Vício M(eu)
22 Capítulo 21 - So-zi-nha.
Notas iniciais
Notas iniciais:
OI GENTEEEEEEEEEEEEEEEE! Céus, não sei por onde começar! Então: meu computador demorou bem mais do que eu espera para ser arrumado, aquela viagem também. O que aconteceu foi que os manuscritos foram se acumulando e, se antes eu não tinha tempo para escrever e bloqueios criativos, hoje estou com punhado de folhas escritas e sem tempo para digitá-las. Parece bem tosco dizendo assim, mas acontece que digitar um manuscrito não é simplesmente sair dedando o teclado, copiando palavra por palavra. Provavelmente a maioria de vocês sabe que quando reescrevemos textos nossos acabamos achando tudo uma bela de uma bosta, o que nos leva a trocar milhares de palavras, ou, até, de vez em quando, mudar fatos do enredo. E galera maravilhosa do meu coração, se ano passado eu já tava transbordando de compromissos, nesse tenho enem, vestibular, continuo com meus dois grupos de teatro e para finalizar com chave de ouro, tenho um tcc para ser feito. Já disse isso aqui algumas milhares de vezes, mas vou dizer de novo: por favor, não pensem que quando fico assim, anos e anos sem aparecer, isso tem algo relacionado a desconsideração, ingratidão ou desrespeito. Muitos de vocês, (que muitos o que, só não digo todos, porque nunca se deve generalizar nada) têm um senso crítico incrível e eu me sinto honrada de ter leitoras e leitores assim. Na verdade, seja tendo alguma conversa mais longa, ou respondendo aos comentários, eu fico pensando: "Caralho, como alguém assim pode perder tempo com minhas bobagens?!" Ai gente, minha cabeça tá a milhão e o meu nível de ansiedade para escrever certos capítulos é tão alto que não cabe em mim. Bom, essa nota inicial gigante tá aqui, por motivos de: o tamanho da culpa de ficar sumindo assim, que sinto é tão gigante, que acaba me deixando muito, muito, muito, mas infinitamente muito, de verdade, mal. E também me sinto meio que muito cara de pau por estar aqui depois de tanto tempo. Espero que tenha sobrado alguém que ainda tenha paciência para uma escritora culpada e apavorada. Se sobrou, boa leitura e nos vemos lá em baixo! E ah, eu não posso deixar de agradecer de todo o meu coração: FelipeLipe, Luuh, Marzipan e Cam Parrish!! Desculpem por essa coisa gigante, tô me sentindo mal por isso também. :/
PS: eu ia postar ontem, mas quando eu tava eu tava terminando de escrever essa breve notinha inicial, o nyah entrou em manutenção.
Capítulo 21 – So-zi-nha.
Emi chega uma meia hora após o ocorrido e eu conto tudo para ela. Minha outra eu fica feliz, pulando, dando gritinhos e metendo alguns movimentos do cheer no meio de tudo.
–– Finalmente nós temos um namorado! –– ela grita, entusiasmada. Mas eu e Insegurança, uma mulher de meia idade albina e apática, a corrigimos, dizendo que não era nada oficial.
Mesmo assim, vou dormir com um sorriso na pele. Minha alma é imensa, e sinto minha energia ocupar cada espaço do quarto. Me sinto uma gigante com um certo risco de explodir. Eu já enxergava pequenos pedacinhos de mim caindo por aí. Meus olhos se fecham lentamente, e na escuridão das paredes internas de minhas pálpebras, observo, com lágrimas, a projeção de cada segundo da cena em questão.
–– Eu vou fazer você se arrepender, vadia. –– Sofie dizia ao pé de meu ouvido, conseguia sentir seus lábios roçando em minha orelha.
Minhas mãos e pés estão amarrados e minha boca está amordaçada. Estou caída no centro da quadra do ginásio, enquanto ela está em pé, me olhando com o mais cruel dos olhares. Ambas estamos com o uniforme de cheer. No teto, vejo uma rede de pompons, milhares deles. Pelo que me contara, seu plano é me soterrar com seus amiguinhos.
–– Devo lhe ressaltar que mandei Zack envenenar cada um deles para que queimassem a sua pele. –– a encaro apavorada, sinto meu suor escorrendo pela minha testa.
–– Não me olhe assim. –– Sofie diz, fazendo biquinho. –– Você sabe que todos desse colégio fazem o que quero, quando quero. –– ela muda o peso de uma perna para outra e começa a andar em círculos, em minha volta.
–– Sabe, você seria bem útil para nós, Emily. –– Sofie admite. –– Mas não soube se comportar. –– ela se abaixa e segura meu queixo, ficando suas unhas, depois o joga com força. Bato com minha têmpora no chão. Escuto sua risada, que ecoa e ocupa todo o ginásio.
Minha cabeça dói e meu medo é cada vez maior, não tenho ninguém comigo e estou sem condições de me salvar. A Deusa tira um pequeno controle preto de apenas um botão vermelho sei lá eu da onde, lentamente, com um sorriso psicótico, pressiona o botão. Ouço a rede se soltar e o barulho que os saltos de Sofie fazem contra o chão me apontam que ela está indo embora. Olho para cima e vejo os pompons caindo em câmera lenta, escuto o som que fazem rasgando o ar, e se jogando gravidade abaixo. Os primeiros caem longe de meu corpo, mas não demora muito para o primeiro atingir minha panturrilha e depois um em minha barriga, outro em meu pescoço e mais um em meu rosto. Sinto a ardência começar um segundo após o contato com minha pele. Meus olhos lacrimejam, a dor é insuportável. Não consigo acreditar que Zack ajudou a fazer aquilo comigo. Ele havia mentido para mim, e isso era o que mais me doía. Um dos amigos da chefe cai no meu olho, a cegueira é instantânea. Os pompons já cobriam boa parte de meu corpo e eu me sentia sufocada, tentava gritar, mas meus giros batiam no adesivo prata e feito bumerangue, voltavam para mim. Um soco no fundo de minha garganta que me fazia ter vontade de vomitar. Fico sentindo cada gota de meu desespero até que um pompom aleatório cobre a última parte de meu corpo. Sei que muitos outros ainda estão por vir e tenho a certeza de que irão encontrar apenas uma montanha de pompons. Um final trágico-cômico e patético é o que estava destinado para mim. Agora sim, estava na mais plena solidão, quando nem eu mesma fazia companhia ao que restava daquela que um dia fora Emily Fox. So-zi-nha.
Sinto o ar entrar de supetão pela minha boca. Meu coração está acelerado, estou suando. Minha regata branca gruda em minhas costas e meu shorts de malha azul marinho também está encharcado, assim como meu couro cabeludo. Estou no meu quarto, acordada e sem nenhum vestígio de pompom algum. Emi também se acorda com meu alvoroço. Escuto duas batidas na janela de meu quarto. A cortina bege e a escuridão cobriam a face de quem ou do que provocava o som. Olho para minha outra eu assustada, ela acende a luz. As batidas continuam. Saio da cama lentamente, e pé por pé vou até a janela. Seguro cada cortina com uma mão e depois de contar até três abro-as de uma vez só. Dou de cara com Sarah, a cheer.
