Quando Hermione saiu do Ministério naquele dia, estava mais cansada do que o normal. Havia andando a metade da tarde levando documentos para lá e para cá entre os Departamentos e não via a hora de ir embora para casa.

Sophie devia estar cheia de coisas da escola para contar. Sabia que não reservava muito do seu tempo para a menina e às vezes ela ficava chateada, mas não podia fazer nada a respeito. Quando saía para trabalhar, Marie ainda estava chegando para acordá-la e quando chegava só tinham tempo de jantar juntas – isso quando não tinha que acompanhar Jean em alguma reunião, o que sempre acontecia. Dava graças a Merlim que havia encontrado Marie quando Sophie ainda era apenas um bebê ou não saberia como conciliar a tarefa de ser mãe e profissional que trabalha fora.

Já estava pronta para entrar na lareira e aparatar quando alguém a chamou. Olhou para trás e quase deu um suspiro desalentado ao perceber quem era. Luc Borgne, Assistente Junior do Ministro. Forçou um sorriso e arrumou a bolsa ao redor dos ombros.

– Luc! Tudo bem?

– Melhor agora, devo dizer. – Ele sorriu de lado. – Parece que nossos horários coincidiram dessa vez.

– Sim, eu sempre saio mais cedo.

– Bom, achei que pudesse convidá-la para sair. Um jantar, talvez. É quarta e ninguém tem compromisso para quarta.

– Er… É que…

Mordeu os lábios. Não é que Luc fosse feio, ele só… Era um grude. Já haviam saído uma vez, por duas semanas, até que ela se cansou de tanto mel. Ele fazia simplesmente tudo que ela queria. Então levou quase um mês para convencê-lo de que não queria mais nada.

– Ah vamos, não vai fazer mal a ninguém. – Luc deu de ombros para convencê-la. – Somos adultos livres e desimpedidos.

Analisando-o de perto percebeu por que havia caído naquele truque na primeira vez. Aqueles olhos azuis deixavam qualquer uma caidinha quando ele quisesse. O sorriso confiante exibindo dentes brancos também era um charme. O rosto dele parecia uma escura embaixo dos cabelos castanhos ondulados, muito bem cortados.

– Granger, ainda bem que te encontrei. – Ambos se voltaram para olhar a pessoa que acabava de chegar. Hermione ergueu os olhos, surpresa. Não sabia de onde Malfoy tinha saído, mas simplesmente havia chegado na hora certa. – Tive que resolver alguns problemas antes de vir. Tudo bem?

– Er… — Draco a encarou firmemente nos olhos. – Claro, não se preocupe.

– Vocês estão saindo, por acaso?

Luc fez com que eles interrompessem o contato visual. Ele parecia bastante contrariado com a ideia e mantinha os lábios em uma linha fina. Draco a olhou, esperando.

– Não exatamente.

– O que isso quer dizer então?

– Que eu já tinha um compromisso para quarta. – Ela sorriu, como se estivesse se desculpando.

– Isso é ridículo.

Luc se afastou, estressado, e Hermione suspirou de alívio. Se não fosse por Draco, teria de aguentar o francês persistindo até que aceitasse tomar pelo menos um drinque. No fim da noite então teria de dar um jeito de se livrar dele, o que seria muito mais difícil.

– Já pode me agradecer. – Hermione observou, resignada, Draco colocar as mãos no bolso enquanto matinha um sorriso presunçoso nos lábios.

– Obrigada. – Cruzou os braços e mudou o peso de uma perna para a outra. – Como sabia que eu precisava de ajuda com Luc?

– Eu ia aparatar quando ouvi a conversa de vocês. Ele parecia bem animado com a ideia de poder sair com você. – Hermione fez uma careta.

– Ele é um chato.

– Mas agora vai ter que aceitar o meu convite como forma de agradecimento. – Ela revirou os olhos.

– O que eu fiz para merecer isso?

Quando eles finalmente alcançaram as ruas de Paris, por um elevador, Hermione percebeu algo que não havia se dado conta até então.

– Já é quase Natal. – As ruas da cidade estavam enfeitadas com temas natalinos e o vento frio os assolava. Ainda não havia nevado, mas pelo jeito não iria demorar mais tanto tempo assim para que os franceses vissem os primeiros flocos de neve do Natal. – Vai voltar pra casa?

– Não vou deixar minha mãe sozinha com Lucius nessa data.

– Você... Nunca se deu muito com seu pai, não é?

Eles entraram no restaurante que não ficava muito longe do Ministério. Lá dentro, puderam sentir a diferença de temperatura. Nem parecia que estava quase nevando do lado de fora.

Como de costume, escolheram uma mesa perto da janela para se acomodarem. Hermione já começava a se perguntar por que aceitava tão facilmente os convites de Malfoy, ou melhor, as convocações de Malfoy para jantar. Ou, também, por quê entrava tão facilmente no jogo dele.

