Vício M(eu)

5 Capítulo 4 - Filho de peixe, peixinho é.


Notas iniciais
Adotando a política do "capítulo feito, capítulo postado". Agora, o próximo eu acho que vai demorar um pouquinho, porque tô sem saber o que fazer (ideias são muito bem vindas, não posso prometer realizar nada, mas se a ideia se encaixar, será um prazer escrevê-la!) Um muito obrigada para a Tarci Barbosa e para a thalyaVieira! Espero que gostem desse capítulo e boa leitura! Nos vemos lá em baixo!

Capítulo 4 – Filho de peixe, peixinho é.

Uma música embaladinha e animada se fazia de penetra e invadia meu sonho, que naquele instante não passava de uma tela negra, um aparentemente nada, apenas para combinar o meu inconsciente com a minha pessoa. Eu escutava a música, mas minhas sinapses são, e naquele exato momento estavam ainda mais lentas, portanto eu não raciocinava que estava a escutando, apenas escutava.

Demorei uns belos de uns 30 segundos para compreender que a música estilo La Cucaracha tinha sua nascente no meu despertador. Essa ideia se iniciou com um inocente plano para eu acordar animada, feliz e dançando salsa. No entanto, meu plano infalível se tornou a coisa mais falha que já vi e me fez desenvolver um forte preconceito com a cultura mexicana, mas mesmo assim, eu não mudo a música.

Abri meu olho esquerdo e dei a missão de desligar o despertador a minha mão direita. Feito isso pude abrir o olho que restava, bocejar e bufar mentalmente. Eu não queria sair da cama.

Senti um volume macio entre minhas coxas. Era um de meus travesseiros.

“Oh, Deus. Acho que me masturbei ontem a noite.” –– Resmungo sozinha, num tom de “Essa não, fiz merda.”

“Muito bom Emily, você talvez se masturba e ainda chama Deus para ouvir o seu relato.” –– Minha voz interior nunca deixa passar nada.

Com receio tiro o objeto do meio de minhas duas varas. Ele está lambuzado com uma quantidade relativamente grande do líquido gosmento. Penso em cheirá-lo, mas penso outra vez e me dou conta do quão patético seria. Me sinto arrependida e culpada. Acho que tive um orgasmo, mas não posso ter certeza já que nunca ative um e não sei como é de fato.

“Calma Emily, foi apenas para garantir uma boa nota. Apenas isso” –– certifico-me mentalmente.

De repente me sinto hipócrita, eu realmente acredito no conceito “Masturbação é fazer amor com si próprio.”, e que não devemos menosprezá-la, etc, etc, etc e etc. Acontece que falar é bem mais fácil do que fazer, falar de algo que não se tem experiência então...

A Realidade bate palmas rudemente e eu me despeço do meu Conflito Interior. Ele me leva até a porta da sua morada, apertamos as mãos, murmuramos um “Até logo.” E eu vou em direção a Srta. Realidade. Ela é feita de cimento, às vezes confundo com asfalto e passo saltitante por cima dela, mas Realidade não é bem-humorada e não aceita equívocos, principalmente se são vindos de mim. Então ela sempre faz questão de deixar explicitamente claro que o material que é feita não é asfalto. Seu material é cimento, o que ajuda a levantar paredes. Portanto, não posso pisá-la, tenho sim é que andar entre ela e suas mais variadas outras facetas, ou até mesmo de vez em quando, ser trancafiada dentro dela.

Realidade sorri para mim, Hoje ela está de branco e preto, neutra e dura. Segundo o que me contou na semana passada, esse era, de todo o seu enorme guarda-roupa, o seu look favorito. Encaixo meu braço ao seu e começamos uma caminhada de volta ao meu quarto.

Da cintura para baixo estou nua e apesar de estar sozinha, aquilo me constrange. Fui correndo para o meu banheiro, tomar um banho rápido, já que estava absurdamente atrasada, em outra situação eu nem tomaria um banho, não estava fedorenta de qualquer jeito e ninguém chegaria suficientemente perto de mim para sentir o meu cheiro.

Vestida com uma camiseta manga curta preta, uma jeans qualquer e o meu fiel escudeiro all star, desço as escadas, dobro a esquerda, chego à cozinha e encontro um bilhete de autoria daquela que me pôs no mundo, grudado na geladeira de duas portas metálicas com a pequena ajuda de um imã originário de uma pizzaria vagabunda.