–– Mas o que... –– começo, mas ela faz sinal para eu abrir a janela, que é o que faço.
–– Sarah? –– não entendo o motivo de estar no meu quarto, em plena madrugada.
A história se complica mais quando logo em seguida dela, entram Tami e Marina, a menina que sempre está com uma faixa na cabeça.
Estou me preparando para cobrar explicações quando percebo dois pedaços de corda e uma venda preta nas mãos de Tami.
–– Se você cooperar ninguém se machuca. –– avisa Sarah.
Meus olhos se arregalam e minha garganta forma um nó, meu sonho está prestes a virar realidade. Começo a andar para trás, sem dizer uma única palavra.
–– Pega ela! –– ordena a loira e no mesmo momento saio correndo. Quando alcanço a maçaneta de minha porta, Marina também me alcança e me puxa, me jogando na cama. Começo a gritar, mas logo Tami me amordaça com um pedaço de corda, enquanto Marina me segura e Sarah amarra minhas mãos atrás de minhas costas. Por fim, a japonesa ou a loira me vendam e eu não enxergo absolutamente nada.
–– Ok novata, –– Sarah fala em meu ouvido –– não sei se deu para perceber, mas você está sendo sequestrada. –– ela tenta bancar a durona, igual no treino, mas não é convincente, ela não.
–– Quanto mais você tentar fugir, gritar e espernear, pior será para você. –– Marina diz em meu outro ouvido, ainda me segurando. Já ela era convincente até demais.
Mesmo assim eu tentava fazer de tudo para me desprender, mas a cada movimento meu Marina me agarrava com mais força.
–– Emi! –– a chamava telepaticamente, desesperada.
–– Calma, eu to com você. Essas desgraçadas vão me pagar, Emily! –– ela fala e consigo sentir a faísca saindo de sua voz.
As três me forçam a andar para fora do quarto, mas não dou ordens as minhas pernas andarem, então em partes ando, em partes sou arrastada. Penso que vão me jogar escada abaixo e me pergunto se nem assim minha mãe, Dilan e Zack vão acordar e chamar a polícia. Sinto alguém me pegar no colo, presumo que seja a menina da faixa na cabeça, e me sinto um pouco aliviada por não sentir o impacto de cada degrau em alguma parte de meu corpo, no entanto meu desespero aumenta em uma proporção exponencial. Tento gritar, mas minha voz é totalmente abafada pela mordaça.
A pessoa que me carrega anda pelo que me parece uma eternidade depois me coloca dentro de um carro, em que alguém fica me segurando o tempo todo.
–– Vamos. –– diz Tami e o carro arranca.
(...)
–– Mas o que diabos nós estamos fazendo aqui? –– escuto a voz de Emi e o meu medo diminui. Ela está aqui. O carro para, escuto as portas se abrirem e logo sou pega no colo novamente.
–– Emi! –– digo. –– Onde estamos?
–– Acho melhor você não saber. –– ela fala como se fosse uma interrogação. O meu medo volta a aumentar.
–– Emi, me promete uma coisa. –– começo minha fala e faço uma pausa.
–– Você não vai deixar uma montanha de pompons envenenados me soterrarem! –– como ela permanece em silêncio, eu prossigo. Emi dá uma risada confusa, como se não acreditasse que eu realmente havia dito aquilo.
–– Está bem,eu prometo.
A criatura que me leva caminha por mais algum tempo e as pessoas que a acompanham não dão um pio durante todo o percurso. Escuto o barulho de longas portas de ferro se abrindo e depois de mais alguns longos passos, sou sentada em alguma cadeira.
–– Vocês nunca me decepcionam, meninas. –– Sofie fala e por mais que pareça esquizofrenia, eu já sentia a ardência dos pompons em minha pele.
–– Emily Fox. –– anuncia a Deusa. –– Eu, em nome da equipe de cheer, peço desculpas pelo treino não amigável que você teve hoje. –– ela continua.
–– Na verdade foi ontem. –– Yasmin corrige.
–– O que? –– Sofie pergunta, realmente não entendo.
–– Já passa da meia noite, então o treino foi ontem. –– a rainha morena explica.
Pelo silêncio que se estende, penso que a chefe a ignora.
–– Hoje, nós te trouxemos até aqui para te contar que aquele treino não passou de um teste. –– Sofie volta a falar.
–– Nós precisávamos fazer essa última prova, para termos certeza de que você é apta a entrar para a nossa equipe. –– ela explica.
–– Em nossa reunião, depois do treino, conversamos sobre como você reagiu a tudo que passou. –– a Deusa faz uma pausa. –– Fico feliz em poder te dizer que uma das palavras que mais apareceu em nossa conversa, foi “atitude”. E atitude, Emily é o que mais importa para nós, cheerleaders. Além disso, você mostrou habilidades para honrar o nosso querido cheer. –– eu ainda esperava pelo momento em que os pompons iriam cair e me soterrar.
–– Portanto. –– Sofie faz outra pausa e sinto meus pulsos serem soltos. –– Seja. –– é tirada minha mordaça. –– Muito –– minha venda cai em meu colo. Estou no ginásio, a equipe inteira está na minha volta, numa meia-lua, todas estão uniformizadas. Cada menina está iluminando o seu rosto com uma lanterna, na volta de minha cadeira há várias velas brancas.
–– Bem vinda a Equipe de Cheerleader Epopeia High School! –– todas dizem em coro.
–– Esse é o seu kit cheer. –– Sofie me entrega uma mala branca com listras vermelhas nas laterais, escrito “Cheer” e em baixo “Epopeia High School” em vermelho.
–– Han... Obrigada... –– falo, ainda digerindo tudo aquilo. Me impulsiono para levantar, mas sou sentada na cadeira pela Deusa.
–– Agora, para nós continuarmos a cerimônia, precisamos que pegue esse mesmo uniforme que estamos usando e vista-o. –– ela explica, apontando para o top e a minissaia e o cabelo num rabo de cavalo.
Abro a mala e procuro pelo uniforme em questão, depois de vasculhar por alguns segundos acho as peças. Pego os dois pedaços de pano e me levanto novamente, me dirigindo ao vestiário.
–– Mas onde diabos ela está indo? –– Alice questiona.
–– Nós não vamos estuprá-la! –– Yasmin grita.
–– Emily, uma das coisas mais necessárias dentro da nossa família cheer, é a confiança que temos uma na outra. Se não confia em nós para se trocar na nossa frente, como irá confiar quando for jogada a no mínimo 5 metros de atura? –– Sofie questiona.
–– Desculpem, é apenas tudo muito novo para mim. –– digo voltando para o centro, onde começo a me despir e colocar o uniforme, acho que aquela foi de longe a cena mais vergonhosa que já passei.
