- Baudy. — Num súbito choque eu gritei de pavor. Todas as pessoas saíram do transe, mas ficaram paralisadas, com medo de fazer algo que pudesse ser fatal para sua vida.

- Zac. – Disse ele carinhosamente. – Você devia estar no hospital. – Ele me lembrou.

- Você não devia estar no inferno? – Ameacei.

- Eu posso sair quando quiser. Sou eu quem fica com Cerberus guardando o portão do inferno. Mas você já sabe disso. – Lembrou-me ele. Meu cérebro começou a vasculhar os arquivos e eu me lembrei da vez em que conversei com Azharar no inferno, onde Baudy me perguntara sobre qual demônio eu gostaria de ter como aliado.

— Sim, eu me lembro. – Assenti.

- Mas é uma pena que você não viva tanto até que Azharar volte, não é? – Disse ele zombando.

- O que?

- É verdade, ele vai voltar.

- Quando? – Eu perguntei

- Daqui dois dias. Só que você não estará vivo para recebê-lo.

- É isso que você acha; mas eu estarei aqui em dois dias.

- Ahh. – Ele riu. – Não vai não.

- Você está meio diferente não? – Perguntei observando seu novo corpo.

- Essa é minha verdadeira forma. – Disse ele divertindo-se do meu espanto. – Você não gostou?

- Na verdade não eu não sabia que uma caveira podia renascer. – Disse zombando, tentando arrumar tempo pra um milagre acontecer. – Virou um polvinho. – Disse eu debochando.

- Não brinque comigo. – Disse ele. O tom de divertimento se transformando no ódio maligno que eu já conhecera.

- Não fique nervoso. Quer um chá de camomila?

- Eu vou te dar um chá de camomila. Você dormirá para sempre.

O silêncio estava me matando. Ninguém ousava falar ou sequer se mexer. Estavam paralisados enquanto eu tentava desesperadamente arrumar tempo. Eu precisava de tempo. Eu tinha que arrumar um jeito de salvar algumas pessoas.

Eu faria isso sem hesitar para salvar Angela e Gabriela. Elas mereciam a vida mais do que qualquer um no mundo, e eu faria de tudo para conseguir o que queria. “Gostaria que Azharar estivesse aqui” Pensei comigo mesmo.

O novo corpo de Baudy era cheio de mudanças. Havia ossos espalhados pelos ombros, todos apontados para cima. Uma asa muito estranha estava colada em suas costas. Não havia penas ou algo assim, somente os ossos que formariam uma asa de verdade. Os tentáculos escuros e de conta própria eram o que eu já havia visto antes.

Ele matara o único senhor que eu já gostara e que já gostara de mim. Eu estava sufocando de raiva. O ódio começou a queimar dentro do meu corpo e ficava cada vez mais difícil respirar sem sentir o gosto da ferrugem e do enxofre.

“Azharar estava de volta.” Pensei confiante. Dessa vez não íamos falhar. Iríamos destruí-lo tão completamente que nem sua maldita alma chegaria ao inferno. Eu a comeria com minha boca. Eu faria Caio sofrer por tudo o que fizera com os outros.

O silêncio ainda me incomodava. Baudy olhava-me indeciso – devia estar decidindo como eu iria morrer – enquanto o fogo dentro do meu peito queimava e ardia nos meus pulmões. Olhei para os lados e percebi que eles não se moviam por medo, a respiração lenta, parecendo estatuas enquanto eu o enfrentava sozinho.

Estava fora da realidade quando percebi um tentáculo movimentar-se. O tentáculo subiu até o ponto mais alto que podia e desceu rápido atingindo-me em cheio.

O veneno era muito forte e me fazia tremer de frio. Eu cambaleei e enfim caí de joelhos no chão. Eu via tudo exatamente como aconteceu antes, só que com algumas mudanças. Eu estava centro da ultima vez. Eu era o demônio louco e perigoso que iria matar a todos.

A dor começou a invadir meu corpo com muita força e eu caí no chão. Não consegui ficar de joelhos. A dor era forte demais para um humano como eu. “Onde estava Azharar?” Pensei. Ele disse que sempre estaríamos juntos. Será que ele mentira para mim?

Eu queria muito a presença dele. “Urgh.” A dor estava me matando. Eu já podia ver uma pequena luz no alto do céu a noite – talvez fosse a lua – enquanto eu estava deitado no chão sujo envenenado e quase morto.

