O que aconteceu comigo? Onde estavam meus olhos claros? E o meu cabelo castanho claro? Onde estava minha expressão de anjo “condenado”? Cadê a bondade que refletia nos meus olhos? Até o penteado do meu cabelo havia mudado; o que era um corte asa delta agora havia se transformado num moicano. Eu não conseguia acreditar na criatura assustadora que eu havia me transformado. Os olhos negros como carvão com um circulo vermelho, os cabelos da mesma cor, as olheiras escuras por baixo dos olhos. Um ser misterioso havia nascido e tomado o meu lugar e eu nem tinha percebido. Os meus olhos refletiam maldade e desejo de sangue derramado, simples assim. Eu podia sentir a necessidade de ódio constante dentro de mim. O gosto de sal e ferrugem na minha boca e a audição melhorada. Mesmo assim eu me joguei na água e mergulhei fundo, tentando lavar até os meus pensamentos, meus desejos enfurecidos e meu ódio enlouquecido. Falhei, nem consegui tirar um pensamento da cabeça, só adquiri mais um; "acho que vou afogá-los", a voz disse, me fazendo gargalhar sombriamente. O tom de divertimento me fez congelar. Como eu poderia achar divertido e me sentir horrível e culpado ao mesmo tempo? Bem, eu não sabia explicar, mas eu precisava emergir ou morreria afogado. Nadei até a pedra mais próxima e fiquei em cima dela por um tempo, esperando que o sol me secasse. Não havia nada pra fazer até agora, então eu pude deitar e relaxar na pedra, por um bom tempo. O sol já estava queimando a minha articulação quando levantei num pulo, escutando o sussurrar alto de uma criança que reconheci imediatamente. Doug era o filho menor da Sra. Diana, esposa do Diego, dono da farmácia aonde eu havia morado; ele já devia ter uns 11 anos e 1 e 33 cm. Os cabelos loiros e os olhos azuis que ficavam meio escondidos por sua franja mal arrumada. Ele estava vestido bem, uma blusa azul pra combinar com seus olhos e um jeans formal. Estava acima da arvore que ficava no topo da cachoeira, me olhando, analisando-me desconfiado. Eu pude ver em seus olhos o medo e a duvida pairando. -Oi menino — eu disse sombriamente indo ao encontro dele — está procurando por alguma coisa? — Eu perguntei rispidamente e vi seu corpo se arrepiar.- Não- ele me respondeu assustado. — Eu só estou brincando nas arvores.- Você não acha que está um pouco longe da sua casa? — Eu estava feliz e podia sentir o ódio queimando na minha garganta. Era uma oportunidade incrível, começar por uma criança, a ideia me fez borbulhar de alegria, o sentimento maligno correndo nas minhas veias, o cérebro formulando os planos para seu final infeliz. Eu conseguia imaginar isso, estava se apossando de mim...- Eu gosto de brincar sozinho- ele disse, tentando me distrair, e conseguiu.- Você não deveria brincar sozinho por aqui, é perigoso. — Eu podia ver a satisfação na minha voz, o que me assustou, e o medo em sua face.- O que foi Doug? Está assustado? Não tenha medo de mim. — eu murmurei, violentamente e mais maliciosamente que nunca. As lágrimas corriam agora por suas bochechas, para o meu intenso prazer. O sorriso maligno nascendo e crescendo sem parar no meu rosto. -Tudo bem. — Ele me disse, apavorado, a voz baixa, quase inaudível. — Eu já vou então. — Ele falou novamente, colocando um pé por trás, pronto pra partir, correr na verdade. — Já que está aqui, fique um pouco mais! — Eu falei convidativamente, ordenando. — Não tenha medo de mim. — Eu murmurei, o frenesi começando, pulsando rápido no meu coração, intoxicando meus sentidos e me fazendo brilhar de excitação. "Coitadinho, ele não vai mais brincar." A voz estava achando graça, e eu também, nós éramos o yin e yang, porém com os dois lados ruins. Eu podia sentir a minha mão se movendo pra ele, no intuito de arrastá-lo, de pegar o seu sangue e me brindar com o trabalho bem feito. Tudo estava perfeito, seria simples,