–– Falta. –– Taylor ou Kate diz.
–– Uma. –– Kate ou Taylor diz.
Um silêncio paira no ar, as duas fitam sua irmã com olhares furiosos. A trigêmea simpática solta um longo suspiro.
–– Coisa. –– Linda fala revirando os olhos.
Taylor e Kate vêm em minha direção. Uma segura a mala aberta enquanto a outra vasculha.
–– Achei! –– comemora a que estava procurando. Logo após revela o top vermelho que todas usavam no cabelo. As duas prendem meus cachos num rabo de cavalo e voilá, estava idêntica a todas as outras. Kate e Taylor batem palminhas e depois voltam ao seus respectivos lugares.
–– Agora meninas, ela é todinha de nossa! –– Sofie anuncia e quando dou por mim, todas as cheerleaders estavam segurando algo que não conseguia identificar por conta da escuridão. Acontece que um segundo depois, todas as luzes do ginásio acendem, revelando batons de diferentes cores e texturas nas mãos de minhas colegas.
–– Vai! –– grita alguém e elas começam a virar estrelinhas, piruetas e mortais em minha direção. As líderes de torcida gritavam como esfomeadas atrás de um lindo frango. Mas, no caso, o frango tinha nome, sobrenome e havia acabado de entrar para a equipe de cheerleader de sua escola.
Eu estava com medo, meu único impulso foi correr. Corri por toda quadra, pelas arquibancas, enquanto todas elas corriam atrás de mim. A única que não movia um dedo, era a Deusa, que no momento estava sentada onde eu estava. Elas me encurralaram no canto da arquibancada do lado direito. Era o meu fim.
–– Ok, eu me rendo. –– digo enquanto tento recuperar o fôlego. Elas abaixam a guarda e se viram, indo em direção ao centro da quadra, dou alguns passos, indicando que eu iria para o mesmo lugar. No entanto, só espero alguns segundos para sair correndo novamente, dessa vez vou em direção a porta de saída. Não é preciso muito para minhas queridas coleguinhas perceberem que estou fugindo e o pior é que são mais espertas que eu. Elas se dividem em dois grupos, um corre atrás de mim e outro vai pela arquibanca da esquerda, com o intuito de chegar na porta antes de mim. Minhas pernas começam a doer, mas continuo correndo desesperadamente, quando chego no fim da arquibancada da direita, vejo uma das meninas chegar ao mesmo tempo no fim da esquerda. Sei que não vou conseguir chegar na porta, então corro de volta para a quadra, enquanto os dois grupos se encontram novamente e agora todas correm atrás de mim. Como não vejo outra solução, entro no vestiário e rapidamente me tranco em um box. Sã e salva. Amém.
–– Nunca foi tão difícil fazer um trote. Jesus! –– alguém fala. Sinto que toda equipe me espera.
–– Emily, você quer fazer o favor de sair daí?! –– outra menina diz.
–– Se você não sair, eu mesma te tiro daí de dentro! –– Linda grita.
–– E eu ajudo. –– a cabeça de Emi aponta do box a minha esquerda. –– Você está muito sexy nesse uniforme! –– ela exclama. Abro minha boca para responder, mas a cabeça de Linda aparece no alto do box a minha direita.
–– Pode deixar que eu tiro ela daqui! –– ela avisa para as outras, depois pega impulso e passa uma perna para o lado do meu box, se sentando na divisória dos dois. Depois, passa a outra, se ajeita e pula. Agora sim eu não tinha escapatória.
–– Vamos, Emily. –– ela diz e leva sua mão na direção da tranca da porta. Eu dou um tapa e por instinto, sua mão recua, no mesmo instante, me posiciono na frente da tranca. Lá fora, o grupo ia a loucura, gritando e torcendo.
–– Emily, deixa de criancice, sai da frente! –– eu apenas balanço a cabeça negativamente, como uma criança mimada.
–– Abre essa porta! –– Linda estava realmente ficando brava. Eu estava pensando em abrir e encarar de frente o problema, quando Marcela e uma outra cheer loira pularam também para dentro do box.
–– Pela porta ou não, você vai sair. –– determina Marcela que me pega no colo. Ela e as outras duas meninas dividem regiões do meu corpo para segurarem, enquanto eu esperneava no ar. Elas me erguem enquanto Sarah e outra garota esperavam, de braços abertos, no alto da divisória do box por onde Linda pulou. Elas me entregam para as duas e sou passada por cima da divisória. Naquele momento a única coisa que passava em minha mente era “Essas vadias vão me deixar cair.”. Felizmente, isso não aconteceu, mas elas não me coloram no chão. Assim que me tiraram do vestiário, todas elas se posicionaram embaixo de mim. Fui carregada por um mar de cheerleaders até o centro da quadra. A equipe de líderes de torcida me joga no chão e não tenho tempo nem de piscar e sinto os pequenos apetrechos de maquiagem deslizando pela minha pele.
Elas riam se divertiam muito enquanto escreviam e desenhavam em mim. Várias vezes tentava sair correndo e elas corriam atrás de mim e me pegavam novamente. Admito com toda satisfação do mundo que eu também estava gostando.
Depois que tudo estava organizado, a equipe se dividiu em alguns pequenos grupinhos e cada grupinho entrou em um dos carros que estavam estacionados no estacionamento deserto do colégio. Estranhamente, fiquei no grupinho da realeza, sendo que mais estranhamente ainda, fui convidada pela própria Sofie. O carro da Deusa é um conversível prata, muito parecido com o de Bruno.
Nós éramos em sete, e o carro só tinha cinco lugares, mas isso não parecia preocupar nenhuma integrante da realeza. Sofie ocupou obviamente o lugar do motorista, enquanto Yasmin sentou no banco do carona e as irmãs de Linda pularam para trás, com Alice sentando no meio. Eu e a trigêmea simpática sentamos na parte de cima do acostamento do banco, com nossos pés ficando entre as bundas da amiga e das irmãs de Linda.
Não demorou muito para logo chegarmos à casa da Deusa, para ser franca, deveria me corrigir, dizendo mansão. A fachada que se agigantava e ocupava praticamente todo meu campo de visão, era de alguma pedra cara, janelas quadradas e brancas eram dispostas harmonicamente pelos três andares, sendo a única redonda e pequena, era a que enfeitava o sótão.
Há alguns carros estacionados na frente de sua residência e outros chegaram um segundo após nós. Todos eram de alunos. Uma música alta e alguns gritos vazavam da casa e preenchiam um leve pedaço da rua quieta.
Todas as líderes de torcida se aglomeram na porta da mansão, enquanto esperam a capitã abri-la. Ela passa, varrendo as colegas de equipe e o resto da realeza e eu a seguimos.
Sofie empurra a enorme porta branca em forma de arco e me revela a casa mais linda que já vi, com móveis elegantes que esbanjavam glamour.
