Uzumaki Ahmya Shinden: Livro do Sol Nascente
7 O coração de uma kunoichi sem honra
Notas iniciais

Azumi estava paralisada.
Ela apostou sua vida no prazer fútil de testar o coração daquele homem. Seu primeiro encontro havia a transformado profundamente.
Ela ainda servia à Pedra, ainda era alvo da hostilidade daqueles a quem deveria chamar de companheiros e por todo esse tempo escondia deles seu verdadeiro poder.
Mas ela se sentia cada vez mais livre. Do dia em que irresponsavelmente decidiu salvar a vida de um desconhecido inimigo, ela herdou duas memórias.
A primeira dizia respeito a si mesma, foi a primeira vez que Azumi tomou e executou uma decisão que era sua, não uma ordem, não o compromisso com uma promessa.
A outra lhe chegou por parte dele. Também foi a primeira vez que alguém tinha a tratado como igual.
Seja no Redemoinho ou na Pedra, Azumi sempre foi vista como um objeto, uma ferramenta para o uso de alguém.
Mesmo seus pais que lhe salvaram a vida, interessavam-se muito mais pela perpetuação do clã, pela preservação de seu poder.
Quando Azumi e Saya, as filhas de Uzumaki Fumiko nasceram, uma velha senhora, Mito Uzumaki, disse a seus pais que sua linhagem tinha grande manifestação de pureza do chakra herdado pelo clã.
E isso selou o destino das duas crianças.
Seus pais decidiram fazer das gêmeas recém nascidas os receptáculos de todos os jutsus secretos do clã.
As primeiras lembranças de sua vida já remetiam a Azumi um tempo em que era obrigada a treinar os mais variados estilos de jutsus.
Passando de mestre em mestre, decorando páginas e mais páginas de livros e documentos...
Sem conhecer por um instante sequer a infância da qual desfrutavam as crianças que corriam e brincavam pelas ruas.
Em lugar disso havia as artes da cura, selamento, técnicas de rastreamento, invocação, controle de chakra…
Próximo das crianças completarem seis anos, chegou em sua casa a notícia de que outra criança de sua vila um pouco mais velha que elas, seria levada à Folha para tornar-se receptáculo de um demônio.
A menina era sobrinha de Fumiko que, por sua vez, sustentava há muito um sentimento intenso de competitividade em relação à irmã.
À época, Azumi solidarizou-se com a prima, mas ficou aliviada por ela e sua irmã não terem sido escolhidas como portadoras de um destino tão cruel.
Seus pais, por outro lado, sentiam-se desonrados. E intensificaram ainda mais a rigidez do treinamento.
Se Kushina teria um demônio poderoso dentro de si, Azumi e Saya deveriam ser o próprio poder.
Saya morreu antes de completar sete anos, depois de cometer um erro ao executar um jutsu complexo durante uma sessão de treinamento.
Um ano mais tarde o país do Redemoinho foi repentinamente invadido por um batalhão de ninjas violentos e impiedosos que não aceitariam nada além da destruição completa do clã Uzumaki.
Azumi já era chuunin e queria lutar, resistir ao lado dos seus. Talvez se redimir por não ter conseguido salvar sua irmã.
Mas seus pais não permitiram. A família escondeu-se em um cômodo secreto no subsolo da casa.
Sua mãe evocou Midori, um louva-deus do vale Rokugan, e implorou que levasse sua filha junto a um pergaminho com as técnicas secretas da família por meio de uma invocação reversa.
O inseto assim o fez.
Os pais da jovem Uzumaki foram mortos poucos minutos depois.
E ela, por insistência da rainha dos louva-deuses, viveu por sete anos neste novo mundo. Até que o seu se tornasse seguro novamente.
Foi naquele lugar onde Azumi aprendeu a dominar o poder da natureza.
Quando retornou ao mundo shinobi, a guerra já tinha acabada. Mas isso não significava que ela teria uma vida fácil.
Sua casa e sua vila já não existiam mais.
Azumi passou mais de um ano peregrinando pelo mundo, fugindo de sequestradores e assassinos. E soube nesse tempo que a cabeça de um Uzumaki ainda rendia uma boa recompensa.
Um dia, ao despistar um bando de mercenários, a kunoichi encontrou refúgio em uma área de planícies próxima à vila da Pedra.
Quando ela saiu do lugar, Onoki em pessoa a aguardava do lado de fora.
Aparentemente aquele lugar era uma espécie de santuário ou campo de treinamento. E algo sobre o fato de a kunoichi ter saído dali com tanta facilidade despertou a generosidade do Tsuchikage. Ele a deixou ficar.
Azumi servia à Pedra desde então.
Ela nunca mais esteve na presença de Onoki.
Reintegrada ao sistema shinobi, Azumi voltou ao posto de genin. Mas isso não a incomodava.
O maior problema era a forma como seus companheiros e superiores a tratavam.
A Pedra sempre foi um lugar fechado. Raramente recebia estrangeiros.
As pessoas com quem Azumi convivia a tratavam como se fosse culpada por todos os problemas do mundo.
Ela temia ser um instrumento para a vontade dos outros, como fora para seus pais. E, por isso, escondia seu verdadeiro poder, o domínio sobre a energia da natureza.
Com o tempo, a Uzumaki passou a esconder também sua personalidade, sua ambição… silenciando-as aos poucos.
Ainda assim, nada disso foi suficiente para que ela deixasse de ser tratada como coisa. Como o instrumento da vontade de alguém.
Mas aquele homem, ele a via como uma igual. Seja como inimiga, seja como aquela que salvara-lhe a vida. Eles eram iguais, dois shinobis percorrendo o mundo em busca de suas próprias ambições.
E isso a enchia de certezas. Sobre si, sobre o que poderia e desejava ser. Sobre sua própria capacidade de, como uma igual a qualquer outro, fazer suas próprias escolhas e habitar o mundo à sua maneira.
Naquele dia, Azumi sentiu o chakra de Takashi ainda antes do esquadrão da Folha atravessar a fronteira.
Indetectável ela o seguiu durante toda a missão até que tivesse a oportunidade de um momento a sós.
Quando este momento chegou ela mal podia conter sua satisfação.
A briga entre eles foi divertida. Embora tivesse precisado se esforçar em conter parte de seu poder para não feri-lo, ela encarou como uma competição. Uma competição entre iguais.
Mas, se eram iguais, Azumi queria testá-lo.
Se os momentos em que contou com a presença do outro eram os únicos nos quais Azumi sentia-se verdadeiramente livre... então ela deveria dar àquele homem as mesmas condições.
Por isso ela abriu os olhos, curiosa em saber o que aquela pessoa escolheria. Seriam inimigos? Matariam-se um ao outro? Ou havia chance de tornarem-se amigos e reconhecerem-se como iguais?
Agora Azumi estava sob um genjutsu. A vontade inexplicável de entregar sua vida àquele homem dominava sua mente. E ela esperava que aquele estranho tomasse a sua decisão.
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