V1 - Vingança Suprema
6 Devastação
Tudo estava resolvido. Eu sabia quem havia matado 4 pessoas inocentes¸ uma família. Agora eu sabia de tudo e não deixaria isso passar em branco. Eu iria vingar a casa. O ódio me fazia queimar sem pegar fogo. Corria por minhas artérias e me fazia querer sangue.
- Como vamos sair daqui? – Eu perguntei para a voz.
- Vai me ajudar então? – Perguntou ela percebendo que a vitória já estava ganha.
- Sim, eu quero matar Caio e Dora... E Robert.
Foi tudo o que a voz precisava ouvir. Dez segundos depois eu estava percebendo algo novo correndo nas minhas veias. Um novo tipo de sensação correndo sobre o meu corpo. Eu sentia a força, a leveza e a proteção. A certeza com a qual eu identificava cada som e cada cheiro. Tudo fazia eu me sentir poderoso.
- Vamos logo! – A voz me disse. – Hoje é dia 13...
Eu fiquei paralisado por 1 minuto fitando o vazio. Eu já havia me esquecido de que a voz falar que iríamos caçar no dia 13.
- Hoje é o dia da nossa caça particular. Vamos logo antes que percamos mais um dia. Às vezes você é muito lento. – Disse-me a voz se divertindo.
- Mas como faço para sair daqui? – Eu perguntei irritado. Ele já deveria saber disso.
- É só bater na fresta onde há luz. – Disse-me ela zombeteira.
E num impulso eu me levantei e corri para a fresta de luz. Parei em frente a ela e encarei-a por algum tempo, tentando juntar coragem suficiente para socar a parede. Como se eu pudesse socar e quebrar uma parede.
- Você quer que eu acredite que eu posso mesmo quebrar isso aí? – Perguntei incrédulo.
- Sim, eu acho! Você acredita que eu faria você sofrer? Eu continuo dentro do seu corpo, lembra-se?
- Eu não sou idiota. Não vou cair nessa. Aposto que você quer que eu me machuque. – Respondi-lhe irritado.
- Eu já te disse- Eu franzi a testa. – Estamos nisso juntos. Eu não irei te abandonar.
As palavras foram corretas. Estavam onde deveriam estar. Nenhum defeito e eu desisti. Afinal, eu queria muito matá-los.
- Vamos então. – Eu disse empurrando meus dedos para dentro da fresta e ela se abriu facilmente. Eu pulei fracamente e saltei uns 3 metros do chão batendo com força na terra acima de mim. Como uma broca eu fui perfurando todo o percurso de volta ao chão normal, não a sete palmos abaixo.
Estava completamente excitado com o poder correndo em meu corpo. Não havia me acostumado a ser uma arma mortal. Olhei em volta do lugar escuro. Estava do outro lado, perto do orfanato em que eu fora abandonado.
O orfanato continuara igual, o amarelo morto continuava pintado nas paredes. As janelas continuavam com grades e a bandeira da liberdade continuava estendida no alto. Liberdade não era o password necessário para se libertar daquela jaula.
Estava frio, mas isso só me deixava mais excitado. Eu não sentia a temperatura; tudo parecia gelado para mim. Eu corri como um tigre de volta para a cidade. Fui direto a praça, ignorando os olhares pasmos das pessoas de Lairwood. Fui onde os anciões moravam.
Bati na porta três vezes e uma voz apática ordenou que alguém abrisse a porta. Um riso debochado e passos baixos eram escutados até que a porta fora aberta.
- Sim? Quem é você? – Um segundo silencioso se passara e seu sorriso maldoso sumira. O medo havia tomado conta de seu rosto.
- O que você quer aqui? – Caio perguntara tentando fechar a porta na minha cara, fazendo um esforço sobrenatural que nem fazia mexer os meus dedos.
- Eu vim visitar. – Eu disse sombriamente; os olhos roxos. – Sentiu minha falta?
- Caio, quem está aí? – Perguntou Dara.
- Zac! – Disse ele.
- Quem? – Ela perguntou incrédula. – Tem certeza? Eu mandei que botassem fogo naquela maldita casa!
Eu entrei empurrando o velho Caio para dentro da casinha, colorida por dentro. As paredes marfim com traços verticais em preto e os eletrodomésticos de ultima tecnologia. Os móveis marfim todos encostados na parede e havia um grande espaço debaixo do grande lustre de cristal.
Dara estava sentada em sua cadeira de balanço, se balançando tranquilamente antes de me ver, e agora estava paralisada de medo, vendo meus olhos roxos de raiva. Robert estava sentando no sofá, roncando como um porco gordo, depois de sua alimentação diária.
Todos eles estavam muito mais velhos, todos de cabelos brancos, porém seus hábitos e costumes continuavam iguais. Dara e sua arrogância continuavam iguais. Robert e sua seriedade podiam ser ouvidos em seus roncos e Caio continuava com seu sorriso de pretensão e deboche.
- O que você quer aqui? – Perguntou Dara ameaçadoramente.
- Rah... – Eu disse rindo. – Achou que sairia sem nenhum dano? Matar a família que morava naquela casa não foi o suficiente? – O choque percorreu o rosto de Dara e Caio caiu na gargalhada.
- você descobriu hem? – Disse-me ele interessado. — Mas quem te contou? Ninguém nunca sequer duvidara antes de nós. – Eu ri sem humor. – Devo dizer que você é muito perspicaz.
