V1 - Vingança Suprema
8 Desmaio
Onde eu estava? Trevas e fogo. Criaturas com rabos pontudos e dentes afiados, com olhos amarelos por todos os lados. Eu estava no inferno, como nos sonhos que eu tive no começo da minha vida.O fogo saia de buracos em forma de circulo. Estava quente demais e eu nem sabia onde estava. Eu tinha que achar a saída. Muitas almas passavam para lá e para cá, entediadas. Eram estranhos, como se fossem desenhadas, esboços coloridos. — Com licença. – Eu disse a uma alma que passava apressada. — Onde é a saída? – Eu perguntei confuso. Ele rira da minha cara.- Você acha que eu sei? – perguntou-me irritado. – Se eu soubesse não estaria aqui.
As almas eram malignas e não cheiravam muito bem. Tinham um cheiro de enxofre que fazia meu estomago embrulhar. O inferno não era bem do jeito que eu esperava.Onde estava o diabão, com seu tridente na mão? E por que eu me sentia tão estranho naquele lugar? Os guardiões ali pareciam estar num sono profundo e contínuo. Havia um grande portão, o maior que eu já vira. Eu não sabia onde era a saída, nem quem era o encarregado de liberar as pessoas de ali e muito menos porque eu estava ali. Não fazia ideia se eu deveria estar ali. Eu não era tão ruim era? Perdi-me em minhas próprias perguntas.O tempo parecia não existir neste lugar. Um arranhar de uma garganta me fez perder o controle sobre meus pensamentos. Um homem novo, da minha idade eu acho, estava parado na minha frente, esperando, que eu olhasse para ele. — Ei Zac. – Ele me falou. – Está se divertindo?Parei confuso. Olhei para cima e o vi pela primeira vez. Ele tinha os grandes olhos amarelos que eu já conhecia. Seus longos cabelos loiros com mechas pretas eram lindos. Um cabelo realmente muito bonito, mesmo que fosse a um garoto tão feio. Seu cabelo era espetado em arcos, pareciam mais com armas de defesa. -Quem é você? – Eu perguntei.- Você já me conhece. – Dissera-me ele. — Eu acho que não. – Respondi a sua afirmação.- Muito bem então. — Onde eu estou? – Perguntei, entediado.- Na área VIP do inferno. – Eu engasguei.- Eu não sabia que o inferno tinha uma área VIP. – Disse eu surpreso.- A área VIP é um lugar ótimo pra se estar quando você vive no inferno. – Começou ele. – Você só tem duas opções. – Continuara ele sem perceber que eu estava de boca aberta; vendo duas almas se porrando até a morte. – Você pode fugir ou pode ficar aqui, se conseguir alguns privilégios. – Falou franzindo a testa, a sobrancelha esquerda levantando-se.- Arrã. – Não tinha o que dizer naquela hora.O grande portão continuava fechado e não havia um jeito de abri-lo, pois não havia maçaneta ou qualquer botão para acesso. Eu olhava para todos os lados, mas tudo estava bem tranqüilo. Até agora. Duas harpias tinham acabado de chegar, ensangüentadas e sujas. Minha testa se franziu, com a cena estranha. O que estava acontecendo? O inferno que eu havia visto era de longe muito diferente do que eu via agora. — Por que elas estão aqui? – Perguntei apontando para elas com a cabeça.