Uzumaki Ahmya Shinden: Livro do Sol Nascente
25 Vida e morte
Notas iniciais

Takashi estava morto.
Depois de retornar da última missão que participou como shinobi, o homem que já fora um orgulhoso jounin de Konoha e reconhecido membro do clã Uchiha mudou completamente.
Foi como se ele simplesmente tivesse caído no esquecimento de todos.
Incapacitado como shinobi, Takashi foi obrigado a se aposentar. Mesmo antes das visitas pararem de chegar, ele já sentia o peso do fracasso.
Fugaku nunca foi visitá-lo. Ainda na semana em que Takashi perdeu a perna, Uchiha Mikoto, a esposa do líder, fez uma visita cordial a sua família.
Ela estava com o filho pequeno e lamentou que seu marido estivesse ocupado demais para acompanhá-la.
No começo Takashi sentiu uma mistura de revolta e abandono corroer seus dias. Por isso abandonou as reuniões do clã e o contato com outros moradores de Konoha.
Ele se sentia inútil e incapacitado. Isso fez com que o Uchiha se afastasse até de sua própria família.
Takashi passava cada vez mais horas imerso em seus pensamentos, recusando a companhia de quem quer que fosse.
Logo as horas se tornaram dias, os dias se tornaram meses e os meses anos.
Sua alma não vislumbrava mais honra, certezas ou qualquer tipo de poder.
Sua esposa investia em tentativas frustradas para recuperar os ânimos do marido. Corria sempre para lhe contar as novidades, a maior parte delas referentes ao progresso de Shisui.
Takashi procurava tratá-la com dignidade e até algum afeto. Mas com o tempo, Karime passou a se dedicar a esforços que lhe seriam recíprocos. E cedeu ao distanciamento do marido.
Isolado dentro de sua própria casa, Takashi sucumbiu ao desgosto. A cada ano sua saúde tornava-se mais frágil.
Em pouco tempo Shisui assumiu as responsabilidades com o sustento da família e tornou-se a companhia favorita da mãe. Ele era o homem da casa agora.
O pai estava cansado de brigar com seus próprios pensamentos e culpar o mundo por suas angústias, então acompanhava com orgulho o filho tornar-se o homem que ele nunca pode ser.
No mesmo ritmo em que sua saúde se degradava, as memórias de sua vida o cobravam um exercício de revisão.
O resto de orgulho que conservava o impedia de arrepender-se por todas as ações que o levaram até ali.
Takashi sempre fez o que tinha que ser feito… exceto uma vez, quando cedeu ao desejo em lugar da honra ou da obrigação. E essa foi sua ruína.
Esta única falha moral, ética, patriótica… cobrou um preço caro.
Ele não amava aquela mulher, mas encantou-se por ela. Deste encantamento, foi gerada uma criança. Uma criança que nunca chegou a conhecer a luz do dia.
Sozinho em seu quarto enquanto os primeiros raios de sol atravessavam as frstas da janela, Takashi pensava se as encontraria do outro lado. Ele gostaria de se desculpar.
***
Shisui estava de pé em frente ao túmulo do pai.
O funeral havia acabado a pouco mais de uma hora, mas ele ainda continuava lá.
Enquanto acompanhava o movimento das pás de cal que caiam sobre a urna onde foi depositado o corpo de Takashi, o garoto acreditava que o mesmo lacre que envolveria o túmulo, abafaria a agitação em seu coração.
Não foi isso o que aconteceu.
Shisui se sentia culpado e impuro.
Há muito tempo ele já estava à espera da morte do pai. Mas isso não quer dizer que ele estivesse preparado, por mais que tenha alegado algo semelhante para Itachi.
O amigo foi o último a deixar o local da cerimônia fúnebre.
Por mais que a companhia do mais novo o agradasse, naquele momento, Shisui estava mais confortável sozinho.
Nos últimos anos ele mal se relacionava com seu pai.
Takashi isolava-se dos outros voluntariamente e o filho usava isso como recurso para não encarar suas próprias contradições.
Ele havia traído sua vila, seu clã e seu pai, mentindo por todo esse tempo.
Nem mesmo as diversas mudanças pelas quais Shisui passou ao longo dos anos foram o suficiente para aproximá-lo do pai.
Ele repudiava grande parte das ações de Takashi.
