Vínculo
26 Capítulo 25
Hermione aparatou no parque em frente ao prédio de Draco. Sabia que, àquela hora, o lugar ficava completamente vazio e as árvores produziam sombras e escuridão suficientes para que nenhum trouxa presenciasse sua aparição repentina. Tranquilamente, andou pela calçada de ladrilhos, observando como o bairro em que Draco e Paola viviam era diferente do dela.
Escolhera um local completamente familiar, onde poderia criar um filh com tudo que era necessário: um bom ambiente, companhias adequadas. Não tinha nenhuma experiência como mãe, é claro, nem tivera muito contato com crianças em sua infância e adolescência, mas era esperta o suficiente para saber do que uma precisava para sobreviver.
O bairro de Draco era luxuoso demais, fechado demais, as pessoas viviam em seus próprios casulos, alheias ao que a vida oferecia de bom, e seus filhos eram obrigados a acompanhar esse sistema. Salvo a exceção do parque, era raro ver crianças circulando por ali. Normalmente, via apenas mulheres em cima de seus saltos e homens dentro de seus ternos negros, sempre andando apressados.
Subiu os degraus de mármore e abriu a porta de vidro, cumprimentando o porteiro e encaminhando-se ao elevador. Uma mulher que aparentava mais de 50 anos entrou rapidamente, cumprimentando-a, e ajeitando os cabelos no espelho. Saia lápis, terno feminino caríssimo, àquela hora da noite, Hermione tinha certeza que era uma executiva importante.
Houve um tempo em que sonhou com essa vida: ser reconhecida por seu trabalho, viver bem, ganhar muito dinheiro. Mas, acima de tudo, fazer o bem às pessoas e lutar pelo que acreditava. Infelizmente, Harry não deixou que isso fosse possível.
Enquanto encarava seu próprio reflexo no espelho, lembrou-se da conversa que teve com Sophie, pouco antes de sair de casa.
– Mamãe, acho que finalmente encontrou alguém para ser meu pai.
No mesmo instante, parou de juntar os brinquedos da menina no chão do quarto e a encarou. Sophie mexia distraidamente em sua prateleira de livros, organizando-os pela cor. Suspirando, sentou-se ao lado dela e ficou em silêncio por alguns segundos.
– Você gosta muito de Draco, não?
– Ele é legal.
Não era preciso ser um gênio para perceber que o próprio Draco gostava de Sophie como uma filha e que a menina a fazia se lembrar de Gwen. Porém, sabia também que ele tentava não agir com Sophie como um pai agiria, por que isso não lhe fazia bem.
– Ele também a adora, querida.
– Espero que ele não vá embora.
– Eu também espero, Sophie.
Mas não havia motivo para Draco ir embora e isso a tranquilizava.
Tocou a campainha e pensou ter ouvido o ruído de conversa do outro lado enquanto esperava. Verificou seu vestido, alisando-o onde não havia nenhum vinco, e levantou a cabeça assim que a porta se abriu.
Antes que pudesse falar, Draco a puxou para um beijo, acariciando sua nuca levemente. Hermione não soube por quê, simplesmente sentiu no modo como ele demorou para se afastar e abrir os olhos, querendo prolongar o momento: havia algo errado.
– O que foi?
Sem encará-la, deu espaço para que entrasse no apartamento, mas parou assim que avistou as duas pessoas que se levantaram, em sinal de educação, para recebê-la.
Astoria Greengrass se aproximou. Quando soube, há muitos anos, que Draco havia se casado com uma Greengrass, ficara surpresa ao perceber que não se tratava de Dafne, sua colega sonserina na época de Hogwarts.
Nunca havia visto a mulher à sua frente pessoalmente, não havia sorrisos, nem saudações simpáticas. Pelo clima que se instalara no ambiente, nem esperaria por isso. Astoria era baixa e mantinha os cabelos lisos, na altura dos ombros, em sua cor natural: castanho escuro. Seus olhos verdes eram grandes e a pele de um moreno claro. Hermione supôs que a família dela não fosse inteiramente britânica.
– Granger.
– O que significa isso? — Voltou-se para Draco, mas ele apenas desviou o olhar, resignado. — O que está acontecendo?
– Acho que nos deve algumas explicações, Granger. — Disse Blásio Zabine lhe entregando um pedaço de pergaminho.
Ele tinha feições mais maduras, embora o desdém ainda estivesse presente, assim como o egocentrismo. Nunca teve nada contra Blásio na escola, exceto o fato de que era um Sonserino preconceituoso e mal educado.
Receosa, pegou a carta e, assim que assimilou seu conteúdo, praticamente caiu sentada em uma das poltronas de Draco. Aquilo não podia estar acontecendo, não agora que havia colocado sua vida nos eixos. Ser acusada de sequestro?!
Todos da sala a encaravam com seriedade, esperando sua reação. Mas que tipo de atitude deveria ter diante daquelas acusações? Astoria havia se locomovido dos EUA para verificar o que estava escrito ali. A entendia, era mãe, iria a qualquer lugar por sua Gwen. Era assim que se sentia com Sophie.
– Realmente, acreditam nisso? Acham que eu seria capaz de sequestrar uma criança?! — Levantou-se, indignada.
– Por quê não acreditar? — Retrucou Astoria. — Você odiava Draco, assim como seus amigos, Potter e Weasley. Vocês tinham todos os motivos!
