Utopia
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Mikaru sentou na cama com um pulo, um sorriso enorme surgindo em seus lábios antes mesmo que conseguisse acender a luminária na cabeceira. Olhou esperançoso para a porta do quarto, ouvindo os passos se aproximando cautelosos pelo corredor, como se não quisesse acordá-lo.
Os olhos brilharam em expectativa quando a maçaneta virou, o sorriso murchando aos poucos ao ver um rapaz alto e de cabelos negros passando pelo batente.
— Oi. Te acordei? – Katsuya sorriu de volta, sem entender porque a expressão do namorado havia fechado.
— Não… eu deitei faz pouco tempo. – Mikaru murmurou em resposta, soltando um suspiro frustrado – O que está fazendo aqui?
— Pensei em passar o fim de semana com você já que não foi lá em casa na semana passada. – o rapaz se aproximou, sentando ao lado do empresário na ponta da cama, sendo possível notar melhor o semblante abatido.
— Saiu tarde da aula… – Mikaru baixou o olhar para as mãos no colo, a vontade de apertar o pescoço de Takeo aumentando gradativamente. Aquela peste mentirosa! Será que ele ou Izumi haviam enviado alguma mensagem para Katsuya, pedindo para ele fosse até ali? Qual o propósito daquela visita tão tardia?
— Eu perdi o outro ônibus. Me enrolei um pouco na prova surpresa e fiquei até os instantes finais que o professor esperou.
— Entendi… – ergueu o olhar ao sentir os dedos de Katsuya em sua testa, notando a expressão preocupada – O que foi?
— Nada. Te achei um pouco pálido. – os dedos desceram pela face numa leve carícia – Estava com saudades.
Mikaru não disse que também sentia falta dele. Não retribuiu o carinho ou apoiou o rosto na palma da mão em busca de mais contato. O silêncio instaurou-se no cômodo aos poucos, deixando o casal desconfortável. Queria o amigo lá, como Takeo havia prometido. Precisavam conversar! Tirar a limpo aquela história e descobrir o que realmente aconteceu. Não era para Katsuya aparecer, ainda mais sem avisar, sem mandar uma mensagem antes, sem perguntar se podia!
— Se importa se eu tomar uma ducha? – a voz do namorado soou como um eco tão distante que temeu não entender com clareza o que foi dito. Acenou com a cabeça, vendo o rapaz se erguer e depositar um beijo em sua face, caminhando até o banheiro da suíte.
* * *
Mikaru não costumava se irritar com tanta facilidade e logo pela manhã, mas olhar para o namorado enquanto dividiam a mesa do café estava deixando seus nervos em ponto de ebulição. Ainda não entendia o que o garoto estava fazendo em sua casa. Katsuya visitava alguns finais de semana e sempre vinha para ficar, mas após uma noite em que apareceu ali e não o encontrou por ainda estar na empresa, ele começou a avisar quando iria. Mikaru confiava em deixá-lo sozinho, mas o rapaz mesmo já havia comentado que não via motivos para ficar se o dono da casa não estava, afinal só ia até lá para vê-lo.
— ...karu? Mikaru? – Katsuya encarava-o preocupado, mas tinha certo receio de perguntar o que tanto tomava sua mente – Está se sentindo bem? Você está disperso desde ontem.
— Estou ótimo. – o empresário retrucou ríspido, mas a expressão do namorado foi tão tranquila como se tivesse escutado sobre o clima.
— Não estava esperando que eu viesse, não é? Ficou chateado porque não apareci esses dias ou porque tinha outros planos?
— Eu sempre tenho planos, meu trabalho nunca acaba. E não estava mesmo te esperando, você costuma avisar que vem.
— Desculpe por isso. Só imaginei que estaria em casa e decidi arriscar.
— Não pensou que poderia me atrapalhar, mesmo que eu estivesse em casa? Sabe que trago trabalho pra fazer aqui.
— Sim, eu sei. Mas valeu a pena, porque pude te ver um pouco.
Como Katsuya podia continuar sorrindo e parecendo feliz mesmo que ele quase dissesse, com todas as letras, que não o queria em sua casa? Precisaria ser mais direto? Não queria ser hostil com o namorado, apesar que uma parte de sua mente dizia que se não o dispensasse logo, Takeo poderia vir e notar que já tinha visitas e então iria embora com suas respostas.
— Você não se cansa de ser assim? – diante do olhar confuso, Mikaru deu andamento à sua queixa – Fingir que está tudo bem e nunca reclamar de nada que o incomoda? Porque isso está me incomodando! Essa sua atitude excessivamente calma, fingindo que nada do que eu diga o magoa ou irrita!
— Mikaru… as coisas que você me fala só vão afetar se eu deixar que aconteça. Não estou fingindo algo que não sinto, eu só sou assim. Posso estar sendo presunçoso em achar que conheço tudo sobre você, mas acredito que posso dizer quando está falando sério e quando está apenas descontando sua raiva em mim. E esse parece ser o caso. Não me importo de servir como válvula de escape se isso significa que estou te ajudando de alguma forma.
— Talvez não seja a sua ajuda que eu quero. – decretou por fim, conseguindo ver no olhar do garoto que finalmente o havia atingido.
— Você… tem alguém melhor com quem contar, certo? – Katsuya abriu um pequeno sorriso, mas era possível notar tristeza por trás dele – Seu sentimento por ele nunca mudou… pelo Takeo. Eu sempre quis confirmar isso, porque é uma das poucas coisas que me magoa vindo de você. Eu sei que nunca vou ser especial como ele foi, mas achei que, com o tempo, fosse conseguir um cantinho exclusivo pra mim na sua vida.
— Estou esperando uma visita dele hoje. – Mikaru confessou, sem remorso ou evasivas. Não tinha porque mentir se o namorado já tinha noção do que sentia.
— Entendi… bom, melhor eu ir pra casa. Não quero atrapalhar seu dia com ele. – e saiu da mesa sem dispensar um segundo olhar para Mikaru. Ele não ia chamá-lo de volta, disso tinha certeza.
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