V1 - Vingança Suprema
1 A Casa Mal Assombrada
Estava ensolarado na minha janela, o sol queimando o meu rosto e o vento entrava e dançava com meu cabelo. Parecia um dia feliz de dezembro; um dia excelente para uma trilha. Mas eu não queria levantar-me. A preguiça se apoderou do meu corpo como um vírus de algo muito forte; ou talvez o meu cérebro tivesse parado de funcionar.
Mas eu não me importava. Eu não havia planejado nada para o fim do ano, nem queria, porque tudo ligado às festividades me deixava enjoado. Perder os pais aos 13 anos e fugir de um orfanato não me parecera tão louco na época. Viver por aí e parar justamente na casa mal assombrada da cidade fazia de mim alguém invisível e assustador.
As pessoas morriam de medo de mim, e eu não era feio, porque as garotas sempre me olhavam e sorriam tentadoramente pra mim, quando não me conheciam e não sabiam da minha história de onde eu morava, “o espírito ruim e VIVO da casa mal assombrada.”
Não havia nada que me preocupasse nessa casa, não existia pra mim nada de assombrado nela, era um lugar comum, só um pouco velho. Precisava de uma reforma, mas ela estava em perfeitas condições.
Retirei o edredom de cima de mim e o joguei pra linha dos meus joelhos. Enfim pus meus pés no chão firme e gelado e me levantei meio tonto da cama. O relógio-despertador tocava me avisando que já eram 11 horas da manhã. Sai do quarto e desci as escadas indo em direção ao banheiro.
A minha cara amassada refletia muito bem no espelho, o meu cabelo bagunçado estava brilhando. As olheiras nos meus olhos estavam me dizendo que eu estava dormindo demais. Escovei os meus dentes e lavei a minha cara, pra fazê-la desaparecer.
Fui para a cozinha, e comecei a ter o meu café da manhã. Suco de laranja e uma goiaba. Eu precisava trabalhar. Mas eu poderia chegar a qualquer hora. Embora eu fosse o melhor empregado da grande loja de “tudo”, eu podia adivinhar que o motivo atrás disso era que o gerente morria de medo de mim, eu acho.
A minha linda e dócil casa cantava pra mim, era uma criança, nos meus pensamentos. Já estava na hora de ir, então eu peguei a minha mochila e saí de casa.
-Ola senhor Crabims, há algo novo pra fazer hoje? — Eu perguntei educadamente.
-Não jovem; tudo está igual. Há, a propósito, aqui está seu cartão de funcionário do mês.
-De novo, já é a décima vez esse ano, e estamos no décimo segundo mês. — Eu disse num tom educado, mas informal.
- É; você é demais. — Ele me falou debochando.
Eu o encarei friamente e seus olhos se arregalaram de horror. Eu pude ouvir as batidas do seu coração acelerar. Entrei pelas portas do fundo e coloquei a minha linda jaqueta oficial da loja compre tudo. Segui direto para o primeiro setor de caixa, onde eu ficaria umas 8 horas.
Os consumidores faziam de tudo pra não ter que passar por mim, mesmo eu sendo tão educado e receptivo. Os que passavam vinham de cara feia e raramente eu arrancava um obrigado deles. Mas eu não me deixava ficar triste com isso, afinal, ser rejeitado e esquecido, pra mim, era uma coisa boa. Não havia ninguém torrando a minha paciência. Ninguém ia reclamar ou gritar comigo. Nesses pensamentos eu às vezes, me perdia.
- Ola, desculpe-me por interromper seus pensamentos, mas, será que você poderia contar esses produtos pra mim? — Uma garota, da mesma idade que eu, com olhos escuros e muito bonitos, perguntou-me; com um pouco de vergonha, seu rosto corou, suas bochechas ficando rosa agora, talvez pela minha profunda olhada em seu lindo e malvado rosto.
- Sim, é para isso que estou aqui. — Eu disse, com um largo sorriso, mostrando uma boa recepção e certo brilho no olhar. — São 15 reais. — Eu disse novamente olhando mais praquela linda moça em pé, do meu lado, olhando-me analisadoramente.
- Aqui está o dinheiro. Sabe; você não tem nada de assustador, estou meio decepcionada. — Ela me disse, sorrindo, um sorriso torto.
- Você não conhece 10% de mim. — Eu falei. Um sorriso de malicia crescendo no meu rosto, vendo-a partir.
O final do meu expediente já havia acabado, e eu era o único empregado a trabalhar 4 vezes por semana. Eu sou particularmente assustador; eu pensei comigo mesmo, pensando em como eu tinha tantos privilégios.
Eu já estava de saída, agora abrindo a porta dos fundos pra ir embora, imaginando quem era aquela garota, malvada e angelical ao mesmo tempo, se sentindo decepcionada, numa mistura de mistério e desejo de descoberta. Porque eu queria descobrir quem era ela. Mas não era hora pra pensar sobre isso. Afinal, o que uma garota como ela iria querer comigo. O medonho morador da tal casa mal assombrada.
A lua cheia brilhava e um uivo do lobo ecoava de longe direto pro meu ouvido. Eu já estava indo pra minha casa enquanto eu percebia olhares indiferentes, que estavam me espiando, escondidos; as crianças gostavam de mexer com coisas ruins. Eu era ruim. Mesmo sem achar que era.
Já estava perto da minha caminhada de rotina até chegar a casa, quando pararam alguns homens à frente, e aquela formação me parecia uma barreira. Eu parei instintivamente, era algo estranho, eles nunca haviam mexido comigo, eu sabia que isso não ia prestar.
