo algo à Angela. Deduzi.

Por que eu estava ouvindo essas vozes? O que aconteceu com aquelas agulhas? Elas já estavam na minha pele? Por que eu não estava morto? Por que eu não sentia dor? Tudo estava acontecendo sem explicação, mas eu não me permitia abrir os olhos. Vozes discutiam em torno dos meus ouvidos.

Vocáre dignátus est, ut fiat templum Dei vivi, et Spíritus...Dizia Sakuya em voz alta. Alta o suficiente para abafar as outras milhares de vozes que falavam sem parar.

Sacudiam-me sem parar, mas eu não ousava abrir os olhos. Eu já devia estar no inferno e eles já estavam tentando me despedaçar. Eu ouvia alguém dizer meu nome.

- Zac. Zac querido acorde! – Dizia Angela.

Por que me mandavam acordar? Eu estava dormindo por acaso? Eu não achava que pudesse estar dormindo. Se eu estivesse dormindo eu não ouviria alguém me chamando certo?

“Você tem que acordar!” pensava Azharar urgente.

“Eu não estou dormindo! Por que eu tenho que acordar?”

“Você precisa...” A voz de Azharar se tornou um sussurro inaudível para os meus ouvidos fracos.

Tudo ficara silencioso e eu me vi num corredor branco. Eu devia seguir em frente ou ficar parado esperando alguém chegar? Estava vazio. Parecia um hospital antigo. Só o que faltava eram as pessoas.

O hospital vazio me lembrava alguma coisa. Eu estava perdendo algum fato. Estava bem debaixo do meu nariz. Eu estava morto e de alguma forma tinha ido para o céu! Devia ser isso.

Andei um pouco e toda aquela luz branca do corredor estava me matando. Figurativamente é claro. Os leitos no meio do corredor e todas aquelas janelas gigantes. As plantas espalhadas pelos cantos e todo aquele cheiro de remédio vindo da enfermaria. Aquilo estava me sufocando. Eu passeava pelo hospital vazio e ainda não havia encontrado saída.

Já estava vagando por lá há mais de três horas quando um senhor pigarreou para mim.

- Com licença jovem rapaz. – Disse ele numa voz paternal. Meus olhos arregalaram-se. Se ele realmente fosse quem eu pensava eu com certeza estava morto.

- Sim? – Perguntei virando-me automaticamente para encará-lo.

- Se não me engano você se chama Zac não? – Perguntou o homem de meia idade.

Seus olhos castanhos olhavam-me com afeição, amor; algo que eu nunca tivera após a morte de meus pais. Ele era um pouquinho maior do que eu. O pouco cabelo que ainda tinha ficava escondido debaixo de seu chapéu marrom. Sua roupa formal e educada para os anos 90 não seriam usadas por mim nunca.

Havia uma mulher ao seu lado. Um pouco mais baixa que eu, porém mais bonita que eu e o senhor. Sua calça jeans e seus olhos escuros pintados à lápis de olho certamente era o oposto do senhor. Ele era o contraste ideal dela.

Meu rosto se inundou de lágrimas quando os vi. Meu pai e mãe.

- Pai. – Gritei e um sorriso nasceu em meus lábios, automaticamente. – Mãe. – rugi de felicidade e corri ao encontro deles.

- Filho. – Disse minha mãe entre as lágrimas.

- Filho. – Exclamou meu pai de felicidade.

Era um momento em que nada no mundo pudesse ser melhor, como se não existisse palavra alguma no mundo que pudesse nomear o que eu estava sentindo.

Ter meus pais novamente era tudo o que eu queria. Eu não pediria mais nada a ninguém. Eu tinha agora tudo o que um dia eu sonhei. Mas sabia que algo estava errado. Meu rosto se contrai na mascara da duvida que me deixava impaciente.

- O que foi filho? – Perguntara meu pai. Olhando-me criticamente e analisando cada gesto que minha face fazia.

- Tem alguma coisa errada. – Disse. Virei-me para não ter que encarar ninguém, mas percebi que minha mão deu um olhar significativo para ele. – Se eu estou aqui com vocês e vocês já estão mortos significa que... – Não consegui terminar. As palavras eram fortes demais para que a minha voz as mantivesse.

- Ahh. – Disse ela triste. – Você já percebeu?! – Não era bem uma pergunta, era mais um lamento. – Estávamos torcendo para que você só percebesse isso quando estivesse no céu conosco.

- Filho. – Começara ele. – Não há nada a temer. O céu é um lugar fantástico aonde pessoas boas vão quando seus trabalhos na Terra acabam, quando são chamados por Deus.