Do lado de fora, as pessoas andavam apressadas pela calçada, com a cabeça baixa, tentando se proteger do vento frio. Ao longe, viu duas pessoas correrem para pegar o mesmo táxi. Um casal que, antes de adentrarem o carro, cumprimentou-se rapidamente com um beijo. Era o tipo de coisa que raramente se via em outro lugar do mundo.

– Nós começamos a discordar de opiniões quando eu tinha 16 anos. Você sabe bem por quê. – O garçom trouxe os cardápios e saiu, rapidamente. – Apesar de apoiar os mesmo valores que ele, não queria me tornar um Comensal. De certa forma, queria me proteger de qualquer imprevisto no futuro. Mas Lucius estava certo de que Voldemort ganharia a guerra, então também era certo que não teria problema nenhum que eu seguisse os mesmos passos que ele.

– E ele esteve errado nas duas vezes que pensou estar certo da vitória do Lorde das Trevas.

– Exatamente. Daí em diante passei a não confiar tanto assim nos julgamentos de Lucius. Eu percebi que ele nunca foi um líder, como pintava para todos, mas um seguidor com dinheiro, status e uma boa lábia. Tanto é que foi influente no Ministério por anos e nunca fez mais do que pequenos subornos e alguns tipos de corrupções. – Ele sorriu, irônico. – Alguém com o dinheiro de Lucius e com um mente mais criativa teria tomado aquele Ministério apenas com palavras.

– São a chave de tudo, as palavras. – Hermione concordou. – Foi assim que Voldemort conquistou tantos seguidores.

– Tanto é que meu pai acreditou no que ele pregava em todos os anos depois do desaparecimento Dele. Quer dizer, todos sabemos que Voldemort era um bruxo poderoso, mas… Daí a achar que ele faria na segunda vez o que não fez na primeira é burrice. Eu não teria continuado a apoiá-lo depois de tantos anos, depois de tudo que havia dado errado!

Draco fechou o cardápio colocando-o sobre a mesa. Hermione podia perceber que ele ainda se revoltava ao falar de Lucius e também que as diferenças com o pai não se resumiam apenas ao fato de que não queria se tornar um Comensal.

– Talvez não agora, Malfoy. Mas e se você tivesse 15 anos novamente? Você era completamente diferente nessa idade. Não sei o que o fez mudar, mas certamente foi algo tão radical que fez com que mudasse todos os seus conceitos sobre o que Lucius te ensinou.

Nesse instante, uma sombra pairou sobre os olhos de Malfoy. Ele cerrou os punhos e apertou a mandíbula tão fortemente que até pensou que tinha falado algo de errado.

Era apenas a verdade! Este Malfoy que estava à sua frente nada tinha a ver com o Malfoy que havia conhecido quando tinha 11 anos, que tentou matar Dumbledore quando tinha 16. Este Malfoy jantava com ela sem problemas, uma “sangue-ruim”, como ele sempre havia dito! Então só podia chegar à conclusão de que o que o havia feito mudar tinha sido algo que ele considerava importante.

Ele desviou seu olhar para a janela. A sombra ainda estava lá, mas agora havia um quê de tristeza além da raiva. Hermione não sabia o que poderia ter causado tudo aquilo.

– Vamos pedir a comida.

Ele fez menção de levantar a mão para chamar o garçom, mas Hermione a segurou colocando-a em cima da mesa novamente e segurando-a lá por baixo da sua.

– Não. O que aconteceu? E eu sei que não foi algo que eu falei, pois você sabe que é tudo verdade e está acostumado a lidar com isso. – Ela acrescentou antes que ele pudesse pensar em negar.

– Não é relevante para você, Granger.

– Eu te contei tudo que aconteceu comigo no passado. – Ela encarou as mãos deles juntas naquele momento. – O que o fez mudar tanto, Draco?

Era a primeira vez que o chamava pelo primeiro nome e foi algo totalmente espontâneo, não havia planejado isso. Mas, por sorte, percebeu que havia soado positivo para ele.

Malfoy a encarou, em dúvida, por quase um minuto antes de falar. E quando falou, Hermione teve que se controlar para não exprimir nenhuma reação surpresa demais.

– Eu tive uma filha.

Notas finais
Hermione descobre o que aconteceu com Draco, e agora? Muitas conversas entre eles para torná-los próximos, mas esse é só o começo! Estou feliz pelos comentários e pela interação de vocês com a fic, é muito importante pra mim saber que vocês gostam tanto. Com uma recomendação ficarei mais feliz ainda! kkkkkk Sério!! Então, o que acharam da atitude do Draco, quanto a ela e Luc e... Melhor, o que acharam do próprio Luc? Vou deixar uma pequena prévia, só pra deixar vocês mais curiosas pelo próximo capítulo, que eu amei escrever: - Não foi culpa sua, Draco. - Eu já ouvi demais o contrário para acreditar nisso. Sei que culpo Lucius, mas eu também fiz merda a minha vida toda e muita gente me odeia. Você é um exemplo! - Não se engane, se eu odiasse você não estaria aqui te ouvindo. Bjobjo ;)