Notas iniciais
Desculpe pela demora.

16/02/2016

Terça-Feira

23:53

Guilherme

Acordei com os sons dos disparos, acabei dormindo no sofá da sala enquanto assistia um filme, corri até o quarto do Mateus. Ele não estava lá. Meu primeiro pensamento foi de que o policial Ferreira tinha atirado em alguém, mas não consegui me livrar da possibilidade dos tiros terem sido contra Mateus. Fui até o portão, o carro estava ali, mas não havia sinal de ninguém, se Ferreira tivesse disparado contra alguém ele nos avisaria, certo? A porta do motorista estava aberta, me aproximei com cuidado, não tinha ninguém, dei a volta no carro, foi quando percebi, o corpo caído na calçada, corri até ele torcendo para não ser o Mateus, era o policial, deitado em uma poça de sangue, foi então que percebi, quem fez isso ainda estava por perto, olhei em volta e percebi que deixei o portão aberto, ele poderia ter entrado enquanto checava o carro, esse era o movimento básico em filme de assassinos, pensei em sair correndo, mas meu celular estava na casa, provavelmente não conseguiria ajuda na rua, ninguém tinha saído por causa de disparos, imagine se alguém estivesse gritando “tem um doido atrás de mim” as pessoas estavam assustadas, e na pressa só olhei o quarto, Mateus podia estar lá, ser assassinado enquanto dormia. Corri de volta para casa, não podia pensar muito sobre os prós e contras.

23:51

Mateus

Não conseguia dormir, precisava beber alguma coisa, alcoólica de preferência, mas Guilherme sumiu com todo álcool da casa, acabei indo em um bar perto de casa, algumas pessoas me reconheceram e quiseram tirar fotos e dar opiniões sobre o assassino, não gostava disso, mas acabei ganhando algumas garrafas de cervejas grátis. Vantagens de ser perseguido por um psicopata. Acabei com elas antes de chegar em casa, e quando virei a esquina eu vi, por alguns segundos não consegui compreender, talvez por causa da cerveja ou talvez por ser tão surreal. Ferreira estava perto do muro e não percebeu o assassino chegando por trás. Tentei gritar. Nenhum som saiu. Observei tudo em choque, o Policial conseguiu tirar a máscara, era isso, só precisava ver quem estava por trás, o capuz cobria toda a cabeça precisaria estar mais perto. Me escondi atrás do muro e só então percebi que ele poderia vir na minha direção, tentei correr, mas minhas pernas não se mexeram, coloquei a mão no bolso e meu não senti o celular, tinha deixado em casa. Escutei o portão abrir, não tive coragem de olhar, meu melhor amigo poderia morrer agora e não tinha coragem de avisar. Sentei na calçada e comecei a chorar.

23:55

Guilherme

Não consegui chegar a casa, ele estava me esperando ao lado do portão, uma facada no estomago, todo meu corpo perdeu a força, se ele não estivesse segurando meu braço ia ter caído, esperei outra facada, mas não houve uma, ele me deixou cair, foi até o carro e foi embora. Comecei a cambalear em direção a casa.

23:56

Mateus

Tinha parado de chorar, mas não conseguia olhar. Escutei um carro sendo ligado, poderia ser Guilherme fugindo ou poderia ser o assassino, me encostei o máximo que pude no muro torcendo para não ser visto, quando o carro passou reconheci o capuz preto, esperei alguns minutos para garantir e corri para casa, o portão estava aberto, vi sangue no chão.

— Guilherme? — Chamei sem saber se queria ou não ouvir uma resposta.

Segui o rasto que ia para a sala, ele estava caído em uma poça de sangue, peguei o celular e liguei para a ambulância.

Marcelo

20:40

Depois do evento, Detetive Kauan praticamente nos obrigou a ir para o hospital, tinha cortado minha perna, Thainara queimou um pouco o braço, Vinicius e Giovane estavam fisicamente bem. Os outros vieram nos visitar, coisas estavam meio estranhas com Ana desde a ultima vez que conversamos, mas isso não pareceu importar, ela me abraçou e até chorou falando que a gente podia ter morrido. Lucas apenas falou que sentia muito pelo Gustavo, Fernanda apareceu depois com Mike, aparentemente ele estava ajudando as pessoas que não conseguiam sair do evento, Alecsandra apareceu depois com comida chinesa.

— Então, — Lucas começou a falar — Estamos chegando ao fim, certo?

— Acho que sim. — Giovane respondeu — sobraram quantas pessoas?

— Não fale sobraram — Alecsandra falou.

— Desculpa. Quantos sobreviventes?

— Treze. — Lucas respondeu — Certo?

— Acho que sim — Giovane estava contando nos dedos — É, isso mesmo.