Eu o jogaria pra dentro do lago formado pela cachoeira, pularia em seguido, e teria certeza de que o afogaria, até seu coração parar e seu pulmão estiver totalmente alagado. Muito simples, na verdade. Um minuto seria o suficiente pra cuidar dele.Eu dei um passo à frente, apena para tirar o espaço sobrando. Eu o olhava com domínio, um prêmio era tudo o que eu queria, e lá estava ele, loiro, frágil e ingênuo. Os olhos colados nos meus, paralisado, morrendo de medo. "Que peninha" a voz se divertia, rindo sem parar do pobre garotinho. “Acho que está na hora” A voz disse, e eu concordei imediatamente. — Acho que está na hora. — Eu disse por fim, eu queria acabar logo com seu sofrimento. — Na hora de que? — Ele perguntou apavorado demais pra correr ou se mexer.- Na hora de você dormir. — Eu disse num tom divertido, dando mais um passo à frente, executando o plano final.Um segundo foi o tempo que dei a ele.-Maaaannnnhhhhêêêê. — Um grito ensurdecedor, mas tudo o que consegui sentir com seu desespero foi prazer. Pobre criatura. Por que tinha que estar aqui hoje, neste exato momento? Dei mais um passo à frente, pronto pra dar o bote final...- Filho. — Uma mulher gritou, e eu imaginei que seria a pobre Diana, com a qual eu certamente poderia lidar também, facilmente. Virei-me pra olhá-la e vi seu esposo junto. "Pacote completo" a voz pensou entre seus devaneios. A nossa necessidade de vingança era surpreendente, ninguém podia parar-nos, nem eu mesmo. Eu já estava possuído por ele, o meu monstro preferido, estava totalmente à vontade com isso, a nova força que consumia meu corpo, o sangue negro que corria ali, cada gota de ódio e descrença que passavam nas minhas artérias...Eu fiquei ali, parado olhando o menino que estava em choque enquanto seus pais humanos chegavam apressados, protetores. “Acabe com todos eles" a voz pedia, divertidamente, implorava, divertindo-se tanto quanto eu. Seus pais já haviam chegado, estavam me encarando assustados, o pai se colocando na frente da mulher e do filho, tentando protegê-los do monstro que havia na frente deles.- Boa tarde, eu disse maliciosa e divertidamente.- Quem é você? — A voz masculina perguntou urgente, ferozmente, "Olha o gatinho tá nervoso" a voz me disse; eu comecei a rir calmamente. — Isso não é da sua conta é? — Eu desafiei, corajosamente. Esperando pra ver qual seria sua reação. Será que ele partiria para a violência ou tentaria acalmar a situação.- Hey, vamos todos nos acalmar aqui. — Ele disse; homem esperto; sabia o que era melhor pra sua sobrevivência. — Por que você não nos diz seu nome e o que está fazendo aqui, pra começar? — "Que o homem petulante, eu quero a cabeça dele" a voz dizia irritada agora. "Calada" eu a respondi em pensamento. -Meu nome é... — parei, todos achavam que eu estava morto, cinza, assim como a casa. — Caz. — respondi-lhe por fim. — Eu estou conhecendo o lugar, adoro florestas. — Eu disse tentando ser simpático. Os olhos de Diana ardiam, pareciam que estavam deslumbrados pela minha alienação demoníaca. Seu filho estava impaciente, apertando com força a mão de sua mãe, pronto pra correr do monstro à sua frente, o que tentara tirar sua vida hoje, alguns minutos atrás. Eu estava me divertindo ao ver sua cara de anjo amedrontado, com medo do anjo da mal, o próprio demônio numa forma pouco humana, mas convincente o suficiente pra passar sem problemas.- Por que meu filho estava gritando? — Diego estava vermelho de raiva, tentando parecer o mais calmo possível pra mim. — Ha, ele quase caiu no lago aqui em embaixo. — E percebi quando os três se viraram pra ver o tamanho e a altura, sua mãe arregalou os olhos e apertou as mãos de Doug mais freneticamente, na intenção de protegê-lo. — Eu o tirei dali, então tudo está bem. Vocês não precisam se preocupar.- É verdade o que ele está dizendo Doug? — Diego perguntou incrédulo.- Diga a ele Doug. — Eu murmurei sombriamente pra ele enquanto os olhos filiais estavam nele próprio, preocupados.-S, sim. — Ele gaguejou e seu pai se virou pra mim, e automaticamente um sorriso nasceu em meu rosto. "Acabe com eles" a voz ordenava impaciente. "calada, eu já disse," impacientemente respondi em pensamento. -Tudo bem então. — Diego murmurou de cara feia. Encarando-me ameaçadoramente, "ui, que medo" eu pensei. E mais uma vez a voz estava divertindo-se, me vendo brincar com as pobres criaturas. O desespero pelo sangue não parecia algo critico no momento. — Adeus. — Essa foi a única coisa que Diana falou. — Há, só mais uma coisa, você se parece muito com um garoto que já morou na nossa cidade, o nome dele é Zac. – A surpresa passou por mim e o terror das palavras de Doug fez seus pais se aborrecerem. Eles