- Há. – Disse ele. – Elas mataram 20 homens e se mataram em seguida. – Eu parei, confuso. – Ele pareceu notar.Eu comecei a observar esse garoto mais atentamente. Um sorriso que não se esgotava estava em sua boca, um sorriso de deboche e malicia. Eu já o conhecia, mas não me lembrava de onde. — Você ainda não sabe quem eu sou? – Disse ele divertido. — Ainda não. – Eu respondi. — não tem problema. Mas devo dizer que nós passamos algum tempo juntos. Eu congelei, no meio da área “VIP” do inferno. Respirei rápido e expirei devagar, esperando que a dor viesse e me entorpecesse, mas ela não veio. Virei-me para encará-lo e olhar em seus olhos e tudo se escureceu. O calor se transformara num frio cortante. O medo tomou conta de mim, se apossando do meu corpo e me fazendo tremer. Não havia luz até agora. O cheiro de ferrugem e sal dominou o meu olfato, fazendo meu nariz arder. Eu era o centro das atenções, porque de repente havia uma única luz em mim. O silêncio era perturbador. Eu não conseguia ver nada em volta. Eu estava preocupado. Havia passos indo e vindo do nada. Só dois pés na verdade. O vento estava forte e sedento, o frio estava me congelando. Eu estava perdendo os sentidos. A única luz naquela escuridão estava em cima de mim. Eu tinha que sair dali. Tentei andar, mas meus pés pareciam estar colados no chão. Ele estava vindo me pegar, eu podia sentir isso. Engoli em seco E me acovardei de inicio, pedindo por misericórdia. Fechei meus olhos. Queria que isso fosse um pesadelo. Outra luz apareceu na minha cena de terror e uma sombra apareceu nela. Eu gritei. O demônio de asas negras e olhos amarelos me olhava autoritário. “Nós somos um só.” Ele pensara, e eu podia ouvi-lo. Azharar; pensei imediatamente. Paralisado eu comecei a chorar, tremendo de medo. Ele parou na minha frente e as luzes se acenderam, mostrando tudo o que eu achava ser o inferno, o fogo subindo e gritando na vontade de possuir a minha única alma. — Por favor, não. – Eu supliquei enquanto as brasas pulavam de um lado para o outro. — Eu e você somos um só. Você não vai fugir daqui. É impossível a não ser que um demônio possa sair. — Por que você está fazendo isso comigo? – Eu perguntei aos gritos. O calor me fazia suar sem parar. — Você falhou comigo. – Respondera-me ele com reprovação. – Eu dei-te tudo e você falhou.- Não seja tolo. – Meu pescoço tremia enquanto eu o rodava. Meu humor havia se transformado num tão negro quanto o de Azharar. – Foi você quem falhou. Você é um inútil. Azharar encolheu-se, ficou triste e assustado, e eu percebi que estava sendo possuído, de novo. Meus olhos queimaram e ficaram amarelos. Uau. Eu sou a única pessoa que consegue receber tantos demônios em um corpo só por temporada.A sombra negra nas minhas costas me fez perceber que eu tinha novas asas, maiores e mais fortes, mas havia algo mais. Três cabeças gigantes num corpo enorme, aquilo não era algo muito bom, mas como eu estava possuído aquilo devia ser o cachorrinho de alguém. Eu fiquei ali, parado, dentro da jaula particular que tinha no meu corpo, observando a cena. Um demônio medroso e impotente sobre o outro, forte e de sucesso. Um exemplo para todos os outros demoniozinhos que esperavam ser alguém temido. Eu observei Azharar envergonhado. Isso me deu pena. Nós éramos um só e ainda poderíamos ser. Dentro da minha jaula eu tinha a melhor visão, mas tudo começou a ficar escuro, e eu já não podia ver mais nada. O demônio parou n minha frente, fazendo-me congelar. Eu nunca tinha ficado de frente com um demônio. Não era uma coisa que eu esperava ter tão rapidamente. O que me deixou surpreso era que ele só queria conversar. Eu acho...- Olá. Pequeno Zac. – Dissera-me Baudy, O demônio preferido de Caio.