- Cale-se Caio, mate-o agora. – Disse Dara. Num instante ela se colocara de pé e sorrindo começou a sibilar uma canção antiga. Foi correndo sentar-se no banco que ficava junto ao piano e começara a cantar e tocar.
Eu corri para Caio, me jogando em cima dele para que ele não pudesse pegar alguma arma. Ele caiu, grunhira de dor e depois rira obcecado com seu próprio desapontamento.
- As minhas pernas já não são mais rápidas. – Caio dissera e rira de seu próprio fracasso, debochando sem parar de si mesmo.
- É melhor você sair de cima dele, jovem rapaz. – Robert era de fato o único que eu já conhecera. Já havíamos conversado antes, numa festa quando cheguei a Lairwood. Ele não fora o mais gentil de todos e mesmo assim ele era uma pessoa suportável.
- Acho que você não quer morrer tão cedo, estou certo? Levantei-me e virei para encará-lo com meus olhos roxos e furiosos. Senti seu coração acelerar e sua boca ficar seca. Ri bem alto e sacudi os ombros, fingindo não ligar para suas palavras.
- Você acha que eu posso morrer? – Perguntei sádico. – Você já tentara mias de uma vez. – Eu disse; lembrando-me. – Você acha que eu não sei? Helena e seus capangas. Os homens com as espingardas! O fogo posto na casa. – As palavras saiam com pressa da minha boca e eu não conseguia contê-las. “Quer que eu lide com isso?” a voz ofereceu. “Não! Eles são meus.” Respondi imediatamente e percebi que a voz divertia-se.
- Você é realmente muito esperto. – Caio dissera rindo sem parar.
-Bem. – Interrompeu Robert. – Pode dizer adeus a sua vida.
Eu ria sombriamente enquanto ele carregava a arma e apontava-a sempre para mim. Um suspiro monótono de Dara fez-me perder a concentração que eu tinha na risada de Caio, me encarando presunçoso como se esse fosse o meu momento de adeus. E seria o adeus, não para mim é claro. Eles sofreriam a partir de agora, e eu desfrutaria desse momento sem igual. Uma oportunidade única.
- Robert! Acabe com ele agora, Faça isso rápido. – Disse ela mandona. – Eu não quero jogar por mais tempo. Não tenho mais idade para isso.
- Tudo bem, eu terminarei isso AGORA. – Afirmou ele. E eu comecei a rir novamente. Como ele achava que poderia me matar com uma simples arma de fogo. Uma bala? Eu pensei.
- Vamos lá. – Eu desafiei. – Está com medo? – Eu desafiei novamente. – Eu não tenho o dia todo.
- Tudo bem então. Já que esta com pressa para morrer. – Respondeu-me ele enquanto apertava o gatilho.
E fez-se o silêncio...
- Opa; não acredito... O revolver não disparou. – Disse Robert irritado. Caio caíra na gargalhada outra vez e Dara estava entediada.
- Ora; vamos lá. Será que está tão velho que nem consegue atirar numa arma.
- Você verá. – E esse foi o fim. Ele atirara o gatilho e a bala alojara-se fortemente em meu peito, parando no meu coração.
Era o fim. E eu que acreditei que seria imortal; indestrutível e perigoso. Bem, eu estava morrendo. O sangue negro caindo no chão, sujando o carpete vermelho da sala abafada. O buraco no meu coração estava bem aberto, ardendo, como se estivesse queimando. O veneno preso em mim circulava; ardia feito pimenta. A respiração começou a falhar e o entorpecimento estava chegando.
Era o meu fim. Eu tinha tudo e não fiz nada. Não aproveitei a chance que eu tinha de pegar o que era meu de direito. A dor latejava e eu caí de joelhos, chorando amargurado pela perda consciente.
- Achou que eu deixaria você morrer? Nós estamos juntos parceiro. – Disse-me a voz feliz, saciada por minha vontade de destruir os anciões, de querer-los mortos.
A risada cortante de Caio estava acabando com a minha audição, agora que eu estava no chão, derrotado, mas incrível e sobrenaturalmente vivo. Comecei a tremer sem para e percebi que estava perdendo o controle.
- Não resista. Eu só quero conversar com Dara por uns instantes. Vamos lá. — A voz me disse. – Só por alguns minutos.
- Tudo bem. – Respondi. – Você tem 5 minutos. Se passar disso... – A voz me interrompeu.
- Não vou precisar de tudo isso. – Ele retrucou feliz. Excitado...
Eu estava morrendo, a garganta seca e gosto de ferrugem e sal. A tremedeira me fazia ficar enjoado e o meu organismo parecia formar uma barreira no buraco por onde a bala passou.
Uma puxada de ar; e eu estava me regenerando, cada gota do meu sangue voltando e o buraco se cobrindo, como se eu estive voltando à cena, coisas impossíveis; como parar o tempo ou viajar nele. Eu não percebi até que me levantei involuntariamente.
Os olhos anciões me assistiam com espanto, vendo um demônio parado em frente a eles, prometendo-os morte. Tudo ficou escuro e silencioso; todos tinham parado ao ver o que havia acontecido comigo.
Eu podia sentir algo cravado em minhas costas, batendo-se suavemente no vento. Eram negras as minhas penas, eu tinha asas de um anjo negro. Penas pontudas e venenosas numa forma de lança. Elas eram grandes e faziam um “C” virado para baixo quando estavam meio encolhidas.
