Vínculo
38 Capítulo 37
Hermione viu Harry apontar a varinha para seu pulso e, em seguida, sentiu o efeito do feitiço que possuía o mesmo brilho prateado de uma algema ao redor de seus braços.
Draco lhe mandara uma carta, no dia anterior, avisando sobre o depoimento de Astoria, sua acusação e a participação de Harry em tudo isso, como se ele tivesse prazer em acompanhar de perto o desenrolar de seu problema. Então, seguindo os conselhos de Jean, voltou para a Inglaterra às pressas com o intuito de colaborar com as possíveis investigações deixando Sophie sob os cuidados do Sr. e Sra. Joffret. Sabia que ele tinha poderes suficientes no Ministério Francês para manter sua filha em segurança.
Porém, assim que chegou por chave de portal ao Departamento de Transportes Inglês foi surpreendida pelo batalhão de aurores que a esperavam preparados para um ataque – varinha à mão, postura e olhos alertas -, como se estivessem lidando com uma bruxa das trevas.
– Hermione Jean Granger, você está presa por sequestro de incapaz.
Os flashes dispararam e ela pode observar o olhar sério do moreno sobre si antes de puxá-la em meio aos jornalistas presentes que o cercavam e impediam sua passagem em busca de respostas. Se a própria Hermione as tivesse não seria carregada por Harry daquela maneira brusca, não seria tratada como uma criminosa.
Viu os aurores em seus uniformes luxuosos e negros abrirem caminho entre os funcionários do Ministério para que pudessem seguir em direção ao elevador, as capas esvoaçando e emanando autoridade. De relance, observou os repórteres abordando alguns civis, pedindo as mais diversas opiniões sobre o caso Malfoy e o envolvimento de Hermione Granger.
As vozes se misturavam, portanto não conseguiu concentrar-se em apenas uma das perguntas e, de certa forma, agradeceu mentalmente por isso quando já se encontravam dentro do elevador, distanciando-se dos jornalistas para finalmente encaminharem-se ao Quartel General dos aurores. Não queria saber o que pensavam dela, pois tudo que lhe importava, no momento, era provar sua inocência para que pudesse voltar para casa, para sua filha.
Nunca havia estado no QG, suas visitas ao Ministério haviam sido bastante limitadas enquanto vivia na Inglaterra. Tratava-se de um local espaçoso, onde vários cubículos de escritório circundavam mesas pequenas e repletas de papéis, alguns flutuando no ar em direção a outros locais.
A imponência que imperava no Ministério, entretanto, também estava retratada ali, apesar de ser um ambiente mais informal que os demais departamentos, pelo que havia percebido. Havia lareiras, como no átrio principal, em toda a extensão do espaço e, ao final, surgiam cinco portas não identificadas na cor azul com entalhes dourados sob o enorme brasão de armas do Quartel General dos Aurores.
Harry a puxou em direção a primeira porta da esquerda, dispensando os aurores que os acompanharam até ali e chamando a atenção daqueles que trabalhavam em seus cubículos, afinal não era todo dia que se via o chefe Potter dar voz de prisão à melhor amiga de infância Hermione Granger.
Ninguém se pronunciou enquanto não se encontravam em uma das várias salas de interrogação daquela ala, o barulho da porta de metal se fechando a fazendo tremer e se arrepiar. A sala diferia daquelas dos filmes de ação apenas pelas paredes irregulares de pedra escura, que parecia estar úmida a todo o instante tornando o local frio e desconfortável. Aquela era mesmo a intenção, pensou ao vê-lo sentar-se sem cerimônias a um lado da mesa e colocar as mãos sobre esta, olhando-a despreocupadamente como se esperasse que desse o próximo passo.
– Não está em um hotel de luxo, não espere ser convidada a se sentar.
A única fonte de luz provinha de um archote fraquíssimo – possivelmente de propósito – na parede ao seu lado esquerdo e a cadeira que ele lhe indicava era de ferro simples, assim como a mesa pequena e retangular.