- Olá. Eu não sou uma criança. – Disse eu a ele sombriamente. — Eu sei, já estou com Caio a tanto tempo que me simpatizei com seu jeito de ser. Sabe... — Começou ele. – Ele sempre te viu como uma criança, desde o primeiro dia que você foi para lá. Uma criança muito corajosa e guerreira; se me permite. — Arrã. – Não conseguia pensar em nada melhor para responder. — Aí você foi para aquela casa. A pequena Amanda ficou muito feliz, devo dizer. Percebi que Amanda não era muito bem o anjinho que eu pensava que ela fosse. Ele a tratava com muita reverência, como se ela fosse parte da família. Era isso o que eu devia ter percebido. Tudo já estava organizado. Eu seria a isca perfeita, sem família, sem amigos, sozinho no mundo. Poderiam ter a minha alma e corpo, assim fariam todas as outras pessoas se entregarem. Usariam meu corpo para matá-las. Eu apodreceria com o Diabo no inferno, sem sequer saber por que, uma vez que tivesse me entregado a ele. Seria um modo perfeito de desviar um inocente de um caminho iluminado. — Acalme-se Zac. Azharar o escolheu porque você é tudo o que ele não é.- Claro, claro. Fraco, pobre, mortal... – Ele pigarreou. Estava começando a ficar irritado com meu deboche. Eu já estava no inferno, então não tinha nada a fazer a não ser esperar pela minha cremação de alma.- Zac. Você tem o direito de possuir um demônio e continuar seu trabalho de limpeza do mundo. – Suas palavras me paralisaram. – Não somos coisas ruins, nós só limpamos o mundo dos pecadores e que não merecem. — Tudo bem. – Eu murmurei assustado. – Eu quero Azharar. – minhas palavras fizeram a caveira mais feia que eu já vi ficar decepcionado.- Zac. – Ele me confortou. – Há tantos melhores para você escolher. Pense nisso. Eu poso te mostrar outros que farão o trabalho muito melhor e não te deixarão sofrer tanto. — Mas eu gostei dele. – Meus olhos estavam lacrimejando, de raiva e pódio. Sombrio como eu estava, poderia ser confundido com outro demônio.- Como você é teimoso hem. – Eu assenti. – Tudo bem, pode ficar com esse incompetente.
Suas palavras me incomodavam. Eu não gostei dele ter falado assim de Azharar. Nós éramos uma dupla, uma só unidade. Baudy viu minha irritação e riu da minha cara. Eu franzi a testa e meus lábios se retorceram. As palavras saíram atropelando minha garganta, correndo para saírem sem que eu pensasse a respeito delas. — Dá pra sair do meu corpo, merda? Fiquei arrependido na mesma hora. Ele se colocou mais perto, tirando o pequeno espaço entre nós. Sufocou-me vê-lo ali tão perto. Seus grandes olhos amarelos e esfumaçados encarando-me furiosamente. Gelei. Não havia nada mais assustador do que um demônio com um cachorro de três cabeças. — Quem é o seu cachorrinho? – Perguntei tentando distraí-lo. — Esse é o Cerberus. O cão do inferno que guarda as portas de entrada e saída. – Respondera-me ele mais calmo. — Ah. Legal. Onde eu consigo um? – Perguntei. — Eu queria um cachorro com asas negras! – Ele riu. — Para conseguir isso você terá que falar com o pessoal da administração. – Agora eu ria. Era muito estranho ele falar do inferno como uma empresa.- E agora? – Perguntei, pois não sabia o que aconteceria comigo. – O que vai acontecer comigo?Ele hesitou. Ele não sabia se deveria me contar. Pelo seu rosto vi que ele contaria. Procurando uma maneira de me explicar.- Não sei te dizer ainda. Ainda não decidiram. Mas agora tenho que ir.Dissera ele e tudo começou a rodar, escurecendo. O mundo pareceu se transformar em vazio, trocando de cores a toda hora. Começou com o preto, passando para o branco depois o vermelho e parou num cinza claro. Eu estava parado em pé no meio do nada, assistindo o vazio. Virei-me para ver tudo e Azharar estava lá. AS asas negras batendo e jogando vento na minha cara. Ele sorriu para mim, um sorriso estranho, incomum para um fantasma. Um sorriso de gratidão. Seus olhos amarelos queimando por dentro. Ele se aproximou de mim, com uma bandeja de prata, me olhando sugestivamente.