“Desculpe Emily, meu chefe marcou uma reunião em cima da hora com os fornecedores italianos e tive que sair mais cedo. Tome café da manhã direito e tente chegar no horário na escola.

Te amo,

Beijos, mamãe.”

Outra reunião inesperada, mamãe? Não havia a necessidade de ter um bilhete, eu já estava acostumada com a rotina imprevisível de uma secretária do presidente da maior agência de publicidade da região. A vida de minha mãe sempre foi assim, ela sempre foi secretária de algum cargo em alguma empresa grande. Aliás, meu pai é filho do presidente (vulgo meu avô) de um dos mais prestigiados escritórios de advocacia do estado. Mas então, quando eu tinha 6 anos, eles se separaram e eu, mamãe e Anne, minha irmã, nos mudados e desde esse acontecimento mantemos um mínimo de contato possível com nosso pai. Vale ressaltar que quando digo “mínimo”, quero dizer o extremo da minimês, para ser honesta, acho que se cruzasse com meu pai na rua, eu não iria o reconhecer, talvez Anne sim, mas eu... De jeito nenhum. Nem fotos eu tenho dele, a única coisa que sei é que nossas bocas são parecidas, apenas isso.

Pensar em meu pai me faz lacrimejar. Às vezes penso que boa parte do nada que sinto é ocupado pelo nada que ele significa. Uma lágrima cai e automaticamente eu a limpo com a ponta de meu dedo indicador.

“Não chore, não é nada.” –– sussurro mentalmente e gargalho sarcasticamente.

Realmente, não é nada.

Eu não sou nada.

Ele não é nada.

Filho de peixe, peixinho é.

A Gargalhada rasga minhas cordas vocais, num pedido mudo para fazer de minha boca um útero, no qual ela quer ser um feto e quer vingar novamente. Mas eu não a quero. Portanto, a aborto e a cuspo no chão, sujando a lajota branca reluzente de vida. No meu útero bocal, faço uma inseminação emocional e planto lá a Seriedade.

A Seriedade é diferente da Gargalhada. A Gargalhada é egoísta, quer ser só ela e ponto final. Já a Seriedade, se transforma em planta trepadeira, força a abertura de minha boca e toma meu semblante por completo.

Saio de casa e chego ao colégio com a cara fechada.

As primeiras aulas passam se arrastando como pessoas perdidas num deserto. Ameaçam esboçar algum sorriso quando veem uma fonte d’água cristalina e fresca com uma bela seria como guardiã. Mas as pessoas perdidas sabem que não é real, assim como nós também sabíamos que o sinal que estava soando naquele momento, não era o da saída. No entanto, não era de todo mal, era ele que nos dizia “Ok, escravos... podem descansar um pouco.” Pego minhas coisas e vou guardá-las em meu armário. Coloco a combinação correta, o abro e jogo o material que não precisarei mais lá para dentro do túmulo de metal cinza.

Sigo para o refeitório e me posiciono no fim da fila. Um rabo de cavalo alto e preto, na altura dos ombros, seguido pelas costas do uniforme que é composto por uma regata vermelha com um faixa nas laterais branca e um short-saia, de mesma estampa, eram esses os itens que faziam a minha paisagem. Esse era apenas um dos vários uniformes para ensaio que as líderes de torcida tinham. A pessoa que estava a minha frente com certeza não era ninguém nem próximo da realeza. Caso contrário não teria que usar um uniforme. As líderes de torcida que usam diariamente os uniformes, obrigatoriamente carregam uma placa com um letreiro colorido e destacado dizendo: “Vejam o meu uniforme, sou uma líder de torcida, sou popular.” Elas necessariamente precisam desse rótulo para ser alguém. Diferentemente de Sofie e suas capangas, no caso delas é o rótulo que carrega uma placa dizendo: “Sofie Bronw me tem como personalidade, sou popular.”

Vou pegando leite, um sanduíche e um pudim. A menina termina de pegar o que quer, se vira na contra mão, tropeça nos próprios pés e joga a bandeja vermelha e tudo o que ela equilibrava em mim. A garota, que agora vejo, é oriental dá um gritinho insuportável quanto ao impacto, me olha espantada e depois murmura um “Desculpe, eu não te vi” em meio a sua gargalhada histérica, que puxa os risos do refeitório inteiro.

