Vício M(eu)
10 Capítulo 9 - Responsável, ética e moral.
Notas iniciais
Capítulo 9 – Responsável, ética e moral.
Meu rosto sonolento era refletido no espelho do meu banheiro, enquanto a certa distância, metade do corpo de Emi também enfeitava, em escala menor, o objeto refletor. Eu estava tensa e recusara todas as tentativas de puxar assunto de minha outra eu até o momento. Meus sentimentos em relação a ela e a nós eram contraditórios, intensos e exaltados.
Reúno meu cabelo atrás de minha nuca e com um elástico fino e preto, com duas voltas, prendo todos os fios, resultando num rabo de cavalo desajeitado.
–– Ah, não! Não, não e não! –– Emi se indigna com algo e sensual e infantilmente marcha em minha direção.
Observo o reflexo de seu corpo ganhar mais espaço na imagem refletiva à medida que se aproxima de mim.
–– O que foi? –– pergunto. Agora nossos reflexos dividem igualitariamente o espelho.
–– Como assim o que foi? Emi, nós estamos apaixonadas por um dos garotos mais lindos do colégio e você vai ir assim para a aula? –– ela faz menção para as minhas roupas resumidas numa jeans folgada e numa camiseta preta, passa os olhos de cima a baixo em mim e os para em meu cabelo. –– Ande, solte esse cabelo e vamos trocar essas roupas. –– Emi diz e dá duas batidas de palmas para dar uma noção de agilidade a sua fala.
Encaro nossos pedaços sendo refletidos e depois olho-a de corpo inteiro. Vejo um jovem mímico com uma caracterização típica em preto e branco, seu rosto coberto por grossa camada de pó branco, com seus olhos e seus lábios sendo destacados por uma tinta nega. Acessórios chapelescos e luvais também o ajudavam a compor seu figurino. Uma única flor escarlate delicada de miolo amarelo, que brota aleatoriamente no meio do mato, colocava sua pequena cabeça para fora do bolso que se instalava na região oeste do peito do rapaz, e piscava para mim. Com sutileza e teatralidade o indivíduo que antes estava apenas espiando-nos da porta, cruza o banheiro, gradativamente metamorfoseando-se numa parede que de um lado era preta e do outro branca. Parede se coloca entre mim e Emi e me lança um risinho disfarçado de sorriso. O lado negro fica virado para mim, Emi está atrás da parede, mas graças ao espelho a nossa frente consigo vê-la com um sorriso divertido nos lábios vermelhos.
–– Emily, esse é Contraste, um velho amigo. –– ela o apresenta apenas com sua cabeça apontando do fim da parede. –– Já peguei! –– completa sua fala cochichando e me dá uma piscadela risonha.
A presença de seu “amigo” era coerente.
Eu com minhas roupas desleixadas e ela maquiada, com uma regata vermelha decotada, uma minissaia de couro preta, que permitia aparecer sua meia calça de cinta-liga preta e por fim um sapato também preto estilo bonequinha.
–– Não vou trocar nada! E não me chame de Emi. Emi é uma vadia promiscua, eu sou responsável, ética e moral. –– digo aparentado estar irritada.
–– Emily é responsável, chata e sem sal. Emi é uma vadia, promiscua e sensual. –– ela cantarola em ritmo de líder de torcida com uma expressão de deboche e depois cai na gargalhada.
Eu fico brava, mas sei que sua composição de rimas pobres tem razão.
Sou sem amigos, curvas, beleza e assunto.
E quero mudar isso.
–– Está bem. –– bufo. –– O que você sugere? –– ela sorri e dá pulinhos de alegria.
Contraste se desintegra, deixando Emi e eu frente a frente outra vez.
–– Primeiro vamos soltar esses cachos. –– ela fala, já arrancando o elástico e fazendo o meu cabelo cair sobre meus ombros. –– Agora vamos ver se há algum trapo vestível no seu guarda-roupa. –– Emi me puxa pelo braço para o meu quarto e escancara todas as malas em que guardei minhas roupas, logo após vejo as mesmas sendo jogadas para cima, com um semblante de desaprovação pintando o rosto de meu clone.