Quando abri os olhos eu estava sentado; com uma bandeja onde meu coração estava; em cima do meu colo. Uma chave pendurada no meu pescoço e minha roupa havia mudado. Agora eu estava com uma daquelas roupas que a morte usava. Um capuz negro, assim como o resto.
Lágrimas de sangue saiam dos meus olhos... O gosto de ferrugem não me incomodava mais. Os olhos roxo-escuros numa face maligna e cheia de sangue, que ia percorrendo as minhas olheiras até o canto da minha boca. Minha pele tinha umas estranhas listras azul-marinho.
Risadas ecoavam na minha cabeça enquanto eu tremia novamente, tentando me concentrar. “Deixe-me falar com eles!” A voz pediu. “Eu serei breve” ela me garantiu. “Tudo bem” eu respondi.
Fechei meus olhos com força e tudo estava fora de foco, como se eu estivesse numa montanha-russa. Tudo rodava sem parar, mas não havia movimento. A voz gritava vitoriosa enquanto tentava tomar o controle.
Ela queria ser eu. Queria tomar o meu lugar. Mas eu não me importei. Eu queria que eles pagassem por tudo o que fizeram. Eu estava na minha prisão particular; aonde eu poderia desfrutar de todo o sangue e ódio que quisesse. Onde eu iria ver tudo de camarote, em total conforto.
Dara parou de tocar seu piano e se levantou, olhando cuidadosamente para mim, um demônio com asas negras e cheio de sangue. Pela primeira vez eu vira medo naquela face grotesca e amargurada. Todos se levantaram de uma vez, e foram correndo para a porta, tentando sair, eu acho...
- Que pena. — A voz disse sem piedade. O sorriso malicioso crescendo no meu rosto agora, da minha cabine particular enquanto a porta era fechada por uma força sobrenatural. – Ninguém vai poder sair. – Disse fazendo um biquinho. – Eu juro que farei isso da maneira mais rápida que puder.
Todos estavam com os rostos abaixados, com medo de olhar a descrição do mal parada ali, em frente a eles. Dara e Robert suando frio e Caio estava relaxado, embora não parecesse.
Como um movimento involuntário, como respirar ou piscar; minha mão voou levemente em direção a Robert que voou para a TV Widescreen de 52 polegadas que caíra no chão e agora estava morta. Robert grunhia de dor enquanto Dara se levantava para ajudá-lo.
- Onde você pensa que vai? Vovó?
As palavras me fizeram engasgar. Quem era esse demônio no meu corpo afinal? Se Dara era sua avó... A resposta veio como se fosse uma bola de beisebol batendo forte na minha cabeça. Ele fora a criança morta por maus tratos e que ficara sem comida, que ficara num cativeiro por 25 dias e 26 noites. A criança que apanhara até ficar esfolada e inchada.
Tudo fazia sentido agora. Eu não era o único a odiar Dara. Eu não era o único aqui que queria acabar com ela. Eu fiquei excitado para ver o que eu não conhecia em meu novo corpo. Como o jeito que eu podia fechar portas e coisas com o vento ou jogar as pessoas usando-o.
- Pode brincar dessa vez. – Eu disse sorrindo sombriamente. O prazer que tomava conta do meu corpo vendo-os sofrer era algo inexplicável.
- Não. – Ela choramingava desesperada. – Não pode ser. Você morreu. Está morto. Não devia... – A minha voz preferida a interrompeu.
- Estar de volta? – Ela perguntou; sádica. – O que você acha que deve ser não é realmente algo justo, é? – Disse com uma alegria maldosa.
- Por favor. Eu nunca quis. – Disse Dara, chorando.
- Não minta para mim.
A discussão pareceu tornar-se algo familiar. Ninguém mais falava ou sequer respirava alto demais. Ninguém queria atrapalhar os atores principais e eu me sentia o diretor do programa.
- Eu nunca quis te ferir. – Disse Dara, numa cena falsa de arrependimento.
- Você acha que vou acreditar nisso. Você me trancou. Você me torturou. Você me matou...
- Eu sinto muito. Eu não sabia de nada.
- Mas não tem problemas, tem? Isso é passado.
- Sim, agora que você esta de volta nós podemos ser uma família. – Disse Dara com os olhos molhados.
- Claro, eu estarei presente no seu funeral.
Eu estava adorando o meu filme particular. Queria vê-lo até o final. Estava adorando todo este clímax e o seu desenvolvimento na trama. Estava excitado sobre isso, enfim a carne seria derramada. O sangue voaria e sujaria todo o chão.
O vento soprava forte pela janela onde Dara estava paralisada. O medo de Robert me fazia rir sem parar, e Caio continuava sereno.
- Bem, quando eu voltar para o inferno nós iremos conversar bastante. – Disse minha voz, erguendo os braços como se fosse chamar Cerberus.
- Por favor. Deixe-me em paz. – Dizia Dara suplicando. – Eu estou à beira da morte. Deixe-me viver até ela chegar. – A voz riu sombriamente.
- Eu sou a morte. Tenho um horário a cumprir. – Disse sorrindo maliciosamente. – Vocês dois serão os próximos, então se comportem. – Informou olhando para eles.
Virou-se e em sua mão esquerda apareceu uma foice. As asas negras pareciam acessórios de moda junto à foice. Tudo estava lindo. “Uma cena perfeita de um filme de terror” eu pensei. “Será que eu ganho um Oscar?” Perguntou a voz divertindo-se.
Arrumou-se para flutuar e rodou a foice na mão, indicando o ato final.
