Vínculo
20 Capítulo 19
Cara Srta. Granger,
Presumo que esteja um tanto quanto surpresa por estar recebendo esta carta, mas para um Malfoy os fins sempre justificam os meios.
Gostaria de convidá-la para ser minha companhia no Chá das Cinco de hoje. Sei que pode soar estranho, porém, ao lhe ver percebi que temos muito o que conversar. Se estiver interessada em ouvir o que tenho a dizer, estarei da Casa de Chás V. Prine, próxima ao Ministério.
Narcissa Malfoy
Hermione já havia perdido as contas de quantas vezes tinha lido a carta da Sra. Malfoy desde que a recebera, logo pela manhã. Não sabia ao certo o que Narcissa poderia querer com ela e isso a deixava ao mesmo curiosa e cautelosa.
Não é como se tivesse esquecido tudo que passara na casa dela, na mansão Malfoy, há anos atrás, mas levando em consideração que já havia transado com Draco e não se preocupara com o fato de ele ser um Malfoy poderia estar sendo um tanto quanto hipócrita por... Temer Narcissa.
Deixou os ombros caírem, suspirando. Como não temer uma mulher que parece esperar que o mundo se curve aos seus pés quando passa? Por que essa era Narcissa Malfoy. Hermione lembrava claramente a primeira vez que a vira, na Copa Mundial de Quadribol, quando tinha apenas 13 anos. Narcissa já parecia ter o mundo sob controle. Pela expressão de desdém em seu rosto, parecia desprezar todas aquelas pessoas ao seu redor, parecia considerar o local inapropriado para sua presença, parecia ser um crime dividir o mesmo espaço com gente de menos status e dinheiro com ela. Mas só parecia, Hermione lembrou a si mesma, não sabia como a Sra. Malfoy realmente era.
Hermione encarou o relógio na parede à sua frente, faltavam apenas quinze minutos para a hora marcada, para às cinco, e chegar atrasada não seria de bom tom. Levantou-se, buscando o casaco e a bolsa. Só esperava que a mulher não a estivesse chamando para falar sobre seu breve e quase inexistente caso com Draco ou morreria de vergonha.
O caminho até V. Prine foi rápido, nunca havia frequentado aquela Casa de Chás, embora soubesse que era uma das mais sofisticadas da Paris bruxa. O local era pequeno e reservado, não havia vitrines sofisticadas e chamativas, o único indicativo de que estava no lugar certo era a placa discreta em alumínio claro onde estava desenhado em letra cursiva: Casa de Chás V. Prine desde 1794.
Ao entrar, o cheiro reconfortante de chás de qualidades variadas tomou conta de seu olfato. Além disso, guloseimas de todos os tipos, expostas num balcão no fim da sala, chamava a atenção pela beleza e perfeição da confecção.
Entretanto, viu uma cabeça loira e conhecida lhe acenando discretamente há apenas duas mesas de distância. Respirou fundo e andou até lá, tentando aparentar uma calma que não possuía no momento.
– Srta. Granger, não pensei que viria.
– Não faria essa desfeita, Sra. Malfoy.
– Sente-se e me chame apenas de Narcissa. — Hermione acomodou-se na cadeira em frente à mulher, olhando-a com atenção. Narcissa usava um vestido azul longo e justo, todo feito de renda, com mangas longas e um decote discreto. Nos dedos, um grande anel caríssimo com um único diamante brilhava chamando a atenção. — Posso chamá-la de Hermione?
– Claro.
– Muito bem, Hermione, sei que está desconfortável e não lhe tiro a razão. O que aconteceu no passado... Bem, não é algo que eu me orgulhe. Mas hoje acho que você poderá entender por quê fiz tantas coisas erradas durante toda a minha vida junto a Lucius.
– Sra. Malfoy, acho que... Não precisamos ter essa conversa.
– Sim, precisamos, Hermione... — Nesse instante, um garçom se aproximou, trazendo um pequeno bule de porcelana branca e duas xícaras da mesma cor. — Espero que não se importe, pedi o mesmo para nós duas. Tradicional, inglês.
– Tudo bem. — Hermione tomou um pequeno gole de seu chá, enquanto Narcissa apenas a observava.
– Quando se é jovem, como quando você era na época da guerra, tudo pode parecer apenas preto no branco. Mas depois de algum tempo, você percebe que há muitas nuances de cinza no meio disso e passa a enxergar o que há por trás do que antes era razão absoluta. — Narcissa sorriu amargamente, encarando a xícara de chá à sua frente, parecia estar se lembrando de algo do passado. — Posso até mesmo me usar como exemplo. Eu sempre soube que um dia teria de me casar com um homem que meu pai escolheria. Embora você possa achar estranho, eu encarava isso normalmente, era meu papel, certo? Ser uma boa esposa, solícita quando meu marido precisasse e dar um herdeiro à ele.
"Entretanto, depois que me casei percebi que as coisas não funcionavam assim. Ser esposa de um homem como Lucius não era simples, preto no branco, como eu imaginei que seria. Está vendo? Quando você passa a observar e perceber as coisas ao seu redor, essencialmente vivê-las, elas mudam. Meu casamento, que deveria ser preto no branco, teve tantas outras nuances que não posso nem enumerar."
– Onde está querendo chegar?