Os meninos do time de futebol estavam espalhados pela casa, cada um portanto um copo ou uma garrafa nas mãos. Zack, Call e Luke estão jogados no sofá conversando sobre algo muito engraçado, visto suas gargalhadas. Jake vem em nossa direção e beija Sofie. Rapidamente, todas as cheers se misturam com os meninos e uma boa parcela daquela gente toda começa a dançar. O ar cheira a álcool, tabaco, maconha e alguma droga mais forte que não sei o que é.
Estou numa festa exclusiva do cheerleading e do time de futebol. Estou numa festa bem no meio da semana. Estou numa festa e daqui a pouco tem aula. Estou numa festa, minha primeira festa.
–– A primeira de muitas. –– Emi completa ao meu lado, ela também está uniformizada.
–– Você me esqueceu no colégio! –– ela me acusa e eu arregalo os olhos, pois realmente a esqueci.
–– Desculpa! –– imploro, mas minha outra eu cruza os braços e faz beiço.
–– Vem vamos pegar algo para beber. –– Linda diz, me puxando pelo braço e me guiando até a cozinha completa e moderna de Sofie. Ali, tudo era cinza e metálico.
Ela abr o freezer, que está recheado de bebidas alcoólicas, pegando uma garrafa aleatória.
–– O que vai querer? –– Linda me pergunta.
–– Tequila. –– Emi responde certeira, mas fico em silêncio. A trigêmea simpática sorri.
–– Acho que vai gostar disso. –– Ela derrama um pouco do líquido de sua garrafa num copo vermelho descartável e me entrega.
Receosa, tomo um gole. O gosto é forte e até um pouco doce. Minha garganta formiga e esquenta, percebo o calor se espalhar por uma parte de meu corpo mais rapidamente do que esperava. Dou outro gole, ainda me sinto um pouco desconfortável com a ação, mas já estou notavelmente mais acostumada e preparada. Linda volta sorri novamente.
–– Acho que eu estava certa. –– ela comemora e despeja todo o líquido de sua garrafa em meu copo, pegando outra idêntica logo em seguida.
Linda volta a me puxar pela mão, dessa vez me leva até o sofá onde estão Zack, Call e Luke.
–– Loirinha, o que fizeram com você? –– Call pergunta, claramente bêbado.
–– Cara, acho que de todos os trotes, o seu foi o pior. –– ele conclui, rindo.
–– Também foi o mais difícil. –– Linda pontua, enquanto gesticula com as mãos, balançando a garrafa para lá e para cá. –– Ela correu de um lado para o outro, que nem uma louca, parecia que achava que ia morrer.
–– É, mas foi quase. –– resmungo e todos riem.
Luke me puxa para sentar ao seu lado, enquanto Linda senta na mesinha central, ficando exatamente na frente de Call. Quero olhar para Zack, mas fica complicado, visto que ele está do outro lado do sofá. O leitor e o, com toda certeza, futuro casal conversam animadamente sobre algum assunto que não qual é, porque o jogador que está ao meu lado insistia em conversar paralelamente comigo. Ele é legal, sem dúvida nenhuma é lindo, popular, mas fala muito. O pior, é que acho que Luke realmente acredita que estou prestando atenção em cada palavra que diz. No entanto, percebo de rabo de olho sua boca se mexer, enquanto observo Ei dançar maravilhosamente bem no meio da sala. É uma pena que só eu a enxergue.
–– Eu vou pegar mais uma para mim, alguém quer? –– Zack oferece, levantando sua garrafa vazia. Todos levantam as mãos, inclusive eu pois para aguentar Luke bêbado, eu também precisaria estar bêbada.
O leitor vai em direção à cozinha, presto atenção na mobilidade de seu corpo, eu podia ficar hipnotizada até o fim de minha vida, e provavelmente ficaria se não fosse por um certo trio de líderes de torcida. Ao passar pelas três, Zack recebe olhares maliciosos, as mesmas riem e uma loira, que me pareceu ser a chefe do subgrupo, começa a se deslocar, indo a encontro do menino que divide o teto comigo. Ela caminha até eu acabar a perdendo de vista.
É inevitável imaginar os dois se agarrando, prensados no balcão da pia. Sinto uma pequena raiva brotando e no instante seguinte crescendo e se apoderando de mim. Estou com uma imensa vontade de matar aquele trio, bem como Zack. Minha cabeça gira, a dúvida é imensuravelmente mais cruel do que o conhecimento de algo ruim. Eu precisava extinguir aquela incerteza. Não importava se a verdade que se desvendaria fosse como o mais afiado de todos os punhais, abrindo a mais frágil de todas as peles, no mais sangrento de todos os rituais negros.
–– Eu vou ir ajudar Zack com as bebidas. –– anuncio e rapidamente saio dali.
Desvio das pessoas e até recebo uns cumprimentos, que agradeço, falando apenas as últimas sílabas de “obrigada”, para poupar tempo. Chego na cozinha e não vejo a loira, nem Zack. Meu coração se aperta, não acredito que ele faria isso comigo. Não depois de tudo o que havia acontecido. Eu não podia estar errada sobre o leitor.
Sinto uma vontade de chorar incontrolável. Pego outra garrafa igual a que Linda bebia e vou em busca de lugar em que possa ficar sozinha, pois era a única coisa que eu desejava naquele momento.
Subo a escada e abro a primeira porta que encontro. “Qualquer coisa digo que estava procurando o banheiro.” Era meu plano, caso fosse questionada. Giro a maçaneta e impulsiono a peça de madeira.
Eu honestamente esperava encontrar um quarto sem ninguém, mas a cena que se monta bem na minha frente é a de uma cheer oriental boqueteando um jogador, o qual não faço a mínima ideia de quem seja. Sinto os músculos de minha face se movendo, enquanto minha cai, meus olhos se arregalam e minhas sobrancelhas se curvam uma sobre a outra. Ficamos os três paralisados por uns três segundos.
–– Desculpe. –– murmuro na velocidade da luz e bato a porta. Do lado de fora, respiro e tento apagar a imagem da boca de Tami envolvendo o pênis daquele brutamontes.
Desço a escada pisando levemente, ainda impactada pela situação, eu praticamente deixava a gravidade fazer todo o trabalho, enquanto minha mão deslizava suavemente pelo corrimão. Quando piso no último degrau noto uma porta de vidro a esquerda da escada, que não havia me chamado a atenção antes.
Assim que a abro e passo meu corpo por ela, me encontro no quintal de Sofie, que com a óbvia ajuda de um luxuoso paisagista tornava tudo lindo e impecável. Uma nenhum pouco modesta piscina se encontrava a alguns passos de mim. Caminha pela borda da mesma até chegar num ponto específico, em que não consigo ser vista por ninguém de dentro da casa.
