Utopia
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Como se não bastasse o desentendimento com Mikaru, ainda havia atiçado a raiva de Izumi e testado a dignidade de Takeo. E tudo em apenas uma manhã! Não queria nem ver o restante do dia. Se pudesse, gostaria de dormir e só acordar quando tudo se resolvesse.
Podia ter conversado melhor com Mikaru, com mais calma, tentar entender o lado dele e o que ele via em Takeo para ainda alimentar sentimentos, mas se deixou levar pelo momento e agiu sem razão. O mesmo havia sido feito com Izumi. Falou tudo que veio à cabeça sobre Takeo, sem pensar ou pesar as consequências, ofendendo o casal de amigos. Não que Shiroyama tenha parecido ofendido, mas Izumi não gostou de ouvir aquelas palavras sobre o namorado e pior, odiou a insinuação sobre estar sendo traído, afirmando que confiava nele.
Quem dera pudesse confiar assim em Mikaru, tendo certeza que ele não o estaria traindo. Não havia provas do ato, mas o namorado afirmou que esperava por Takeo, que não fez questão de negar nada, ainda deixando no ar a insinuação que estava numa fila de espera para o caso do empresário ficar solteiro novamente.
Suspirou frustrado, apoiando a cabeça na janela do ônibus, só então notando que seu ponto estava próximo. Havia se perdido em pensamentos por um longo tempo.
O que mais o incomodava era a vontade de se acertar com Mikaru, tendo a certeza que, dessa vez, Izumi não o ajudaria em nada, já que estava chateado com suas atitudes. Devia pedir desculpas novamente. Não queria perder a amizade do ex-vocalista, que sempre foi muito atencioso com ele.
Takeo era uma incógnita para Katsuya. Às vezes ele parecia disposto a ajudar e até dava bons conselhos, mas em outros momentos parecia ser um amigo ciumento, que não gostava de vê-lo testar a paciência e os limites de Mikaru. Por último, em algumas raras ocasiões, ele parecia querer o fim desse relacionamento. Não sabia se para investir em Mikaru, já que não conseguia imaginá-lo terminando com Izumi ou se para começarem uma relação às escondidas, o que parecia bastante viável, não fosse o conhecimento que tinha do namorado em odiar ser a segunda opção.
Esfregou o rosto com força, descendo do ônibus e caminhando para casa. Estava cansado e frustrado. Havia tomado várias decisões ruins aquela manhã e estava cogitando mais uma: dar um tempo no relacionamento com Mikaru. Deixar o namorado pensar na situação, conversar com Takeo, pesar os prós e contras de continuar o namoro ou aceitar a posição de amante…
O pior de tudo é que não conseguia imaginar aquela situação indo pra frente! Takeo largar o noivado para voltar com um namorado da adolescência?! Nunca! E Hayato aceitando calado, afirmando que confiava… Mikaru aceitando ser amante também era absurdo!
Então um pensamento mais absurdo ainda passou pela cabeça de Katsuya: e se eles fossem começar um relacionamento a três? Mikaru gostava de Takeo, talvez o suficiente para superar suas diferenças com Izumi, que também gostava bastante do namorado. E Takeo… bom, não sabia até que ponto podia confiar nas fofocas, mas se ele realmente já levou a fama de galinha, talvez não fosse tão ridículo assim uma ideia dessas partir dele. Todos eles sairiam ganhando.
Colocou a mochila aos pés da cama, se jogando de costas no colchão, a cabeça pensando em mil possibilidades de uma vez. O que teria acontecido com aqueles três? Ficou apenas uma semana sem falar pessoalmente com Mikaru, mas sempre trocavam mensagens e ligações. O que teria mudado entre eles? Se os três estavam cogitando um relacionamento, não era algo que aconteceu de um dia para outro.
— Não ia passar o fim de semana fora? – Katsuya virou o rosto ao sentir o colchão afundar ao seu lado, dando de cara com uma adolescente.
— Ia… mas Mikaru estava ocupado. Achei melhor voltar pra casa.
— Vocês brigaram? – o tom da menina era preocupado, mas ela não deixou de sorrir, tentando encorajá-lo.