–– Não é possível que você não tenha nada que preste aqui! –– Emi fala enrugando o nariz.
–– Se está procurando algo que você vestiria, não vai encontrar. –– ela para de revirar minhas roupas e olha feio para mim, voltando-se para os pedaços de pano logo em seguida.
–– Aqui, coloque esse vestido. –– ela fala me alcançando uma peça de mangas curtas, floral que alcançava meus joelhos.
Experimento o vestido e quando termino de colocá-lo limpo a garganta para chamar a sua atenção.
–– Credo, você está parecendo uma jovem cristã fervorosa, daquelas que consideram tudo pecado. –– Emi faz uma careta e depois um sorriso malicioso assume seus lábios. –– Pecado é o meu fetiche mais excitante. –– Ela larga as roupas que estava segurando e vem em minha direção. Suas mãos deslizam por toda minha lateral e sobe o tecido de minha coxa, aos poucos subindos o tecido do vestido inteiro. Eu a paro.
–– Pare. –– falo autoritária. –– Já chega, estou parecendo uma pré-adolescente de 12 anos. A sessão emperiquitar Emily acabou.
Termino de tirar o vestido, coloco as roupas que me vestiam antes novamente, jogo minha mochila em meu ombro esquerdo, viro as costas para Emi e desço as escadas.
Estou tensa, nervosa, com o pressentimento que meu coração vai furar minha pele e pular de meu peito.
Minha mãe já estava me esperando no carro, abro a porta do carona empurro meu copo para dentro do automóvel e bato a porta com força. Há um clima nada amoroso entre mim e Sheron e provavelmente, esse clima demorará a se dissipar. Pelo retrovisor vejo Emi correndo até o carro, ela se joga no bando de trás no mesmo momento que minha mãe gira a chave e dá partida.
Chegamos à sala de aula segundos antes de a professora fechar a porta. Sento-me no meu lugar de sempre, e Emily senta-se ao meu lado esquerdo. Temos dois períodos seguidos de Matemática III e por esse motivo, a professora resolve dividir nossa aula em dois momentos. Primeiramente explicando a matéria e depois aplicando um trabalho que será feito em dupla.
–– Quem irá escolher os seus parceiros será eu. –– a mulher magra de 30 e poucos anos de idade, com expressão cansada e cabelo liso castanho claro até o ombro trata de avisar.
Por algum motivo desconhecido Emi me deixa prestar atenção na aula, talvez esteja magoada comigo, por eu ter sido um tanto quanto grosseira com ela, mas minha outra eu teria que compreender. Dali a poucas horas estaria me mudando para a casa de Zack e para a casa de um homem o qual só vi uma vez na vida. Essa é umas das vezes que lamento por não ser próxima de meu pai, caso fosse, eu simplesmente iria morar com ele agora, no entanto sou apenas uma menor de idade com carência de uma figura paterna e que ainda é sustentada pela mãe, e que, portanto, não tem outra escolha a não ser segui-la para onde ela for.
O sinal soa, nos avisando que a hora do trabalho havia chegado. A professora começa a falar nomes aleatórios, a maioria me soa familiar e tenho a perfeita capacidade de associar os nomes aos rostos de meus colegas, mas tenho a absoluta consciência que quando a professora pronunciar “Srta. Fox”, ninguém daquela sala saberá quem é a tal da “Srta. Fox”, nem mesmo a própria professora.
–– Srta. Brown... –– observo Sofie arrumar a postura de Deusa do colegial, aguardando quem seria o fiel que teria a honra de sentar por um período inteiro ao seu lado e que para juntos, fizessem o trabalho. –– Vejamos... –– a mulher lambe os lábios e passa os olhos pela milionésima vez na lista de chamada parando em algum nome aleatório. –– Srta. Brown e Srta. Fox. –– meu coração dispara um bucado a mais. Sofie olha para os lados a minha procura, sem saber, obviamente, que eu sou eu. Quando ela olha em minha direção dou um pequeno aceno a ela, que se levanta e se dirige até a cadeira aparentemente vaga que está ao meu lado esquerdo
Emi observa a garota de beleza sobre-humana que usava uma minissaia jeans escura e uma blusa meia manga bordo, caminhar em nossa direção, minha outra eu a olha com um visível desdém e superioridade.