- Eu quero vê-la sofrer como eu sofri. – Gritou por entre o vento que agora era forte e frio. – Eu quero vê-la pagar.
Com um movimento sutil, mas muito rápido ele cortou os dedos da mão direita de Dara, fazendo-a gritar de dor.
- Pare com isso. – ordenou Robert.
- Calado. Você será o próximo.
Mais um movimento suave cortava o vento e a foice estava voando para o braço esquerdo de Dara, que agora caíra e ensopava o carpete no chão.
- Está gostando disso vovó? – Perguntara a voz animada. – É bom sentir um pouco de dor não? – Disse a voz mesclada de ódio e magoa. – Eu quero vê-la gritar até o ultimo momento.
Dara estava tremendo sem parar, o sangue saindo de sua boca e um sorriso no meu rosto. Estava caída no chão tentando tapar o buraco onde deveria estar seu braço.
Meu corpo agora se movimentava sem que eu percebesse. Fora tudo rápido demais para acompanhar. Estava agachado em frente à pobre mulher que agora sangrava e chorava sem parar.
- A sua arrogância e falta de compaixão pelos outros a trouxera a essa ocasião. – Dissera rindo da mulher esticada no chão, sofrendo.
Eu nunca vira tanta maldade numa pessoa ou qualquer outra coisa antes, mas estava adorando. Ser livre para o mal, me entregar a ele e ter todo o poder que eu precisasse. Fazia bem o meu tipo, olhar as pessoas se contorcerem de dor.
Tudo estava cada vez mais interessante, vendo da minha jaula particular. As serpentes andavam despreocupadas com a minha presença, como se fossemos amigos antigos. Não havia preocupação. Dividíamos o mesmo sentimento, queríamos mortes e sangue.
“Fure os olhos dela” eu pensei. A voz se alegrava e sorria com minha boca para si própria. Éramos com Yin e Yang, mas só possuíamos o lado ruim. Era fácil entendê-lo agora. Seus desejos, suas motivações e o seu rancor.
Mais uma vez suas mãos cortavam o ar, fazendo a foice desaparecer por completo. Sua mão dançava no cabelo dela e fiquei impressionado quando sua mão levantou Dara sem esforço algum, colocando-a no ar.
Seus dedos da mão livre serpenteavam o ar e iam em direção aos olhos dela. Ele ia fazer o que eu dissesse, e isso me deixou animado. Num movimento ainda mais suave e mais rápido ele arrancar seus olhos e eles estavam no chão agora, rolando perdidos.
Jogou-a no chão e caminhou para Robert que estava encolhido no sofá, cagando de medo. Retornou a foice a sua mão e cortara-lhe o pescoço. Tudo muito rápido porem muito eficiente. “Caio é o próximo” eu retruquei.
- Quer terminar o serviço? — A voz perguntou-me.
- Seria uma honra. – Respondi imediatamente.
Tudo começara a tremer novamente, tirando-me o fôlego e fazendo cair de joelhos. A sala escura sumira e quando finalmente abri os olhos vi a criatura repugnante sentada na cadeira.
- Chegou a sua hora Caio. – Disse-lhe tentando parecer profissional. Ele não aparentava pânico ou algo assim.
- Jura? – Debochou ele. – Eu não acho que poderei concordar com isso. – Respondera com um humor sombrio. – Eu não ficaria tão confiante assim.
- Por favor... — eu disse. – Você como ninguém é o que mais parece morrer.
- Desculpe-me por isso, mas não acho que serei capaz de deixá-lo me matar.
- Você não tem escolha tem? – Sussurrei de raiva. As palavras tropeçavam tentando sair.
- Bem, se acha que irei ficar desprevenido se engana. – Dissera com um humor sombrio.
Eu não estava entendendo. Ele deveria estar apavorado. Será que sua vida não era tão valiosa assim? O que ele estava pensando? Por que não estava assustado? Eu repetia na minha cabeça. Nunca chegava a uma conclusão.
Seu sorriso presunçoso estava me irritando.
- Está nervosinho? – Ele me perguntou. – Não fique assustado!
- Tenha cuidado com ele. – A voz me avisou. – Eu não havia percebido antes. Estava tão ocupado em Dara que nem prestei atenção nele.
Faltou-me o ar. Eu não estava entendendo nada. O que havia de errado com ele? A respiração foi-se alterando até que eu disse para a voz se acalmar. O que quer que estivesse acontecendo não havia motivo para tal pânico. A sala começou a mudar, um tom de mistério estava rondando entre mim e Caio.
- Bem. Acho que está na hora de fazê-lo dormir... – Dissera ele quebrando o silêncio. – Para sempre!
O chão começou a tremer e ele tremia mais ainda. Seus olhos negros e risonhos estavam sumindo, dando lugar a olhos amarelos. Sua pele estava secando, só uma caveira por baixo dela. Sua roupa transformara-se num sobretudo velho e preto, surrado pelo tempo. Seus ossos pareciam ter mais de 200 anos e sem pele ou veia nenhuma, eu podia dizer que ele se transformara numa caveira, literalmente.
Com o mesmo movimento de mãos ele puxou uma foice muito particular, com uma cabeça perto da ponta e comprida que se alargava numa linha quase reta. Tão rápido fora seu movimento que quase perdi, agora que eu possuía as vantagens oferecidas pela voz.
Eu fui observando todo o processo paralisado por não ser o único Alien existente. Os dentes pareciam indestrutíveis em sua mandíbula. “Mais um enviado do inferno” eu pensei.