– Lucius perdeu a razão depois da guerra, ele dizia estar ouvindo gritos à noite, gritos que pareciam assombrá-lo. Foi quando percebi que eram os gritos das pessoas que foram torturadas em nossa casa. Viver naquela casa é um martírio, não pense que não. Conviver com a consciência de que tantas pessoas foram torturadas, muitas vezes até a morte, sob seu teto não é exatamente saudável para ninguém. Presenciar muitas dessas torturas, dentre elas a sua, torna tudo ainda mais assustador. Nem você, nem ninguém, merecia ser tratado com tanta crueldade como aconteceu. O meu ponto é: eu não aguento mais pensar nas coisas desumanas que minha família fez durante a guerra, mas devido à todas as matizes descoloridas que minha vida possui eu preciso conviver com isso, é para isso que eu estou aqui.
Foi então que Hermione entendeu. Aquele era um desabafo da mulher que deveria ser indestrutível, que não deveria jamais aparentar qualquer vulnerabilidade perto de estranhos. Estava ouvindo o relato de uma mulher que havia passado por duas guerras bruxas (uma vida) para, enfim, entender seu papel. Para entender que as coisas não eram preto no branco, como Sirius um dia entendeu. Enquanto isso, Hermione, aos seus 29 anos, acreditava que sabia tudo sobre si, sobre o mundo, sobre suas verdades plenas.
– Olha, eu entendo que não teve a coragem ou a audácia de Andrômeda e Sirius, mas a senhora... Fez tudo o que pôde. — Hermione não sabia por que, apenas queria dizer palavras tranquilizadoras a ela. — Tenho certeza de que foi a melhor mãe que Draco pôde ter e de que está sendo a esposa que seu marido talvez nem mereça. Quanto à guerra... Isso foi há muito tempo e você... Vocês não foram as pessoas que mais me magoaram. São as nuances das quais você falou, talvez eu tenha entendido um pouco delas depois de tudo que aconteceu.
Narcissa a encarou, seus grandes olhos azuis parecendo analisá-la, mas dessa vez Hermione não se deixou intimidar. Corajosamente, sustentou o olhar da mulher, que o quebrou quase um minuto depois com um pequeno sorriso.
– Você é uma grande mulher, Hermione. Eu gostaria muito que fosse possível me redimir com você, mas sei que o que viveu em nossa casa é algo impossível de ser... Consertado. — Quisera e não pudera acrescentar nada quanto ao que Narcissa disse, pois era a mais pura verdade, não havia nada a fazer pelo passado que havia ficado para trás. A mulher suspirou e a encarou novamente, parecia estar voltando aos poucos a ser a mulher que muitos temiam e admiravam, o que fez com que Hermione mentalmente recuasse. — Draco me falou que vocês se aproximaram quando ele chegou.
Mais do que você imagina, pensou Hermione meneando a cabeça, esperando que ela continuasse, mas se deu conta de que Narcissa esperava para ouvir o que tinha a dizer sobre sua aproximação de Draco.
– Er... Não estamos nos encontrando mais, se é o que quer saber.
– Não se engane, percebi como ele a encarou no outro dia. — Hermione pigarreou, desconfortável. Estar conversando com Narcissa era uma coisa, estar conversando com Narcissa sobre Draco era outra completamente diferente. — Não fique envergonhada, não estou pedindo explicações. Acho que se há algum atrito precisam conversar sobre isso.
Antes que Hermione pudesse completar que o filho dela era um tanto quanto orgulhoso e que não queria vê-la (com razão), Narcissa avisou que era hora de ir e levantou-se, colocando com a ajuda de um garçom um casaco de pele.
– Espero que possamos ter mais conversas como essa, Hermione.
– Seria um prazer, Sra. Malfoy. — Retrucou, vencida.
– Não se preocupe com a conta, até logo.
E assim, Narcissa se afastou deixando no ar um perfume floral. Resolveu terminar o chá, já que não voltaria mais para o trabalho. No fim das contas, a Sra. Malfoy apenas havia verbalizado a conclusão que havia chegado há muito tempo. Precisava conversar com Draco e ele devia parar de agir como um menino mimado.
Decidida, foi para casa, ainda pensando se ele se dignaria a sequer ouvir o que tinha a dizer.
– Sophie, cheguei! — Enquanto Hermione fechava a porta e se desfazia do casaco, a menina desceu as escadas toda manchada de tinta colorida. Segurou o riso ao perguntar. — O que aconteceu com você?
– Marie e eu estamos fazendo as atividades da escola. — Respondeu ela com inocência e sinceridade, ao mesmo tempo em que a babá descia as escadas, também suja de tinta em boa parte das roupas e da pele.
– Srta. Granger, não pensei que chegaria tão cedo.
– Bem, eu tenho alguns planos para hoje. — Olhou Sophie, que sentou-se no pé da escada tranquilamente. — Pode ficar na casa de Marie hoje?
Sophie e sua babá concordaram que ela precisava tomar banho e arrumar suas coisas antes de sair, então Hermione seguiu para seu quarto, prometendo a si mesma que levaria Sophie para sair assim que pudesse.
Sentou à escravinha, olhando o papel de carta à sua frente, considerando as palavras que colocaria ali.
Draco, sabe que precisamos conversar seriamente. Por favor, se aceitar se encontrar comigo hoje, estarei esperando em minha casa.
Hermione.
Respirando fundo, amarrou o pequeno bilhete à perna da coruja marrom de olhos extremamente amarelos, que esperava pacientemente no parapeito da janela de seu quarto. Viu a mesma bater asas e sumir rapidamente por trás das árvores altas que faziam parte de um parque perto de sua casa.
Torcendo para que os ventos de fevereiro trouxessem Draco, Hermione fechou a janela.
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