Não há nenhuma outra alma no quintal, o que é estranho, mas agradeço de todo o meu coração por isso. Sento na borda da piscina sem molhar nenhuma parte de meu corpo e abro a garrafa. Tomo um gole e a missão de esquecer Tami e o jogador se torna fácil e até mesmo indesejada, quando volto a imaginar Zack e a menina. Está pra nascer pessoa mais idiota que eu. Sinto uma lágrima quente escorrer pela pele suja de batom de meu rosto.
–– Pense que você fosse mais inteligente, Emily. –– o leitor fala atrás de mim. Permaneço em silêncio e não olho para sua cara, não quero que perceba meu estado que estou chorando.
–– Você devia ter se oferecido para me ajudar com as bebidas. –– ele completa sua própria fala, enquanto se abaixa e sena ao meu lado. Viro meu rosto em sua direção.
–– O que houve? –– Zack me pergunta, percebendo meu estado.
–– Já terminou de fazer o que você estava fazendo? –– o questiono, fria.
–– O que? –– ele faz uma careta.
–– Como assim? –– Não respondo.
–– Emily, do que exatamente você está falando?
–– Você sabe muito bem do que estou falando. –– o acuso, mas ele fica em silêncio.
–– Eu estou falando, Zack, daquela loira que te seguiu até a cozinha. –– jogo a merda no ventilador. Ele continua com uma expressão de quem não estava entendendo, mas de uma hora para a outra começa a rir, acho que estava bêbado.
–– E quando cheguei lá, ela não estava. –– continuo.
–– Nem ela, nem você. –– concluo.
O leitor ri mais. Me faz de trouxa, acha graça e cai na gargalhada na minha frente. Ah, Zack, bêbado ou não, você está castrado e morto.
–– Emily, essa loira, está, provavelmente, dando para o Jake nesse exato momento. –– ele explica e dessa vez quem faz careta sou eu.
–– Olha, eu não vou dizer que ela não deu em cima de mim. –– o olho com cara feia.
–– Mas foi rejeitada. –– decreta e eu me permito sorrir.
–– Emi, eu vou ser sincero com você, ok? –– seu tom de voz é moderado.
–– Muitas meninas dão em cima de mim. –– admite e sinto a raiva se apossando de meu corpo outra vez.
–– Mas isso não significa que eu fique com elas, muito menos, que eu goste delas. –– o leitor completa rapidamente, mas isso não diminui minha irritação.
–– Não faça essa cara, com o tempo vai acontecer a mesma coisa com você. –– ele aponta para meu uniforme de cheerleader.
–– Aliás, –– volta a falar––, já acontecendo, né?
–– Como? –– o questiono, pois realmente não sei do que ele está falando.
–– Emily, você acha realmente que não percebi? –– ele gesticula, levando suas mãos ao peito e depois abrindo os braços, num ato de indignação.
–– Só faltava o Luke tatuar na testa “Emily, me beija”. –– Zack exclama.
Apesar de estar visivelmente morrendo de raiva, estava feliz por ver que Zack sentia ciúmes de mim. Acabo sentindo um pouco de culpa por todo o escarcéu que fiz, sem base alguma.
–– Desculpe, eu exagerei. –– admito.
–– É, eu acho que eu também.
–– Mas Emi, –– era estranho ouvi-lo me chamar do que só as três mulheres mais próximas de mim me chamavam. –– festas assim, essas pessoas, esse uniforme e tudo isso fazem parte da sua vida agora, você vai ter que se acostumar. –– consinto com a cabeça, mesmo sem entender o motivo de me dizer o óbvio.
Ele sorri e se inclina para m beijar, mas o paro com minha mão em seu peito.
–– Você vai ficar manchado. –– digo apontando para meu rosto.
–– Tem bastante água aqui. –– ele indica a piscina com o nariz e volta a se inclinar em minha direção.
–– Zack. –– insisto no meio de um sorriso e o leitor desiste.
–– Vamos voltar lá para dentro. –– digo e nos levantamos.
(...)
Sofie está em pé na ilha de sua cozinha, e Sarah está subindo para ficar ao seu lado. Todos estão na volta e Call está em pé em uma cadeira aleatória no meio da minimultidão.
–– Diretamente do balcão da cozinha de Sofie de Brown, mais um episódio da competição interna de dança das cheerleaders mais gostosas da América! –– de cima da cadeira, o jogador anuncia.
–– Vocês já sabem o que fazer. –– ele diz para o público e eu tenho vontade levantar a mão e gritar: “com licença, não tenho ideia do que está acontecendo.”
–– No fim, quem tiver mais aplausos ganha. –– Zack grita em meu ouvido, muito provavelmente notando minha confusão.
–– Rebolem até não sentirem mais suas bundas, ladies! –– Call fala e faz sina para alguém, automaticamente uma música muito mais que animada, que eu totalmente desconheço começa a tocar.
As duas começam a dançar e a multidão grita a cada passo, que normalmente, é algum muito genial. As músicas vão passando, assim como os duelos, enquanto vou bebendo uma atrás da outra.
Só havia uma coisa que não mudava, a campeã. Não sendo surpresa para ninguém, que era a Deusa. Segundo algum dos discursos de Call, ela nunca tinha perdido. Mas, na verdade, ela merece. Eu não me importaria nenhum pouco se Sofie morresse, mas a vagabunda sabia dançar.
Depois de beber tanto, começo a sentir uma pressão em minha bexiga, eu precisava urgentemente ir ao banheiro.
–– Onde fica o banheiro? –– cutuco Zack.
–– Tem um embaixo da escada. –– informa.
Dou meu copo para o leitor segurar e vou tentando desviar das pessoas.
No mesmo momento em que agarro a maçaneta para abrir a porta, ela é aberta com força por alguém de dentro, o que me faz ser puxada e bater a cabeça em alguma parte da madeira.
–– Emily Fox! –– exclama a pessoa. Viro o rosto para encarar o desgraçado enquanto esfrego o local da batida. Jake está sorrindo.
–– Jake Miller. –– ele se apresenta, apertando minha mão, como se não soubesse que sei seu nome. –– Acho que ainda não tive a oportunidade de parabenizá-la. –– o capitão do time de futebol diz. Eu fico em silêncio, apenas desejando que ele saia da frente da porta do banheiro e me deixe passar.
–– Na verdade, –– ele molha os lábios enquanto olha para baixo rapidamente –– eu estava esperando você vir me agradecer.
Minha bexiga se aperta mais, tento cruzar as pernas discretamente para impedir algo que seria constrangedor. Eu agradeceria se você saísse daqui, Jake. Eu realmente agradeceria imensamente.
–– Agradecer? –– tento não demonstrar o desespero de minha aflição.
–– Bem, o ponto alto do seu teste foi pegar impulso em mim. –– ele diz e sorri. Eu volto a ficar em silêncio.