Ninguém precisou falar nada, mas era obvio que todos estavam pensando nas pessoas que morreram, todos perderam amigos, alguns perderam membros da família, já tinha parado de me culpar por isso estar acontecendo, mas bem no fundo ainda me sentia responsável. Conversamos até o horário de visitas acabar e eles foram embora, deixando apenas eu, Thainara e Souza de guarda na porta.

— Precisamos para de nos encontrar assim. — Thainara falou.

— É uma boa ideia.

Ficamos em silêncio por alguns minutos.

— Obrigado, — Eu falei — por ter salvado a gente no evento.

— Não precisa agradecer, se fosse o contrario eu sei que teria feito o mesmo.

— Sim.

— Agora vou dormir um pouco, esses remédios para dor são ótimos. —Ela riu da própria piada.

— Boa noite.

00:28

Marcelo

Acordei com alguém chamando meu nome, era o policial Souza, ele parecia estar preocupado.

— O que aconteceu? — Perguntei enquanto me sentava na cama.

— Seus amigos deram entrada no hospital, foram atacados.

— Onde? Preciso ir até ele! — Tentei me levantar e por um segundo o quarto inteiro girou.

— Não — Souza colocou a mão no meu ombro — Preciso de você acordado enquanto vou pegar detalhes com eles, Ferreira foi assassinado.

— Merda... tudo bem, vai.

Ele saiu correndo do quarto, Thainara ainda estava dormindo, não queria acorda-la, será que os outros sabiam disso? Peguei meu celular. Sem bateria. Meu carregador não estava no quarto, apertei o botão para chamar uma enfermeira, alguns minutos depois, ninguém veio até o quarto. Com dificuldade andei até a porta, quando ia abrir vi alguma coisa passando no corredor, a enfermeira? Porque não entrou? Abri a porta olhei no corredor e não tinha ninguém. Antes de voltar para dentro alguma coisa passou correndo no final do corredor.

— Oi — Gritei — Preciso de um carregador, se não for problema.

Nenhuma resposta, apenas o som de uma porta se abrindo seguido pela luz do quarto iluminando o corredor.

— Oi? — Comecei a andar na direção da porta.

— Marcelo — Thainara me chamou.

— Jesus! Não faça isso.

— O que está acontecendo? Acordei com você gritando.

— Alguém foi atacado, Souza não falou quem.

— Mortos?

— Ferreira.

— Porra, onde estava indo?

— Acho que tem alguém no final do corredor, a porta está aberta, viu? — Apontei.

— Que porta?

— Aquela no final — Quando olhei não tinha nenhuma luz ali. A luz estava ligada, juro.

— Tudo bem, pode ser os remédios, são fortes.

— Talvez...

— Vamos voltar para o quarto e ligamos para os outros.

— Meu celular está sem bateria.

— Tem um carregador na minha bolsa, não olhou lá?

— Não.

00:43

Mateus

Depois do que pareceu ter sido horas, o médico voltou.

— Como ele está?

— Ele vai ficar bem, foi um corte grande, mas não pegou nenhum órgão.

— Graças a Deus. — Me sentei no sofá e comecei a chorar de alivio.

— Mateus, preciso fazer umas perguntas — Era o policial Souza.

— Claro, pode perguntar.

— O que você viu?

— Estava na esquina, vi que o Ferreira conseguiu tirar a máscara dele.

— Então viu o rosto do assassino?

— Não, o capuz cobria tudo.

— E depois?

— Com o choque de ver os tiros, só consegui me esconder e torcer para que ele não me visse.

— Como ele ia te ver daquela distância?

— Não na hora, quando ele passou de carro, a viatura.

— Em que direção?

— Centro da cidade.

— Tudo bem, durante o dia Detetive Kauan vai te perguntar mais algumas coisas, precisa de carona?

— Não, vou ficar aqui até o Guilherme acordar.

— Preciso voltar para o quarto dos dois, não quer ficar lá?

— Depois dou uma passada lá.

Souza voltou para o quarto, precisava de alguma bebida, não tinha nenhum bar por perto, meu celular tocou. Era o número do Guilherme.

— Alô — Já sabia quem iria responder.

— Como foi ficar escondido como uma criança? — Ele perguntou.

— Vai se foder.

— É mais corajoso via telefone? – Ele riu.

— O que você quer?

— Só liguei para saber como está e falar como Thainara parece tranquila quando está dormindo.

— Mentiroso, eu sei que o Policial Souza está de guarda.

— Está? Quem garante que não está em um dos armários com a garganta aberta? E Ferreira estava de guarda quando atirei nele.

— Se está falando a verdade vai me esperar e vamos resolver isso de uma vez por todas.

— Acho que esqueceu que vocês são os peões aqui. E hoje as regras são: suba até o quarto dos dois, mas se fizer isso ninguém vai cuidar do Guilherme e talvez eu acabe o serviço. Dois minutos.