- Não. – Fiquei desesperado. Onde estava Azharar? O que havia acontecido á ele? – Isso não. – Dizia sem parar, mergulhado em lágrimas como eu estava.

- Tudo vai ficar bem. – tentava ela me confortar.

- Não. – Eu gritei me soltando de seu abraço maternal e correndo para o escuro, onde eu esperaria até Azharar vir me buscar.

O escuro era reconfortante, nada era melhor do que ele. Ninguém podia me ver, mas eu podia ver tudo e todos.

Sentei-me num canto escuro e esperei. As marteladas ininteligíveis começaram a aparecer na minha cabeça, sempre tentando me dizer alguma coisa. Concentrei-me nas marteladas e consegui escutar uma voz melancólica, melodiosa e grave. Azharar.

Enlouqueci, lutando contra a parte da minha cabeça que não me deixava alcançá-lo. Eu queria correr até ele e deixá-lo morar na minha mente. Eu queria ver seu manto negro e suas asas malignas voando comigo para a escuridão. Ele era meu irmão e eu iria para o inferno junto a ele.

- Acorde. – Murmurava a voz grave urgentemente. – Acorde.

Puxei o ar. O hospital havia sumido e eu estava mais uma vez naquele túnel. Uma ponta de luz na parte de cima onde eu já havia passado. Tudo o que eu deveria fazer era chegar ao ponto de luz e tudo estaria resolvido.

Comecei a correr feito um louco até chegar à parte onde eu deveria ir agachado. Comecei a engatinhar o mais rápido possível para chegar à vida. Fui impedido por algo escamoso e nojento, como se fosse uma língua gigante.

Fechei os olhos e respirei fundo como sempre fazia quando estava nervoso ou precisava arrumar um jeito de me livrar da acusação. Tudo em volta de mim estava queimando e o caminho continuava ali.

As paredes vermelhas do fogo e as línguas gigantes que tentavam me atrapalhar. Por que elas não queriam que eu fosse para a luz? Por quê? Fui passando devagar e me esquivando das linguadas que ganhava ao longo do caminho.

Fui o mais rápido possível para o ponto mais alto – onde a luz estava – e parei. Será que dessa vez tudo se resumiria a isso como foi da ultima vez? Tive muita sorte de retornar a vida, mas não sabia se seria assim da próxima vez.

Preparei-me para enfim dar o ultimo passo à frente e descobrir meu futuro. Coloquei a mão dentro da bola de luz e ela pareceu materializar-se para outro lugar. As línguas batiam nas paredes de fogo como doidas e algumas se juntavam. Uma delas agarrou no meu pé esquerdo, enrolando-se em cima dele e me puxando para baixo.

- Larga. – Eu gritei. Hienas apareciam pintadas nas paredes e riam alto para mim. – Larga. – Eu gritei de novo. As hienas ficaram irritadas e começaram a latir para mim.

Minhas unhas estavam saindo da pele por causa da força que eu fazia pra me manter na bola de luz. O sangue saia delas e eu não sabia quantos litros de sangue eu tinha no corpo, mas já sabia que não era normal uma pessoa sangrar tanto e em muitas vezes num dia só.

Puxei-me com força para dentro da bola e minha cabeça entrou nela. Puxei-me com força e obriguei meu corpo a entrar na bola. Comecei a dar pontapés na língua com meu outro pé livre. Consegui entrar por completo na bola de luz que do nada ficou escura.

Primeiro o silêncio depois o barulho. Alguém gritava e gemia e muitas pessoas fofocavam sobre um assunto desconhecido. Outras pareciam estar preocupadas com alguém ou alguma coisa.

Eu não conseguia abrir os olhos e agora eu escutava uma voz implorar. “Abra os olhos” Ele pedia.

- Vó. — Disse Gabriela. – Acho que ele está acordando.

- Jura? – perguntou Angela aliviada.

- O que está acontecendo? – Gaguejei sem abrir os olhos.

- Ele acordou. – Gritou Gabriela e de repente os gritos de urra e oba me surpreenderam.

- O que que foi? – Resmunguei ainda de olhos fechados.

- Abre esses olhos Zac. – Reclamou Gabriela.

Tudo estava rodando de novo e meus olhos estavam pregados. “Abra os olhos merda” rosnou Azharar furioso, mas eu não conseguia abrir os malditos olhos. Eu já havia feito isso antes dez milhões de vezes.

Eu não entendia o que estava acontecendo.