–– Está bem, –– ele começa a se mover em minha direção, para me tocar, mas dou passos contidos, o que resulta em nós dois dando um micro giro, me fazendo ocupar o seu lugar e vice-versa. –– vamos fazer assim: você me agradece e eu te parabenizo nesse sábado. Num jantar. Eu pago.
Opa, opa, opa, opa! Só um minuto, pare o mundo, por favor!
Jake Miller está me chamando para sair.
–– Obrigada, mas vou ter que recusar. –– digo e a confusão explícita em seu olhar é no mínimo cômica.
–– Você já tem compromisso? –– o tom de sua voz, entrega que está sem chão. Talvez o capitão do time de futebol nunca tenha sido rejeitado.
–– Já. –– sou um pouco ríspida.
–– Mas então nós po... –– ele tenta insistir.
–– Jake, depois conversamos. –– falo rapidamente e bato a porta na sua cara.
Minha bexiga iria explodir. Quase rasgo a parte debaixo do uniforme e me jogo no vaso. Tudo parece levar uma eternidade até que finalmente sinto o líquido indo embora de meu corpo. Suspiro enquanto uma sensação de alívio toma conta de minha alma.
–– Mijar é muito bom! –– grito levantando meus braços para cima, em comemoração.
–– Ops. –– digo segundos após perceber o que falei. Tampo minha boca com as mãos e começo a rir sozinha.
Repentinamente Emi atravessa a porta, eu não sabia que ela podia fazer isso.
–– Meu Deus, te achei! –– ela fala, parecendo estar preocupada.
–– Ah, Emi, –– suspiro –– tem algo melhor do que mijar? –– minha língua dá uma leve embolada.
–– Tem sim. –– ela fala dobrando um pedaço de papel higiênico e me entregando o mesmo.
–– Acabar com um vadia na sua própria casa é muito melhor. –– minha outra eu diz e maldade pingar do sorriso lindo que surge.
–– E agora quem vai ter a coragem de enfrentar a maior campeã de todos os tempos no último duelo da noite? –– Call grita.
Emi levanta meus dois braços.
–– Grite eu. –– ela ordena.
–– Eu! –– grito. Todos olham para mim.
–– A novata Emily Loirinha Fox! –– Call anuncia e o público totalmente alcoolizado vocifera em uníssono meu nome.
Me aproximo da ilha, quando estou me preocupando em como fazer para subir, sinto o apresentador da competição me pegar no colo e me colocar ao lado da Deusa. Emi sobe segundos após.
–– Atenção! –– todos fazem silêncio quando Call pede. –– Três, dosi...
–– Boa sorte. –– desejo a Sofie.
–– Quem vai precisar de sorte é você. –– ela fala.
–– Um! –– o jogador grita e Wigle começa a tocar.
Sofie inicia sua dança no mesmo instante, ela é realmente muito boa, mas eu e Emi somos melhores.
–– Você tem que dançar, Emi. –– minha outra eu chama minha atenção, acho que fiquei tempo demais observando a Deusa.
Eu e menina igual a mim começamos a nos movimentar em perfeita sincronia, montando uma coreografia espetacular totalmente improvisada. Os momentos em que mais me sinto bem e confortável comigo mesma, é quando danço e naquele instante isso não acontecia de outra forma, era como se estivesse me teletransportado para minha infância,quando ajudava minha irmã com seus ensaios.
Olho para as pessoas, elas estão em êxtase, revezando os olhares entre mim e Sofie.
–– Isso vai acabar em empate. –– conclui telepaticamente, com certa satisfação.
–– Um empate não nos adianta. –– Emi decreta.
Ela fica atrás de mim e ergue meus braços acima de minha cabeça delicadamente. Com mais delicadeza ainda, Emi desce suas mãos até meu quadril, se encaixando atrás de mim, ela me faz rebolar. Estamos sem pressa, sinto meu corpo se deslocando no ar perfeitamente. Desço meus braços e seguro as mãos da menina igual a mim, dessa vez quando rebolamos, vamos no embalo até ficarmos ajoelhadas na ilha. Arranco o elástico de meu cabelo e o coloco em meu pulso, começo a girar minha cabeça freneticamente enquanto escuto os gritos de euforia das cheers e dos jogadores. Quando paro de balançar meus cachos, fico movimentando meus braços, enquanto espero a tontura passar, assim que me sinto equilibrada novamente, com muito medo, dou uns passos para trás, ao mesmo tempo agradecendo a Deus por Sofie ter um balcão tão enorme daqueles, dou uma corridinha, pegou impulso, e rezando para não quebrar o pescoço e morrer, dou um mortal. As pessoas abrem espaço para mim e eu paro perfeitamente no chão.
Eles gritam feito uns desesperados e eu começo a dançar com cada um que encontro até fazer a volta e subir na ilha novamente. Assim que chego lá em cima, Sofie também dá um mortal, mas além de quase se machucar por não ter pego impulso direito, não causa tanto impacto.
“Fiz primeiro, queridinha, agora não adianta.” Penso e eu e Emi trocamos olhares, mas assim que terminamos de nos olhar a Deusa começa a roubar a cena, rebolando que nem uma condenada.
Mas como um empate não nos adiantava, faço um passo cleopatrizado, todos riem, serve para voltar a atenção para mim. Levo minhas mãos a beirada do meu top, ameaçando começar um stripper.
–– Tira, tira, tira, tira! –– gritam em coro.
Me viro de costas, faço um oito com meu quadril, olho por cima de meu ombro direito e balanço meu dedo indicador, fazendo um “não”, dou uma leve risada e me viro novamente. A música vai se encaminhando para o fim. Sofie se apressa em voltar para o balcão e finalmente o duelo termina.
–– Ok! –– Call chama a atenção para ele. –– Barulho para a capitã das cheers! –– ele pede, quase fico surda. Acho que de nada adiantou todo o esforço. Olho com pesar, como um pedido de desculpas, para Emi.
–– Agora, para a Loirinha! –– ele se empolga e agora, eu realmente fico surda.
Os gritos tomam conta de meus ouvidos, preenchem todo o local. Vejo tudo em câmera lenta, eles gritam meu nome e aparentam gostar de mim. No meio da micromultidão acho Zack aplaudindo e sorrindo, devolvo o sorriso. Sou tirada da ilha, sentada nos ombros de Luke e Call. As pessoas continuavam gritando, a visão lá de cima era linda, todos deveriam ter essa experiência.
Emi está pulando na frente de nós. Naquele momento eu podia realmente acreditar que a vida era mágica. Mas a música parou e as irmãs de Linda começaram a gritar.
–– Pessoal, daqui a pouco todos nós temos aula. –– uma fala.
–– Então a festa está encerrada. –– a outra completa.
–– Vão todos para as suas casas. –– a primeira volta a falar.
(...)
–– Acho que Sofie não gostou muito de ter perdido. –– Zack diz quando para em uma sinaleira.