- Hey, assombrado, vem aqui. — Assombrado nem era o meu nome, mas eu poderia ser um filme agora.
- O que vocês querem comigo? — eu falei tentando ser duro e ríspido.
- Viemos deixar um recado pra você. — Eu observei as figuras no escuro, imaginando se devia correr ou apelar para o sobrenatural. “Como se fosse possível eu invocar espíritos ruins, que certamente iria persegui-los e arrancar seus cérebros.” Pensei comigo mesmo.
- É melhor você sair dessa cidade, não queremos uma aberração por aqui. — O maior dos três falou, enquanto o menor deles ficou tremendo feito uma vara verde.
- E quem são vocês? Vocês nem moram aqui? — eu disse desafiando.
- Não interessa, já demos o recado, mas agora vamos fazer você entender. — O médio entre eles falou e agora todos eles estavam vindo pra perto de mim. Nesse instante eu abaixei a cabeça pra poder usar toda a força dos meus olhos maldosos sobre eles.
Eu não sabia como, mas eles estavam aterrorizados; o medo estava na cara deles agora, algo estranho; eu não sabia que tinha algum tipo de poder.
Eles saíram correndo, apavorados, parecia que tinham visto um fantasma. Eu não podia entender, mas eu já estava perto de casa, então resolvi ir mais rápido. A cálida lua brilhava e sorria pra mim, embora as árvores não me dessem motivos para ficar feliz.
Eu subia correndo o morro agora, com pressa, eu precisava chegar a casa. Eu corria quase sem fôlego e já conseguia vê-la. Já entrara e estava passando pela sala quando um barulho vindo da cozinha me alertou.
Eu corri até lá, pegando um guarda-chuva que estava em cima da mesa principal, indo agora em direção ao lugar de onde o barulho tinha vindo.
Uma sombra nasceu na escuridão, e a luz se ascendeu, me fazendo jogar o guarda-chuva nela.
- Ai, isso doeu sabia? — Uma garota loira me falou. Com olhos escuros me encarando, se perguntando o porquê de eu ter atirado o guarda-chuva nela.
-O que você tá fazendo aqui? — Eu perguntei surpreso.
- Eu queria saber como era aqui, er, a casa, sabe? Eu fiquei curiosa. Agora; er, eu queria que você me mostrasse! — Ela me disse envergonhada.
-Mostrar o que? — Eu perguntei confuso.
- Você sabe, as pessoas dizem; que quando você fica irritado... — eu interrompi. — Olha, eu não sei do que você tá falando.
- Tudo bem, eu posso esperar, er; será que você me deixa dormir aqui hoje?
- Por quê? Você não tem lugar pra dormir não?” — Eu perguntei um pouco aborrecido.
- Bem, pra dizer a verdade, não. Não seja mau.
- Mas você não tem medo das assombrações?
- Claro que não. Eu sou inteligente, mortal e corajosa.
(AAAAAAAUUUUUHHHHHHH...)
- O que foi isso? — Ela falou dando um pulo gigante de medo e susto.
-É. Eu posso ver o quão corajosa você é. — Já estava rindo sem parar, apesar da cara feia que ela fez.
- Quer saber? Você pode ficar aqui. Até amanha. Tenha uma boa noite, dormindo no sofá.
-Obrigada, eu vou ficar bem.
Subi as escadas e fui ao banheiro, tomar um banho, e dormir. A água quente do chuveiro massageava as minhas costas e me fazia sonhar num mundo distante. O som era tranqüilo e calmo, um canto de ninar estava nos meus ouvidos, era a casa cantando pra mim. Eu estava me secando e colocando as minhas roupas de dormir. Fui me deitar e quando enfim fechei os olhos, ela voltou pra me atazanar.
- Oi, você tá com fome? É que eu fiz um pouco de comida e queria saber se você queria? — Minha sobrancelha se ergueu numa mescla de ódio e frustração. — Você é muito folgada, sabia? Já ta mexendo na minha cozinha! Você deve ser maluca!
- Eu posso dormir ou serei obrigado a comer isso?
- Tudo bem, já que você não quer! — Ela foi andando pra perto da porta, em direção a saída. — Boa noite. — Ela me disse sem graça.
- Só mais uma coisinha, onde fica o banheiro? Er, eu preciso tomar um banho.
-Há, tem um perto da sala, há algumas toalhas debaixo da pia, dentro do armário. — Eu falei, quase implorando para que ela me deixasse dormir.
- Obrigada, desculpa pelo susto e desculpa por te incomodar. Mas afinal, você vai poder dormir até mais tarde, já que já esta de férias do trabalho.
- Como você sabe disso? — Agora seu rosto havia corado, um choque de arrependimento havia passado nele.
- Bem, eu escutei um dos empregados da loja falando.
- É estranho; mas pode ser isto. — Havia nascido uma desconfiança. Mas afinal, isso podia ser verdade, eu podia perceber que meus colegas do trabalho sonhavam com o dia que iriam se livrar de mim.
- Será que eu posso dormir então? — um tom de impaciência havia nascido na minha voz.
- Ui, calma, pode sim... Tchau.
O sussurro da casa no meu ouvido, cantando desesperada algo que eu não podia entender, foi a última coisa que eu pude ouvir. Mas isso não estava me preocupando.
E foi assim que desmaiei. Sem motivo algum, pelo cansaço talvez, eu acho.
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