Utopia
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Os temas escolhidos para esse inicio foram: Sobre esperança e em uma tempestade.
Como são dois, capaz que use algum novamente em outro capítulo ou escolha algum bônus da minha lista.
No mais, chega de enrolação e boa leitura!
O telefone tocou instantes atrás, avisando que o amigo chegaria em breve. Não imaginou que ele enfrentaria o temporal, àquela hora da noite e de moto só para visitá-lo, até descobrir que ele já estava na rua antes e que sua casa era um porto seguro no meio do caminho para ficar até a chuva passar.
Encarou a criatura molhada em frente à sua porta, se apiedando do estado lamentável, estendendo-lhe um roupão e usando outra toalha para ajudá-lo a secar os cabelos.
— Onde precisou ir à essa hora pra arriscar sair nesse tempo? – Mikaru pegou as roupas molhadas, levando para a máquina de secar na lavanderia, sendo seguido de perto pelo amigo que tentava ajeitar as madeixas ruivas e úmidas que teimavam em grudar na face.
— Eu estava na casa do meu irmão. Passei a tarde lá e a chuva me pegou na saída.
— Não é que eu não goste de receber visitas suas, mas não era mais perto voltar pra lá?
— Bom… sim. – Takeo deu de ombros, coçando a nuca para tentar esconder o nervosismo, os olhos se fixando num ponto no chão para não ser obrigado a devolver o olhar do amigo.
— Aconteceu alguma coisa, não é?
— Eu não queria voltar pro apartamento. Precisava conversar com alguém. – confessou sem rodeios. Não precisava enrolar ou mentir para Mikaru. Se conheciam há muitos anos, eram bons amigos e, acima de tudo, sabiam que podiam confiar um no outro.
— Brigou com o namorado?
— Não. E por isso estou me sentindo mais desconfortável e culpado do que deveria, por conta dos pensamentos que andam rondando minha cabeça.
— Vamos conversar na sala, aí você me conta tudo. – Mikaru pegou-o pelo pulso e o levou até o outro cômodo, perguntando no caminho se ele queria uma bebida quente, mas a oferta foi dispensada.
O olhar perdido do amigo já explicava uma boa parte do problema: Takeo não sabia o que fazer. Fosse qual fosse o problema, ele se sentia desnorteado, ao ponto de não conseguir tomar uma decisão sozinho.
Assim que ele se acomodou no assento, Mikaru tomou seu lugar no braço do sofá, de modo a ficar um pouco mais alto, o suficiente para fazer cafuné ou puxá-lo para um abraço.
— Sabe quando tiram uma venda dos seus olhos? Quando alguma coisa que gostava ou queria muito perde o encanto? Foi o que aconteceu comigo. – Takeo contou com um suspiro desanimado – Eu dormi ao lado do homem que amava e acordei ao lado de um… um… Argh! São esses pensamentos que me incomodam!
— Pode me contar. Sabe que não vou falar pra ele. – talvez tenha sido o tom leve ou o carinho nos fios vermelhos, mas o rapaz pareceu relaxar.
— Ele anda tão… folgado! Levar café na cama deixou de ser um gesto romântico e passou a ser uma obrigação e motivação pra ele levantar. O pior é que posso contar nos dedos de uma mão as vezes que ele fez o mesmo por mim e somente em ocasiões especiais. Algumas delas eu tive que fingir que ainda dormia pra dar tempo dele preparar. Eu não receberia isso em troca se depender só dá vontade dele!
— Shiro, nada diz que você é obrigado a continuar. Pode parar quando quiser.
— Eu sei! Mas daí recebo indiretas, perguntando o que aconteceu ou o motivo de não ter levado. Só que não para por aí… eu comecei a reparar mais coisas. São detalhes idiotas mas que estão incomodando demais!
Mikaru ficou quieto um instante, apenas ouvindo o amigo despejar tudo que o incomodava, segurando uma vontade louca de rir a cada palavrão que o ouvia usar para se referir ao namorado.
— E só hoje percebeu isso? – Mikaru comentou por fim, quando o relato terminou – Eu venho te avisando que ele não presta faz alguns anos, mas me encaravam como o vilão.
— Acho que eu estava cego…
— Percebi. E o que pretende fazer agora?
— Nao sei… estou confuso… Também comecei a olhar ao redor e notar coisas que talvez não devesse. Coisas que não posso me envolver mais.
— Como o que?
— Como… como gostar de alguém que não está ao meu alcance…
— Tem certeza que não pode alcançar? – Mikaru revirou os olhos, indignado por estar servindo de ouvinte para um caso amoroso. Será que ele tinha a mínima noção de como se sentia?
— Nao seria justo tentar correr atrás.
— Por que não? Nunca vai saber se não tentar. E você é um homem bonito, divertido, esforçado. A pessoa teria que ser muito idiota para não olhar pra você.
— O problema é que eu não quero prejudicar ninguém. E como não tenho certeza do que estou sentindo, se é apenas um modo diferente de ver a pessoa ou se é um gosto pelo proibido, eu prefiro esperar e confirmar.