- “Por que eu tenho que abrir os olhos?” perguntei confuso.

“Você tem que confiar em mim” disse Azharar impaciente, se esforçando ao máximo pra não me xingar ou me mandar para algum lugar deselegante.

“Eu não consigo”

“É melhor abrir essa porcaria que são seus olhos” – Azharar ficou enlouquecido e nervoso ao extremo. Começou a xingar em muitas línguas. – “Se não eu vou forçá-los a se abrirem”.

Então devia ser isso. “Forçá-los a se abrirem” era tudo o que eu precisava fazer. Ahh. Era realmente fácil. Então porque os meus olhos não se abriam? Parecia que eu estava hipnotizado, em transe.

“Anda logo com isso.” — Continuava ele a reclamar. – “Argh” — rugia ele irritado.

O ar me faltou. Tudo parou de rodar e estava claro, claro demais para os meus olhos. Eu não conseguia acordar. Não podia e tudo começava a sumir de cena, tudo ia desaparecendo e eu ficava ali, sozinho na claridade.

Um som cortante passou por meus ouvidos, caí de joelhos. O som era ensurdecedor e me machucava também, fazia cada veia no meu corpo se mexer. Era como a flauta e a naja, as veias se balançavam sincronizadamente dentro do meu corpo.

O som das agulhas tirou a minha atenção. As veias dançantes dentro do meu corpo nem me faziam sentir muita dor. Eram as agulhas que me preocupavam, apesar de que, eu não conseguia vê-las, eu não podia ver nada naquela claridade.

Mas ela durou pouco. Tudo começou a rodar de novo e a claridade e transformou em vermelho-sangue. A voz de Azharar falava “Acorde” furiosamente em minha cabeça. As agulhas se moveram rápidas e eu as vi quando estavam a menos de 10 metros de mim.

As duas entraram nos meus olhos e aquilo me fez urrar de dor. As vozes em volta dos meus ouvidos eram alertas, algumas gritaram “sangue” e eu percebi que o sangue escorria de cada ponta da agulha.

A dor nos meus olhos era terrível, a pior que eu já Havaí sentido. Aceitar o Azharar em meu corpo parecia tomar um remédio para dor de cabeça, o gosto era amargo, mas não me fazia ter ânsia.

Eu os sentia abrir, se mover involuntariamente sobre meu rosto, abrirem-se para o mundo de fora. Eu vi cada detalhe da roupa estampada de Gabriela, o sorriso em seu rosto e cada lágrima que havia passado por suas bochechas. Meus olhos se abriram...

- Você está bem! – Gritara Gabriela me abraçando quando tentei levantar.

- Estou bem. – Seus olhos ficaram assustados.

A minha voz estava dupla, o som maligno e grave que tinha quando éramos nós dois. O meu corpo estava mudando, se transformando no que eu era antes de adormecer, e eu nem sabia que tinha voltado ao normal. Tudo ficou claro e eu pude ver cada detalhe.

Claudia e Sakuya estavam ali, prendendo Caio numa bola negra e poderosa – a mesma que quase me matara da ultima vez – e Caio tentava sair dela, esmurrando e espetando com suas estranhas unhas ósseas.

- Azharar, venha aqui. – Ordenara Sakuya. Num segundo eu estava de pé e correndo pra ela.

- O que foi? – Perguntei. Ela nem pareceu notar minha presença, apenas ignorou-a.

- Azharar, nós temos que exorcizá-lo. Nós dois.

- Tudo bem. – Respondera Azharar no mesmo instante. – Vamos terminar com isso.

Os dois mudaram a postura, cada um como o animal que escolhera para ser. Eu estava como um leopardo, os braços e pernas estendidos numa linha de defesa. Sakuya estava com um gato, as mãos abaixadas, mas com as garras preparadas, o corpo todo enrijecido.

- Vamos acabar com isso. – Assenti.

Nós preparamos pra falar as palavras que estavam na ponta das nossas línguas. As pessoas em volta olhavam curiosas. Não eram muitas, mas devia ter umas oito pessoas olhando assustadas à cena de terror.

- Pronto? — Perguntara ela ignorando a platéia.

- Sim. – Rugi. E então as palavras começaram a sair de nossas bocas sincronizadamente...

Sanctus hábitet in eo. Per eúmdem Christum Dóminum nostrum, qui ventúrus est judicáre vivos et mórtuos, et sæculum per ignem. R. Amen.

Notas finais
Final.... Só falta o epilogo... O começo da 2° parte da Trilogia.
O próximo se chama: Vínculo Demoníaco