Hermione sentou-se a frente dele, as mãos sobre o colo e o corpo ereto. Estar em um local como aquele apenas com Harry fazia com que se sentisse sufocada. Depois de tudo que aconteceu, não confiava em seu caráter, em sua boa-fé, em sua amizade.
– Se realmente sequestrou a filha de Malfoy, estará encrencada. – Ela percebeu que seu silêncio o irritava quando o manteve pela segunda vez. O rosto do moreno se contorceu em uma careta e ele levantou-se, postando-se ao seu lado, as mãos apoiadas na cadeira em que estava sentada e na mesa. – E sua situação ficará ainda pior quando apurarem que ainda teve um caso com ele depois de tudo. As pessoas irão te odiar, a figura de uma criança é muito apelativa para a sociedade, você sabe.
– Não irei falar sobre isso com você sem um advogado.
– Não estou aqui como auror, Hermione.
– Não foi o que pareceu. – Retrucou com cuidado.
– Apesar de tudo, sou o chefe desse Departamento, tenho privilégios. – Harry voltou a sentar-se, encarando-a com um pequeno sorriso. – E posso lhe conceder alguns, se quiser. Malfoy, pelo que o conheço, estará aqui em poucos minutos com o melhor advogado do Reino Unido e, em outras circunstâncias, eu não permitiria que ele pudesse vê-la.
– Não acha que essa é a prova de que eu não deveria estar aqui? – Hermione colocou as mãos, ainda algemadas pelo feitiço, sobre a mesa, entrelaçando os próprios dedos. – Draco acredita em mim...
– Ele quer acreditar em você, mas tenha a certeza de que a qualquer momento pode mudar de ideia. – Ele deu de ombros. – É da princesa Malfoy que estamos falando.
Quebrou o contato visual que há muito custo esforçava-se para manter, pois sabia que Harry tinha razão. Apesar de amá-la, ele não lhe perdoaria caso surgisse alguma evidência ou testemunha que comprovasse sua participação no sequestro de Sophie.
– Por que está fazendo isso comigo?
– Só estou cumprindo meu dever. – Ele recostou-se na cadeira, cruzando os braços sobre o peito tranquilamente. – Seria um escândalo se me recusasse a fazer meu trabalho por que você é minha amiga.
– Não somos amigos. – Retrucou de imediato observando o modo como ele ficou tenso sob o uniforme pomposo.
– Sou o mesmo Harry de sempre, Hermione.
– Não, não é! – Ela levantou-se dando as costas a ele por um momento. Não estavam falando sobre seu real problema, então talvez estivesse tudo bem finalmente terem aquela conversa. Voltou-se para a figura masculina, seus braços doendo devido ao feitiço que os prendia. — Não somos mais aqueles adolescentes que acreditavam na bondade das pessoas incondicionalmente, que tinham convicção de que o bem sempre venceria o mal. As adversidades vieram, o final feliz do conto de fadas não chegou e entendo que foi frustrante por que eu também passei por isso. A diferença, Harry, é que eu soube lidar...
– Soube lidar?! – Ele levantou-se indignado batendo uma das mãos na mesa de metal, provocando um barulho ensurdecedor visto que o local era pequeno e possuía eco. – Você estava quebrada da pior forma possível, seus pais estavam mortos, nada conseguia tirá-la do ócio e eu estava cansado de ver minha melhor amiga daquela forma. Você não soube lidar com o fato de que a vida foi cruel para nós, assim como eu, admita. A diferença, Hermione, é que eu tentei te reconstruir.
O único som que se podia ouvir dentro daquela pequena sala de interrogatório era a respiração rápido de Harry, que a encarava com os olhos verdes revoltados.
– Você somente acabou de me quebrar, Harry.
O moreno deu as costas a ela, passando a mão pela testa enxugando uma gota de suor que escorria por sua têmpora, não devido ao calor, mas provavelmente à tensão. Harry não havia entendido que não lhe fizera um bem ao interná-la e Hermione surpreendia-se com isso.
Quando voltou a encará-la, entretanto, uma batida foi ouvida na porta e ambos se voltaram para o auror que os olhava cuidadosamente, como se estivesse certificando-se de que tudo estava bem entre eles.