— Você não faria isso intencionalmente. Prejudicar alguém para se dar bem. Independente de qualquer coisa que já tenha feito, você é uma boa pessoa.
— E se eu dissesse que essa pessoa é você, Mikaru? Que alguma coisa em você está me chamando a atenção de novo? – Takeo encarou-o em expectativa, mas o sorriso que recebeu foi tranquilo, como se estivessem conversando amenidades.
— Sabe que eu largaria tudo por você, não é? Acho que já te falei isso uma vez. Sou capaz de qualquer coisa pra ter você comigo de novo, e se não invisto atualmente, foi porque você me pediu.
— Não devia falar essas coisas… você tem sua vida, uma pessoa que gosta e cuida de você, que está sempre ao seu lado…
— E é recíproco. Eu gosto dele, mas não é amor verdadeiro. Carinho, respeito, confiança, sim. Mas nunca acreditei cegamente que fosse amor e sempre estive pronto para o fim dessa relação.
— Depois eu que sou louco…
— Eu sempre fui por você. – Mikaru se inclinou sobre o amigo com extrema cautela, a mão pousando com delicadeza em sua face, temendo que ele fugisse, esperando ser empurrado a qualquer instante, mas o toque em seus lábios foi aceito.
* * *
Despertou com a claridade do sol passando através das cortinas e batendo em seus olhos, indicando que a chuva da noite anterior havia ficado para trás. Olhou para o outro lado da cama, franzindo o cenho ao encontrá-la vazia. Na verdade, a outra metade estava arrumada, como costumava ficar quando dormia sozinho. Será que ele havia arrumado antes de ir embora?
Sentou-se num sobressalto, olhando ao redor em busca de provas. O amigo estivera mesmo ali, não é? Eles dormiram juntos!
Levantou-se da cama e caminhou até o banheiro de sua suíte, encontrando apenas um roupão pendurado no suporte. Não havia sido tão relapso ao ponto de emprestar o seu para o amigo… No mínimo, deveria ter pegado um limpo! Insatisfeito, se dirigiu para a sala e depois a cozinha. Nada. Não havia nada molhado, úmido ou que sugerisse que alguém havia tomado chuva e passado por ali em seguida. As roupas não estavam na máquina e nem as chaves da moto na mesa de centro. Ele não havia aceitado a bebida, então não podia confiar na quantidade de xícaras expostas.
Voltou para a sala, se sentando no sofá, no mesmo lugar que Takeo havia ocupado, sorrindo incrédulo para as paredes. Não era possível que fosse apenas um sonho. Havia sido tão real! A conversa, a aproximação, o toque. As carícias começaram no sofá e depois foram para a cama juntos. Não era um delírio!
O que mais o surpreendia era aquele aperto no peito. Depois de tantos anos distantes, depois de tudo que aconteceu na vida de cada um, não era possível que aquele sentimento ainda estivesse vivo. Ambos estavam namorando e mesmo assim, ainda nutria sentimentos pelo amigo de infância? O quão idiota ele podia ser?
Fosse delírio ou não, deveria ser maduro o suficiente para saber que já tiveram o seu tempo e que ele não voltava atrás...
O celular! Mikaru ignorou os pensamentos e sentimentos confusos que o invadiam, quase correndo até o quarto e se jogando na cama, alcançando o aparelho no criado-mudo e conferindo as últimas ligações. Havia mesmo recebido uma ligação do namorado de Takeo, então o amigo havia passado ali, mas até que instante ficou? Tudo o que aconteceu…
Por que estava duvidando que fosse verdade? Talvez por ter sido bom demais, ao ponto de parecer um sonho? Ou por tudo que o amigo disse, sendo que antes ele defendia o namorado? Estava tendo sonhos assim agora? Tão reais ao ponto de não saber diferenciar da realidade? Ou realmente foi real?
Deixou o celular de lado, se virando no colchão e resmungando irritado. Não é como se fosse a primeira vez que tivesse sonhos daquele tipo, mas a sensação de proximidade e o toque do outro ainda pareciam tão vívidos. Olhou para o lado, puxando um dos travesseiros, apertando-o entre seus braços. Aquele cheiro… quase podia sorrir pela ironia. Era o perfume de Takeo, mas também o de Katsuya, que ele mesmo havia dado de presente. E agora não podia diferenciar de quem era o aroma presente em sua cama.
Negou com um aceno, decidido a deixar aquilo de lado. Se tinha uma dúvida, o melhor a fazer era perguntar direto à fonte. Não tinha receio de abordar o amigo para falar daquele tipo de assunto. Se fosse um sonho, Takeo iria implicar com ele e depois contaria o que realmente aconteceu durante a visita. Contudo, se fosse real, talvez não precisasse sufocar mais uma vez aqueles sentimentos. Não se houvesse uma chance, mesmo que ínfima, de ser correspondido.
Notas finais
Não me responsabilizo por nada, já aviso. A ideia pra história veio do Mikaru mesmo! -q
A quem chegou até aqui, olá antigos leitores/as e fãs dos personagens e bem-vindos ao novatos! Espero que tenham gostado e até o próximo!
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