- Está surpreso? –Caio perguntar com uma voz dupla, uma calorosa e debochada, outra maligna e cruel.
- Olha só. – Respondi de imediato. – Parece que eu não sou o único diabinho. – brinquei com o pânico que crescia em mim, vendo um demônio pior do que eu, mais poderoso que eu.
- Você não pode com ele. – Respondeu a voz, interrompendo meus pensamentos, eu queria brigar com ele.
- Você achou mesmo que poderia me matar?
- Eu achei. Nem sabia que você também era um monstrinho.
- Você não sabe nada de mim. – Ele retrucou com ódio dessa vez.
- Não o deixe irritado. – Preveniu-me a voz. Você precisa fugir.
- Então? – Falou ele tirando-me a atenção que eu tinha na voz. – Como você vai prefere morrer? – Perguntou excitado.
- Eu não pretendo morrer. E você; pretende?
- Hah... Criança. Você é divertido. É uma pena ter que te matar. – Disse ele divertindo-se. – Bem, acho melhor acabarmos com isso agora.
Ele virou-se para mim e levantou seus braços, puxando uma corrente invisível. Senti a dor de uma âncora atingindo minhas costas. Caí de joelhos senti uma queimação cortante, me fazendo chorar lágrimas de sangue.
A noite estava caindo agora, a lua nova cintilava e era tudo na noite, a única sobrevivente numa guerra gigante. O único ponto de luz na escuridão. A única pomba da paz no meio dos corvos.
O vento gelado passava por nós dois, mas não surtia nenhum efeito. O silêncio na cidade estava começando a me incomodar. Corri para a janela e vi que todas as luzes estavam apagadas. Não havia ninguém na cidade?
- Onde estão todos da cidade? – Eu perguntei exasperado.
- Eu disse a todos que iria exorcizar um demônio. – Falou acumulando uma gargalhada estranha e depois a soltou.
- Quando você fez isso? – perguntei, tirando os meus olhos dos seus olhos amarelos.
- Você nem percebeu não é? Estava tão excitado em matar Dara que nem percebeu que eu estava usando o meu celular. – Franzi o cenho.
- Você... Usando... Um celular? – Perguntei incrédulo.
- Já chega de conversa. – Interrompeu-me de novo. – Está na hora de você dormir.
O silêncio ficou pesado e o oxigênio começou a ficar escasso. O medo foi crescendo e se transformando numa bola dentro de mim. Fechei os olhos, tentando limpar a minha mente quando senti que o ar estava sendo sugado. Abri os olhos e vi as mãos de Caio juntam erguidas no alto, entrelaçando-se. Um buraco negro nascendo acima de suas mãos. Uma bola gigante se erguendo na minha frente e tudo o que eu conseguia fazer era ficar paralisado.
Não havia lógica nisso. Primeiro um demônio estava “arrendando” um pedaço do meu cérebro e agora uma caveira vestida estava criando um buraco negro em cima de suas mãos.
- Corra. – A voz me disse.
Então eu voei pela janela e corri para a floresta, rápido como um guepardo, mas a caveira estava voando baixo mais rápido do que eu, com o buraco negro na mão. Ele dera a volta e parara na minha frente, perto de onde era o meu antigo lar. A minha linda casa. Não havia um barulho sequer. Nenhuma confirmação de que a natureza existia. Parei também, olhando para baixo, ainda não estava pronto para encará-lo. Eu iria morrer, mas de fato eu já deveria estar morto. Respirei fundo e encarei seu rosto feito em ossos.
- Pensou mesmo que ia escapar de mim? – Disse ele numa falsa descrença. Eu esperei, não queria falar. Queria que ele terminasse tudo isso o mais rápido possível.
- Você está mesmo com medo não é? – Perguntou ele quebrando o silêncio. – Eu vou terminar isso então.
Num movimento sutil ele levantou a mão que segurava o buraco negro e a lançou para mim. Eu pulei, jogando-me para trás, tentando evitar que ela me acertasse. Falhei. A bola me acertou direto no peito e se encheu tapando-me por completo.
A bola foi aumentando e eu me vi dentro dela, uma bola negra onde eu não conseguia ver nada. Estava se fechando. Eu estava por dentro da bola agora, que tinha menos oxigênio a cada segundo.
- O que vamos fazer?- Eu perguntei.
- Não há nada a ser feito. – A voz desistiu. – Tudo o que temos que fazer é esperar pela morte.
- Tem que haver uma saída. – Eu disse entre os dentes.
- Não há. A não ser que outro demônio apareça. Se ele ou ela conseguir ver isso por fora, certamente poderá abrir o buraco negro. Assim poderemos sair. Como não há ninguém assim além de você e Caio... Estamos ferrados.
- Merda. – Eu grunhi.
Comecei a socar e chutar a parede escura, fingindo não escutar as reclamações da voz. Era muito mais fácil pensar quando não havia ninguém fuzilando no meu ouvido. Eu estava perdendo o controle. Ficando parado aqui eu podia pensar mais claramente. Eu ainda tinha muitas duvidas e percebi que não sabia nada dessa voz.
- Quando você nasceu?
- Eu nasci em 1978, aqui mesmo; em Lairwood. Meus pais morreram quando eu tinha 10 anos. Depois disso fui morar com minha avó. Ela sempre foi muito estranha. Eu a vi matando a família de Marcos. Ela e os dois. Depois disto ela me internou num hospício onde frequentemente me batia e me torturava. Apanhei até a morte. Estava inchado e roxo. Até o vento me machucava.