– Exatamente por isso! Se eu odiava Draco, por que roubaria a filha dele para mim? Não faz sentido nenhum. — Virou-se para o loiro. Em seus olhos, um brilho diferente, algo como esperança e medo. — Draco, eu jamais faria isso.
– Inveja. — Falou Astoria, chamando sua atenção. — Eu nunca fiz nada a você, sequer nos conhecemos, mas aí está você com meu ex-marido e minha filha desaparecida!
– Realmente, Astoria, não nos conhecemos. — Disse Hermione, amargamente, a encarando com desprezo. — Mas aí está você me chamando de invejosa e me acusando de sequestradora.
– Sinto muito se...
– Não, não sente. Você veio até aqui, sim, me acusar de ter roubado sua filha. Esse foi seu objetivo o tempo todo e eu não devo explicações a vocês. — Encarou Zabine, que apenas levantou orgulhosamente o queixo. Voltou-se para Astoria, decidida a machucá-la. — Mas eu a entendo, sou mãe, afinal.
Astoria parecia ter levado um tapa na cara, não encontrara nenhuma palavra ou argumento para retrucá-la. Encarou Draco novamente. Seu coração esperando que ele dissesse algo — discordasse do que aquela carta dizia, não admitisse que fosse acusada de algo tão baixo -, quando sua mente, na verdade, sabia que ele não tinha condições de fazê-lo.
Balançou a cabeça e passou por ele, em direção à saída, batendo à porta atrás de si. Quando chegou ao elevador, as lágrimas já vertiam pelo seu rosto e escorriam pelo queixo em direção ao tecido da roupa. Queria sair dali o mais rápido possível, mas o elevador parecia não chegar nunca e tinha a impressão de que, a cada segundo que se passava, as paredes do corredor fechavam-se ao seu redor.
Procurou a escada de incêndio, amaldiçoando o zelador que não a limpara recentemente, e começou a descer no escuro. O som alto de sua respiração e soluços em seus ouvidos. Tropeçava nos degraus, devido aos saltos, e era obrigada a se apoiar nas paredes para não cair, mas conseguiu chegar rapidamente ao térreo, passando pela recepção apressadamente e ganhando as ruas de Paris.
As acusações de Astoria ecoando em sua mente, o olhar de Draco concordando, acusando-a silenciosamente. Não era capaz de lidar com isso, simplesmente não era.
– Hermione. Hermione, espere.
A voz dele atrás de si a fez estacar, quase na entrada do beco ao qual havia aparatado minutos antes. Controlando a respiração, tentou tornar seu rosto apresentável ao enxugar as lágrimas precariamente, mas percebeu que não obteria sucesso de qualquer maneira, então virou-se.
– Você não tinha o direito de fazer isso comigo. — Sua voz saiu mais frágil do que imaginava.
Draco encarou os carros que passavam à toda velocidade, completamente alheios ao que se passava ali. Parecia um pouco perdido e confuso, mas quando voltou-se para ela seus olhos estavam escuros, revoltos.
– Você mesma disse... Hermione, você disse que poderia não ter sido os Comensais. — Ela fechou os olhos por alguns instantes, lembrando-se do que ele dizia. Draco tinha razão, mas estava apenas levantando hipóteses. Hipóteses que não deveriam ser levantadas depois de tanto tempo. Porém, naquela época a possibilidade de que passaria por uma situação como essa era muito pequena. — Você nunca falou sobre o pai de Sophie.
– Por que você nunca perguntou! — Draco balançou a cabeça negativamente, parecendo não acreditar.
– Falaria a verdade, se tivesse perguntado?
– Mas é claro!
– A sua verdade, não é mesmo? — Hermione o encarou, descrente.
– Podemos ficar nessa a noite toda e nada o fará acreditar em mim. — Ela fechou os olhos, contendo as lágrimas, quase machucando os lábios na tentativa. — O pior, Draco, é que se tivesse me chamado para conversar eu teria falado tudo. Mas você deixou sua ex-mulher me acusar, deliberadamente, como se... Como se ignorasse todos esses meses em que estamos juntos.
– Hermione, é da minha filha que estamos falando! Quer que eu, simplesmente, ignore aquela carta, descarte o único fio de esperança que tenho em anos? — Draco parecia transtornado.
– É uma carta anônima! — Disse ela, indignada. — O que alguém que se diz "parte interessada" poderia ganhar com tudo isso? Vocês parecem ter se esquecido desse pequeno trecho.
Draco respirou fundo e encarou o céu por alguns segundos. Quando a olhou novamente, seus olhos estavam vermelhos.
– Hermione, Sophie tem exatamente a idade de Gwen...
– Mas é minha, Draco, é minha filha! — Ele pareceu abalado com a afirmação e Hermione, suspirou, cansada. — Quer saber, estou farta disso. Vocês só querem encontrar justificativas para o que está escrito naquela carta e eu não tenho que ficar aqui ouvindo isso.
Andou até o beco, sem se despedir. Antes de aparatar, porém, a voz dele a impediu. Ainda continuava no mesmo lugar, os olhos perdidos a encarando, Hermione nunca o havia visto daquela maneira, desorientado, apático. Lembrava o menino que definhava aos 16 anos, sem ninguém para segurá-lo.
– Astoria irá reabrir o inquérito no Ministério Inglês. — A voz de Draco estava rouca, ele parecia fazer muito esforço para falar. — Sinto muito, Hermione.
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