É estranho estar bêbada, sei que não estou no meu juízo, mas mesmo tendo essa consciência não consigo me controlar. Ainda com o efeito do álcool, sei que é perigoso dirigir bêbado. Partindo princípio de que eu não estava delirando, Zack era quem estava ao volante daquele veículo, e eu tinha a nítida lembrança de ver ele bebendo mais que uma ou duas vezes.
–– Você. –– tento apontar para ele, mas meu pulso dobra e acabo apontando para Emi, que está no banco de trás. Ela segura minha mão na direção certa e eu a agradeço mentalmente.
–– Você não pode dirigir. –– termino a frase e ele me encara incrédulo.
–– Você está –– minha língua enrola e eu me perco no meio da fala –– sob efeito do álcool. –– lembro o que ia dizer.
–– E é menor de idade ainda por cima. –– reflito.
–– Oh, meu Deus, eu moro com um criminoso. –– minha reflexão é um pouco mais profunda.
–– E sou apaixonada por ele. –– concluo com pesar. De canto de olho, o vejo sorrir.
–– Mesmo você estando bêbada, eu gosto de ouvir isso.
Percebo tudo começar a ficar mais devagar e minha pálpebras ganham pesos que eu não lembrava de ter colocado lá.
–– Hei, Emily! Nós decidimos fazer musculação. –– ouço uma voz de desenho animado dentro da minha cabeça.
–– Nós? Quem está falando? –– me intrigo mentalmente.
–– Nós, ué! –– a voz continua.
–– Mas nós quem? –– me irrito.
–– Aqui em cima! –– ela diz.
–– Ah, são vocês dois! –– me sinto idiota por não ter percebido.
–– Bem, vamos começar a malhação então. –– meu Olho Direito, o que estava falando o tempo todo, diz.
–– Eu vou ficar saradão! –– comemora o Esquerdo, que tem a voz um pouco mais grave.
E então, os dois começam uma contagem. Penso que estão sendo precipitados, levantando tanto peso assim, de primeira. Os dois têm muita dificuldade e não são nenhum pouco raras as vezes em que quase são esmagados pelos pesos.
–– Emily? –– ouço a voz confusa de Zack entrar pelo meu ouvido esquerdo.
–– Emily, você tem que ficar acordada! Vamos conversar! Fala alguma coisa! –– e sair pelo direito.
Aos poucos, meus olhos desistem da malhação, sendo cruelmente esmigalhados pelos pesos.
(...)
Uma água gelada congela meu cérebro. Abro os olhos e vejo pingos caindo verticalmente. Estou no um chuveiro e Zack está dando tapinhas em minha cara enquanto murmura algo sobre cordas. Cordas?
Emi e John estão com expressão preocupada, parados e tensos na porta do box. Quando percebem que estou acordando surgem sorrisos de alívio em seus rostos. O beagle invade o box e começa a me lamber, rio, mas minha alegria dura pouco, porque minha cabeça começa a doer. Dói muito, a única impressão que tenho é que pode explodir a qualquer momento.
–– Permaneça acordada, eu já volto. –– o leitor diz e sai do local.
–– Bebeu até cair, né? ––minha outra eu debocha, sua voz é uma bomba atômica explodindo lentamente.
–– Vem, vamos tirar essas roupas molhadas. –– ela fala e me ajuda a levantar.
Já estou seca, enrolada numa toalha verde e sentada em minha cama, tentando desembaraçar meus cachos com os dedos, quando Zack entra segurando uma xícara de café. Ele senta ao meu lado.
–– Toma. –– o rapaz diz.
Pego a xícara e a levo até meus lábios, o gosto é forte e amargo, distancio o café da minha boca fazendo careta para demonstrar meu desagrado.
–– Toma tudo. –– ele fala em tom sério. Com muito esforço viro o líquido escuro de uma vez só.
–– Agora, –– Zack começa, acariciando meu rosto –– boa noite, porque temos aula daqui a pouco.
Eu o puxo para um beijo apenas porque tenho vontade. O menino envolve suas mãos em meu corpo, aceitando meu ato. Com o roçar dos corpos, minha toalha começa a afrouxar, tudo indica que o leitor percebe, pois para o beijo lentamente.
–– Emily, sua toalha está caindo. –– avisa.
–– Quer que eu a tire? –– pergunto e seus olhos se arregalam, provavelmente não acreditando no que havia acabado de sair de minha boca, e na verdade, eu também não. Bem, tenho sérias suspeitas de que permaneço, pelo menos, um pouco bêbada. Começo a ter medo de seu julgamento. Oh, meu Deus, não faz nem 24 horas que estamos namorando e eu já lhe proponho em ficar nua. Oh, meu Deus, nós nem estamos namorando. Penso em outra coisa, há a possibilidade de Zack me entregar um belo de um sim. Céus, estou perdida.
No fim, ele ri.
–– Não. –– o leitor fala em tom interrogativo –– Eu quero que você se deite e tenha ótimas poucas horas de sono.
–– Boa noite. –– ele cochicha e me dá um rápido selinho, levanta e vai embora.
–– Boa noite. –– digo baixinho depois do rapaz já ter ido.
(...)
Sinto uma leve brisa em meu rosto. Lentamente meus olhos se abrem, mas ao enxergar uma imagem embaçada, se fecham para depois se abrirem novamente. Vejo então o rosto de minha mãe muito mais próximo do que já lembrara estar em algum momento. Ela me assopra com cuidado e delicadeza. Só minha mãe poderia ficar bonita tão de perto e assoprando.
–– Bom dia. –– Sheron sussurra.
–– Bom dia. –– digo com a voz sonolenta, me reconstando na cabeceira de minha cama e percebendo que estou com uma enxaqueca daquelas que eu não desejaria a ninguém, nem a Sofie. Bem, pensando melhor...
–– Sei que deve estar cansada, mas estou aqui para duas coisas. –– minha mãe diz em tom maternal.
–– A primeira, é para você me ajudar com isso aqui. –– ela mostra uma bandeja com um café da manhã para duas pessoas e a repousa em minha cama. Penso ainda estar bêbada, ou ter usado alguma droga mais forte, aquilo só podia ser uma alucinação.
–– E a segunda, é para perguntar quando que eu ia ficar sabendo que minha filha é a nova integrante da equipe de cheer?! –– sua voz ganha um entusiasmo contagiante e me obrigo a sorrir.
Sheron se inclina para me abraçar. Me recordo de um dos principais motivos que me levou a fazer o teste e me esforçar o suficiente para passar. Eu queria dar orgulho a minha mãe. Talvez assim, eu pudesse desenvolver o meu lado Anne, o que ela fazia questão de contar para todas as suas amigas. Agora ela podia encher a boca para dizer que suas duas filhas são/foram líderes de torcidas e isso é como uma peça que me preenche e me torna feliz.