–– Sério que eu vou ter que ceder o meu lugar a uma patricinha que cheira a ordinária? –– ela fala se virando para mim. Não digo nada. Não sei o que dizer. Nem o que pensar. Só sei que eu estava estupidamente intimidada com Sofie Brown.
–– Oi. –– ela fala docemente, logo após sentando-se na cadeira de Emi, que para não ter que dar colo à “patricinha ordinária” se joga no último instante para fora do lugar.
–– Se você soubesse se defender sozinha eu ia dar uma volta, como não é o caso, vou ficar aqui e nós vamos dar uma surra por de baixo do tapete na garota que acha que é sexy usar minissaia jeans. –– minha outra eu fala absolutamente irritada e determinada a acabar com Sofie.
–– Você é nova aqui, não é? –– a Deusa do colegial pergunta.
–– Na verdade não. –– digo e me escapa um risinho mais por nervosismo do que por qualquer outra coisa.
–– Ah, bem é que eu conheço a maioria das pessoas daqui, não sei o nome de todo mundo, mas normalmente reconheço seus rostos. –– ela enfeita sua fala com um sorriso leve e que se não viesse dela, seria simpático. Emi, que agora está sentada na beirada de minha mesa, a encara com nojo.
A professora nos entrega uma folha com as questões do trabalho, nos desejando um monótono “Boa sorte.”.
–– Antes de começarmos, preciso admitir que não entendi nada da matéria. –– a garota que acha minissaia jeans sensual diz.
–– Por que será que isso não me surpreende? –– Emi fala em tom cínico e eu me seguro para não repetir suas palavras em tom alto.
–– Na verdade, eu não prestei atenção. –– Sofie admite e depois dá um risinho, como se fosse a coisa mais linda do mundo.
–– Ah, não se preocupe, eu meio que domino a matéria... –– falo e no segundo após me arrepende de ter aberto a boca.
–– Isso quer dizer que você irá fazer o trabalho por nos duas? Ai, nem sei como te agradecer! Você é um amor! –– ela fala num tom eufórico, que me causa ânsia de vômito.
“Não isso não quer dizer porra nenhuma.” – penso.
Emi a encara com a mesma expressão de nojo.
–– Você não vai fazer o trabalho para essa garota, não é Emily? –– ela fala entre dentes
–– Ah, que isso, não tem problema nenhum, Sofie. –– digo e sorrio sem mostrar os dentes. Emi me olha com semblante incrédulo. Stra. Brown sorri e começa a mandar mensagens para alguém pelo seu celular caro.
Termino o trabalho um pouco antes do sinal tocar com certeza de que todas as questões estavam certas. Emi meio que me ignorou durante todo o período e agora fita suas unhas, de cara fechada. A rejeição de Emi me deu abertura para ficar integralmente pensando no que aconteceria em poucas horas. Oh, meu Deus, aquilo não poderia estar acontecendo. Uma mão gigante incansavelmente retorcia meu coração, o tornando cada vez mais pequeno e aumentando cada vez mais a dor que eu estava sentindo. Uma vontade de chorar me invadiu de supetão, mas eu sabia que não podia derramar uma única lágrima ali. Não na situação em que me encontrava.
–– Não sei se você tá sabendo, mas semana que vem vai rolar teste para líder de torcida, vai ser lá no campo de futebol, vamos roubar um pedacinho dele dos meninos. –– Sofie dá um risinho. –– Sei lá, você tem um bom corpo para a nossa equipe, se estiver interessada... é só montar uma coreografia para mostrar o que sabe. –– ela pisca para mim e dá outro risinho insuportavelmente fútil, arruma seu material e segue para a sua próxima aula.
Emi desvia o olhar de suas unhas e um sorriso malicioso molda seus lábios.
–– Nós vamos fazer esse teste. –– decreta.
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