– Como é que é?

Sua resposta foi contida em contraste com seus pensamentos gritantes. Malfoy era pai?! Nunca pensou, sequer imaginou que este havia sido o motivo de ele ter mudado tanto. Simplesmente, não era possível imaginar algo parecido.

Supôs que o estava encarando surpresa demais, pois rapidamente Malfoy desviou o olhar para o resto das pessoas que se encontravam no restaurante. Ele afrouxou sua gravata quase imperceptivelmente.

– Será que podemos sair daqui?

Ele parecia estar sufocado dentro daquele terno de grife. Hermione apenas sinalizou em afirmação e ambos saíram do restaurante, sem consumir nada.

Enquanto andavam pela rua, com as mãos dentro do bolso e as cabeças baixas, Hermione ainda tentava digerir aquele fato. Quer dizer, Malfoy tinha uma filha! Nunca o imaginou por essa perspectiva, nunca o imaginou sendo pai.

Balançou a cabeça em negação, ele não era mais um menino assustado com a guerra, nenhum deles era, e Hermione nunca tinha parado para pensar em quanto tempo fazia que havia ido embora da Inglaterra. Harry, Ron, Malfoy… Todos já eram casados, ou haviam sido, pais de família!

Quando saiu da Inglaterra, eles não passavam de garotos tentando ajeitar suas vidas no pós-guerra, mas ela já tinha um bônus. Ela havia escolhido viver com aquele bônus desde o dia que ele apareceu em sua porta. Hermione havia chegado em Paris como mãe e se adaptara, mas não tinha se lembrado dos que haviam ficado para trás. Eles eram pais, meu deus!

Na verdade, nunca tivera notícias deles, nem mesmo uma nota de jornal. Aparentemente, os jornais e revistas franceses tinham outras preocupações além de fofocas sobre heróis de guerra. Os jornais às vezes noticiavam algumas coisas relacionadas a negócios com a Inglaterra ou com ingleses, como no caso de Malfoy, mas nada relativo à vida pessoal de ninguém. Os franceses tinham seus próprios ídolos para idolatrar.

Chegaram a um parque. Já não havia mais folhas nas árvores e alguns bancos estavam cobertos delas. Draco escolheu um banco mais afastado, onde pudessem conversar com privacidade sobre o que quer que fosse e se sentaram. O lugar estava deserto àquela hora.

Quando encarou Malfoy novamente ele parecia estar numa guerra de pensamentos, mas não demorou muito para começar a falar.

– Um ano depois da guerra eu me casei com Astoria. Foi uma sugestão de Lucius, precisávamos reconstruir o nome da família. Os Greengrass não haviam se envolvido na guerra, então era uma boa forma de começar. – Ele mordeu os lábios. – Foi uma das últimas vezes que fiz o que Lucius queria. Enfim… Ela ficou grávida meses depois. Gwen nasceu e, no mesmo dia, foi raptada.

– Mas… Como…?

– Eu não sei. – Ele parecia desconsolado ao falar do assunto, mas Hermione não se arrependia de tê-lo incitado a falar. Estava descobrindo mais sobre Malfoy e, de certa forma, era uma coisa boa. – Os aurores não conseguiram encontrá-la. Achamos que iam entrar em contato e pedir resgate, mas não aconteceu.

Eles ficaram em silêncio por muitos minutos. Hermione sabia que Malfoy acreditava que o desaparecimento de sua família era um castigo por tudo que haviam feito na guerra. E tinha a impressão de que ele poderia desabar num choro a qualquer instante.

– Eu sinto muito, Malfoy.

Aproximou-se colocando a mão sobre o ombro dele. Já era um avanço considerando tudo que havia acontecido entre eles há alguns atrás.

– Não é preciso ser um gênio para saber que foi um Comensal da Morte. Só alguém com muita sede de vingança faria algo desse tipo. É por isso que odeio Lucius, foi ele quem começou com tudo isso e esse foi o final que tivemos.

– Ou alguém que o conhecia muito bem.

Nesse momento, ele levantou a cabeça, parecendo atento. Ela não fez questão de afastar-se, pois sabia que o momento não sugeria nada… Comprometedor.

– Como?

– Er… Não necessariamente um comensal. Sei que seu pai nutre muitas inimizades, inclusive em seu círculo íntimo de amigos.

– Isso acontece em todos os lugares.

– Não, não é normal manter contato com alguém que se têm desavenças.

Por que Malfoy podia estar acostumado com aquela elite hipócrita em que vivia, mas ela não. Hermione sabia o que era ter amigos, os Malfoy não. Os Malfoy tinham interesses próprios independente de sentimentos. Se eles estavam sendo beneficiados de alguma forma com as pessoas que os rodeavam então estava tudo bem. Mas Hermione sabia que todos os “amigos” da família Malfoy eram capazes de fazer algo como roubar a filha de Draco e Astoria ou coisas piores.