— Por que acha isso, Mayu? – Katsuya se virou no colchão, ficando de frente para a irmãzinha, que se inclinou para frente, tocando em algo em sua bochecha.
— Você está chorando. – ela constatou o óbvio, fazendo um cafuné em seus cabelos – Quer conversar? Ou quer que eu ligue pra mamãe?
— Não precisa incomodá-la… ela deve estar ocupada no serviço. – Katsuya suspirou frustrado, passando a mão pelo rosto, confirmando que algumas lágrimas haviam escapado, secando-as rapidamente. Sentou-se no colchão, chegando para o canto da cama, dando espaço para a irmã sentar ao lado – Acho que Mikaru se cansou de mim.
— Ele disse isso?
— Não… mas ele estava de mal humor por eu ter ido até sua casa sem avisar. Disse que estava esperando outra pessoa.
— Alguém importante do trabalho? – Katsuya apenas negou com um aceno, se sentindo idiota por precisar da irmã para se sentir melhor – Uma mulher?
— O ex-namorado. – confessou por fim, num murmúrio.
— Mas… não era aquele moço da banda que namora com o outro colega da banda?
— Esse mesmo. – sorriu sem humor, pensando em como contar para a menina que a vida não era tão simples – Não sei como vai o namoro dos dois, mas parece que o ex, Takeo, andou procurando ele e deve ter dito algo a respeito sobre voltarem.
— Hmm… não acho que o Mikaru vai te largar. Ele gosta de você.
— E gosta desse cara também. Talvez mais do que de mim.
— Ele te disse isso? – a menina encarou-o com ares de sabe-tudo, colocando as mãos na cintura – Você disse que acha que é sobre isso, mas não tem certeza. Mas eu sei que o Mikaru não vai te trocar!
— Ah, é? E por que tem tanta certeza? – mesmo que a manhã tivesse começado mal, Katsuya sentia que a situação podia se ajeitar. Se sua irmãzinha estava aconselhando-o, então não podia ser tão ruim.
— Porque ele olha pra você igual a mamãe olha pro papai e pra gente. – constatou como se fosse óbvio – Mas ele só faz isso quando você não está vendo.
— Verdade? Hm… então ele olha pra mim como se eu estivesse fazendo algo errado?
— Sim! E continua gostando de você, mesmo fazendo essa coisa errada!
— Você faz parecer tão fácil, Mayu…
— Eu vou falar com ele! Pedir pra vir te visitar!
— Não! Não precisa. É melhor eu dar um tempo… deixar ele decidir sem pressionar. Às vezes é só isso que a gente precisa mesmo pra voltar como era antes; dar um tempo, esfriar a cabeça, sentir falta um do outro.
— Vocês não se viam fazia alguns dias. Não deu pra sentir saudade?
— Bom, sim… eu senti, mas talvez Mikaru precise de mais tempo. Ele anda muito ocupado com o trabalho, leva pra fazer em casa no fim de semana e mal tem tempo de descansar. Vamos esperar mais alguns dias. Por favor, me promete que não vai atrás dele?
— Tem certeza?
— Tenho. Ele vai me procurar quando decidir o que quer fazer. E eu vou aceitar, seja para continuar como estávamos, para dar um tempo maior ou terminar de uma vez.
— Mas… – Mayu puxou o ar com força, pronta para dar um sermão no irmão mais velho, mas mudou de ideia, parecendo murchar – Você não devia aceitar tão fácil as coisas que te fazem sofrer.
— Eu prefiro assim. É melhor do que imaginar que estou fazendo ele sofrer. Mikaru merece ser feliz.
— E você também…
— Mas eu já fico feliz em saber que ele está bem. É suficiente pra mim.
Mayu negou com um aceno, mesmo com a pouca idade já tendo noção que não havia muito o que fazer. Sua mãe havia contado que algumas pessoas, quando apaixonadas, ficavam cegas para outras coisas ao redor. Esse parecia ser o caso do seu irmão. Amava demais o namorado a ponto de não importar com a própria felicidade. Ele não tinha noção que estava tomando uma decisão que seria ruim pra ele, mas também parecia não se importar, desde que a pessoa que ele gostava não se machucasse no processo.
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