Utopia

16 Capítulo 16


Notas iniciais
E chegamos ao final... imagino que tem gente querendo minha cabeça, ou a do Mikaru... tem gente que acha que não consigo fazer final fofo / happy end depois da treta do capítulo passado... me aguardem e vejam u.u Acho que vão gostar. Eu achei que ficou bom e até plausível com a situação que se meteram, mas neh... Ah, e Utopia vai ter continuação. No mesmo esquema das histórias anteriores, dá pra ler separado, mas se já conhecer essa aqui, a outra pode fazer mais sentido. Até o momento o título vai ser 'Outro alguém' *desvia das pedras* o Boa leitura!

O percurso da cafeteria até o apartamento onde moravam foi feito em silêncio, mas não o que costumava pairar entre o casal. Hayato ficou amuado o resto do expediente, sem conseguir voltar à sala da gerência para encarar Mikaru. Não podia forçá-lo a dar uma chance pro rapaz, mas também não concordava com o que ele fez. Takeo, por sua vez, havia apoiado a decisão do amigo e queria entender aquilo. Se visse por outro ângulo, talvez fosse capaz de analisar a situação de outra maneira e concordar.

Suspirou longamente assim que entraram em casa, impedindo que Takeo se afastasse muito, puxando-o pelo pulso até a varanda.

— Vamos conversar um pouco? Antes que eu fique paranóico…

Takeo acompanhou-o sem pestanejar, deixando mochila, coturnos e chaves pelo caminho, abraçando Hayato por trás enquanto ele abria a porta que levava para o lado de fora.

— Está chateado comigo?

— Não… só deprimido com o que aconteceu mais cedo. Posso ganhar um pouco de mimo?

— Claro.

Hayato esperou que Takeo sentasse, se acomodando em seu colo e envolvendo-o pelo pescoço, escondendo o rosto em seu ombro. A vontade de chorar havia diminuído, mas ainda se sentia mal por não poder fazer nada pelos amigos, por não poder salvar a relação deles e nem o emprego do rapaz. Agradeceu internamente por Takeo não fazer nenhuma pergunta, acariciando-lhe os cabelos e dando o tempo que precisava para se acalmar e pensar.

— Por que ele tem que ser tão cabeça dura?

— Mikaru? – a resposta parecia óbvia, mas Takeo achou melhor confirmar.

— Sim! Por que não deu outra chance pro garoto? Eles se davam tão bem, formavam um bom casal…

— Mas ele deu outra chance… ou me disse que daria. Katsuya não te contou que eles vão tentar aos poucos de novo?

— Contou… mas isso não é o mesmo que dar outra chance pra namorar. – Hayato resmungou amuado, brincando com a correntinha do colar de Takeo.

— Você sabe que o Mikaru mudou de ideia por sua causa, não é? Se dependesse dele, teria terminado tudo sem pensar duas vezes. Não daria chance nem pra amizade ou aproximações.

— Então foi minha culpa que ficaram só na amizade? – questionou preocupado.

— Não. Você ajudou a conseguir outra chance. Mikaru me contou que vocês dois conversaram, que você disse que o garoto merecia outra chance porque foi a primeira vez que ele cometeu um erro ou algo assim. Ele me perguntou o que eu achava.

— Aí você sugeriu colocar o Katsu na rua, quando ele mais precisa de ajuda, depois de sair da casa dos pais.

— Não foi ideia minha a demissão, mas eu apoiei, sim. O clima entre os dois estava deixando a cafeteria tensa. O que sugeri foi que Mikaru fizesse o que tinha vontade, sem olhar muito pra questão de se machucar ou não. Às vezes não dá pra evitar algumas mágoas.

— Mas e se com essa pausa eles perceberem que ficam melhor sozinhos?

— Então não era pra dar certo. Eles se gostam, mas só isso não é suficiente. A relação precisa de confiança e apoio. O Mikaru não confia e o Katsuya não é um bom apoio, já que ele mesmo depende dos outros, como você, sempre pedindo sua opinião e perguntando o que fazer.

— Eles precisam se conhecer melhor… eu falei isso pros dois.

— Exato. E por que não começar com uma boa amizade? Nós começamos assim, não lembra, garoto da torta de cheesecake?

— Bobo… claro que eu lembro, amigo número um em Tóquio vindo de Mie*. – Hayato riu baixinho, sentindo-se um pouco mais leve – Acha que vão se acertar?

— Se Katsuya não desistir e Mikaru não dificultar, sim, é uma possibilidade.