– Está sugerindo que alguém do nosso círculo íntimo pode ter… Sequestrado Gwen?

– Foi uma opção quando tudo aconteceu?

– Os aurores concentraram as buscas nos Comensais foragidos. Eles podiam ter ficado com raiva pelo fato de meu pai ter sido absolvido pelo júri do Ministério de novo.

– E você não chegou a desconfiar de ninguém em especial?

– Como eu poderia? Não vi nada de anormal no hospital na noite em que ela desapareceu.

Draco trançava seus dedos em cima do colo distraidamente. Hermione percebeu que aquilo era uma mania ao se lembrar de tê-lo visto fazer a mesma coisa quando estavam no jóquei acompanhando a corrida. Talvez ele tivesse a adquirido na mesma época que Gwen desapareceu, pois, em suas memórias da adolescência, nunca o vira fazer aquilo.

– Foi por isso que se separou?

– Basicamente, Astoria alegou que a culpa de Gwen ter desaparecido era da nossa família. – Ele deu de ombros. – Mas eu não a culpo, ela… Nem teve a oportunidade de pegar Gwen no colo.

Percebeu que mesmo alegando que odiava seu pai, Draco ainda dizia nossa família. Apesar de se fazer de durão, Malfoy nunca deixaria o pai na mão e Hermione tinha certeza disso.

– Gwen… É um belo nome. – Disse Hermione, retirando a mão do ombro dele e encostando-se no banco com as duas mãos dentro do bolso. – Não é bruxo, sabia?

– Astoria não queria dar o nome de uma constelação para sua filha. – Ele sorriu brevemente e ela acompanhou o gesto. – Ela era boa, sabe? Astoria. Não deveria ter se casado comigo por obrigação. Apesar de nosso casamento ter sido um acordo ela era sensível e preocupada. Ela… Simplesmente não merecia passar por tudo aquilo, entende?

– Eu sempre pensei que se casaria com Parkinson. – Hermione deu de ombros, não fazendo muito esforço para se lembrar dos tempos da escola. – Ou, pelo menos, com alguém com personalidade parecida com a dela.

– Metida, arrogante, insensível… Sei como é. – O olhar dele tornou-se melancólico novamente. – Mas então veio Astoria, que era boa e doce demais, e eu a machuquei. E não foi por que eu não consegui amá-la, mas simplesmente por ser… Um Malfoy.

– Não foi culpa sua, Draco. – Ela disse, suspirando.

– Eu já ouvi demais o contrário para acreditar nisso. Sei que culpo Lucius, mas eu também fiz merda a minha vida toda e muita gente me odeia. Você é um exemplo! – Ele indicou-a com um gesto cabeça e ela desviou o olhar para a rua ao longe.

– Não se engane, se eu odiasse você não estaria aqui te ouvindo. – Hermione mordeu os lábios. – Eu posso já ter odiado você. Quando te dei aquele soco… Quando tentou matar Dumbledore… Quando você me ofendia… Mas hoje eu não posso dizer que te odeio. Já faz tempo demais para ficar guardando rancor de tudo isso.

Eles ficaram se encarando por algum tempo até Hermione sentir-se incomodada e quebrar o contato visual.

– Obrigada, Granger.

Ela apenas sorriu e levantou-se, estendendo a mão enluvada para ele.

– Venha, vamos jantar para você poder me contar como conseguiu fechar contrato com o Ministro.

Depois de encará-la por alguns segundos, Draco deu um meio sorriso para ninguém em especial ao seu lado e levantou-se aceitando a mão que Hermione estendia. Assim, eles saíram pelo parque em direção a outro restaurante, de braços dados, mas a uma distância considerada educada.

Notas finais
Ahhhh, não sei vocês, mas eu adorei esse capítulo! Como eu respondi à um comentários: as ações do Draco ficaram como eu havia imaginado e o entrosamento deles tbm, é um dos meus preferidos da fic até agora. E vocês, como sempre, arrasaram nos comentários!! Adorei responder à todos dando a minha visão do que acontece com a fic, é simplesmente incrível interagir com vcs e saber o que estão pensando sobre os acontecimentos da história :)) Obrigada por me fazer feliz! Entããão, quais as conclusões de vcs sobre a historia de Gwen, o VÍNCULO com a Hermione e o emocional do Draco sobre os acontecimentos com sua filha? Ai, eu adoro escrever nas notas kkkkkkk enfim... Outra pequena prévia pra deixá-los mais animadas para o próximo capítulo: - Precisamos conversar. - Granger, se está arrumando desculpa para me chamar pra sair está sendo muito indiscreta. - Não seja tão convencido. P.S.: Uma coisa que eu sempre tive curiosidade em saber: meninos leem essa fic? Bjão, até o próximo!