- Você quer mesmo se unir a mim? – Perguntara ele...A cena começou a retroceder. Ele estava sumindo, como se ele estivesse andando para trás, afastando-se de mim. As cores iam voltando... O cinza claro estava se transformando num vermelho, branco e depois no preto. Tudo começou a girar. Eu fechei os olhos, estava ficando enjoado. O gostinho da ferrugem e sal continuava ali. Eu Achei que me livraria disso depois que o demônio saísse do meu corpo. A ânsia subia e chegava à minha garganta e depois voltava para o meu estomago. Abri os olhos e ainda estava rodando. Havia uma luz fraca, como se fosse um túnel. Eu respirei fundo e fechei os olhos, só para abri-lo de novo. Tudo havia parado. Eu estava mesmo num túnel. Estava desesperado. Eu comecei a engatinhar por ele. Havia tanta poeira e teia de aranha que deixava o caminho mais difícil. Eu respirava freneticamente enquanto chegava mais perto da luz, que ia crescendo a cada minuto. Parei na frente da luz que me cegava. Será que eu deveria continuar? Será que aquilo me levaria a algum lugar? E sobre as coisas sobre o que diziam os mais antigos: “Não vá para a luz”. Será que devia mesmo ir para a luz? Continuei ali. Os olhos quase fechados pela força da luz gigante que atravessava os meus olhos. Respirei fundo, tentando encontrar força para seguir em frente. De olhos fechados eu dei mais um passo, em direção a luz...A luz estava forte, eu acho que era o sol. Mesmo de olhos fechados eu pude sentir que eu tinha franzido a testa. Minha mão esquerda roçou nas minhas sobrancelhas e por minha face. Fiz uma Careta. Mas não conseguia abrir os olhos. — Olha gente. Acho que ele está acordando. – Disse uma menina, embora eu a conhecesse pela voz eu não sabia quem era ela. — Não fale tão perto dele desta maneira. Ele precisa dormir. Deixe-o descansar. – Disse Angela. — Eu sei, mas ele já está dormindo há três dias. – Retrucou a menina.- Gabriela, deixe-o descansar. – Gabriela? Aquela menininha que sempre me dava um oi na loja TUDO.As duas começaram a discutir sem trégua. Elas se cutucavam enquanto eu ainda não conseguia abrir os olhos para ver o que estava acontecendo. Eu agora escutava quatro diferentes vozes o mesmo lugar. Rindo e conversando, às vezes preocupados às vezes alegres, discutindo sobre coisas banais. Fiz cara feia de novo, mas finalmente consegui abrir os olhos. Eu estava em um lugar estranho, estava deitado. Uma manta xadrez colocada sobre mim. Fios agarrados em meu corpo, Uma agulha em meu pulso num dos meus braços fazia o soro chegar ao meu corpo através das minhas veias. O quarto era bem claro, fez meus olhos arderem. A janela era grande e havia uma cortina verde-clara junto a ela. Eu estava deitado num quarto de hospital. Por que eu estava num hospital? Fiquei tão impressionado em saber onde estava que nem dei atenção aos rostos curiosos me olhando nervosamente. — Oi. – Disse Gabriela. – Como você está? – Me perguntou dando-me um sorriso gigante. — Eu acho que estou bem. – Falei enquanto eu tentava me levantar, ou pelo menos me por sentado sobre a cama. — Tem certeza? – Perguntou Angela, preocupada, porém reservada. — Sim. Não estou sentindo nada. – Meu estomago roncou tão alto que me fez corar de vergonha.