- Qual é o seu nome?
- Meu nome é... – Ele pareceu relutar; decidir se ia ou não me contar. – Eu me chamo Azharar. O deus da morte.
As palavras bateram forte na minha cabeça, e senti-as voarem livres dentro do buraco negro a qual eu estava preso. A verdade me inundou e já era tarde demais. Já não tinha um coração.
- Você vai me matar? – Perguntei desesperado.
- É claro que não. – Ele me respondeu imediatamente. – Eu e você viveremos juntos na Terra. Mas agora estamos embarcando para o inferno. – Congelei. Não esperava morrer tão cedo, e muito menos ir para o inferno.
- Eu gostei de você. – Me dissera, pareceu estar pensando alto, como se não quisesse que eu soubesse. – Bem, eu deixarei você ser meu ajudante. – Disse-me ele tentando me alegrar.
A depressão tomou conta do meu corpo e não nem reparei que o buraco negro estava diminuindo, apertando-me. O silêncio percorreu-se por longos minutos antes de outro barulho qualquer. Eu estava entorpecido e condenado. Era tudo o que eu queria. Enfim tudo se resumiria na minha lapide. Nenhum choro ou tristeza. Até fariam um festa para comemorar.
Caio seria o anjo vivo que trouxera a paz para todos e eu seria o demônio poderoso que acabara com Dara e Robert. Um exorcismo perfeito, ele diria. Iria celebrar e continuar por aí, matando pessoas sorrateiramente.
- Mas que droga. – Eu murmurei. – Não tem como a gente sair daqui? – Gritei entre os dentes.
- Não. Quanto mais você tenta sair, rasgando ou batendo no buraco negro, mas rápido ele se fecha.
Eu grunhi furiosamente, a raiva estava me matando, o ódio que se levantava de repente me fazia arder. Paralisei-me para pensar numa saída. Deveria ter um jeito...
- Tem alguém aí? – Perguntou alguém; uma garota, que certamente estava do lado de fora.
- Sim, eu estou aqui. – Dissera tentando parecer inocente.
- Você é um demônio. – Disse ela rispidamente. – Qual é o seu nome? – Ela perguntou.
- Zac. – Eu gritei.
- Não você. Estou falando do demônio. – Rebatera friamente.
- Sou Azharar. – A voz falou por minha boca.
- Já sabia. Vou tirar vocês daí.
O buraco negro estava muito apertado comigo dentro. Eu ainda não podia ver nada e não escutava nada também. Até aquele ponto ela não parecia estar fazendo algo de útil.
- A propósito. Quem está aí? – Perguntara a voz usando minha boca.
- Sou Sakuya. A deusa da noite.– Disse a estranha criatura que me parecia uma mulher.
Tudo estava calmo e silencioso, e quando ela falava a voz se derretia estranhamente. A vergonha passava pelo meu rosto vendo um demônio se derreter por outra aberração. Um rugido interrompeu meu pensamento e me fez perguntar se Sakuya estaria bem lá fora. Talvez Caio estivesse esperando do lado de fora.
O barulho começou a aumentar e não havia fim. Meus ouvidos começaram a reclamar e eu senti uma espécie de veneno correndo dentro da bola negra que me cobria por completo.
Ouvi outro rugido e uma porrada forte atingiu a bola, rasgando-a por completo. Eu estava encolhido. A cabeça nos joelhos e os braços em volta deles. De repente eu me vi livre para esticar as pernas. Havia duas pernas ali, paradas na minha frente. Tapadas por um jeans negro. Suas pernas eram bonitas demais para serem masculinas.
Levantei-me devagar sem olhar para ela, parada, esperando que eu agradecesse por ter me salvado. Esperei confuso por sua imobilidade. Se ela estava se transformado eu não iria querer ver até o ultimo momento.
- Como você está? – Ela perguntou, quebrando o silêncio.
- Estou bem. – Eu menti. – Er. Obrigado.
- Demônios não agradecem. – Disse ela reprovando-me.
Respirei fundo e levantei minha cabeça para finalmente vê-la. Ela era um anjo negro. OS cabelos escuros e grandes iam até o final das costas. Seus olhos negros de lince refletiam a lua que brilhava na noite. Seus lábios rosados e carnudos se moveram num beicinho que me fez derreter. Ela tinha duas pintas na testa, no lado direito.
Suas roupas escuras e diferentes chamaram a minha atenção. Sua jaqueta de couro preto combinava bem com seu jeans. A noite combinava muito bem com seu jeito de gata. Suas garras pareciam de mármore. Sua pele de ceda brilhante era a coisa mais adorável que eu já tinha visto.
Seus olhos nervosos estavam se tornando mais amigáveis enquanto ela se aproximava de mim. Suas mãos contornaram meu rosto e pararam na minha nuca. Ela me olhou nos olhos e então eu me vi louco por ela.
- Obrigado. – Eu disse de novo. – Qual é o seu nome?
- Sou Sakuya. – Disse ela irritada. – Tenho que desenhar para você?
- Não você demônio. O nome da garota. –Até agora ela não falara nada, eu podia ver a diferença.
- Ahh... Meu nome é... Claudia. – Ela disse. – E o seu?
- Zac.
- Há. — E então ela retirou seus braços dos meus ombros, recuando um passo. – Bem, eu já vou indo. — Dissera ela para mim.
- Você já tem que ir? –Eu perguntei, seu rosto corou. Eu não tinha percebido que estava triste.
