Vício M(eu)
15 Capítulo 14 - As três irmãs.
Notas iniciais
Capítulo 14 – As três irmãs.
Anne me olhava e sua expressão abrigava uma cruza de raiva e espanto. Seus olhos arregalados e seu queixo enrugado, insinuavam que a puta ia chorar. Mas não havia sinal nenhum, nem no mais remoto espaço das duas bolotas azuis que de fato o faria, apenas por que, por mim ela não derramaria uma única lágrima, pelo menos a nova Anne não. Na verdade, nem faço ideia de quem seja a nova Anne, mas posso tranquilamente pensar que aquela garota que estava bem na minha frente era algo bem distante da garota que esteve ao meu lado pó tantos anos.
–– Ainda estou esperando uma resposta. –– digo autoritária estranho estar agindo dessa maneira, mas naquele momento a coisa mais incoerente que eu poderia fazer era julgar estranhezas ou esquisitices, pois se acabasse por fazer, precisaria ser internada.
–– O que é que você está fazendo aqui, Anne? –– estou perplexa demais e minha voz sai trêmula, não por vergonha ou coisa assim, mas sim por que já estava com meus olhos marejados.
Agora o puteiro inteiro prestava atenção em nós duas. Silêncio chega de armadura e escudo e um bando de guerreiras Respirações resolvem enfrentá-lo, todas prontas para a batalha, como prostitutas prontas para a noite, ou qualquer período que envolva às 24 horas do dia.
–– Quem lhe trouxe aqui? –– minha irmã me questiona, mas agora soa envergonhada, com o olhar cabisbaixo, encarando o que na verdade, nada mais é que o seu devido lugar.
Me sinto mal por pensar assim de Anne, mas sobre isso não há nada que eu possa fazer.
Anne levanta a cabeça, inicialmente me encarando, mas em seguida seu olhar se para em algo que está atrás de mim.
–– Você trouxe ela aqui. –– ela acusa, entre os dentes. Seus olhos espumavam raiva escarlate, quase tão intenso quanto os lábios de Emi. Viro meu pescoço apenas para conseguir ver com quem Anne está falando e encontro Regina.
–– Sim, fui eu quem trouxe Emily. –– a moça de cabelo verde fala com tom de arrogância. As duas se encaram, marcando uma guerra de olhares verdes e azuis. Elas se fitavam como se fossem pular uma no pescoço d’outra a qualquer momento.
–– Por você fez isso? –– Anne cuspia enquanto falava, seus olhos agora lacrimejavam e não demoraria muito para uma suicida se atirar de lá, mas sua motivação não seria vergonha ou tristeza, o único sentimento que minha irmã exalava naquele momento era raiva, pura e somente.
–– Você Regina, é uma puta, um traidora. –– Anne continua, mas agora grita, com pequenas lágrimas escorrendo.
–– Já chega! –– a suposta amiga de minha irmã se exalta –– Você sabe muito bem o que eu sou ou deixo de ser, Anne. –– minha irmã murcha os ombros e volta a olhar para o chão, acompanhada de soluços e mais lágrimas. Regina se aproxima e lhe toca o ombro, o acariciando.
–– E sabe também que devia me agradecer, porque você tem é que pegar a sua irmã, levar lá para dentro –– ela aponta para uma porta do lado direito do palco, tapada por uma cortina de cetim vermelho –– e explicar tudo. Acabar com isso de uma vez por todas, Anne! –– a garota de cabelo verde diz com o tom de voz ameno. Aos poucos, minha irmã levanta o rosto e as duas voltam a se encarar. Trocam olhares de cumplicidade, compaixão e fraternidade. Talvez Regina, de todas as amigas que Anne já tivera, seja a mais verdadeira.
A que eu achava que era uma bailarina, funga um pouco e se recompõe na medida do possível.
–– Será que a gente pode conversar? –– minha irmã me pergunta com uma voz infantil, eu apenas balanço a cabeça em sentido positivo.
Anne vira o corpo para ir em direção à cortina vermelha, mas sua a miga a segura pelo braço esquerdo, a impedindo de prosseguir.
–– Lembra que ela também tem direito de... –– Regina fala baixo, quase como um sussurro, mas eu escuto. A puta já controlada lhe impede de continuar a frase com um “Eu sei” cochichado, que eu também escuto e continua o seu caminho para a porta ao lado do palco, fazendo menção para eu segui-la.
Eu e Emi cruzamos a cortina vermelha logo atrás de Anne.
Um corredor de paredes aveludadas num rosa choque neon, nos recebia. Várias portas beges, com números, determinado uma ordem de talvez quartos, se alongavam até o fim do corredor enorme. Anne caminha rápido, passamos por uma mulher, agachada, com uma escova azul na mão e um balde cinza a acompanhando, limpando o chão que pisávamos. Me senti mal por estar estragando o trabalho da possível garota de programa, mas mesmo assim continuei seguindo a única puta que me interessava ali.