Fechei os olhos e quando os abri eu consegui ver Gabriela, uma lagrima do rosto. Corando por mim, eu acho. “Corra” eu tentei suspirar, mas não tinha forças para isso. Ela começou a correr na minha direção e eu tentava repeli-la. Queria que ela corresse na direção oposta – para longe de mim.

Outro tentáculo passou a correr pelo ar enquanto eu tentava me levantar. Estava quase agachado como um cão, as quatro patas no chão e não vi o tentáculo passar por baixo de mim, como se tivesse tentando me pescar.

...E conseguiu. O tentáculo gigante me puxou e me jogou alguns quilômetros. Eu bati com as costas e a cabeça na parede da entrada do hospital e ali fiquei, caído. A dor veio dilacerando tudo dentro de mim. Minha cabeça estava quente. O sangue começara a escorrer.

- Seu monstro. – Gritara uma mulher. Angela; havia se mexido. Todos estavam se mexendo, respirando assustados, mas não corriam.

- Calada Angela. – Disse Baudy. O rosto de Angela se quebrara quando seu nome fora pronunciado.

- Como você sabe meu nome? – Perguntara ela, incrédula.

- Eu sei o nome de todos. – Respondeu ele.

Baudy estava se contorcendo. Eu podia ver que ele tinha subido uns 2 metros do chão e agora estava flutuando no ar como eu fizera antes. A minha visão estava ruim, mas eu ainda conseguia ver os detalhes dos tentáculos negros, movimentando-se como loucos.

Baudy parecia estar se engolindo, retirando uma fantasia gigante, mas ela estava entrando em seu corpo, formando uma espécie de escudo, que grudava na pele dele o protegia de tudo.

Eu estava sangrando demais e agora o ponto pequeno na noite havia se transformado num buraco gigante. Eu podia vê-lo chamar por mim, mas não tinha muita certeza de que queria ir para ele.

A dor começara a me fazer latejar por todo o corpo, uma autodefesa estranha que me corpo tinha. Ela logo me entorpeceria e me deixaria lesado por algum tempo. Tempo suficiente para todos fugirem?

Tudo o que eu fiz até agora foi em vão. Ninguém sequer moveu um dedo enquanto eu enfrentava sozinho o monstro vindo do inferno. Ninguém sequer respirou alto. Eu não servi para nada no fim das contas, não ajudei em nada, e eu só queria reparar os erros que eu já cometera.

O buraco negro que Baudy tinha feito estava me cegando – ou talvez eu já estivesse entorpecido – uma luz negra que brilhava muito. Ele estava com um manto que o tapava por completo. Como se um dragão estivesse trocando de roupa para aparecer como um coelho. Mas eu já sabia aonde isso iria dar.

As pessoas rezavam, outras gritavam, estava tudo muito agitado agora. Mais uma vez Baudy fora mais inteligente, mais inteligente do que eu ou Azharar. Um de seus tentáculos formou um circulo, colocando todas as pessoas dentro dele e fechando suas saídas. Todos pararam, de novo e de novo a história se repetia.

Bem, eu não era o monstro agora. Eu era a primeira vitima; assim como fiz com as outras pessoas. Eu estava na sala VIP, acompanhando tudo o que eu já fizera a alguém, só que dessa vez de outro ângulo, de outra perspectiva.

O casulo de Baudy estava completo. Um borrão gigante no meio da noite era o que eu podia ver agora. Fechei os olhos e quando os abri o buraco branco e gigante tentava me puxar, mas eu não cedia. Eu sabia que não podia aguentar muito então fiz o máximo possível de esforço para continuar aqui.

Falhei, o ferimento na minha cabeça junto à grande quantidade de veneno estava me matando, eu respirava lentamente, fraca e uniformemente. Desisti. Fui ao encontro da forte luz branca e ela me puxava, mas ninguém prestou atenção em mim.

Eu chegava cada vez mais perto de Baudy e estava subindo muito alto, eu estava voando! Voando em direção ao buraco branco e brilhante. Talvez eu estivesse morrendo, ou tendo ilusões do tipo que só eu conseguiria.

Tudo ficou muito brilhante. Eu já não podia ver mais nada. Era um branco que meus olhos nunca puderam ver. Um branco que os machucava. A claridade do céu. “Será que eu estava no céu?” Pensei, mas sendo eu quem era, descartei a possibilidade no mesmo instante.

Mas com certeza era um lugar muito bonito. Um lugar onde a paz realmente podia existir. O chão era feito de nuvens azuis tão claras que passariam despercebidas por olhos não-minuciosos que certamente falariam que elas são brancas.