- Uau. – Murmurou Gabriela. – Três dias dormindo significam três vezes mais fome. Neste momento todos riram. Era estranho viver sem aquela tensão. Nunca fui uma pessoa que teve algum amigo, ninguém queria ficar comigo e agora as pessoas estavam lá. Quase todos. Brittany, Jack, Angela, Gabriela, Kevin, Mateus, David e Sara. Todas as pessoas que nunca gostaram de mim e que trabalhavam comigo. Bem, todos da minha idade. Embora todos estivessem sendo muito bons comigo, eu podia sentir a tensão correndo pelos meus nervos, eriçando todos os meus cabelos dos braços. Todos me olhavam sem ter o que dizer, como se estivessem esperando um assunto chegar, ou simplesmente evitando que eu ou alguém tocasse em algum em especial. — O que aconteceu? – Perguntei hesitante. Todos se olharam, pareciam estar julgando se deviam ou não responder-me. — Bem. – Começou Angela. Vo...- Seu cabelo está bem maior Zac. – Disse Gabriela tentando me distrair. — Arrã. – Dissera eu mal prestando atenção. – Ninguém me respondeu ainda. — Ahh. Você... – Começou Angela de novo. – Foi possuído por um demônio e... – Os olhos começaram a restringir as palavras dela. – Eu acho que ele tem que saber. Zac querido. Você foi possuído por um demônio e ele destruiu parte da cidade, além de matar algumas pessoas.Meus olhos abriram-se de horror. Um horror falso, eu já sabia de tudo. Eu fui possuído, mas estava lá, meio eu meio Azharar. Eu fiz de tudo pra que minha cara ficasse a mais surpresa possível. Acho que me saí bem. Os meus olhos começaram a lacrimejar dando mais realidade à cena. — Eu sinto muito. – Disse as lagrimas. Agora eu chorava sem parar. Não conseguia imaginar porque, mas eu estava me tornando um ótimo ator.- Não foi sua culpa. – Angela me consolava, passando os braços a minha volta.- Por favor, não chore. — Pedia Gabriela. Todos olhavam com pena. Alguma coisa deveria estar errada. Ninguém nunca sequer olhara para mim, agora estavam aqui, sendo gentis e carinhosos, como se eu fosse alguém especial, alguém da família. — Desculpe. — Eu disse já recuperado do choro. – Eu ainda não entendo. – Disse, hesitante. — O que você não está entendendo Zac? — Perguntou Julia. Seus grandes cabelos negros espetando por todos os lados era meio cômico pra mim. Seus olhos castanho-escuros eram lindos e combinavam muito bem com seu rosto arredondado.- Vocês nunca olharam para mim. Nunca falaram ou foram educados comigo. Como podem estar aqui agora? Sendo tão gentis comigo? –Eu senti que fraquejei na ultima frase.- Acho que todos nós merecemos uma segunda chance Zac! – Dissera Angela, consolando-me. Eu sorri, e depois o meu estomago roncou ruidosamente, reclamando pela falta de comida. Ele não roncava há algum tempo. Azharar estava alimentando-me. Eu não sentia a necessidade de comida ou sentimentalismo barato. - Er. – Disse Angela constrangida. Eu estava constrangida. – Eu vou chamar a enfermeira. — Obrigado. – Disse eu. Angela saiu apressada pela porta afora. Todos a seguiram numa fila reta que me fez rir. Fiquei ali sozinho e entediado, deitado naquela cama de hospital. O vento fazia a cortina chicotear a janela trazendo o cheiro de enxofre. A dor se espalhou pelo meu corpo e o gosto do sal e de ferrugem ardeu na minha boca. Eu sentia as nuvens mudarem de forma e ficarem nervosas, roxas de ódio. Parecia que ia haver uma tempestade. Parado onde eu estava, do lado da janela eu pude sentir o tempo mudar, se transformar num caos imenso. O céu vermelho com nuvens arroxeadas e redondas.As manchas vermelhas — glóbulos – estavam surgindo no ar, aleatoriamente. Fechei os olhos. Devia ser um pesadelo. Talvez eu nem estivesse acordado. Será que isso era uma ilusão? Devia ser efeito dos remédios se é que estava acordado...- Lá lá lá lá... – Cantava uma voz para mim.
