Véu e Grinalda
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Nós não queríamos um grande evento.
Isso já estava decidido. Queríamos algo pequeno e reservado, com apenas nossos familiares e amigos mais próximos. Em tempos como estes casar era algo incerto, logo, fazer uma grande festa para comemorar a união de dois inimigos explícitos de Voldemort era estupidez. Mas, bem, eu e James éramos estúpidos o suficiente para acreditar no amor – mesmo em tempos como aqueles.
Nunca fui o tipo de garota que idealizava essa cerimônia. Na verdade, sempre fui bem pé no chão. Poderia até parecer contraditório, considerando que eu era uma bruxa, mas dentro de todas as nuances da minha vida, sempre fui bem realista. E orgulhava-me disso. É importante ter a cabeça no lugar quando você está no meio de uma guerra.
Minha mãe, que estava sempre secando seus olhos com um pequeno lenço verde-limão, me olhava de forma melancólica temendo que eu fosse me arrepender por não ter um casamento tradicional como o dela. Mas eu não poderia estar mais feliz. Não quando eu ia me casar com James Fleamont Potter, provavelmente o único homem que conseguia me tirar do sério e, ao mesmo tempo, me proporcionar emoções que nunca havia sentido.
— Você está linda. — Meu pai colocou a cabeça para dentro do quarto e me admirou com um sorriso emocionado. — Está pronta, querida?
Respirei fundo e fechei os olhos para evitar que eu chorasse. Eu havia prometido a mim mesma que não ia chorar.
— Estou. — Sorri timidamente e meu pai estendeu o braço para que eu me apoiasse.
Minha mãe me disse uma vez que quando encontramos a pessoa certa nós sabemos que é ela. Lembro-me que ela disse que o amor não estava no nervosismo, na aflição, mas sim na tranquilidade, na serenidade e na segurança. Confesso que não levava muita fé naquilo; nos romances retratados por filmes e livros, quando um personagem encontra o amor de sua vida, o coração se debate loucamente contra seu peito, as mãos suam exaustivamente, o estômago se embrulha só de pensar no amado. Era isso que o amor causava nas pessoas e , por muito tempo, essa era a minha ideia de amor. Entretanto, foi quando eu coloquei o véu e a grinalda que entendi o que minha mãe queria dizer. Eu não poderia estar mais em paz. Estava em completa harmonia comigo mesma e essa sensação mostrava o quanto eu amava James.
Era eu e ele.
O casamento seria realizado no quintal da casa dos Potter, pois Euphemia, mãe de James, havia feito questão de que a cerimônia ocorresse lá. O quintal havia sido coberto com duas grandes tendas, o teto estava coberto de glicínias lilases, que caíam em cascata sobre o lugar. Em uma das tendas, havia um pequeno palanque, onde seria realizada a cerimônia, com bancos espalhados para os convidados. Na outra, havia diversas mesas redondas, onde as toalhas brancas com detalhes em dourado iam até o chão e um lindo arranjo de lírios enfeitava a superfície. Fora das tendas, o gramado havia sido transformado em uma pista de dança, onde uma pequena banda estava posicionada.
No momento em que a melodia da música Isn’t she lovely começou a tocar, meus olhos se encheram de lágrimas. James e eu havíamos combinado que ele escolheria a música com a qual eu caminharia até o altar e seria uma surpresa para mim. Honestamente, tinha receio de que James escolhesse alguma música de sua banda favorita, As Esquisitonas. No entanto, a música escolhida era perfeita. James costumava cantarolar essa música quando eu passava por ele nos corredores de Hogwarts, na época em que ainda não namorávamos, com o intuito de me irritar. Após o nosso primeiro encontro, ao se despedir, ele sussurrou alguns versos da canção e, num impulso, eu o beijei.
Caminhei confiante até o altar, com meu pai ao meu lado, me guiando e me dando o suporte que eu precisava naquele momento. Meus olhos estavam pregados em James, que correspondia ao meu olhar intensamente. Ele mantinha sua boca entreaberta, como se estivesse surpreso por eu estar ali, e as pontas de seus lábios formavam um sorriso tímido e abobalhado que eu nunca tinha visto. Meu pai entregou minha mão para James e deu leves tapinhas nas costas dele.
Euphemia encontrou o condutor ideal para a cerimônia: um bruxo nascido trouxa, de meia idade, que havia se tornado um padre anglicano em um pequeno vilarejo da Inglaterra.
— Sejam todos bem-vindos! Está uma noite muito agradável, não é mesmo? —Ele sorriu amavelmente e eu senti uma repentina vontade de abraçá-lo. — Estamos todos reunidos aqui para um grande acontecimento. O casamento de Lily e James. —Ele fez uma pausa e colou suas mãos. — A união de duas pessoas motivada pelo amor. É de fato algo transcendental. E é com muita alegria que eu serei o responsável por conduzir essa união. —James me olhou e piscou.