Anne parou na porta de número 37, girou a maçaneta redonda, que refletia o seu reflexo, só que meio deformado, e impulsionou a porta para que a abrisse. Feito isso, deu passo para trás e abaixou a cabeça, como quem diz “Entra”. A energia pesava entre nós.
Fiz meu corpo adentrar o local e Emi repetiu meu ato. Eu estava visivelmente magoada, minha boa retorcida num bico amargo relatava que não estava lá muito feliz. Mas os olhos brilhantes e a cabeça inquieta, que virava para lá e para cá, denunciavam o interesse e a excitação de minha outra eu. Sua expressão me soava até um pouco criança, inocente e curiosa, admirando o quarto composto por uma cama giratória, espelhos por todos os lados, frigobar e rádio. As paredes alaranjadas, quase vermelhas, me dava ilusão de ótica.
–– Senta. –– minha irmã fala num tom delicado e convidativo, o seu que lhe era usual.
Sento na beira da cama coberta por um lenço vermelho, por sentir nojo das orgias que com certeza aconteceram ali. Fico em silêncio e espero que ela comece aquela conversa. Minha irmã também resolve se sentar.
–– Primeiro, eu queria dizer que eu não sou o que você está pensando. –– Anne fala pausadamente, olhando para um ponto fixo no chão. Ela não tem coragem de olhar na minha cara.
–– Anne, eu te encontrei rebolando, em cima de um palco, praticamente nua! Você vai continuar mentindo? Vai dizer que não é uma prostituta? –– Não consigo ficar sentada e falo aos berros, transmitindo toda a raiva que estava sentindo.
–– Vou dizer sim, porque eu não sou. –– ela também se levanta, agora me olha nos olhos –– Sou uma dançarina, Emily. –– seu tom de voz se ameniza e volta a ficar delicado, quase doce –– Não faço programas, mas não teria nada de errado se fizesse, é um trabalho tão digno quanto qualquer outro.
–– Com qual travesti você aprendeu isso? –– minha expressão e minha voz viram sonsas. Não me reconheço.
Anne me olha com pavor e uma ponta de desprezo, mas prefere ignorar minha provocação.
–– E o que eu faço aqui não se torna menos arte que um par de sapatilhas em algum teatro famoso. –– ela continua, lágrimas escapam de seus olhos e ela as limpa.
Sinto vontade de abraçá-la, mas não o faço.
–– Anne, você disse para mim e para mamãe que você estava estudando, que tava trabalhando na lanchonete aqui do lado! –– digo e ela chora.
–– Você mentiu! –– a acuso com o óbvio e também choro.
–– Emily, você queria que eu dissesse o que? –– Anne funga –– Ah, oi mãe e mana, liguei só para avisar que não consegui passar no teste para a academia, não fui capaz de realizar o meu sonho, mas não se preocupem, consegui trabalho num puteiro e uma namorada! –– ela transforma sua mão direita num telefone e fala em meio às lágrimas, sarcasticamente.
–– Namorada? –– Anne parece não ter notado que havia dito essa parte, pois arregala os olhos quando questiono. –– Você virou lésbica?
–– Eu não virei nada, Emi, eu sempre fui. –– faço uma cara de espanto. –– Se a sua reação é essa, imagina a da Sheron. Você acha que foi fácil para mim mentir esse tempo todo, Emily? Acha que foi fácil ficar longe de você?
Não sei o que responder, nem sei se devo, portanto apenas me sento e olho reto, para frente, em silêncio. Pelo peso que sinto na cama sei que minha irmã também se senta.
–– É a Regina? –– pergunto e viro o rosto para olhá-la. Ela balança a cabeça positivamente. –– E você a ama?
–– Muito. –– Anne sussurra e seus olhos brilham, com as pupilas dilatas, apenas com um risco azul contornando as esferas negras.
–– Será que você pode me perdoar? –– ela pede com cautela.
–– Não sei, você podia ter pedido ajuda, não precisava ter vindo para aqui. –– digo com certo desdém.
–– Emily, aqui foi onde eu encontrei as pessoas mais maravilhosas do mundo, as meninas e o nosso único macho me acolheram de braços abertos, e é graças a eles que aprendi que dança não é só ballet clássico. Eu sou feliz aqui. Sou feliz levando essa vida, com Regina. Se não contei nada disso, é porque eu sabia que nem você, nem Sheron levariam numa boa.
De repente me sinto culpada, por que sei que o que minha irmã diz é verdade. Eu não iria entender, assim como não estou estendendo agora.
–– Será, então, que você poderia me perdoar? –– choro em meio a um sorriso.
–– Meu Deus, você não precisa me pedir perdão, Emi. –– ela me abraça e eu repouso meu queixo no seu ombro.
Fecho os olhos para me concentrar no seu abraço, quando os abro de volta, vejo Emi igualmente emocionada.
Eu não podia reclamar que Anne tivesse mudado afinal eu também mudei recentemente. Mudei tanto, que até surgiu uma outra eu.
Com os olhos a chamo para participar do abraço também.
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