Lembrar-se do ataque Uchiha ao acampamento da Pedra fazia seu estômago revirar.
De todos no acampamento, apenas uma mulher e uma criança ainda não nascida sobreviveram. Shisui era o responsável por isso.
Agora que sabia que aquela criança era sua irmã, a figura de seu pai se tornava ainda mais obscura.
Neste sentido, Ahmya o parecia uma pequena redenção para os Uchiha. Um pequeno feixe de luz que conseguiu escapar da escuridão que envolvia e, aos poucos, corroía o clã.
Por isso nunca Shisui deixou de vê-la.
Mas, apesar de tudo, ele também lamentava. Nunca foi capaz de intervir no destino de seu próprio pai. E agora acompanhava o clã se afundar em escuridão.
A arrogância e ignorância dos Uchiha, o rancor da vila, a crescente tensão… tudo isso apenas acentuava suas angústias.
“Você é mesmo um garoto difícil de encontrar. Mas fico feliz que esteja sozinho”
Uma voz às suas costas retirou o adolescente de seus pensamentos.
Shisui se virou para trás. Enquanto se movia, ele acumulava chakra, direcionando-o para seus olhos.
Seu sharingan foi ativado e cada uma das mãos segurava quatro kunais, posicionadas no espaço entre os dedos, prontas para serem lançadas.
“Calma. Calma. Sou um mensageiro… oh, me desculpe, não percebi que era um funeral” um louva-deus um pouco menor que um inseto normal, pousou sobre uma lápide.
Apesar do constrangimento, o inseto não estava interessado em entender os sentimentos daquele humano, ainda havia muito o que fazer naquele dia.
O louva-deus foi direto ao ponto. “Me foi confiado que lhe entregasse isso”
O inseto regurgitou um pergaminho pequeno, sobre o gramado à sua frente. Assim que tocou o chão, o objeto tomou o tamanho de um pergaminho de recado comum.
Shisui não conhecia aquele animal em particular, mas não tinha dúvidas de quem era sua invocadora. E, por isso, sentia que algo muito sério deveia ter acontecido para que aquele inseto estivesse ali.
Como se lesse a mente do garoto, o animal adiantou oralmente o assunto do qual o documento tratava.
“Uzumaki Azumi está morta. É provável que tenha sido emboscada pelos homens de Hanzo Salamandra. Mas ainda estamos investigando os detalhes.”
Apesar da notícia, o inseto mantinha-se calmo e objetivo.
“As palavras neste pergaminho foram as últimas que ela escreveu. E estão endereçadas a Uchiha Shisui”.
Shisui tomou o pergaminho nas mãos e o abriu.
O impacto de todas aquelas informações atravessou seu coração como uma flecha, o deixando atordoado.
Ee recompôs rapidamente e fez uma leitura cuidadosa.
A carta apresentava a súplica de uma mãe pela garantia da segurança e bem estar de sua filha.
“Onde ela está?” As palavras de Shisui foram cuspidas quase que involuntariamente. A pergunta, mais parecia uma ordem.
O louva-deus sentiu a seriedade e imediatismo do humano e apressou-se em responder.
“Ela está conosco, digo, em um lugar seguro que não pode ser encontrado por humanos. Mas Azumi não queria que Ahmya-chan crescesse longe dos humanos, por isso me mandou até aqui”
Shisui prestava atenção e o inseto continuou.
“Ahmya-chan ainda não sabe que a mãe está morta, revelamos apenas que Azumi-san saiu em missão. Estamos aguardando as equipes de investigação retornarem com mais detalhes sobre o assassinato de Azumi para dar a notícia a Ahmya. Será um grande choque”
A presença atônita de Shisui, que parecia tornar-se mais ansioso a cada informação, começava a incomodar o inseto. Então ele continuou sem abrir espaços para dúvidas ou intervenções.
“Nós cuidaremos do sepultamento para que a pequena possa se despedir. Traremos Ahmya-chan para casa amanhã ao pôr do sol.”.
Se não fosse um inseto, Shisui acreditaria que o louva-deus estava se esforçando para não parecer emocionado.
Com um aceno de cabeça em demonstração de respeito, o pequeno animal bateu asas e partiu, deixando Shisui sozinho outra vez.
Fale com o autor