— Tudo bem… vou confiar na sua palavra. Mas se eu souber que ele está com dificuldade, vou contratá-lo de novo pro café.

— Você acha que os pais dele vão deixar? Só queriam dar um susto depois do que ele aprontou. Você conheceu a irmã dele, os pais também são legais. Ele teve sorte com família, diferente de nós dois. Não vão deixá-lo na mão. E mesmo se deixar, nós dois também não fomos praticamente jogados na rua e olha como estamos hoje? Nós vencemos!

— Ok, entendi… você tem tudo sobre controle…

O ambiente foi preenchido apenas pelo som de alguns carros passando lá embaixo, Takeo ficou encarando a vista da torre ao longe e Hayato voltou a se aconchegar, aproveitando os carinhos do namorado. Podia confiar nele, se dizia que tudo ia ficar bem.

* * *

Caminhou silenciosamente até a entrada do apartamento, respirando fundo e contando até dez antes de abrir a porta. Não queria parecer ansioso, contudo, por mais que o convite tivesse partido dele, não estava preparado para receber Mikaru e ficar a sós com ele. Repetia que não queria a aprovação do ex-namorado e atual só-amigo, mas queria. Precisava saber o que ele achava de sua nova vida e se não tinha vergonha dele.

— Oi, entra. – convidou assim que abriu a porta, se sentindo mais desconfortável ao vê-lo de terno. Ali não parecia o ambiente ideal para um homem de negócios – Ainda tem algumas caixas espalhadas, espero que não se importe.

Katsuya seguiu na frente, afastando qualquer obstáculo que fosse necessário pular pelo caminho nada longo que ia da entrada na cozinha até seu quarto, no cômodo ao lado. O lugar era pequeno e apertado se comparado com a casa de seus pais, tendo apenas a cozinha, o quarto e o banheiro, mas era o suficiente para uma pessoa.

Sempre que se pegava desanimado com o lugar, repetia mentalmente que era temporário, um lembrete de seu castigo e que devia arcar com as consequências.

— Trouxe tudo que era seu? – Mikaru parou no meio do quarto, olhando ao redor em busca de algum local livre.

— Ah… não… só as roupas que uso com mais frequência e os livros, roupas de cama e objetos pessoais… Ainda não consegui colocar tudo no lugar. – a verdade é que não havia medido o espaço disponível e os objetos que queria levar consigo, além de algumas poucas coisas que sua mãe o emprestou, e agora estava com o cômodo atolado.

— Hm… deve ficar melhor quando organizar. – talvez não fosse intenção de Mikaru, mas Katsuya recebeu o comentário como uma ofensa. Sabia que o quarto estava uma zona, mas ouvir isso de outra pessoa não era nada gentil.

— Eu devia ter arrumado tudo antes de te convidar. Sinto muito. Você não precisa ficar aqui se não quiser. Fiz você perder seu tempo e vir até tão longe…

— Katsuya, não estou reclamando. Só concordei com o que você disse. – Mikaru retirou o blazer, colocando-o num suporte na parede, em seguida dobrando as mangas da camisa – Eu te ajudo a arrumar.

— Não! De forma alguma! – Katsuya ficou horrorizado com a ideia e não sabia se era pela oferta de ajuda ou por imaginar Mikaru ajoelhado no meio de caixas, tentando colocar as coisas no lugar – Você vai se sujar e não foi pra isso que te chamei! Hoje é sua folga, não é? Deveria descansar!

— Eu tenho roupa limpa na mochila. E já que tocou no assunto, algum motivo em particular pra me chamar aqui?

— N-não. Só… conversar. – e mostrar o lugar onde estava vivendo, além de receber aprovação. Precisava saber que ele não achava aquele um péssimo lugar.

— Podemos conversar e arrumar um pouco. Isso não conta como serviço, não chega nem perto do que faço na empresa.

— Eu sei, Mikaru… é que… é estranho…

— Não quer que eu mexa nas suas coisas de novo? Ainda está chateado por aquele dia?

— Não! Eu não me importo com isso. Aquele dia… não era eu.

— Sim, era você. Um lado seu ousado e que diz o que pensa, sem medo de magoar ninguém.

— Isso não é um motivo pra ter orgulho. Eu magoei você.

— Eu vou superar, não se preocupe.

— Ainda não entendo porque me deu outra chance…

— Porque assim como você tem um lado ousado, eu tenho um lado idiota que gosta de você. – contrariando as expectativas de Katsuya, Mikaru se aproximou alguns passos, depositando um beijo leve em seus lábios – Quero tentar do jeito certo. Me ajude a fazer valer a pena.