Sinto a sua salada de frutas escorrendo pelos meus braços meio nus e uma sensação úmida toma o meu peito e o meu abdômen, é o seu suco de laranja natural. Tem outros vários alimentos por várias outras partes do meu corpo, mas honestamente, não quero descrevê-los.

Saio correndo e já estou no corredor quando ouço uma nova onda de risadas. Vou para o único lugar que sei que estará vazio.

Minhas mãos tremem, o que me faz errar algumas o buraco da fechadura. Entro e fecho a porta atrás de mim, escorrego aspirando o cheiro de mofo até o chão. Sinto o piso gelado sustentando a minha bunda. Uma lágrima fina se suicida, seguida por outra, outra e mais tantas outras. Afundo minha cabeça no meu joelho e choro todas as lágrimas da minha primeira fase do choro. Com o rosto molhado engatinho até o fundo da sala, só paro depois que chego á ultima estante, a da Literatura Estrangeira. Vou até o canto e me recosto na parede, ali tenho minha segunda fase de choro e nessa eu me permito soluçar.

Soluço de raiva, de humilhação. De raiva pela humilhação. De raiva pela aquela liderzinha de torcida, além de jogar sua comida em cima de mim, ela gargalha e faz com todos a acompanhem. Aquela vadia vinda do Japão, o que será que os seus ancestrais orientais pensam a respeito do número de caras para que ela já deu? Como pode uma líder de torcida ser tão atrapalhada? Rio com desdém. Ela deve ser a vergonha do grupinho. Quanto mais a xingo, mais lágrimas descem e mais soluços ecoam pela biblioteca. É só então que eu percebo.

Ela não tinha me visto. Ela não tem culpa por não ter superpoderes e não conseguir enxergar quem é invisível.

A culpada sou eu.

–– Parece que seu corpo é um ímã de comida. –– olho para cima, Zack está parado no fim da estante, me olhando com o rosto risonho. Ele vem em minha direção, senta-se ao meu lado e me abraça. Não retribuo o gesto, fico estática, sem saber o que falar ou fazer ou respirar.

Vendo que eu não esboçaria nenhuma reação, ele me solta e dá um suspiro que se mistura com a sua respiração.

–– Mas cá entre nós, –– ele dá um sorriso de canto de boca ––, eu sou bem mais educado que ela. A garota nem te ofereceu aquela regata vermelha e branca nojenta. –– Seu comentário me faz rir. E é aí que eu me toco, ele não estava ali para me consolar, estava para me cobrar o moletom.

–– Han... Me desculpe, eu esqueci o seu moletom. –– enquanto falo, sinto as lágrimas secas em meu rosto.

–– Ah, melhor assim. –– ele dá de ombros.

–– Melhor? –– assumo um semblante de idiota.

–– Sim... –– ele fala com um ar de “obviamente” –– Assim eu tenho desculpa para vir te procurar de novo. –– Zack fixa o seu olhar em mim, o que me faz corar e depois olha para o seu relógio no pulso direito –– Bem, eu tenho que ir, daqui a dez minutos começa o treino. –– ele me dá um beijo na bochecha e eu congelo. Se levanta e caminha em direção ao corredor principal, formado por fileiras de estantes em cada lado.

Engatinho até ficar na esquina do corredor Literatura Estrangeira e sento em cima de meus joelhos. Do fim do corredor principal ele para e olha para trás.

–– Pode esquecer o moletom amanhã também. –– ele diz com um sorriso nos lábios e depois assume um ar pensativo enquanto coloca as mãos nos bolsos e dá de ombros, o que faz seu quadril saltar –– Na verdade, você pode esquecer ele por todos os dias até o próximo mês. –– dobra a última esquina e vai em direção à porta de saída da biblioteca. Olho para baixo sorrio.

–– Ou no outro mês. –– a cabeça de Zack aponta novamente de trás da primeira estante. Ele me dá um último sorriso e ouço a porta bater.

Até alguém invisível ganha algumas surpresas da vida.

Uma paixão inesperada pode ser a maior delas.

Notas finais
Heei, como eu disse não faço ideia do que vou fazer para o próximo capítulo, sugestões, dicas e pedidos são bem vindos! Me contem o que acharam e o que querem!