já estavam longe quando eu escutei Diana colocar Doug de castigo por falar esse nome amaldiçoado.Amaldiçoado? Então eu sou amaldiçoado? Eu sou uma aberração? Um monstro? Eu não me via como um monstro, não até agora. A fúria havia voltado e minha voltara a arder sem parar. O gosto da ferrugem estava me deixando enjoado e confuso, havia tantas possibilidades de vingança pra mim no momento que eu mal podia aguentar a euforia. Tudo estava indo como deveria ir. Eu já não me importava com quem iria morrer. Eu não me importava com quantos iriam morrer. Eu só queria vingança. Eu queria que eles pagassem por terem me feito sofrer. Eu nunca havia sido mau com nenhum deles. Eu não merecia ser tratado daquela maneira. Desde que havia chegado lá eu tentei não me importar com isso, mas depois de terem destruído a minha casa, que de fato nem era minha; eles iriam pagar com cada gota de sangue que houvesse dentro de seus corpos. O sol já havia sumido enquanto eu estava absorvido em meus planos de vingança. Eu mal podia esperar, e a voz na minha cabeça também não. Ela fazia questão de me lembrar a cada 2 horas pelo menos. Eu já havia desistido da bondade, ninguém merecia bondade alguma. Decidi que já era hora de voltar pra casa. Corri de volta e cheguei bem rápido, sem ficar sem fôlego dessa vez.Não havia nada pra eu fazer. Tédio era o meu sentimento mais forte agora. A noite estava chegando sombria, do jeito que eu me sentia. Com a mesma intensidade dos meus pensamentos e desejos. O céu estava da mesma cor que os meus olhos, um escuro profundo. Eu sentia o enxofre correndo junto ao meu sangue negro, da cor da cachoeira. — Droga, o que eu tô fazendo comigo mesmo? – Eu perguntei aborrecido e arrependido comigo mesmo. – Como eu pude deixar um monstro comandar minha mente? Dominar o meu corpo e fazer com que uma parte de mim nascesse e se transformasse no parceiro ideal pra o monstro da casa, que gora pairava em mim?! Eu suspirei e fechei os olhos; esperando um dia melhor nascer depois que acordasse com meus olhos castanhos e minha cara de anjo, não a de um demônio faminto por mortes e sangue. Esse não era eu. Eu nunca fui assim. Eu não conseguia dormir por mais que tentasse, já estava acordado a mais de 26 horas. As olheiras estavam mais pretas e os olhos mais raivosos. De alguma eu estava preso na maldade inconsciente dentro de mim. Eu já não agüentava mais essa dor, me curvei na forma de bola, colocando minha testa nos joelhos e comecei a chorar, sem ligar pra mais nada, eu não tinha mais nada. Tudo o que tinha era a roupa do corpo, sem esquecer o demônio que estava dentro de mim agora brincando de assassinato. Eu chorava sem olhar para as lágrimas, eu não queria ver o símbolo do sofrimento sendo despejado no chão. Algumas haviam parado na minha bochecha, mas uma estava começando a cair e parou na minha boca. Eu a toquei com a língua pra senti o gosto e era de sangue, ferrugem e sal.- Que droga- Eu murmurei com raiva. – Me deixe em paz- eu gritava pra ele, o que me fazia sofrer a cada minuto, cada segundo era angustiante. -“Calma. Você vai se render de boa vontade, nós nos divertimos tanto.”- Cala a boca- eu gritei pra ele, desejando que ele sumisse da minha cabeça.- Ora, não seja assim tão maldoso. Nós somos amigos! Eu vou te dar vingança. É isso o que você quer não é?”- Você está errado. – Eu gritei pra ele, tentando o afastar de mim. Mas ele estava certo. Eu queria vingança. A parte ruim de mim me mostrava isso, porque eu tremia de raiva todas as vezes que ela me obrigava a ver a casa sendo queimada.- Não fique assim. – A voz pediu calma, mas eu podia sentir seu divertimento. – eu vou te ajudar a tirar essa dor do coração. – A voz estava me convencendo. Talvez ela só quisesse me ajudar, talvez ela só quisesse tirar a dor que eu sentia. Talvez essa fosse a única razão que ela Havia encontrado. Como eu poderia saber. Não havia nenhum indicio de que aquelas pessoas não mereciam morrer. — Ohhh, elas merecem. E você sabe disso. –eu preferia não saber, eu preferia poder sair e morar em outro lugar. Eu gostaria que meu coração não estivesse tão ferido a ponto de desejar a morte dos outros.- Não! – eu disse firmemente. – Eu não vou cair no seu jogo. Sinto muito.-Tolo! Você vai se unir a mim, em breve...