Um calafrio passou por minha espinha, fazendo-me tremer. Havia uma menina ali, eu costumava gostar muito dela, antigamente. Sempre pensei que ela era um anjo. Era outro demônio. Desconhecida. Quem estava no corpo de Amanda? Eu me perguntei. — Lá lá lá lá... – Cantava a voz novamente antes de tudo escurecer. O mundo desligou a lâmpada da luz e o canto de Amanda estava deixando-me assustado. Fechei os olhos de novo e respirei fundo para que tudo fosse embora e...- Zac. Bom dia- Disse a minha salvadora. – Eu sou sua enfermeira. Meu nome é Laura. – Eu assenti. – Angela disse-me que você está com fome, é verdade?- Sim. – Disse imediatamente. – Muita fome. – Ela riu.- também pudera. – Disse abafando outro riso. – Vou trazer sua comida. O que você quer?- Jura? – Perguntei incrédulo.- É claro. – Disse-me ela dando-me coragem.- Eu... – Parei para pensar no meu caso. – Quero batata-frita tomate, arroz, feijão e frango.- Claro. – Disse ela num sorriso brilhante. Isso fez meus olhos brilharem de felicidade. – Vou te trazer uma sopa de inhame. – Falou ela destruindo minha felicidade. — Sem vergonha. – Murmurei num falso constrangimento.Ela saíra pra pegar minha sopa e me deixou sozinho de novo. Esperei pela maldita dor e as malditas ilusões, mas nada aconteceu. Olhei de volta para a janela e tudo estava normal. O sol, único rei no imenso céu azul. E eu não entendi. — Oi. – Disse-me uma voz sedutora. – Poso entrar? — Sim. – Eu queria saber quem era. – Cláudia. Er, Sakuya. – Respondi envergonhado, não via mais nada ali além de Claudia, mas a hostilidade e o jeito felino me comprovaram que era Sakuya. — Boa tarde, Zac? – Disse cada palavra mais lentamente do que deveria.- Boa tarde. – Eu disse, tentando ser educado. — Onde está Azharar? – Ela me perguntou curiosa.- Está no inferno. – Falei sussurrando. — O que você fez com ele? – A raiva tomou conta do corpo dela. Ela pegou no meu pescoço e em levantou um metro de altura, Me deixando sem ar.- Foi o Caio. – Eu disse, tentando me libertar de sua força inumana. — Quem? Baudy? – Ela perguntou descrente de minhas palavras. — Sim. – Eu estava sufocando. Comecei a tentar sugar o oxigênio, que cismava em fugir dos meus pulmões. Ela me soltou, um pouco envergonhada de seus atos. — Zac, desculpe-me. – Disse uma voz macia. Era Claudia agora. – Como você está? Ele deve ter te exorcizado!- Sim, mas estou bem e você? – Também estou bem. – Sorri, nunca tinha visto uma garota tão linda na minha vida. Ela parecia a minha caixa escura, ou o por do sol para os são que bons.- O que tem feito? – Perguntei para puxar assunto.- Eu tenho caçado demônios. – Disse-me ela, eu fiquei boquiaberto. Como um anjo negro deste pode caçar demônios. — Ahh. – Foi a única coisa que eu achei. – Por que você não me matou quando eu era um d d d...? – A palavra na saia de minha boca. Todas as vezes ela falhava ao tentar falá-la. — Sakuya é totalmente louca por Azharar. – Sussurrou ela como se tivesse contando um daqueles segredos de criança no jardim de infância. Eu ri, ela me fazia bem. — Ufa. – Disse franzindo a testa. A sobrancelha curvada até no ponto mais alto que consegui. — Bem. – Disse ela quando virou a cabeça, escutando algo que eu já não conseguia mais. – É melhor eu ir. Foi bom te ver. – Disse ela saindo pela janela. — Espere. – Eu pedi. – Volte à noite.- Tudo bem. – Ela me disse. Só havia sua voz aqui. — Promete? — Prometo!A enfermeira voltou e ficou procurando alguém em todo o quarto, passando pelo banheiro e as janelas. Mas certamente não encontrara nada.- Com quem você estava conversando. – Perguntou ela desconfiada. — Com ninguém. – Dei de ombros. — Não minta para mim. – Disse ela sombriamente.