Não conseguia pensar, qualquer tentativa de plano acabava voltando na vontade de ter alguma coisa para beber, sabia que ele estava jogando especialmente comigo, talvez me odiasse por não ter me matado na festa.

— Porra. — Corri para as escadas.

Precisava acreditar de que se ele fosse matar Guilherme teria feito isso em casa. Quando cheguei no andar do quarto, Souza estava na porta, por alguns segundos fiquei aliviado, mas já sabia o que isso significava.

— O que foi? — Ele perguntou.

— O assassino está no hospital.

Quando Souza começou a vir na minha direção, uma porta no final do corredor se abriu e ele saiu correndo de dentro do quarto. Com uma arma na mão.

— Atrás de você!

O assassino disparou duas vezes, acertou o policial no braço, e depois correu em direção as escadas. Marcelo e Thainara saíram do quarto.

— O que está acontecendo? — Marcelo perguntou.

— Ele está aqui. — Respondi.

— Vocês três voltem para o quarto, vou atrás dele. — Souza falou.

— Vou com junto. — Respondi.

— Não.

— Você levou um tiro, não pode ir sozinho.

— Não temos tempo para discutir, vocês dois, para o quarto e tranquem a porta.

Corremos até as escadas, a manga do uniforme dele estava encharcada de sangue, e sua expressão não era das melhores.

— Qual direção? — Perguntei.

— Você vai para baixo, e cheque seu amigo, eu vou para cima. Garantir que ele só saia daqui em um saco preto.

— O que faço se encontrar com ele?

— Mire no peito. — Ele me entregou uma arma pequena que estava guardada no tornozelo. — Sabe usar?

— Sim, meu avô me levava para caçar quando era pequeno.

— Ótimo.

00:54

Ferreira

Subi as escadas, meu braço dia, mesmo com a adrenalina, talvez a bala não tivesse pegado só de raspão, olhar cada andar ia demorar muito tempo então só abria a porta e via se ele estava no corredor, não queria assumir, mas foi uma ótima jogada usar as escadas, ele já poderia estar muito longe daqui. Quando cheguei no último andar ele estava me esperando no final corredor. Levantei a arma e ele correu para o telhado.

— Não vai ter para onde correr, filho da puta. — Fui atrás dele.

Quando abri a porta de acesso ao telhado ele disparou, desgraçado, minha raiva acabou me custando caro, o disparo acertou meu estomago, tentei fechar a porta, mas ele tinha uma proteção, impedindo que alguém por acidente ficasse preso do lado de fora, ele colocou o cano na arma no espaço e disparou, dessa vez acertou minha perna. Deixei minha arma cair e ele abriu a porta.

— Dois policiais em uma noite, meu recorde. — Ele falou com aquela voz distorcida.

— Desgraçado.

— Que falta de educação, agora vamos ao espetáculo.

Ele começou a me arrastar, pelo telhado, poderia ter ido até a beirada mais próxima, mas estava fazendo o caminho mais longo, ele queria me jogar dali de cima, em frente do hospital, meu corpo não estava mais respondendo.

— Alguém vai subir aqui, os disparos. — Foi tudo o que consegui falar.

— Não se preocupe, meu parceiro vai cuidar de quem tentar vir atrás da gente.

— Parceiro?

— Acho que falei demais. — Ele riu. — Okay. Hora de morrer. Mais disparos.

00:55

Mateus.

Só conseguia pensar no Guilherme e acabei esquecendo de verificar os andares, agora era tarde, quando cheguei no quarto dele o assassino estava na porta, pronto para entrar.

— Ei, desgraçado. — Levantei a arma.

— Vai atirar em um hospital? — A voz não estava distorcida, era a voz dele, não consegui identificar.

— Quer descobrir? Se afaste da porta.

Alguma coisa me acertou por trás, a arma caiu, olhei para trás e o assassino estava ali, dois?

— Surpreso?

Os dois correram para a saída, algumas pessoas no caminho corriam assustadas, segui eles, tinha um carro parado na frente do hospital esperando por eles, assim que entraram saiu em alta velocidade.

— Cuidado! — Alguém na rua gritou.

Olhei para trás, talvez outro estivesse atrás de mim. Então escutei o barulho de algo batendo no chão, próximo a mim, era um corpo. A queda tinha feito um estrago, mas sabia que era o Policial Souza. Vomitei na calçadada.

Notas finais
Vítimas das circunstâncias está disponível para compra na Amazon, você pode comprar se quiser ajudar um autor brasileiro. https://www.amazon.com.br/dp/B07TWCVBTJ/ref=mp_s_a_1_1?keywords=Leonardo+Souza&qid=1562036637&s=digital-text&sr=1-1