Katsuya sorriu animado, querendo pedir um abraço como forma de expressar o quão feliz estava, até se lembrar que não devia pedir permissão, envolvendo-o pela cintura, sem receio.

— Eu aprendi a fazer panquecas. – confessou como se fosse a melhor notícia do mundo, arrancando uma risada do empresário.

— Essa sim é uma novidade que gostei de ouvir. Vai fazer pra mim?

— Vou tentar!

— Ok, eu vou ajeitar um pouco por aqui enquanto você me mostra o que aprendeu. Precisamos pelo menos de um lugar decente pra comer.

* * *

Mikaru suspirou satisfeito, virando-se no colchão e encarando o teto, pensativo. Katsuya estava deitado ao seu lado, um braço servindo de apoio para a cabeça do empresário, o outro em volta de sua cintura, as mãos entrelaçadas à frente.

— Está com sono? Eu posso sair daqui se quiser cochilar um pouco. – Katsuya ofereceu, tensionando se levantar, mas foi impedido por um aceno negativo.

— Não, pode ficar. Aqui está bom. – Mikaru virou-se novamente, dessa vez ficando de frente para o rapaz – Se eu quisesse dormir, seria mais fácil com você por perto.

— Problemas pra pegar no sono? – afastou uma mecha loira que caía sobre o rosto de Mikaru, aproximando a face lentamente, para então se afastar quando o empresário negou o contato.

— Só alguns pesadelos…

— Com o que você sonha? – aquele era um questionamento genuinamente curioso da parte de Katsuya. Nunca soube o que atormentava o outro durante a noite.

— … nada. Esqueça isso.

— Tudo bem. Posso fazer outra pergunta pessoal? – um resmungo veio como resposta e Katsuya duvidou que ele ficaria acordado por muito mais tempo. Era notável o cansaço na face de Mikaru – Como está nossa relação agora? Nós ainda somos só amigos… namorados… um meio termo?

— É… acho que um meio termo define bem.

— O que falta para o próximo passo? Não fui totalmente perdoado?

— Foi, mas não é isso… Eu tenho medo… Acho que ainda não é a hora certa.

— Posso te fazer essa mesma pergunta daqui alguns dias? E de novo e de novo, até você ter certeza?

— Acha mesmo que vale a pena? O que você ganha comigo por perto? – Mikaru encarou-o curioso, somente um tipo de vantagem passando por sua mente.

— Não é questão de ganhar alguma coisa. Eu gosto de você, da sua companhia, dos nossos passeios e conversas. Ainda mais agora que estamos nos vendo mais. Não foi você quem disse antes que queria fazer do jeito certo? Isso quer dizer que você também acha que vale a pena tentar.

— Hm… ok. Me pergunte de novo no próximo fim de semana, quando formos no Miraikan.

— Miraikan? O museu? – Katsuya ergueu-se num pulo, encarando-o fixamente em busca de algum sinal que a informação fosse falsa – Nós vamos lá?

— Se você quiser ir comigo, sim. Eu tenho ingressos.

— Claro que eu quero! Eles tem um teatro lá!

— Eu sei, por isso estou te convidando.

Katsuya abriu um sorriso enorme, deitando sobre Mikaru e apertando-o num abraço. E daí que não tivessem voltado a namorar ainda? Mikaru estava sendo atencioso, conversam sobre qualquer coisa quando era necessário, ele não tinha mais receio de falar sobre a maioria de seus medos e muito menos evitava sua aproximação e seus toques. Estavam indo devagar, dando um passo de cada vez, mas ambos sabiam onde estavam pisando e que os riscos agora eram mínimos.

Seria uma questão de tempo até avançarem no relacionamento e voltarem ao ponto onde tudo tinha terminado, mas fariam do jeito certo. Já haviam deixado claro o que sentiam um pelo outro, se gostavam e queriam ficar próximos. Uma mudança no status de relacionamento não faria tudo melhorar. A confiança e entrega que estavam praticando dia após dia, sim.

Notas finais
* ‘garoto da torta de cheesecake’ e ‘amigo número em Tóquio vindo de Mie’ - apelidos que a Kika deu pras nossas crianças na história Confissões de um Vocal. Sobre a cena na cama de Mikaru e Katsu.... em nenhum momento comentei que estão nus. Não pensem besteira, não fizeram nada >3 Ou pensem... as ideias estão jogadas ai pra isso, pensem que fizeram as pazes ali *cof cof* Tema usado: Escreva sobre algo relaxante Vejo vocês na próxima! ;*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!