- Você devia tirar umas férias sabia? Você já está ficando maluca de tanto trabalhar. – Eu disse apontando para ela, como se tivesse dando um sermão. — Acho que sim. – Disse ela com um sorriso engraçado no rosto.- Aqui estão seu remédio e comida. – Ela colocou ma bandeja em minhas pernas, depois que eu me sentei na cama. Sopa de inhame com suco de maracujá e um remédio em forma de circulo da cor lilás. — Coma tudo. – Ela pediu. Eu só assenti e esperei que ela fosse embora. A sopa de inhame estava deliciosa, e o suco um pouco amargo, mas eu ainda não tinha certeza do remédio. Tomo ou não tomo? Ficava me perguntando. Eu deveria tomar, talvez ficasse melhor depois disso. Tomei. Seu gosto era o mais azedo que eu já havia provado. Deitei-me novamente e olhei para o céu anoitecido. A lua crescente estava brilhante demais e quase me deixara cego. As estrelas pareciam agitadas e ficavam pulando e dançando para lá e para cá. Meteoros passavam de um lado para o outro. Cometas corriam desengonçados por causa de seu rabo que estava pegando fogo. Eu pedi para que alguém fosse buscar água, mas ninguém parecia ouvir-me. Os morcegos cantavam musicas de filmes de vampiro, enquanto as águias faziam uma dança aquática na piscina escura invertida, perto das estrelas e da lua. Era uma noite bonita. Suspirei e fechei os olhos, caindo num transe profundo chamado sono...Quando acordei de manhã minha cabeça estava doendo. O sol me cegava e o vento que vinha da janela aberta era frio demais. “Sinto saudade de ser um demônio.” Pensei comigo mesmo. “Demônios não têm que comer, não sentem frio e não precisam de muitas necessidades humanas.” — Você tem certeza? – Disse uma voz sedosa.- Quem está aí? – Perguntei assustado. Olhei para todos os lugares, mas não havia ninguém. Fitei a parede perto da porta fechada, analisando cada pedaço de sua cor marfim. A porta marrom estava fechada e o som de lá lá lá começara de novo. O som meio que machucava meus ouvidos, mas o que estava me perturbando era canção demoníaca que vinha da boca de Amanda. Aquela não era a Amanda que eu conhecera. A doce menina dos olhos verdes que sempre pulava pela casa com toda a certeza não estava ali. Só havia o demônio dos olhos brancos, o que me fazia tremer e suar gradualmente.- você não vai me responder? – Perguntou a voz misteriosa, divertindo-se. — Quem está ai? – Perguntei, tentando ao máximo ser amedrontador.- Calma. – Pediu a voz feminina. – Sou eu, a enfermeira. Eu vim trazer seu almoço. — Ah sim. – Disse eu envergonhado. – Obrigado. Pode deixar que eu como sozinho. Você pode ir agora. – Falei do jeito mais áspero que pude e ainda apontei para a porta. Ela me olhou fazendo uma careta e depois começou a andar.- Se precisar de algo pode me chamar. – Já estava saindo porta afora. Estava desconfiado demais para comer aquela comida. Por que ela era a razão de eu sempre ter alguma alucinação ou loucura indesejada? Por que ela sempre estava no momento em que eu sofria com o desconhecido. Eu não sabia dizer, mas não confiava nela.O tempo nunca demorara tanto para passar e a fome estava gritando no meu estomago enquanto eu olhava aquela maldita sopa de legumes que estava me convocando, me chamando para a batalha. Suspirei. Nem morto eu iria comer aquilo. — Licença. – Pediu uma voz. Olhei para a porta, foi algo automático. – Posso entrar? – Pedira Angela. — Claro que sim. Fique à vontade. — Eu trouxe comida para você... – Ela olhou para a sopa intocada, com a cara um pouco triste. – Mas você já parece ter uma. — Não. Não vai não. Eu prefiro a sua. Eu não ia comer isso de qualquer jeito. Sabe.. – Eu comecei a sussurrar. – Eu não confio nessa enfermeira. – Ela riu.- Você é um menino muito desconfiado. — Eu não sou um menino. – Rebati chateado. Ela continuou rindo da minha cara.