– Malfoy e Boot estão fazendo um escândalo no átrio, requerem sua presença imediatamente ou irão providenciar uma coletiva de imprensa. – Anunciou formalmente o homem.
– Tudo bem, estou a caminho. – O moreno voltou-se para Hermione, passando por ela enquanto andava em direção a porta, abrindo-a para que ambos pudessem sair. – É uma sorte ter gente puxando as cordinhas do destino para você, não?
Hermione seguiu Harry após alguns segundos refletindo sobre aquela frase. Talvez quisesse insinuar que muita gente a apoiava, mesmo com todas as dúvidas pairando sobre ela.
O átrio do QG dos aurores estava mais movimentado do que quando fora levada para a sala de interrogatórios. Os aurores mais jovens estavam simplesmente parados observando a discussão a altos brados que se desenrolava entre Draco, que gritava impropérios ao auror que havia sido escolhido como alvo de sua ira, um homem que não conhecia e os demais aurores que simplesmente o ouviam com o rosto transformado numa careta de desdém.
Todos, entretanto, se dispersaram assim que Harry apareceu dispensando-os. Os olhos de Draco suavizaram parte da fúria mal contida assim que os colocou sobre Hermione e, desse modo, a puxou pra um abraço quando esteve perto o suficiente ainda que não pudesse retribuí-lo devido ao feitiço que imobilizava suas mãos.
– Algum problema? – Perguntou o chefe dos aurores de forma tranquila, colocando as mãos atrás do corpo.
– É inadmissível que minha cliente seja mantida presa aqui quando o Tribunal Bruxo não emitiu ordem de prisão há, pelo menos, dois dias. – O homem que se pronunciou tinha um rosto conhecido, mas Hermione não conseguiu associá-lo a ninguém.
– Mas posso mantê-la caso seja considerada perigosa para a sociedade bruxa, o que o depoimento de Astoria Greengrass diz claramente, assim como a ordem de prisão preventiva emitida pelo Ministro Kingsley.
Assim, ambos começaram a discutir sobre a desorganização em que o Ministério se encontrava, pois o Ministro em pessoa não deveria interferir em assuntos do poder judiciário bruxo já que dessa forma era como se estivesse anulando a autoridade deste.
– Está tudo bem? – Draco voltou-se para ela, os olhos percorrendo seu rosto a procura de algo errado, os dedos acariciando seus ombros inconscientemente.
– Sim... Posso responder algumas perguntas de Harry, sem problemas, contanto que isso acabe o mais rápido possível.
– Não poderá sair da Inglaterra enquanto não acabar.
Ele verbalizou o que Hermione já sabia quando decidiu voltar a seu país para colaborar com as investigações. Isso significava que estaria longe de Sophie por tempo indeterminado, o que a tirava dos eixos em qualquer situação.
Entretanto, dessa vez era diferente, pois corria o risco de perdê-la de vez quando tudo acabasse. Apenas o pensamento sobre essa possibilidade fazia com que seu coração perdesse uma batida.
– Mas Sophie está segura e... Eu manterei contato com ela, de qualquer forma. – Declarou tentando convencer mais a si mesma do que a ele.
Draco concordou com um aceno de cabeça e a encarou com alguma espécie de arrependimento brilhando nos olhos enquanto ajeitava seus cabelos. Hermione não tinha ideia de como estava sua aparência, mas essa provavelmente era a última coisa com que se preocuparia no momento.
– Me desculpe. – Ela o olhou de forma interrogativa, afastando-se minimamente. – Por não conseguir impedir tudo isso.
Antes que pudesse dizer que e a culpa jamais seria dele naquela história, a discussão entre Harry e o advogado ganharam proporções maiores a ponto de alguns dos outros aurores se aproximarem novamente para verificar se o chefe estava precisando de ajuda.
– Eu estou indo tomar o depoimento de uma mulher considerada nociva a sociedade bruxa, pode ir até a sala do Ministro Kinsgley para questionar seus métodos se quiser.
Assim, Harry a tirou do abraço de Draco puxando-a pelo braço em direção a uma das portas azuis, onde presumia que ficasse a sala dele.
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