Não havia mais nada a ser discutido. Eu enxuguei as minhas lágrimas de sangue e limpei minhas mãos na árvore. A noite parecia não ter fim. Não conseguia fazer nada, não tinha vontade de fazer nada. Eu estava completamente morto por dentro e vivo por fora. Meu corpo começou a arder como na primeira vez que tive o pesadelo. Uma cobra invisível me picava e fazia o seu veneno me destruir totalmente. Era o fim pra mim. Ele iria conseguir tudo o que queria, enfim.Eu lutei pra não dormir, imaginando que tipo de dor mental essa voz me causaria se estivesse desacordado. Lutei até o sol aparecer acima das árvores, quando simplesmente perdi o sono. Não sabia o que era, mas algo barulhento estava vindo. Homens, caçando alguma coisa ou alguém. Não fiquei preocupado. Bem, eu estava morto, tecnicamente. Sentei-me no chão gelado e me esqueci que a temperatura neste lugar costumava ser fria. Mas eu não sentia o frio, na verdade não sentia nada além da queimação mental. Sentei no chão da floresta enorme e curvei minha cabeça, encostando-a nos joelhos.

Respirei fundo e a dor estava desaparecendo pouco a pouco. Não conseguia imaginar um jeito de conseguir me livrar dessa voz. O barulho começou a ficar mais perto, eu comecei a imaginar o que exatamente eles estavam caçando. Eu não tinha visto nenhum urso desde que comecei a vagar nessa floresta. -Hey pessoal. – escutei um homem gritar. – Acho que tem alguma coisa aqui. Essa árvore esta cheia de sangue. Deve ser ele. – O homem gritou orgulhoso enquanto os outros corriam para perto.- Já estamos chegando – disse outro com uma voz mais finaSerá que estavam me caçando? O que eu fiz de errado enquanto estava morto? Droga, eu precisava correr, pensei de imediato. Como eu não tinha nada foi fácil sair da árvore. Corri rapidamente para fora quando vi um homem baixinho e gordo, de cabelos pretos e os olhos grandes e castanho-claros olharem assustados para mim. — Aqui- ele falou desesperado, tentando correr atrás de mim, mas já estava quase sem fôlego, então acabou desistindo. – Ele esta indo em direção ao lago. – Ele gritou ofegante.Eu corri rápido demais para um humano, eu parecia um tigre passando sem bater entre as árvores grandes. Escutava os gritos alarmados dos outros homensIrrompendo na floresta negra. O sol havia sumido entre as nuvens, deixando o dia totalmente nublado. Eles começaram a correr aleatoriamente, se desviando um do outro todas as vezes que se encontravam. Enquanto eu corria, pude ver Diego com uma espingarda nas mãos.

- Merda, — eu xinguei com raiva. – Eu pensei que ele não me reconheceria.Ahh, mas eu te avisei! Lembra-se? Se você os tivesse matado daquela vez isso não estaria acontecendo. A voz me lembrou da memória que eu tentara esquecer. A lembrança amarga estava na minha língua, o gosto de sal e ferrugem havia voltado.- Não era hora pra isso. – Eu disse firme e hostilmente. Parei no meio da floresta e olhei ao redor. Já conseguia ver o lago negro através das samambaias gigantes. Corri mais rápido e pulei dentro d’água, mergulhando freneticamente para procurar um túnel ao qual eu pudesse passar. Subi a superfície de novo e quando mergulhei de volta algumas algas marinhas se enroscaram nos meus pés. Elas estavam de certa forma me puxando parar baixo. As algas estavam roncando no meu corpo e eu não podia respirar e quase não havia tempo. Eu ia morrer afogado. Era o fato que inundava na minha cabeça. Meus olhos fechados esperando o oxigênio no meu pulmão acabar se abriram por vontade própria e eu me vi no meio das algas, como se eu fosse parte delas. Meus pés tocaram algo que se moveu sozinho e então uma corrente de ar estava me puxando mais forte, como um redemoinho. Tentei me segurar nas algas, mas não consegui.O pânico crescera em mim tão rapidamente que eu nem tive tempo de lembrar que eu precisava respirar se quisesse continuar vivo. Estava caindo, deslizando num caminho desconhecido; caindo sem parar no tubo gigante que me levara a minha morte. Ou talvez a minha salvação.