- Sabe? – Começou ela num tom sério. – Se você quiser... Er... Você pode morar lá em casa, comigo e Gabriela! Veio-me o choque. Não conseguia acreditar que ela me queria por perto. Não conseguia acreditar que alguém iria quere ficar comigo. Eu não estava entendendo e Angela ficava mais nervosa pela minha falta de resposta. Talvez eu estivesse tendo um treco ou meu cérebro parou e eu não percebi.- É só uma ideia, eu vou enten... — Você... — Eu a interrompi. Disse hesitante. – tem certeza disso? — Tenho. – Ela disse sem sequer pensar no assunto. Eu sorri e ela me devolveu seu sorriso prata. -- Obrigado. – Eu disse agradecido. Depois de Angela ir embora eu me senti mais sozinho do que nunca, mesmo com a enfermeira vindo me atazanar de dez e dez minutos. A noite enfim havia chegado e eu achei que dormir era uma opção considerável. O remédio estava em cima da mesinha que estava perto da minha cama. Eu tomei. A lua estava negra demais e eu quase não conseguia ver nada. As estrelas pareciam agitadas e ficavam brigando entre si. Meteoros se chocavam com os planetas que podia identificar muito bem. Plutão era o menor, agora em chamas. Saturno defendia-se com seus anéis do cometa roxo que batia freneticamente tentando quebrar as defesas circulares. A terra estava coberta num manto azul que eu achei que era água. Cometas corriam desengonçados por causa de seu rabo que estava pegando fogo. Eu pedi para que alguém fosse buscar água, mas ninguém parecia ouvir-me. Os lobisomens latiam para a lua negra e os demônios saiam da terra como se tivessem sido libertados. O que? Demônios saindo da terra? Por que a lua estava negra? Meus olhos começaram a fechar automaticamente enquanto a cena repetia-se uniformemente. Puxei minhas pernas para o chão – mas não tinha certeza se elas trabalhariam corretamente – e comecei a me arrastar pelos corredores do hospital. Estava escuro e parecia estar vazio. Corri para a porta da saída da frente. Enquanto andava os gritos ecoavam de longe e eu os conhecia – quase todos- mas eu sabia que devia ser alguma coisa ruim. Andei o mais rápido possível mas estava entorpecido, minhas pernas estavam quase dormentes e eu tive que fazer um esforço extra para conseguir andar. Enfim cheguei à porta final e corri para a multidão agitada e barulhenta. Havia uma luz negra no centro da confusão, o que era muito estranho. Eu não sabia que uma luz negra podia clarear tanto. Havia muitos tentáculos em forma de ponta e eu já havia visto aquilo. Enquanto eu me esgueirava pela multidão eu pude ver Gabriela escondida. Corri para ela e quando cheguei estava quase sem fôlego. — Fuja da daqui. – Eu disse no meio da minha respiração acelerada. — Mas... — Mas nada. – Eu ordenei interrompendo-a. Os tentáculos começaram a ficar maiores e mais pontudos, seria uma arma letal para qualquer um que tocasse aquilo. Eu comecei a correr de novo, tentando passar pela multidão paralisada. Olhei para todos os lados procurando por Angela enquanto tentava chegar ao centro, mas não vi ninguém. A luz negra ficava mais forte e mais perto de mim. Parei exatamente atrás de um senhor grande e gordo que também estava paralisado. Ele era o ultimo. Se eu o passasse, certamente descobriria o que estava acontecendo. Fechei os olhos e esperei pela dor – como fazia quando ia trocar de lugar com Azharar – Mas nada aconteceu. Fitei o vazio de ser uma pessoa fraca, humana e sozinha. Meu desespero não atraiu a atenção de ninguém.Até agora. -Zac. Que bom te ver. – Disse a voz central, e eu entrei na zona negra, onde as trevas eram o maior grupo, o grupo; que venceria...
Notas finais
Divulgue!!!
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