- Acho que é melhor assim. – Recuou mais um passo e já estava atrás de uma árvore.
- Azharar, eu senti sua falta. Você fugiu do nosso ninho de amor. – Disse Sakuya. Eu a reparei analisadoramente e percebi que quando ela falava seus olhos mudava de cor. Eu e Claudia tínhamos os olhos negros e quando os demônios falavam seus olhos ficavam amarelos.
- Mais uma coisa. – Dissera impaciente. – Aquele não é um demônio qualquer. Ele é o Baudy.
- O guardião dos portões do inferno? – Perguntara Azharar confuso.
- Sim. Tome cuidado.
Como uma lince ela saiu correndo pela floresta cheia de árvores grandes. Sumira antes que eu pudesse suspirar, desejando vê-la novamente. Olhei ao redor e não havia ninguém. Perguntei-me onde Caio estaria. Perdido na floresta ou comemorando com a população de Lairwood.
Eu não sabia por que estava tremendo, mas comecei a sacolejar para lá e para cá. Eu estava com raiva de novo. Eu queria poder ter matado aquele monstro. Eu queria fazê-lo pagar por o que fizera a Amanda.
- Vamos brincar? – Perguntei sombriamente. – Azharar riu.
- Sim. Vamos verificar primeiro se Caio está por perto.
Comecei a correr como um guepardo de novo, descendo cada vez mais rápido. Era estranho correr tão rápido e não cair, eu nem sequer esbarrar em nada. A cidade continuava morta. Não havia luz nenhuma acessa. Não havia ninguém lá. Fiquei triste. Eu queria matar todas aquelas pessoas ruins. Eu iria limpar o mundo do mal e do desconhecido.
Eu seria um antivírus, destruiria todos os cavalos de tróia e todos os rootkits. Nada passaria por mim enquanto houvesse uma infecção, ninguém passaria até que a área estivesse limpa.
Corri para a praça, mas não havia ninguém. Fui ao ginásio que tinha um porão, mas não havia ninguém. Corri de volta para o centro e entrei numa ruela estranha. As casas feitas de madeira; quase todas eram assim; as paredes pintadas de branco e escadinhas que se chegasse ao chão da casa.
- o que você acha de acabar com as casas? É um bom primeiro passo para limpar a cidade do mal. – Eu disse, sombrio, envolto pelas trevas mais uma vez. Eu não resisti, me forcei a ficar com ela.
- Seria ótimo. – Dissera Azharar. – Você é um talento escondido. – Ele sabia me agradar. Dizer as palavras certas para que eu fizesse tudo o que ele queria; para que fizéssemos tudo o que queríamos.
- Então vamos começar. – Eu sibilei.
Eu estava tremendo de novo. Isso estava ficando mais fácil. As longas asas negras apareceram e começaram a bater me tirando do chão. Flutuei baixo para ter um melhor ângulo. Sutilmente movi minhas mãos de trás para frente, fazendo o vento soprar forte. Era tão divertido que eu não estava pronto para parar de jogar.
O vento veio suave e depois se iniciou um tornado que começou a varrer a ruela. As casas lutavam para se segurar no chão, mas estavam fracassando, as primeiras não agüentaram 5 segundos, seguidas pelas outras 2 segundos depois. O meu sorriso triunfante o deixava feliz. Eu estava feliz.
- Pare. — Eu ordenei. O tornado parou imediatamente, tornando-se uma brisa.
Ri comigo mesmo uma vez e fui aos restos que ficaram no chão. As casas se desmontaram e cada tora de madeira se juntou no meio da rua, como se estivessem esperando pelo fogo. Fogo.
- Eu posso usar o fogo? – Perguntei excitado.
- Claro que sim. – Respondera-me.
Abri a boca num sorriso gigante, me preparando para soprar fogo ou sei lá o que eu seria capaz de fazer. Suguei o ar vagarosamente, para prolongar o momento, e depois o lancei em forma de fogo. O fogo saíra como uma serpente voadora da minha garganta. Queimou minha língua e os meus dentes.
Vi com felicidade o que eu era capaz de fazer. O fogo começou a queimar a madeira e os restos das casas jogadas ao chão. Elas começaram a fazer fumaça que crescia e se transformava num cogumelo gigante vermelho.
Eu ria sem parar. Eu estava maliciosamente excitado. Era incrível sentir isso. Eu me sentia excepcionalmente forte. Forte não era a palavra. A palavra seria poderoso. Eu tinha o poder das trevas. Eu sabia que era uma boa pessoa, trabalhando para limpar o mundo da maldade.
Ninguém pareceu notar que havia algo pegando fogo até que toda a cidade estava em brasas. Tudo estava sendo levado pelo meu censo de justiça. Eles estavam levando uma pena leve em consideração ao que mereciam.
- Você vê alguma coisa? – Um homem baixinho perguntara no meio da fumaça. Agora eu podia escutar vários passos. Eles estavam andando para lá e para cá.
Pessoas gritavam e pediam baldes de água, tentando salvar suas casas. Eu não conseguia tirar a excitação do meu corpo, a adrenalina e o poder jorravam em enormes quantidades no meu corpo, vagando para lá e para cá.
Os passos começaram a ficar mais altos. Eles estavam chegando. Esperei-os sentado a frente do grande cogumelo de fogo. Todos gritavam e choraram tristemente até que o mesmo bando que me caçava da ultima vez conseguiu me encontrar.
- Boa noite cavalheiros. – Eu dei as boas vindas. – Pensei que não iriam chegar nunca mais.