— O que é o casamento? — o bruxo retornou a falar — Um contrato. Uma tradição. Cada casal decide o que o casamento significa para eles. Hoje, temos aqui, um casal de jovens que, apesar de toda a negatividade que enfrentamos, decidiu dar uma chance ao amor. Portanto, estamos aqui para celebrar o amor.
“James e Lily aceitaram o desafio de constituir a felicidade – digo desafio pelos tempos conturbados em que essa cerimônia se dá, mas digo desafio também porque amar não vem sem compromisso, sem responsabilidade. O amor é como uma planta: é preciso regá-la constantemente para que ela cresça. É possível notar, pelos olhares desses dois, que aqui há um amor genuíno. E nada me traz felicidade como a possibilidade de presenciar algo assim. É preciso acreditar no amor. Sempre. E vendo o amor de vocês, meu coração se alarga, pois eu acredito no amor de vocês.”
As palavras do bruxo foram tão bonitas e cheias de significados que, de tempos em tempos, eu sentia meu coração se aquecer. Era como se ele tivesse um sexto sentido que o deixava capaz de ver para além das pessoas, ele conseguia captar sua essência e transformá-la em belas palavras. Era mágico.
— Diante disso e sem mais delongas, eu vos declaro marido e mulher. Você pode beijar a noiva!
James, que estava com lágrimas nos olhos, segurou meu queixo e levou uma de suas mãos para minha cintura.
— Eu poderia conjurar 100 milhões de patronos agora. Nunca estive tão feliz em minha vida. — Puxou-me pela cintura e colou nossos lábios, fazendo com que eu perdesse o fôlego.
Palmas e assovios ocuparam meus ouvidos e assim que me separei de James, comecei a rir.
— Você acredita nisso, Potter? — Apontei para a aliança que havia se materializado em meu dedo anelar e sorri.
— Pra quem preferia a lula gigante, acho que avançamos bem. — Ele respondeu com um sorriso brincalhão.
Minha mãe e Euphemia foram as primeiras a nos cumprimentar, elas nos encheram de beijos, abraços e lágrimas. Em questão de segundos, me vi rodeada pelas pessoas que tanto amava. Sirius me rodopiou no ar enquanto gargalhava. Minhas amigas se aproximaram com sorrisos abertos e me puxaram para um abraço. Por fim, o fotógrafo contratado espantou todos e deu início a uma verdadeira sessão de fotos.
Não podia negar que estava apreciando toda aquela agitação ao meu redor. Mas em meio a tantos flashes e tantas congratulações, senti-me tonta. James, que estava acostumado com os holofotes, me segurou pela cintura e beijou o topo de minha cabeça.
Chegou, então, o momento da dança. James guiou-me até a pista de dança e sorriu confiante. Envolvi meus braços ao redor de seu pescoço e nossos pés começaram a se mover.
As estrelas brilhavam como nunca, não havia uma nuvem sequer e o céu parecia aveludado. Não poderia pedir por uma noite mais bonita.
— Sra. Potter? — James sussurrou, chamando minha atenção.
— Pois não, Sr. Potter?
— Eu te amo.
— Eu não acredito no clichê de que duas pessoas são perfeitas uma para a outra. — falei baixinho e James me olhou curioso. — Somos todos imperfeitos, mas penso que sou imperfeitamente perfeita para você assim como você é imperfeitamente perfeito para mim! — Os olhos de James se encheram de lágrimas e ele me puxou para um abraço. E era ali o meu porto seguro.
A festa, como eu havia dito, não fora grande. Mas o que realmente importava é que nossos amigos estavam ali, comemorando conosco, em meio a tantas coisas ruins que aconteciam para fora daquele quintal. E era justamente isso que nós queríamos. Uma folga da realidade.
xx
Conforme sentia os dias se tornarem mais sombrios e a esperança reduzida, me via constantemente folheando o álbum de nosso casamento, tentando resgatar todas as emoções daquele dia. Sirius e Peter fazendo caretas, Remus com um copo de firewhisky em cada mão, Marlene dançando com Dumbledore, que estava com uma longa túnica laranja, McGonagall se divertindo com o bruxo/padre, minha mãe dançando com o pai de James, meu pai dançando com a mãe dele, Alastor rodopiando pela pista de dança após inúmeras doses de bebida, Alice e Frank fazendo passos de dança elaborados, Hagrid chorando com o lenço de minha mãe, Emmeline e Dorcas lutando pelo buquê, e, por fim, eu e James dançando.
No final das contas, aquele fora um grande evento.
Fale com o autor