–– Eu estou tão orgulhosa de você, Emi! –– seus olhos lacrimejam e não estranho em nada o ocorrido. Sempre tive consciência das alegrias que a menina que hoje trabalha num bordel trouxe para ela, por conta de ser a adolescente perfeita. O fato de agora eu estar na equipe de líderes de torcida, mesmo que no fim do colegial, marca o meu primeiro passo para enfeitar a vida de minha mãe tanto quanto Anne enfeitou.
–– É como se fosse um legado meu que agora você segue. –– ela completa e a única coisa que consigo fazer é sorrir. Nunca havia sentindo uma conexão tão forte com a mulher que estava ali na minha frente, ajoelhada, se acotovelando em minha cama.
–– Desculpe não ter contado, eu queria fazer surpresa. –– falo sem jeito.
–– Mas –– tenho um estalo –– como você ficou sabendo? –– por um momento passa pela minha mente que minha irmã poderia ter contado e talvez elas já tivessem marcado um jantar, onde Anne diria como é sua vida atual, resultando numa compreensão por parte de Sheron e por consequência, seríamos, finalmente, mãe e filhas unidas.
–– A capitã me ligou ontem, explicando o trote, para não nos assustarmos quando invadissem a casa. –– ela explica.
Por isso ninguém me ajudou, eram todos cúmplices.
–– Sofie avisa os pais das meninas? –– minha mãe balança a cabeça positivamente.
Fico incrédula, mas estava bem mais que óbvio que a parte da festa não estava dentro desse pedido de autorização.
–– Inclusive, essa menina deve ter muita dificuldade para impostar a voz na hora de puxar a torcida. Tem uma voz tão fraquinha... –– Sheron desdenha e eu adoro ouvir aquelas palavras.
–– Tenho certeza que num piscar de olhos você se torna a líder da equipe. –– ela diz com convicção e seus olhos brilham.
Suas duas filhas teriam em seu histórico o título de líderes do cheerleading. Tal mãe, tais filhas.
–– Acho melhor você não contar muito com isso. –– trago um pouco de realidade para o momento.
–– Ora, faça-me o favor! –– Sheron fala em tom divertido –– Eu devia ganhar o prêmio de maior cheer de todos os tempos. –– se envaidece.
–– Portanto, –– volta a falar –– me escute muito bem: você, –– aponta o dedo indicador na minha cara ––, Emily Fox, será a nova líder dessa equipe. –profetiza.
–– E isso não está tão distante assim. –– completa. Eu rio, porque a ideia de eu realmente virar a chefe das líderes de torcida, está tão distante de mim, quanto a lua também está.
–– Não ria. –– ordena.
–– Uma capitã reconhece outra capitã apenas pelo cheiro. –– ela finaliza sua fala.
Aquilo não me soava como possível, mas tinha um gostinho de “Eu acredito em você”. Esse sabor era melhor do que qualquer título ou conquista colegianesca.
–– Obrigada, mãe. –– digo com franqueza, era só o que eu queria fazer. Agradecer por estar vivendo aquela cena.
–– Agora, vamos comer, porque hoje o nosso desjejum será livre de machos pedantes. –– Sheron comemora e logo em seguida John pula para cima da cama. –– Você é exceção. –– ela decreta, afagando sua cabeça.
Enquanto tomamos café, minha mãe repete várias vezes que vai me ajudar com as coreografias, os gritos e a bolar foras para cantadas inconvenientes.
–– Estou tão animada, temos que comemorar! –– ela diz.
–– Vamos jantar fora no sábado, em algum restaurante chique. –– faz uma pausa. –– Mas antes, vamos fazer compras e pegar um cinema! –– conclui.
Acho que esse será o melhor de todos os cafés das manhãs.
(...)
–– Senti sua falta na mesa. –– Zack diz quando sento no banco do carona, em seu carro.
–– Minha mãe me levou café na cama para me parabenizar. –– explico, revirando os olhos, para dar a impressão que não era uma grande coisa eu estar na equipe de líderes de torcida.
–– Pensando bem, –– ele começa –– acho que não te dei os parabéns ainda. –– o leitor se inclina para me beijar.
–– Zack! –– o reprimo, rindo. –– Estamos na frente de casa. –– me justifico.
Ele fica paralisado a centímetros de minha boca e eu preciso reunir todo meu autocontrole para não agarrá-lo. O rapaz faz uma careta como quem diz “Verdade” e logo em seguida, sem dizer uma única palavra, arranca com o carro, só o estacionando na rua lateral, que convenientemente, naquela hora da manhã, era a rua mais deserta da América.
–– Nossa casa não está ali, nem ali, nem ali, nem... –– ele começa a olhar para os lados apontando e depois vira o pescoço, a fim de olhar para trás. –– vejamos, vejamos, nem aqui atrás! –– verifica.
–– Acho que podemos prosseguir. –– e vem se insinuando, voltando a se inclinar em minha direção.
Interrompo o beijo por me lembrar de uma situação que estava me preocupando.
–– Zack. –– cochicho.
–– Sim.
–– Acho que precisamos conversar sobre uma coisa.
Ele fica em silêncio, então continuo:
–– Sei que pode parecer idiota, mas... –– fico tímida e olho para frente. Ele sorri e acaricia minha bochecha, esperando eu continuar. –– Como vamos contar isso –– faço sinal com meu dedo indicador, apontando para nós dois. –– para nossos pais? –– bravamente termino a pergunta mais estúpida que já fiz.
Ele solta o ar, que não percebi que estava trancando, lentamente e me olha nos olhos, ainda em silêncio. O leitor não sabia como responder.
–– Nós podemos simplesmente não contar. –– ele tenta, em tom interrogativo. –– Quer dizer, nós vivemos normalmente no colégio, nas festas e em tudo, só tomamos cuidado quando tivermos em casa.
Faço cara de quem considera a resposta mais patética que a questão.
–– Desculpa, Emi. Eu realmente não sei o que fazer. –– diz com pesar.
–– Mas eu não acho justo nós sacrificarmos isso –– Zack repete o gesto que eu havia feito antes –– só porque os dois resolveram viver juntos. –– seu tom agora é de uma quase indignação.
–– Na verdade, também acho que é o único jeito. –– sou honesta. –– Mas, Zack, você acha mesmo que eles não vão ficar sabendo?
–– Isso é, se não escondermos na escola e em todo o resto? –– completo.
–– Se precisar escondemos do mundo inteiro. –– sussurra e é impossível não sorrir, ele volta a se inclinar e penso que finalmente terei meus parabéns. Ah, doce ilusão, agora quem pausa é o rapaz. Zack gesticula com sua mão direita, enquanto murmura um “Só um pouco, espera.”
Ele sai do carro, dá a volta pela frente, e abre a minha porta, me avisando para não sair. Zack olha para os lados, como que procurando por algo, atravessa a rua, pega alguma coisa e logo após, se ajoelha na frente do banco do carona. Sua mão revela uma brita pequena e comum.
–– Você, Emily Fox, aceita ser minha namorada oculta? –– ele diz segurando a que, de repente, se tornou a mais linda de todas as britas.
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