- Olhem. É ele. – A duvida corria por todos os olhos humanos. Todos os homens da cidade estavam lá. Prestes a morrer. Azharar ria sem parar, descontroladamente como se tivesse tomado um remédio tarja preta, com efeito risível.
- Pessoal. – Gritara um homem baixinho e gordo que eu conhecia bem. Seus olhos estavam tão abertos que eu pensei que eles pulariam para fora. – Vejam isso. É o Zac.
A multidão de gente que agora estava correndo feito louca começou a chegar. As faces curiosas paralisavam-se todas as vezes que me olhavam nos olhos. Os meus grandes olhos amarelos faziam as pessoas tremer. Todos me olhavam com reações diferentes, mas sempre havia pânico no meio.
- Zac. Sentimos a sua falta. – Disse Diego. – Por onde tem andado? –Perguntara sem fraca.
- Fugindo. – Respondi. – Algumas pessoas têm tentado me matar ultimamente. – Girei um pouco o pescoço e franzi e mexi a sobrancelha, indicando quem era. Ele limpou a garganta.
Eu entendia muito bem a situação. Estavam tentando me distrair, assim eles poderiam me atacar. O veneno na minha boca se misturara ao sal e eu estava perdendo a sensibilidade.
O gosto já não me fazia tão mal. Me acostumara a isso com o tempo. A rua cercada de pessoas formou um circulo, tapando-me por completo. Enquanto eu me distraia com Diego, algumas pessoas colocaram madeira no chão. Jogaram fogo nas toras de madeira e isso formara uma roda de fogo, comigo dentro.
O sorriso de vitória já estava na face de todos os homens. O medo ficara com as crianças. A preocupação com as mulheres. A diversão era toda para mim. Essa era a minha devastação. A minha vingança por tudo o que me fizeram.
- Vocês acham que eu morrerei com fogo? – perguntei rispidamente.
- Por que você voltou? – Perguntara Senhor Crabims com uma espingarda na mão.
- Olá senhor Crabims. – Cumprimentei-o sombriamente. – Eu acho que moro aqui. – Respondi sua pergunta retórica.
- Eu acho que não. Sua casa pegou fogo. Lembra-se?
- Claro que sim. Vocês a queimaram.
- E agora queimaremos você. – Interrompera Diego com uma pistola na mão.
- Jura? – Comecei a rir. Como ele podia ser tão odioso. – Vou começar com você. – Murmurei e dei um passo a frente.
- Não se mova ou eu atirarei. – Eu hesitei, fingindo medo depois dera mais um passo.
- Eu avisei. – Gritara.
Diego suspirava fundo tentando criar coragem para atirar. Dei mais um passo em direção a ele. Ele apertou o gatilho, mas nada acontecera. Dei mais um passo e ele começou a gritar coisas ininteligíveis. Apertou o gatilho novamente e eu vi a pólvora saindo do cano de onde a bala havia saído. O grito da bala ardeu nos meus ouvidos. Viera correndo como um foguete e eu podia evadi-la, mas decidi deixá-los pensar que ganharam.
Ouvi os gritos de urra enquanto a bala se alojava no espaço onde meu coração deveria estar. Caí de joelhos sentindo a dor insuportável por 1 segundo inteiro e depois que estava de bruços no chão não me importei de ficar um tempinho ali.
As pessoas começaram a comemorar a minha “segunda morte”. Toda a tensão parecera se transformar em alivio. Todo o terror sumira dando lugar a paz eterna.
- Agora acabou. – Dissera Digo a Diana e Doug.
- Estamos bem. – Gritara um homem gordinho.
- Finalmente. – Exclamara Senhor Maison.
A raiva máxima emanou de dentro de minha escuridão pessoal. O sangue começou a queimar e a ficar escuro. Eu não queria que ele brincasse desta vez. Eu seria o antivírus desta vez. Eu iria acabar com os cavalos de tróia e deixar o mundo limpo.
- Vamos ser um só desta vez. – Disse-me Azharar me dando um convite irresistível.
Meus olhos começavam a faiscar, atraindo a atenção das faces aliviadas. Todos pararam, paralisados de medo. O amarelo negro saia dos meus olhos, uma lanterna enorme acesa numa noite escura.
Minha carne começou a se mover por meu corpo, como se estivesse dividindo-se entre o bem e o mal. Metade para cada lado. 50% meu, 50%dele.
A minha parte era pálida como gelo e meus olhos eram do mais escuro possível. A parte dele era da mesma cor dos meus olhos e seus olhos eram amarelos. Asas brancas do meu lado e pretas do seu saíram das costas formando um monstro inumano. Uma roda negra pairava sob meus pés e ela se movimentava por conta própria. Uma cobra gigante feita de trevas rodando em volta do meu corpo. O modo como ela se movia perto de mim dizia-me que ela faria qualquer coisa que mandasse. Eu estava flutuando baixo, eu sentia a falta de gravidade em mim, mas a dor não me deixava pensar muito sobre nada.
Fechei os olhos com força, tentando impedi-la de me atrapalhar e consegui. Respirei fundo. Quando abri=-os foquei-me em Diego.
Movimentei minha mão esquerda muito sutilmente e assim apareceu uma foice, como eu já tinha visto antes. A morte passou avoada entrando no corpo de Diego. Todas as pessoas se enrijeceram de pânico e tudo ficou silencioso, a não ser pelo barulho do fogo queimando a madeira.
Fale com o autor