Bancos em formas de pombos com asas de mármore em quase todos os lugares. Anjos voando alegres enquanto anjas cantavam musicas calmas e que certamente fariam qualquer coisa dormir. Um grande portão azul em forma de arco estava na minha frente.

Havia um... Um... Um senhor que não parecia com um anjo. Ele parecia mais um gigante, eu me senti a figura mais miserável do mundo. Ele olhava-me pelos grandes óculos de fundo de garrafa e me dava um sorriso do tipo “acho que ele está perdido”.

- O que o senhor deseja? – Disse-me ele em sua voz de arcanjo, alta e grave.

- Eu... – Comecei a gaguejar. Por que eu estava aqui? – Eu, eu... Não sei.

- Arrah, rah. – Ele começou a rir. – Você não sabe onde está não é? – Eu assenti. Não tinha outra coisa a dizer.

- Ohh Felix. Deixe-o comigo. – Disse uma voz grave e respeitosa. – Não se preocupe, ele é um hospede meu.

Virei-me e comecei a procurar por aquela voz mas em todos os lados não havia ninguém que pudesse ser a dono dela.

- Oi Zac. – Disse-me a voz. Eu olhei para cima.

- Ai. – Eu gritei e acabei caindo no chão.

- Desculpe-me. – Pediu ele sinceramente. – Então você é o menino possuído não? – Perguntou ele num tom de interesse. Parecia estar estudando-me.

- Sim. Acho que sou eu.

Era difícil pensar olhando para ele. As grandes asas brancas, os olhos azuis e o cabelo castanho escuro. Sua figura de bondade enchia meus olhos de lágrimas mesmo eu não querendo chorar. Era difícil tentar sair de sua beleza divina.

- Bem. Eu te trouxe aqui porque eu queria te perguntar algo.

- Perguntar? – Disse confuso. – Perguntar o que?

- Eu vim te dar duas escolhas. – Disse ele observando-me.

- Então me fale. – Pedi.

- Eu posso te fazer vir para o céu ou...

- O que? – Arfei, interrompendo-o.

- Bem. – Começou ele. – Você deve saber que quando morrer não irá para o céu.

- Já percebi isso.

- Como você acabou de morrer...

- O que? – Interrompi-o de novo. Eu morri. – Disse assustado. As palavras saíram num sussurro.

- Sim. – Disse-me ele triste. – bem, como eu dizia... – Parou, esperando que eu o interrompesse de novo, mas a dor de saber de minha morte havia me dominado. – Eu posso te trazer para o céu, se você abandonar aquelas pessoas ou... – disse ele com a cara de reprovação, a que eu não deveria escolher. – Você pode voltar e tentar salvá-las. Mas saiba que é quase 100% certo que você irá para o inferno.

Então eu tinha duas ótimas opções. Vir para o céu e ficar aqui brincando de voar enquanto outros morriam ou tentar salvá-las mesmo sabendo que a maioria não merecia. Eram duas escolhas muito boas considerando que eu iria morrer de qualquer jeito.

Parei de respirar e só me lembrei do oxigênio quando meus pulmões começaram a reclamar. O anjo me fitou paciente, esperando por minha decisão. Hesitante, eu comecei a juntar os prós e os contras. Esperei, “eu não me importava com eles mesmo” pensei. Lembrei-me de Angela, tão carinhosa, tão mãe e de Gabriela.

Eu faria qualquer coisa para salvá-las. Mataria-me e daria minha alma para que elas ficassem em segurança. E eu conseguiria. Seria meu ultimo trabalho na terra. Talvez.

- Eu quero salvá-las. – Disse o mais claro que pude. Ele assentiu. Eu podia apostar que ele sabia de quem eu estava falando.

- Tudo bem. Você escolheu seu futuro. Eu até tenho certo orgulho de você. Só acredito que não o verei mais.

- Tudo bem para mim. – disse sorrindo fraco.

- A propósito. Eu sou o anjo Cáliel.

Foi tudo o que eu pude ouvir. Tudo começou a ficar escuro. A noite voltara e eu estava descendo. Vi meu corpo deitado perto da parede o hospital. Gabriela estava lá, chorando ao meu lado, suplicando para que eu acordasse. Eu não queria vê-la sofrer.

Agora eu havia entendido. Eu não estava voando. A minha alma estava desplugada do corpo. Aquilo era só a passagem, a minha passagem tinha como destino a claridade, que eu recusei hesitante. Eu havia escolhido o meu destino e era tarde demais para voltar atrás.

Notas finais
COmentE